A SIBILA
(Agustina Bessa-Luís
) CONTEXTUALIZAÇÃO
Concluído em 1953 e publicado em 1954, A Sibila traz sutis referências ao contexto histórico-cultural do qual pertence.
É época em que vigora, na literatura portuguesa, a corrente literária denominada Neo-Realismo. Como o nome indica, o Neo-Realismo retoma os procedimentos descritivos do Realismo vigente no século anterior, adaptando-o aos dilemas do homem do século XX, que habita um continente devastado pelos horrores de um conflito bélico (Segunda Guerra Mundial) e um país no qual impera a ditadura salazarista.
A denúncia dos problemas sociais, a crítica ao governo e ao sistema capitalista são algumas das bandeiras do Neo-Realismo. Na maioria dos autores portugueses, a crítica ao regime ditatorial é disfarçada, pois, como em toda ditadura, a censura e a ameaça de repressão eram constantes.
No trabalho de Agustina, não aparece explicitamente nenhuma denúncia social, todavia, ficam subentendidas as disparidades sociais e econômicas que envolvem seus personagens.
As reflexões sobre a sociedade e a cultura portuguesa propostas n’A Sibila desmascaram muitos aspectos da opressão presente nas relações entre homens e mulheres, dentro daquela sociedade, principalmente no período retratado, entre o final do século XIX e o início do XX.
Outra vertente da denúncia dos problemas daquela sociedade é a pouca importância que as mudanças ocorridas nos altos escalões da política representam no cotidiano das populações pobres, principalmente da zona rural. Retratando um tempo ficcional, que coincide com a instauração do liberalismo e a crise do republicanismo em Portugal, a autora demonstra, através da atuação política de suas personagens - quase nenhuma - o descaso político que caracterizou a nação portuguesa naquele período.
VIDA E OBRA DA AUTORA
A escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa-Luís, nasceu em Vila Meã, Amarante (região do Douro), em 15 de outubro de 1922. A sua infância e adolescência foram passadas nesta região, cujo ambiente marca fortemente a obra da escritora.
Estreou como romancista em 1948, com a novela Mundo Fechado, tendo desde então mantido um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas, contando até o momento com mais de meia centena de obras.
Tem representado as letras portuguesas em numerosos colóquios e encontros internacionais e realizado conferências em universidades por todo o mundo.
Foi membro do conselho defectivo da Comunitá Europea degli Scrittori (Roma, 1961/1962).
Entre 1986 e 1987 foi Diretora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto).
Entre 1990 e 1993 assumiu a direção do Teatro Nacional de D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
É membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris), da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo já sido distinguida com a Ordem de Sant’Iago da Espada (1980), a Medalha de Honra da Cidade do Porto (1988) e o grau de “Officier de l’Ordre des Arts et des Lettres”, atribuído pelo governo francês (1989).
Foi com o romance A Sibila, em 1954, que Agustina Bessa-Luís se impôs como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea. Seu estilo único e enigmático rendeu o elogio de muitos críticos, que a denominam “Fernando Pessoa de saias".
A linguagem narrativa construída por ela guarda traços de influências pós-simbolistas, pois mescla a sabedoria ancestral a elementos simbólicos, constituindo uma obra que é representação legítima da cultura lusitana e, ao mesmo tempo, perscruta a alma e as relações humanas de modo comparável aos maiores escritores da literatura universal.
Recebeu os prêmios Delfim Guimarães (Guimarães Editores) e Eça de Queirós (Secretariado Nacional de Informação), pelo romance A Sibila.
Vários dos seus romances foram já adaptados ao cinema pelo realizador Manuel de Oliveira, de quem é amiga e com quem tem trabalhado de perto. Estão neste caso Fanny Owen (“Francisca”), Vale Abraão e As Terras do Risco (“O Convento”), para além de “Party”, cujos diálogos foram igualmente escritos pela escritora. É também autora de peças de teatro e televisão.
Principais obras dentre a bibliografia que se acrescenta quase que anualmente:
• Mundo Fechado (novela). 1948
• Os Super Homens (romance). 1950
• Contos Impopulares. 195 1-1953
• A Sibila (romance). 1954
• Ternos Guerreiros (romance). 1960
• Sermão de Fogo (romance). 1962
• As Relações Humanas: 1 — Os Quatro Rios (romance).
