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   DIRETÓRIO Principal -> Resumos de livros -> (documento)
AMAR, VERBO INTRANSITIVO
(Mário de Andrade )

      Pelo professor Delson Gonçalves Ferreira

      OUTROS ESTUDOS E RESUMOS DE LIVROS

      BIOGRAFIA

      1893 – 09 de outubro – Nascimento de Mário Raul Morais de Andrade, em S. Paulo, capital.

      “São Paulo o viu primeiro.

      Foi em 93.

      Na rua da Aurora nasci.

      1917 – Com o pseudônimo de Mário Sobral publica Há uma Gota de Sangue em Cada Poema: versos de forma parnasiana, impregnados do clima de guerra. Era ainda aluno do “Conservatório Dramático e Musical”. Por que teria usado um pseudônimo? “Mário era um grande tímido, um rematado caipira. Tinha vergonha de aparecer em público, aí está.” (Francisco de Assis Barbosa – Retratos de Família – Liv. José Olympio Ed. – Rio – 1968 – Resposta do Dr. Carlos de Morais Andrade, irmão de Mário).

      1921 – Oswald de Andrade publica Meu Poeta Futurista sobre o poeta Mário de Andrade.

      1922 – Leciona História da Música no Conservatório. Paulicéia Desvairada é, verdadeiramente, sua estréia, como modernista. O “Prefácio Interessantíssimo”, do livro, é um manifesto-síntese de suas idéias e teorias poéticas. Cria o desvairismo.

      São Paulo! Comoção de minha vida...

      Galicismo a berrar nos desertos da América!

      - Em fevereiro (13, 15 e 17), a Semana de Arte Moderna, marco inicial do modernismo brasileiro. “a maior revolução cultural brasileira de todos os tempos”. (Joaquim Inojosa – Os Andrades e Outros Aspectos do Modernismo – Civilização Brasileira – 1975).

      Mário de Andrade é um dos participantes mais significativos. Foi chamado de “papa do modernismo brasileiro”.

      1925 – A Escrava que não é Isaura: ensaio de teoria poética, baseado nas suas novas idéias modernistas. O autor deu-lhe este subtítulo: Discurso sobre algumas tendências da poesia modernista.

      1926 – Primeiro Andar – Contos.

      Losango Cáqui (poesia) que ele próprio definiu como “sensações, idéias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas”.

      1927 – Amar, Verbo Intransitivo, que o autor chama de Idílio. O nome primitivo era Fräulein (alemão: senhorita). “O livro se chamava Fräulein de primeiro; “mudei o título por causa de errarem a palavra na pronúncia”. (Mário de Andrade a Tristão de Ataíde – 71 Cartas – Liv. S. José – pág. 20). O livro mostra claras influências de Freud, lido em edições francesas, que Mário tinha em sua biblioteca.

      Mário, quando da composição deste romance, conhecia apenas “Totem et Tabou” (Telê Porto Ancona Lopez – Mário de Andrade: Ramais e Caminhos – Liv. Duas Cidades. – S. Paulo – 1972 – pág. 107). Mas, em sua biblioteca, havia vários volumes de Freud, em francês, em edições de 1922, 1923 e 1925, portanto anteriores à edição de Amar, Verbo Intransitivo.

      Nesse ano saiu também o Clã de Jabuti (poesia): é “outra visibilíssima busca de Brasil e de fusão brasileira”. (Carta a Sousa da Silveira – in Cartas, Cartas – Colig por Lygia Fernandes – 1968 – pág. 165).

      1928 – Macunaíma – rapsódia: é o ponto máximo das grandes tentativas de Mário de Andrade para escrever, brasileiramente, um romance. Ao lado da linguagem, fusão de tantos linguajares brasileiros, colhidos aqui e ali, está também, em sincretismo, um punhado de lendas e estórias de variadas procedências nacionais. Macunaíma é um brasileiro que busca ainda a sua personalidade: ele está se formando, é “um herói sem nenhum caráter”.

      1929 – O original Compêndio de História da Música.

      1930 – Remate de Males (poesia) – a busca de uma poesia mais interior, mas profunda, abandonando o mundo exterior.

      - Modinhas Imperiais – pesquisas musicais, letras de músicas.

      1932 – Inimigo da ditadura getulista, participou, otimista e sonhador, da Revolução Paulista. Na sua carta-testamento (22-3-1944) não esqueceu de legar as suas lembranças da Revolução.

      Toda a minha iconografia, jornais e quaisquer documentos da Revolução Paulista de 1932 será entregue ao Instituto Histórico de São Paulo.

      Só se tirarão da coleção a bandeira de São Paulo em brilhantes e o anel de esmalte com as armas de São Paulo, que estão no armário e exposição de Santos. A (bandeira) fica com Mamãe, o anel será para o Carlos Augusto.

      (Oneyda Alvarenga – Mário de Andrade, um pouco – Liv. José Olympio – Ed. – Rio – 1974 – pág. 33).