1964
• As Relações Humanas: II - A Dança das Espadas (romance). 1965
• As Relações Humanas: III - Canção Diante de Uma Porta Fechada. 1966
• A Bíblia dos Pobres: I - Homens e Mulheres (romance).1967
• A Bíblia dos Pobres: II - As Categorias (romance). 1970
• Crônica do Cruzado Osb (romance). 1976
• Fanny Owen (romance). 1979
• Um Bicho da Terra (romance). 1984
• Prazer e Glória (romance). 1988
• Vale Abraão (romance). 1991
• Um Cão que Sonha. 1997
Enredo
O romance A Sibila narra a história de três gerações da família Teixeira, cuja figura principal é Quina, que, por seu profundo e controverso discurso de sabedoria humana, é caracterizada como uma sibila, ou seja, alguém dotado de poderes especiais em relação à previsão do futuro e à obtenção de favores divinos mediante preces.
Ao longo de seus dezenove capítulos, a narrativa vai acompanhar, da queda ao apogeu, os acontecimentos que determinam a vida dessa família e de sua propriedade: a casa da Vessada, destacando o comportamento das mulheres, que são diretamente responsáveis pela reedificação do patrimônio. Paralelamente a essa história, outras histórias são recuperadas, sempre na intenção de ilustrar o sistema de valores que cerca a família Teixeira.
O primeiro capítulo inicia-se com o diálogo entre a personagem Germa (Germana) e o seu primo Bernardo Sanches, quando visitavam a quase abandonada casa da Vessada. Germa, distraída da conversa, começa a rememorar os fatos do passado e pergunta a si mesma sobre quem fora Quina, a tia que lhe fez herdeira.
Começa então a narrativa da história da família, primeiramente descrevendo o nascimento de Quina, Joaquina Augusta, e depois retornando ao casamento dos pais de Quina, Francisco Teixeira e Maria da Encarnação, que são apresentados detalhadamente.
Nesse primeiro capítulo ainda se conta o incêndio que destruiu a casa da família, antes mesmo do nascimento das crianças.
O segundo capítulo traz informações sobre a vida desregrada de Francisco Teixeira e as aflições que Maria sofria, esperando por ele. Descreve-se também as circunstâncias da morte dos três primeiros filhos do casal e o nascimento de Justina, nome de batismo da primeira criança que sobreviveu.
Caracteriza-se, nesse capítulo, a diferença de tratamento que a mãe, Maria, dispensava às duas primeiras filhas: Estina era tratada com carinhos e cuidados especiais, enquanto à Quina eram destinados os trabalhos mais pesados.
O pai, Francisco, reconhece tais diferenças e, sempre que possível, toma partido da filha mais nova.
No terceiro capítulo, é narrada uma série de infortúnios que atinge a família Teixeira. A morte de Abílio, o filho adolescente que foi para o Brasil tentar fortuna e voltou atacado de febres. A falta de dinheiro e as inúmeras dívidas decorrentes da fanfarronice de Francisco, bem como sua morte.
Ocorre ainda a ruptura dos namoros das duas irmãs: Estina, cujo namorado desapareceu ao perceber a falência da família, e Quina, que renunciou ao pretendente, para que este pudesse encontrar casamento de maiores dotes.
O quarto capítulo focaliza Quina. Apresenta-se o desenvolvimento de suas capacidades sibilinas, que eram já previstas pela mancha de nascença que a menina apresentava no pulso e que começaram a ser notadas desde que uma grave doença a atingiu quando não tinha ainda mais de quinze anos e todos pensaram que iria morrer. A partir desse incidente, Quina percebe que pode exercer alguma influência sobre as pessoas que a cercam.
O processo de reconstrução econômica da casa da Vessada é o assunto do quinto capítulo. As três mulheres são as responsáveis pelo reerguimento da propriedade, urna vez que os rapazes têm muito do comportamento do pai.
A filha mais velha, Estina, casa-se por conveniência com Inácio Lucas e passa a viver não muito distante da família. Encontra-se com a mãe e a irmã periodicamente, quando vai ao mosteiro para assistir à missa.
Quina e a mãe, Maria passam a viver em aliança e, aos poucos, Quina toma a frente nos negócios da família. Daí para frente, Quina dedica-se a enriquecer materialmente e tornar-se, a cada dia, mais influente e respeitada na região.
No sexto capítulo, as mulheres continuam na rotina do trabalho, quando João anuncia que irá se casar. Maria não aprova a noiva escolhida pelo filho, recebendo-a mal, mesmo depois de casada.
Abel, o outro filho, vive em andanças pelo mundo afora, tentando fazer fortuna. De passagem pela casa da Vessada, peregrina pela comarca, fazendo visitas, reencontrando amigos, freqüentando casas de autoridades.
Quina o acompanha, convivendo pela primeira vez com a sociedade. Mesmo depois da partida de Abel, ela continua sendo recebida em algumas casas fidalgas, tomando-se mesmo confidente de algumas damas, entre elas, Elisa Aida, a condessa de Monteros.
O sétimo capítulo é dedicado à visita de Quina à casa de Elisa Aida. Esta a convidara após viver uma intriga romanesca, na qual o desfecho, que era um não casamento, fora previsto por Quina. É essa espécie de profecia concretizada que faz com que a condessa trate Quina como “a sibila”.
A casa da condessa é descrita com detalhes e a conversa entre as mulheres é variada. Ao sair da casa da condessa, Quina aproveita para visitar a irmã, Estina.
Uma parte da história de Estina é recordada. Esta tivera dois filhos que morreram já quase moços, devido à brutalidade do pai, e uma filha, que sofria de alucinações. Apesar dos maus-tratos do marido, não abandona a casa para não desonrar a família.
No oitavo capítulo, Quina será novamente o foco central. Fala-se sobre os pretendentes que a cobiçam, mesmo estando ela com quarenta anos; sobre as suas habilidades nos negócios, que fazem prosperar a casa da Vessada; sobre sua vaidade, não em relação aos atributos físicos, mas em relação à esperteza e à psicologia com que conquista sempre mais e mais espaço.
Há também, nesse capítulo, uma referência ao progresso da aldeia, com a chegada da energia elétrica, e outra, ao poder das rezas de Quina, que, com astúcia, impressionava as pessoas que a ouviam rezar.
O nono capítulo marca o encontro das três gerações da família Teixeira: Maria, Quina e Germa.
Inicia-se com o anúncio do nascimento de Germana, através de um cartão-postal trazido pelo carteiro. Narram-se, depois, algumas visitas que a pequena Germa faz à casa da Vessada.
A morte de Maria é contada no décimo capítulo. Germa é quem focaliza as personagens: a tia Estina, o tio Inácio Lucas, a tia Quina.
Neste capítulo, também ocorre o desaparecimento da filha “louca” de Estina e Inácio Lucas. Quina é chamada pela irmã para que reze pelo reencontro da sobrinha, porém é destratada pelo cunhado.
A “louca” só será encontrada no capítulo seguinte.
No décimo primeiro capítulo, a morte também é um tema constante. Primeiramente é a morte da filha de Estina, encontrada, um mês após seu desaparecimento, em um cenário medonho: o interior de uma mina abandonada, repleta de morcegos.
Depois vem a morte de Elisa Aida, que é descrita ressaltando-se os pormenores de sua vida teatral. Um escudeiro, que o povo suspeitava ser filho da condessa, ficou desamparado com sua morte e foi acolhido como empregado por Quina.
Finalmente, conta-se a morte de uma prostituta, com quem o escudeiro da condessa tivera um filho.
O próximo capítulo, décimo segundo, é dedicado a contar a decisão de Quina, já aos cinqüenta e oito anos: tomar conta do filho da prostituta.
Quina desenvolve grande afeição pelo menino de quatro anos, batizado por ela com o nome de Emilio, embora todos o chamassem de Custódio, que era a forma como as crianças eram designadas antes do batismo.
No décimo terceiro capítulo, reaparecem os irmãos Abel e João. O primeiro, após saber da adoção realizada pela irmã, preocupa-se com o destino da herança da família e vai visitar o irmão João, em busca de aliança contra Quina. Encontra o irmão envelhecido, pois não se viam há mais de dez anos, mas não consegue o apoio que procurava.
Nesse capítulo, aparecem ainda descrições do comportamento que Custódio adota perante sua benfeitora, Quina, e um perfil de Libória, empregada da casa da Vessada.
O capítulo décimo quarto narra o isolamento crescente de Quina.
Parte desse isolamento é devido ao envelhecimento natural e parte se deve à proteção dada a Custódio. Mesmo diante da indignação de parentes e conhecidos, ela aceita o comportamento degenerado de Custódio, que se envolve com o bandido Morte e pratica pequenos roubos.