      1933 – Música, Doce Música.

      1934 – Segundo volume de contos: Belazarte, com um dos seus mais belos contos:“Piá não sofrer?

      1935 – Mário de Andrade não é apenas um homem de letras, mas também de ação: funda o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo e organiza sua Discoteca Pública. Promove o 1º Congresso de Língua Nacional Cantada. Publica o interessante ensaio: O Aleijadinho e Álvares de Azevedo.

      1938 – Diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal e professor de Filosofia e História de Arte. Organiza, no Instituto Nacional do Livro, o anteprojeto do qual nasceria o S.P.H.A.N. Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

      1939 – Namoros com a Medicina: pesquisas folclóricas.

      1942 – Sai sua importante conferência O Movimento Modernista. É um balanço do movimento da Semana da Arte Moderna, uma crítica e auto-crítica, talvez um pouco severa. Documento indispensável na interpretação e julgamento do nosso modernismo.

      “O movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional”.

      “O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros”.

      “... Osvaldo de Andrade, a meu ver é a figura mais característica e dinâmica do movimento”.

      “O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs, é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência nacional”. (In Aspectos da Literatura Brasileira – Mário de Andrade – passim).

      O Brasil entra na guerra conta o Eixo.

      1943 – Baile das Quatro Artes – ensaios.

      Aspectos da Literatura Brasileira – crítica literária.

      Os Filhos da Candinha – Crônicas.

      1944 – Tropas brasileiras entram em ação, na Itália.

      1945 – Faz planos para o ano. Em 15 de fevereiro escreve para Paulo Duarte: “Eu tenho apenas um medo vago, mas nitidíssimo de que alguma coisa vá morrer...” (Mário de Andrade por ele Mesmo – Edart – 1971 – pág. 282).

      QUANDO EU MORRER QUERO FICAR,

      NÃO CONTEM AOS MEUS INIMIGOS,

      SEPULTADO NA MINHA CIDADE,

      SAUDADE...

      - Em maio, os alemães capitulam na Itália; em agosto, a primeira bomba atômica arrasa o Japão; em outubro começa o grande juízo universal de Nuremberg: Os vencedores julgam os vencidos...

      Mário de Andrade foi um homem e um intelectual autêntico. Ele colocava o coração acima da inteligência. O coração dos homens sempre foi mais belo do que a inteligência dos homens. (Cartas a Manuel Bandeira – Ed. De Ouro – Rio – 1966 – pág. 162)

      BIBLIOGRAFIA SOBRE O AUTOR

      1. Mário de Andrade – Nelly Novaes Coelho – Ed. Saraiva – S. Paulo – 1970

      2. Mário de Andrade: Ramais e Caminhos – Telê Porto Ancona Lopez – Liv. Duas Cidades – S. Paulo – 1972.

      3. Uma Difícil conjugação – Telê Porto Ancona Lopez – in Amar, Verbo Intransitivo – Ed. Itatiaia Limitada – Belo Horizonte – 12ª ed. 1986

      4. Mário de Andrade – Poesia – Dantas Mota – Agir – Rio

      5. Mário de Andrade – Ficção – M. Cavalcanti Proença – Agir – Rio – 1967

      6. Lição de Mário de Andrade – Ledo Ivo – M. E. C. – 1954

      7. Manuel Bandeira – Poesia e Prosa – Ed. Aguilar – 1958 – vol. II.

      ENREDO

      Souza Costa (Felisberto...), homem burguês, bem posto na vida, contrata uma governanta alemã, de 35 anos, para a educação do filho (Carlos), principalmente para a sua educação sexual.

      NÃO ME AGRADARIA SER TOMADA POR AVENTUREIRA, SOU SÉRIA, E TENHO 35 ANOS, SENHOR. CERTAMENTE NÃO IREI SE SUA ESPOSA NÃO SOUBER O QUE VOU FAZER LÁ.

      Elza é o nome da moça. Mas vai ficar conhecida e será chamada sempre pela palavra alemã Fräulein (= senhorita). Chegou à mansão de Souza Costa, numa terça-feira. (Ganharia algum dinheiro... Voltaria para a Alemanha... Se casaria com um moço “comprido, magro”, muito alvo, quase transparente”...)

      A família era formada pelo pai, por D. Laura, o rapazinho Carlos e as meninas: Maria Luísa, com 12 anos; Laurita com 7 e Aldinha com 5. Havia também na casa um criado japonês: Tanaka. A criançada toda começou logo aprendendo alemão e chamando a governanta de Fräulein. Carlos não está muito para o estudo. Fräulein logo se ajeitou na família, uma família “imóvel mas feliz”. Mas o papel principal da governanta é ensinar o “amor”.

      É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Ela crê que sim. E o rapazinho aprendeu logo as lições. “O caso evolucionava com rapidez”. “Agora? Vive na saia da Fräulein”. D. Laura percebe as intimidades do filho com a governanta. Souza Costa não lhe dissera nada sobre os trabalhos dela com relação ao filho. Fräulein vai embora? Fica? O marido convence a mulher da necessidade de preservar o filho das explorações e das doenças das mulheres da vida. Precisava ser educado sexualmente e eugenicamente. O tempo ia passando. “Carlos estava homem.” A governanta agora é a sua eficiente professora de sexo: teoria e, principalmente, prática. “Professora de amor... porém não nascera pra isso, sabia. As circunstâncias é que tinham feito dela a professora de amor, se adaptara...”. A narrativa se prolonga com uma ocasional viagem ao Rio: Maria Luísa esteve doente e o médico lhe recomendou um outro clima. No passeio à Tijuca, Fräulein se entrega à contemplação da natureza, com uma alma cheia de encantamentos... E de amor. A viagem de volta é um dos momentos mais vivos e interessantes da narrativa: as peripécias no trem da Central e o lado humorístico de Laurita lendo os nomes das estações, em cada parada. A mãe perguntou o nome de uma estação. E Laurita, silabando: “É... é Mi... Miquitório! Mamãe! É Miquitório!” Foi um desapontamento geral da família. E o pai falou: “- Não é Mictório não, minha filhinha... É Taubaté”. “Na volta do Rio recomeçaram os encontros noturnos, que bom!” Mas o curso de amor terminou. Fräulein tinha que ir embora. Para ensinar a outros alunos. “Cumpriu a missão dela, o que sabia ensinou”. Para despedi-la, Souza Costa cria um drama junto do filho: ele poderia ser obrigado a casar... Podia nascer um filho... Um filho! Fräulein vai embora. Segue para Santos. Ou para Campinas. Despedidas. Lá se vai a nossa Fräulein. Esta muito calma. E o idílio acaba aqui. O livro está acabando. Lá se foi Fräulein. Mais alguns trabalhos “profissionais” e poderia se aposentar... Com os oito contos e alguns sonhos... Casamento. “O moço magro, pálido.” E Carlos? Solitário, sem quere nada com a vida. Sair? Ir ao Teatro? Sai no meio da peça. Fazer o quê? Suicídio? A vida vai, volta, vai-e-vem. O mundo é assim mesmo. Há tantas mulheres pelas ruas de S. Paulo. Como Fräulein. A narrativa ainda se espicha um pouco com um flash. Fräulein já tem um novo aluno: Luís. Estão num corso de carnaval. Uma serpentina que ela atira bate em Carlos. Carlos olha e continua brincando com a holandesa. Carlos continua um machucador. O mundo é tal como é. A gente deve aceitar sem revolta. Carlos casará rico. Perfeitamente. Ela era mãe de amor. Estava até bonita. Mãe de amor! Mãe...

      PERSONAGENS

      Comecemos pela família: “Mário de Andrade conhece de ciência própria os diálogos familiares, as tolices e frioleiras infantis e a gravidade, cheia de bobagens, da família burguesa”. (João Ribeiro – Crítica – e. c. pág. 79).