Quina adoece no décimo quinto capítulo e é Libória quem dela cuida. Estina, a irmã, passa uma semana lhe fazendo companhia no auge da doença.
O ex-namorado, Adão, de quem Quina se tornou confidente, também vai visitá-la e aproveita para tocar no assunto do testamento.
Abel, o irmão, visita a irmã quando ela já está se restabelecendo e a convida para passar alguns dias em sua casa, na cidade, a fim de se tratar.
A visita de Quina à cidade, afastando-se da casa da Vessada pela primeira vez na vida, é o assunto narrado no capítulo décimo sexto. Durante essa visita, ela se hospeda na casa de Abel, mas aproveita para visitar também a casa da cunhada e do irmão João.
Três dias após sua chegada, Quina recebe uma carta de Libória, dizendo que Custódio adoecera. Quina retoma imediatamente à casa da Vessada, antes mesmo de saber os resultados de seus exames de saúde. Descrevem-se então os sentimentos de contentação de Quina ao rever Custódio.
No décimo sétimo capítulo, a saúde de Quina volta a fraquejar, desta vez, definitivamente. E quando Libória, a empregada, aproveita para agoniar Custódio, lembrando a ele que, após a morte de Quina, ficará desamparado.
Quina, por sua vez, revive na memória momentos da vida familiar: a mãe, os irmãos ainda jovens, o pai. Ao receber a visita do médico, ela se recorda da condessa de Monteros, de quem ele é descendente.
Custódio inquieta-se com o estado de saúde de sua benfeitora, chegando mesmo a perguntar a ela o que será dele após sua morte. Libória aumenta a perturbação de Custódio, contando casos de miseráveis e mendigos que perambulavam pelas ruas da aldeia.
No penúltimo capítulo, décimo oitavo, Custódio muda de comportamento, passando a agir com interesse e cuidados em relação à Quina e à propriedade da Vessada. Constantemente ele interroga Quina sobre sua situação após a morte dela. Essa insistência chega a irritá-la, embora sinta pena do rapaz.
Na noite em que Libória e Custódio estavam jogando cartas em outro cômodo da casa, Quina morre, sozinha em seu leito.
O último capítulo é uma retomada do primeiro, dando notícia dos acontecimentos ocorridos após a morte de Quina.
O funeral de Quina é narrado. Germa, filha de Abel, irmão que tinha sido registrado com sobrenome materno, é a única herdeira de Quina.
A Custódio coube o direito ao usufruto de duas propriedades que Quina adquiriu após a morte da mãe. No entanto, ele só partiu da casa da Vessada após ser expulso por Germa. Foi, então, trabalhar como empregado na propriedade dos herdeiros da condessa Monteros. Como se metesse em fofocas, foi despedido e, vendo-se sozinho novamente, suicidou-se.
Estina faleceu e seu marido, Inácio Lucas, casou-se com uma velha parenta.
A cena que encerra o livro é a mesma que o iniciou: a conversa de Germana com o primo Bernardo. O livro é encerrado com reticências, quando Germa questiona a personalidade da “sibila”.
Foco narrativo
O romance A Sibila apresenta uma estrutura bastante particular. Seu primeiro início é dado por uma fala da personagem Germa, durante diálogo que mantém com o primo Bernardo Sanches.
Fazendo uma retrospectiva do passado em busca de saber quem fora Quina, Germa abre caminho para o narrador propriamente dito. Este, um narrador onisciente de terceira pessoa, segue o ritmo da memória, evocando aqui e ali fatos e pensamentos que vão construindo o sentido da história da família Teixeira.
Ora o narrador demonstra saber tudo sobre os fatos ocorridos, pois antecipa notícias e conta episódios de um passado distante, ora ele delega às próprias personagens a tarefa de reconstruir a história e a própria personalidade de cada uma, através das inúmeras narrativas que fluem da memória individual ou coletiva.
Nesse entrelaçamento de narrativas, o diálogo inicial entre os primos funciona como um prólogo à matéria principal que será narrada.
Tempo
No romance A Sibila, o tempo da narrativa não acompanha o tempo cronológico. É a memória, com seus volteios e desvios característicos, que orienta o desenrolar da história de três gerações.