      Uma família tranqüila, sem problemas econômico-financeiros, muito bem situada na avenida Higienópolis, em São Paulo, um São Paulo da primeira metade do século, contemporânea do autor. O pai é Felisberto Sousa Costa, possivelmente um doutor em qualquer coisa, mania muito comum e que Eça de Queiróz criticou numa saborosa carta a Eduardo Prado: todo mundo é doutor, todo mundo tem a mania do diploma e do anel do dedo. (Correspondência de Marques Mendes – Lello e Irmão Edit. – Porto – 1952 – pág. 235) É o centro, não afetivo, mas administrativo da casa em que mantém, mais ou menos, o regime patriarcalista. D. Laura, como devia, sempre obedece. É uma senhora bem composta, acomodada, burguesa. Uma senhora da sociedade e que mantém todas as aparências de seriedade religiosa e familiar. Concorda com os argumentos tão convincentes... do marido, na educação do único filho-homem. O filho-homem é Carlos, uma espécie de “enfant gaté” (um ai Jesus, um queridinho da família, porque único) e que, certamente, deverá ser o principal herdeiro do nome, da fortuna e das realizações paternas. Como era costume, possivelmente, deveria ser a projeção do pai, a sua continuação. Centraliza a narrativa, é personagem do pequeno drama amoroso do livro, ao lado de Fräulein, a governanta alemã, Elza. Tão importante que ela dava nome ao romance. As personagens do livro são, em geral, fabricadas, artificiais, sem muita vida ou substância humana. Ela é a mais humana e real, mais de carne e osso. Talvez arrancada da vida. Como é Fräulein? “Se este livro conta 51 leitores sucede que neste lugar da leitura já existem 51 Elzas. É bem desagradável, mas logo depois da primeira cena, cada um tinha a Fräulein dele na imaginação...” “O leitor continuará com a dele. Apenas por curiosidade, vamos cotejá-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35 anos atuais janeiros”. (pág. 21 e 22). Um retrato: “Não é clássico nem perfeito o corpo da minha Fräulein. Pouco maior que a média dos corpos de mulher. E cheio nas sua suas partes. Isso o torna pesado e bastante sensual. “Fräulein não é bonita não. Porém traços muito regulares, coloridos de cor real. E agora que se veste, a gente pode olhar com mais franqueza isso que fica de fora e ao mundo pertence, agrada, não agrada? Não se pinta, quase nem usa pó-de-arroz. A pele estica, discretamente polida com os arrancos de carne sã...” O que mais atrai nela são os beiços, curtos, bastante largos, sempre encarnados... “Olhos castanhos, pouco fundos...” Que cabelos mudáveis! Ora louros, ora sombrios, dum pardo e foto interior... “Aparece com uma grande simplicidade instintiva diante da natureza. No passeio à Tijuca se mostra uma alma vegetal, embevecida diante da paisagem. Ela é uma governanta, mas principalmente uma professora de amor. E vive muito bem o seu papel. Vende, os alemães sabem vender tudo muito bem, o amor por oito contos, um bom pecúlio para, depois, voltar para a Alemanha, casar-se e arranjar sua vida. Está sempre com a idéia fixa de um moço comprido, magro... o seu príncipe encantado. Ela, sem muito interesse, cuida também da educação ou instrução das meninas: principalmente para ensinar alemão e piano. São três meninas que, apenas, completam a família burguesa. (Hoje seriam só dois filhos; se possível, um menino e uma menina...) São três meninas que brincam de casinha. Maria Luísa tem 12 anos. (Carlos tinha 15 para 16). Ela vai ser o centro de uma narrativa dentro do romance: a sua doença e a viagem ao Rio de Janeiro, para um clima mais saudável em oposição ao frio paulistano. Laurita tem 7 anos e Aldina, 5. Os personagens de Amar, Verbo Intransitivo são “bem parecidos, e socialmente domesticados” (Olívio Montenegro – O Romance Brasileiro – Liv. José Olympio Edit. – Rio – 2ª ed. 1953 – pág. 214). Para ver, praticamente, todos os personagens em ação, com certa espontaneidade, o melhor momento é a volta de trem, depois daquela viagem ao Rio de Janeiro. Um dos momentos narrativos mais interessantes em todo o romance. Mas a ação principal está em Fräulein: seu domínio sexual, com imperturbável serenidade bem alemã, contrasta com a espontaneidade sexual, com a impetuosidade bem brasileira (ou latina, ou tropical?) do excelente aluno (em sexo), Carlos.

      O narrador gosta de ver os seus personagens. É um espectador pirandeliano que acompanha suas criaturas. “Que mentira, meu Deus!! Dizerem Fräulein, personagem inventado por mim e por mim construído! Não constrói coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse...” (60). E continua a sua pequena teoria o personagem. “São os personagens que escolhem os seus autores e não estes que constroem as suas heroínas. Virgulam-nas apenas, pra que os homens possam ter delas conhecimento suficiente...” (61). Pirandello, o dramaturgo italiano, escreveu uma peça: Seis Personagens à Procura de Autor.

      TÉCNICAS NARRATIVAS

      1. Vamos começar pelo ponto-de-vista do narrador: a narrativa é feita na terceira pessoa, por um narrador que não faz parte do romance.

      “A porta do quarto se abriu e eles saíram no corredor. Calçando as luvas Sousa Costa largou por despedida:

      - Está frio.” (7)

      É o narrador tradicional, um narrador onisciente (sabe de tudo) e onipresente (não perde uma). Mas há ainda um outro ponto-de-vista: o autor se coloca dentro do livro para fazer suas numerosas observações marginais. Para comentar, criticar, expor idéias, concordar ou discordar... É uma velha mania do romance tradicional. E os comentários são feitos na primeira pessoa.

      “Isto não sei se é bem se é mal, mas a culpa é toda de Elza. Isto sei e afirmo...” (14)

      “Volto a afirmar que o meu livro tem 50 leitores. Comigo 51.” (21)

      “É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Ela crê que sim. (37)

      2. A narrativa corre sem divisões de capítulos. Mário de Andrade usa as formas conhecidas de discurso. É mais freqüente o discurso direto, nos diálogos:

      “- Mamãe, será que está doendo muito pra ela?

      - Não! Minha filha...

      - Eu não queria que Maria Luísa sofresse, mamãe...

      - Mamãe! Posso dar a minha boneca de celulóide pra Maria Luísa, posso!” (121)

      Algumas vezes, o discurso indireto:

      “Se entusiasmara, lindíssimo. Decorava-a. E falou pro pai que estava com vontade de aprender piano também”. (30)

      “Sousa Costa foi pra cama. Ele bem tinha falado que o menino havia de fazer um barulhão” (163)

      Também o discurso indireto livre:

      “A segunda estrofe não entendo nada. Vertraust... que que é vertraust!” (52)

      “Carlos, refugando sempre, enjoado, desembuxa tudo afinal... E uma vez só, uma vez só. Fräulein te juro... nem tive prazer... e levado por companheiros... se soubesse que você vinha...” (103)

      “A gente se levanta. Pé por pé. Chega na porta de Fräulein. Tantam... Dormia, Fräulein? Estou sem sono, vim pra cá.” (153)

      3. A Narrativa segue, de modo geral, uma linha linear: princípio, meio e fim. Começa com a chegada de Fräulein, se estende em episódios e incidentes, acaba com a saída de Fräulein. Quando termina o idílio, o autor escreve “Fim” e, depois, ainda narra um pequeno episódio: um encontro de longe entre Carlos e Fräulein, num corso de carnaval. Freqüentemente a narrativa fica retardada pelos comentários marginais do autor: algumas vezes exposição... de tese.

      4. Apesar de certos alongamentos nesses comentários marginais, o autor escreve com rapidez, dinamicamente, em frases e palavras com jeito cinematográfico. Mário de Andrade usa uma linguagem sincopada, cheia de elipses que obrigam o leitor a ligar e completar os pensamentos. Em vez de dizer e de explicar tudo, apenas sugere em frases curtas, mínimas.

      5. A pontuação da frase é muito liberal. Conscientemente liberal. O ritmo de leitura depende muito da capacidade de cada leitor. Abandona a pontuação quando as frases se amontoam, acavalando-se umas sobre as outras, polifônicas, simultâneas, fugindo das regrinhas escolares de pontos e vírgulas. É preciso lembrar que Mário de Andrade é sempre um experimentador em busca de soluções novas para a linguagem. Para alcançar ou tentar suas inovações ele trabalhou suadamente: fazia e refazia suas redações em versões diferentes. Assim em Amar, Verbo Intransitivo e mais ainda em Macunaíma. Sobre Fräulein: “Agora primeiro vou deixar o livro descansar uma semana ou mais sem pegar nele, depois principiarei a corrigir e a escrever o livro na forma definitiva. Definitiva? Não posso garantir nada, não. Fräulein teve quatro redações diferentes!” (Carta a Manuel Bandeira – o.c. pág. 184). Por isso, pela seriedade com que tratava a coisa literária, por essa consciência profissional é que Mário sofria muito quando sua obra não tinha ressonância nem compreensão. É o caso concreto de Amar, Verbo Intransitivo e de sua queixa a Manuel Bandeira:

      “A publicação dum livro da importância capital que nem o Amar, Verbo Intransitivo, quem me percebeu essa importância? Importância pra mim e quero falar. Quem me percebeu?...”

      (o. c. pág. 208)

      ASPECTOS SOCIAIS

      1) O problema central do romance é a educação sexual de um rapaz de família burguesa, em São Paulo. As meninas ficam relegadas a um segundo plano. Carlos é mais importante. Não pode ficar sujeito à ganância e às doenças das mulheres da vida. Como resolver o problema? Contrata-se Fräulein, professor de... sexo. É mais uma estrangeira que entra para a casa brasileira, onde o copeiro é italiano fascista, a arrumadeira é belga ou suíça, o encerador é polaco ou russo. Na casa de Souza Costa o empregado é japonês e a governanta é alemã. Só as cozinheiras que ainda são mulatas ou cafusas. (92 e 93).

      2) Há uma referência ao racismo alemão: “quedê raça mais forte? Nenhuma... O nobre destino do homem é se conservar sadio e procurar esposa prodigiosamente sadia. De raça superior, como ela, Fräulein. Os negros são de raça inferior. Os índios também. Os portugueses também.” São as idéias de Fräulein, principalmente depois que leu um trabalho de Reimer, onde se afirmava a inferioridade da raça latina. (33)

      3) A família burguesa é patriarcalista: o centro de tudo é o homem, o pai e o filho, Carlos. Todos têm que obedecer ao pater-familias. A começar de D. Laura que se submete, se adapta, aceita as idéias do marido, se conforma com a presença da Fräulein como professora de sexo do filho. E a família vai continuar patriarcalista porque já estão centralizando todas as atenções no filho varão...

      4) Nessa família existe também uma religião, certamente velha tradição dos ancestrais. Uma religião de domingo e de tempos de doença... Para que a filha, Maria Luísa, sare, Sousa Costa aceita fazer todos os sacrifícios. Deixará até algumas aventuras fora de casa... “Ora deixemos de imoralidades! Sousa Costa nunca teve aventuras, nunca mais terá aventuras, todos os sacrifícios, porém que minha filha sare!... Sousa Costa pensa em Deus.” (120)

      5) Carlos é bem o retrato ou exemplo da nossa sexualidade latina ou brasileira. Com todas as suas minúcias e permissões. Fräulein não compreende bem o amor latino. No amor “o alemão fica. Ponto final. O latino ondula. Reticência”. (152) Para manter a sexualidade de Carlos e a pureza de sua saúde é que Fräulein foi contratada. Carlos precisava de mulher dentro de casa...