Apesar de uma estrutura aparentemente confusa, o tempo no romance pode ser recuperado indiretamente, como um quebra-cabeça, juntando-se as marcações temporais espalhadas ao longo do texto.
É no primeiro capítulo que se situam os dados mais relevantes para reconstruir a linha do tempo familiar: “por alturas de 1870” ocorreu o incêndio, “pouco depois da chegada de Maria”, que conheceu Francisco “com nove anos” e com ele se casou “onze anos depois”.
Em relação ao início do romance, Quina nascera “setenta e seis anos antes” e era a segunda filha que vingava “num matrimônio de sete anos”.
Todavia, o início da história da família tem que ser calculado com base em dados recortados ao longo dos diversos capítulos.
A reconstrução do tempo leva ao traçado da linha cronológica da família Teixeira em três gerações: um século. Essa linha cronológica também permite seguir algumas mudanças que ocorrem na mentalidade da própria sociedade portuguesa, principalmente no que diz respeito ao comportamento feminino. Maria e Estina são representantes de uma ordem social na qual as mulheres se submetem aos homens, mesmo quando têm condições morais e econômicas de superá-los. Quina é prenúncio de uma nova realidade, uma mulher que se responsabiliza pelo próprio sustento e não se submete às imposições oriundas da relação matrimonial. Germana representa o avanço, as mulheres de meados do século XX, a partir do qual a situação feminina caminha em direção à igualdade de direitos e deveres com os homens.
Espaço
O cenário de maior parte da narrativa d’A Sibila é a propriedade da família Teixeira, denominada casa da Vessada.
Tal propriedade está inserida no espaço rural de uma zona do Norte de Portugal.
A ambientação rústica e o clima rural vão ser reforçados durante todo o romance, com freqüentes referências ao modo de vida do lugar e uma série de recursos lingüísticos que incluem regionalismos, indumentárias, objetos, vegetação e crendices, típicos de um universo social determinado.
É comum a referência à aldeia para marcar o centro geográfico da região, bem como a classificação de comarca, para se referir à área mais abrangente.
As propriedades: casa da Vessada, palacete da Água Levada, casa de Morouços, casa de Folgozinho, casa do Freixo determinam não só espaços, como também características das personagens. Funcionam como sobrenomes na identificação de quem é quem.
Personagens
As principais personagens do romance A Sibila são os membros da família Teixeira, que podemos localizar na seguinte árvore genealógica:
No interior do romance, há um intenso trânsito de personagens secundárias que têm suas histórias narradas apenas para caracterizar melhor as personagens principais. E o caso, por exemplo, de Isidra, cuja história de seus amores com Francisco Teixeira serve para reforçar o comportamento desregrado desse.
Há também personagens secundárias, que aparecem momentaneamente, sem mesmo ter nomes. Novamente possuem funções que contribuem para destacar características das principais figuras. São numerosas: abade, cocheiro, avô (de Isidra), carteiro, irmã (da seduzida pelos filhos do caseiro), marido (de Adriana), moço (a quem tardava a virilidade), pai (de Maria), prostituta, vendeiro, dentre muitas outras. De um modo geral, são denominadas por profissões ou pelo grau de parentesco com personagens nomeadas. É notável a presença de representantes de praticamente todos os estratos da sociedade portuguesa.
Destaca-se o descaso para com os membros agregados à família, Inácio Lucas e as mulheres de Abel e João. O primeiro ao menos é nomeado, apesar de ser praticamente ignorado pelas mulheres da família, inclusive por sua esposa. As outras duas não têm sequer seus nomes citados, tão diminuta é sua importância.
A descrição física das personagens é irrelevante, marcando apenas algumas características muito superficiais: as mulheres da família eram bonitas, Francisco era muito bonito. Quina era muito magra e Estina muito gorda. É a caracterização psicológica que vai estabelecer as relações que movem a trama do romance.
No plano das personagens principais, há que se destacar a oposição entre as masculinas e as femininas. Tal oposição favorece as personagens femininas, que são as verdadeiras guias da intriga, “Elas tinham habituado a contar apenas com o seu pulso, a serem sós, (...) Por isso o seu caráter não podia deixar de adquirir acentos viris, assim como as suas mãos tinham calos e nodosidades, como o seu espírito se abstinha de manifestações supérfluas. E a entranhada aversão pelo homem, pelo ser inútil e despótico, egoísta, cedendo aos vícios e a corrupção com uma facilidade fatalista, desenvolveu-se nelas cada vez com mais intensidade...”.