      6) Tudo passa e muda. A família burguesa, bem composta, bem construída, mantém sua estabilidade. “Um família imóvel, mas feliz.” “A gente vê uma casa... Paz. A casa dorme em silêncio.” (171)

      CONCLUSÕES

      1) Não se deve considerar Amar, Verbo Intransitivo como uma obra acabada, mas uma tentativa. Do mesmo modo como Macunaíma. Mário de Andrade foi, a vida inteira, um experimentador. Está sempre entregue à pesquisa. Sua obra tinha que ser “um exemplo e não uma criação”. Vale mais pelas intenções renovadoras do que pela realização.

      2) 1922 a 1930 é a fase mais destrutiva do movimento modernista brasileiro: era preciso limpar o terreno para, depois, construir. O romance faz parte desse momento. Todo movimento renovador força certos aspectos exatamente para reagir ao que está combatendo. Exageração de técnicas, de originalidades, de linguagem, de construções... No livro, um dos exageros mais evidentes, é a mania do autor de teorizar: como se estivesse defendendo uma tese, baseada, principalmente, em leituras de Freud. “O sr. Mário de Andrade tomou uma digestão de Freud. E encheu o seu idílio do bom e do mau freudismo, embora declare que o tenha feito mais por sátira que por convicção. Há no final, sobretudo, depois da história oficialmente acabada, algumas páginas intoleráveis de sub-freudismo delirante que ele não seria capaz de subscrever hoje em dia.” (Tristão de Ataíde – Estudos – Ed. De Terra de Sol – Rio – 2ª série – 1928 – pág. 33) A comparação entre o alemão e o brasileiro também vai longe, em algumas páginas de teorização e não de romance.” O alemão fica. Ponto final. O latino ondula. Reticência.” (152) O alemão é seco, frio, racional. O brasileiro é úmido...

      3) Continuando o tópico anterior: o livro tem excessos de comentários marginais feitos pelo autor, em primeira pessoa. Excesso de intelectualismo. Saiu um romance seco, descarnado, sem sentimentos, sem elementos romanescos. E, no fim, idéias, teorias, críticas, gozações, problemas... devoram o romance. E ele vira tese. Vira um romance de tese. Ou deixa de ser romance, pura e simplesmente.

      4) Afinal, o que é Amar, Verbo Intransitivo? “Creio que Fräulein irá junto. Acabo de o copiar. É uma pesquisa. É uma maluquice? Gosto muito de minha Fräulein. Se sou humorista o livro é o mais que posso dar de humorismo comentador. Mas tenho medo de estar errado. O livro é uma mistura incrível. Tem tudo lá dentro. Crítica, teoria, psicologia, e até romance: sou eu. E eu pesquisador...” (Carta a Manuel Bandeira – 10/10/1924 – Ed. De Ouro – 1966 – pág. 76).

      5) Amar, Verto Intransitivo, assim como Macunaíma, é um trabalho de pesquisa, de busca. É uma tentativa séria a que Mário de Andrade se entregou, como fazia sempre, consciente e generosamente. Mas será que este romance satisfez ao autor?

      “Estou com os dedos cheios de sonho”, escrevia ele à Paulo Magalhães, em agosto de 1983. Não só os dedos, viveu sempre com a cabeça cheia de sonhos. Um deles foi Fräulein, romance ou novela que andou arrastado por anos a fio. Em 1923, comunicava ele à Sérgio Milliet, numa carta enviada para Paris: “Atualmente escrevo Fräulein, romance. É possível que fique no meio, como todas as empreitadas que tomo.” Fräulein é Amar, Verto Intransitivo, terminado às pressas para fins de publicação, mas não é um romance que ele desejava”. (Paulo Duarte – Mário de Andrade por ele mesmo – Edart – S. Paulo – 1971 – pág. 44).

      ESTILO DA ÉPOCA

      Há numerosos aspectos em Amar, Verbo Intransitivo que o caracterizam como modernista. Um romance modernista (Mário de Andrade o chamou simplesmente de idílio) da primeira frase (1922 – 1930), impregnado de um espírito de destruição até ao exagero. O espírito da “Semana de Arte Moderna”: destruir para construir tudo de novo. A mola real de toda a obra do autor é a pesquisa, a busca.

      “Vida que não seja consagrada a procurar não vale a pena de ser vivida”. (Platão – citado como epígrafe em seu livro A Escrava que não é Isaura). Em tudo o que fez, das cartas aos romances e contos, dos ensaios aos poemas, deixou sempre uma marca pessoal de originalidade, de agudeza e sensibilidade. E de brasilidade: pensar brasileiro e escrever brasileiro.