Germa é a última descendente viva. É ela quem alimenta, através da memória, a vida do clã familiar, do qual Maria é a iniciante. Nesse percurso de gerações, percebe-se o próprio desenvolvimento da sociedade portuguesa, através da transformação da mentalidade das personagens, sobretudo as femininas. Enquanto Maria, a avó, “Educara-se na sujeição e no trabalho”; Germa, a neta, reagia com hostilidade “àquele imposto de sujeição que o mundo lhe queria exigir, que as criaturas lhe pediam para prestar”.
Estina e Quina têm personalidades diferentes, que vão determinar destinos bastante diversos. Em vários momentos da narrativa elas se opõem. Primeiramente na forma de tratamento que recebiam da mãe, depois, no tipo de comportamento que adotaram para garantir a manutenção do patrimônio da família. Estina resolveu casar-se: “Casando, ela aumentava as possibilidades de um dia licitar sobre os bens (...)”, enquanto Quina optou por defender a casa da Vessada “com seu tato político a respeito de relações, negócios, contratos”, tomando-se conhecida e respeitada na região.
Revela-se em Estina uma mentalidade tradicionalista, acomodada, sem coragem de reagir às imposições do destino; seu caráter não evolui com o passar do tempo. Ela funciona como um espelho da própria mãe, pois ambas ao “recusar influências, encontravam a paz. Elas não precisavam do mundo, e viviam com uma plenitude inigualável”, resignando-se diante dos abusos cometidos por seus maridos e colaborando para a manutenção dos privilégios masculinos.
Quina, por sua vez, reverteu a ordem vigente em seu tempo, com um caráter no qual imperavam a independência e a auto-suficiência. Buscou a realização de seus próprios anseios, não se sujeitando a ter a sobrevivência condicionada a um casamento. Pode-se dizer que ela tinha uma mentalidade progressista.
Entre Germa e Quina há muitos pontos de identificação, bem como entre Estina e Maria. De certo modo, nesses pares, as primeiras repetem as atitudes das segundas. Germana dá seqüência ao espírito independente de Quina, enquanto Estina segue o comportamento de submissão da mãe, Maria.
Quanto aos homens da família, vão ser destacados os traços de personalidade que fazem deles degeneradores do patrimônio familiar. João não era ambicioso, ao contrário de Abel, que acalentava ideais de riqueza, mas ambos herdaram do pai o gosto pelos amores dispersos e a pouca disposição para o trabalho: “Os homens tinham sido sempre fatais para a casa da Vesada. Francisco Teixeira, pródigo e desinteressado, contava como seu próprio pai entregava mais afoitamente a regência do lar a uma filha que tinha (...)”.
Os homens dispersam o patrimônio familiar, símbolo máximo da tradição, e as mulheres o recuperam. Nesse sentido, os elementos femininos se ligam à terra como fundamento da permanência, enquanto os homens representam a instabilidade, como filhos pródigos.
Dentre todas as personagens, a de maior destaque é, sem dúvida, Quina, cujo suposto atributo sobrenatural dá o título ao romance. Grande parte da narrativa busca caracterizá-la, a fim de responder à pergunta: quem fora Quina? - lançada no primeiro capítulo e retomada no capítulo final.
É para destacar alguns atributos de Quina, por exemplo, sua capacidade de amar, que aparece o personagem Custódio, nos capítulos finais do livro. Esse personagem vem, praticamente redimir a sibila, pois ela dedica a este a afeição que tinha pelo pai, Francisco.
Outras personagens que ocupam espaços significativos na narrativa, como o ex-namorado Adão, a condessa Elisa Aida e a criada Libória, se relacionam diretamente com Quina, sendo por essa razão importantes elementos na caracterização desta protagonista.
É importante destacar que, no interior do romance, as relações entre as personagens são de grande valor para constituir a verossimilhança de cada uma. O problema das relações humanas e suas conseqüências para a formação do caráter dos indivíduos reforçam o entrelaçamento das personagens, realçando sobremaneira a perfeição da organização interna da obra.
Tipo predominante de discurso
A forma lingüística do romance A Sibila não é inovadora. Predomina o discurso indireto, com descrições minuciosas da psicologia das personagens, de paisagens e cenários e de histórias que ajudam a construir um retrato da sociedade local.