      Vamos exemplificar algumas notas modernistas do romance:

      1) Com seu espírito inovador, Mário de Andrade nunca se prendeu aos rigorismos dos gêneros literários. Ficou muito conhecida sua definição de conto. O que é conto? Em verdade sempre será conto. (O Empalhador de Passarinho – Martins – pág. 6). Chamou Macunaíma de rapsódia e Amar, Verbo Intransitivo de Idílio. A palavra idílio, no caso, deve relacionar-se com o amor entre Carlos e Fräulein. E assim não deu maior importância a uma classificação mais rigorosa e tradicional da obra. “Em 1927 publica o romance Amar, Verto Intransitivo, que denomina “Idílio”, e onde demonstra a sua concepção anti-convencional desse gênero literário. E se não alcançou a categoria de um grande romance, deu-nos contudo algumas páginas de saborosa composição, bem específicas do seu estilo e dos seus propósitos.” (Maria de Lourdes Teixeira – Esfinges de Papel – Martins – pág. 211).

      2) O livro reflete claramente influências de leituras de Freud, cuja primeira grande obra apareceu em 1900: A interpretação dos Sonhos. Também Macunaíma apresenta aspectos de interpretações freudianas. O Stream of Consciousness (fluxo de consciência) tem suas raízes também nos estudos do mestre alemão. O romance usa desse recurso, como, por exemplo, naquele monólogo interior da Fräulein que recorre obsessivamente, quando ela pensa no moço magro...

      “Quando pronta, esperou imaginando, encostada no lavatório. Ganhava mais oito contos... Se o estado da Alemanha melhorasse, mais um ou dois serviços e podia partir. E a casinha sossegada... Rendimento certo, casava... O vulto ideal, esculpido com o pensamento de anos, atravessou devagarinho a memória dela. Comprido, magro... Apenas curvado pelo prolongamento dos estudos... Científicos. Muito alvo, quase transparente... E a mancha irregular do sangue nas maçãs... Óculos sem aro...” (pág. 10) O que se repete semelhantemente no final da narrativa. (pág. 181) Aquela tosse do moço comprido, magro era a sua presença física, a garantia da sua realidade. Tudo isso flui, aos borbotões, do íntimo, da consciência ou memória de Fräulein.

      3) Uso da linguagem coloquial que os nossos modernistas valorizaram e estilizaram, quebrando os tabus de uma gramática velha e portuguesa. A essa linguagem coloquial pertence tudo que encontramos no uso comum da língua, quer no vocabulário, quer no campo morfo-sintático. Aquilo de que falava Manuel Bandeira, na “Evocação do Recife”:

      “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

      vinha da boca do povo na língua errada do povo

      língua certa do povo

      Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil.”

      As ousadias de linguagem aumentarão muito mais em Macunaíma; mas começam aqui. É a intenção que sempre teve Mário de Andrade em “escrever brasileiro”. Mário “inventou uma língua saborosa, composta de todos os erros de português recolhidos na capital paulista, originários do cabloco vindo do interior, do negro fugido das fazendas, do italiano mal assimilado, e com todos eles escreveu um livro extraordinário, Macunaíma. (O Brasil, Terra de Contrastes – Roger Bastide – pág. 202). Amar, Verbo Intransitivo começa a empreitada. Adolfo Casais Monteiro entendeu e defendeu a posição de Mário de Andrade: “Não quero deixar de acentuar, como escritor português, que a transfiguração operada por Mário de Andrade na linguagem do escritor brasileiro, se pode irritar os gramáticos da minha terra, foi perfeitamente compreendida pelos portugueses que estavam em condições de reconhecer ao escritor brasileiro não só o direito, mas a necessidade de um instrumento de comunicação”. (O Romance – Liv. José Olympio Edit. Pág. 190.). Para criar esse instrumento de comunicação, Mário de Andrade, com ciência e consciência, vai quebrando as velhas formas (ô) da gramática tradicional. Exemplifiquemos:

      1) Uso mais comum de ter por haver:

      “O desembaraço era premeditado, não tem dúvida...”

      “Não tem tantas mulheres sem perigo por aí...”

      2) Uso sistemático de pra (s), pro (s):

      “D. Laura usava uma cruz de brilhantes que o marido dera pra ela...”

      “O criado viria chamá-la pro almoço”.

      3) Uso do pronome de caso reto como sujeito do infinitivo.

      “Elza viu ele descer”.

      “Fez ela entrar na biblioteca”.

      4) Uso do pronome de caso reto como objeto direto:

      “De repente Laurita pensou nítido que papai pegasse ela acordada...”

      “Fräulein preparam ele”.

      5) A próclise no início do período:

      “Se ria envergonhada”.

      “Lhe deu um olhar de confiança”.

      6) A ênclise, apesar da presença de palavras consideradas de atração:

      “Não culpe-se por ela...”

      “Carlos já senta-se e cruza as penas”.

      7) O uso do pronome oblíquo, solto, entre dois verbos:

      “Dona Laura mandava lhes ensinar...”

      “Ia me esquecendo”.

      8) Verbos de movimento com a preposição em:

      “Depois do almoço as crianças forma na matinê...”

      “Isto é: vir na casa de Sousa Costa”.

      9) Duplicação da negativa não:

      “Fräulein não é bonita não”.

      “Não vai morrer não”.

      10) Uso freqüente das duas adversativas mas – porém:

      “Mas porém era filósofo brasileiro.”

      “Mas porém deverá parolar...”

      11) Que nem = como:

      “Que nem das outras vezes...”

      “Carlos, zum, que nem bala...”

      12) A interrogativa popular que – dê = quedê:

      “Quedê os elfos da floresta negra?

      “Quedê ele hein!”

      13) A flexão do advérbio meio:

      “Meia dormindo, se ajeitando”.

      “Meia encabulada...”

      14) Uso de formas populares como milhor, milhorar, chacra e xicra; murmulho; mais piores..

      15) Aproveitamento de vocabulário, misto de regionalismo, indianismo ou africanismo; criação de neologismos:

      “Abraços, forrobó festivo...”

      “Criou coragem, mas encabulou, encafifado”.

      “D. Laura ficava ali, mazonza”.

      “Morto em vida e de morte chué”.

      “D. Laura teve uma tontona”.

      “Porção de bocagens”.

      “Ininteligente. Sarambé.”

      E como neologismos, estas formas de reduplicação verbal: fogefugia; queimaqueimados; chorachorando; brincabrincando.

      ESTILO INDIVIDUAL

      Mário de Andrade impôs, a todas as tentativas renovadoras do modernismo brasileiro, as suas marcas pessoais, até nas exagerações. Seu estilo é inconfundível. Suas posições coerentes para compor sua Weltanchauug” (= visão do mundo). Vamos exemplificar dentro do romance em estudo:

      1) O gosto, às vezes mau gosto, pela frase curtinha, picada, gaguejante. Uma frase telegráfica, cheia de elipses mentais que cansam o leitor e exigem dele uma redobrada atenção para o seu entendimento. Isso já observara João Ribeiro, numa das primeiras críticas sobre o livro:

      “Mas a leitura cansa pelas elipses mentais consecutivas e simultâneas”. (Crítica – Os Modernos – pág. 78). Às vezes a frase é formada de uma palavra só. Muitas vezes a frase é nominal.

      “As crianças lhe chamariam sempre de Fräulein. Fräulein queria dizer moça? Qual moça nem virgem. Fräulein era Elza. Elza era a governanta. Professora.”

      “Estavam todos por ali amando. Felizes. Habilíssimos. Familiares. Ela era mãe de amor. Estava até bonita. Mãe de amor. Mãe.”

      2) A narrativa de Amar, Verbo Intransitivo não se divide em capítulos com seus respectivos títulos, mas corre quase ininterruptamente, aproximando-se da narrativa de Joyce em Ulisses. Muito mais tarde fará do mesmo modo Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.

      3) O autor se intromete na história , usando a primeira pessoa, para fazer comentários, expor idéias, mostrar conhecimentos e leituras como de Freud, por exemplo, fatigando o leitor que está mais interessado no enredo do que nas exposições de tese... Não é recurso novo e no livro se torna enfadonho, por ser sistemático.

      “Não vejo razão pra me chamarem de vaidoso se imagino que o meu livro tem neste momento cinqüenta leitores. Comigo 51.” E continua. A partir da pág. 26 faz longo comentário sobre o espírito mercantilista do alemão. “É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Ela crê que sim”.

      “Minha vingança é que Freud não pode ter sensações de tantãs no fundo do mato”.

      “Porém se quiserem seguir Carlos mais um poucadinho, voltemos pra avenida Higienópolis. Eu volto”.

      4) No final do romance há dois flashes de completo gosto cinematográfico: o autor usa de uma máquina cinematográfica móvel, tomando várias cenas, em ângulos completamente diferentes. Num, focaliza a Fräulein viajando, a despedida, seus pensamentos, seus planos, monólogo interior. Depois a máquina vira a objetiva para Carlos. Em casa, solitário, triste, desinteressado, ainda enrabichado...

      5) Mário de Andrade se mostra, sempre mais e a vida inteira, a obra inteira, interessado em Brasil: problemas brasileiros, linguagem brasileira, personagens.

      “Minha vida tem sido e será e quero que seja uma Invitation a se reconhecer a gente brasileira. Um exemplo e não uma criação”. No balancete que fez do movimento modernista ele conclui: “o que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs, é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional”. (Aspectos da Literatura Brasileira – Martins – pág. 242).



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