Os momentos de discurso direto entre as personagens, embora freqüentem todo o texto, são compostos por falas curtas, sempre complementadas com pormenores descritos pelo narrador.
Não aparece o discurso indireto livre. É o narrador quem enuncia pensamentos e estados de espírito das personagens.
Recursos de linguagem
Conquanto algumas características sejam notáveis em relação à sua filiação ao neo-realismo e à marcação dos temas através da escolha vocabular, o texto d’A Sibila não apresenta um tratamento especial da linguagem.
Os verbos marcam o tempo passado da narrativa, na qual há, praticamente, apenas pretéritos: perfeitos, imperfeitos e mais que perfeitos. Essa delimitação temporal tipifica uma narrativa guiada pela memória, não deixando dúvidas quanto à época em que ocorreram as ações.
Em relação ao vocabulário, a abundância de adjetivos é própria da construção das personagens através de seus atributos. Cada personagem tem defeitos e qualidades que se tomam, no viés da memória, suas marcas registradas.
A recorrência de alguns predicativos exerce, principalmente, a função de destacar a continuidade das gerações. São as mesmas características que se perpetuam. Fala-se de Francisco: “Quina recolhia com gratidão a deferência que o pai, tão admirável, tão estranho, tão difícil, lhe insinuava.” Aparecem os mesmos predicativos em relação à Quina: “Ah, Quina, tão estranha, tão difícil, (...) quem fora ela?”
Os atributos de Germa são também atributos de Quina:
“Germa e Quina compreendiam-se bem demais, cada uma via na outra a própria personalidade, como num espelho (...)”.
Também há continuidade entre as personalidades de Maria, a mãe, e Estina, a filha: “(Estina) Tinha como a mãe a mesma consciência um tanto árida a respeito dos valores sentimentais; era, porém, uma humorista à sua maneira, às vezes o inconveniente por um fundamental requisito de honestidade.”
Há diversas histórias narradas para ilustrar conselhos e justificar opiniões. São as narrativas populares apontando para a existência de um forte laço de união entre a vida social e a vida particular, sendo esta influenciada por aquela.
É o caso da história da prima do Soito, casada aos onze anos e que teve dois filhos gêmeos, criando-os sozinha; fato contado para justificar os trabalhos pesados aos quais Quina era submetida. Ou das diversas histórias de mendigos e miseráveis que Libória conta a Custódio, a fim de amedrontá-lo.
TEMAS
A oposição entre o ambiente rural e o citadino aparece como um dos temas desse romance. Os atributos da cidade são desprezados por uma gente que traz arraigados costumes, crenças e valores tradicionais.
O trecho que narra a viagem de Narcisa Soqueira à cidade, levada pelo filho que fizera fortuna no Brasil, denota o desconforto daqueles personagens rurais, quando submetidos aos requintes da vida burguesa.
“A miséria encardida de Narcisa Soqueira fizera-lhe uma impressão funesta; decidiu desforrá-la das privações e canseiras de muitos anos, passeando-a pelas estâncias de luxo, enchendo-a de gozos repoltreados, de comidas caras, de vestidos adamascados, colarinhos de varas, alamares e berloques de seda nos casibeques. (...) O filho voltou ao Pará; e ainda que lhe deixasse cabedais bastantes para viver com folga, ela retomou os seus farrapos, o seu engaço com que removia o tojo podre dos chiqueiros, e em breve estava tão sórdida como antes.”
Outro tema de destaque é a oposição entre mulheres e homens. O texto d’A Sibila defende implicitamente que, se não há igualdade, há supremacia das mulheres que conseguem sustentar a linhagem da família. A condição das mulheres sempre aparece em oposição aos homens. “É uma fatalidade que pesa sobre nós, as mulheres. Não sabemos viver sós, enquanto o homem procura o isolamento, mesmo quando se dirige para a multidão - disse ela (Adriana).”
O ritmo da cadeira de balanço, a ‘rocking-chair’, na qual Germa se balança ao iniciar a narrativa, dita o ritmo das recordações que vão e vêm, intercalando episódios em busca de equilíbrio. Narra-se o nascimento de Quina, volta-se ao casamento de Maria. Narra-se a morte do pai, Francisco, volta-se à adolescência de Quina. Esse equilíbrio é a própria natureza humana, que se perpetua através de gerações e, independentemente de condições sociais ou econômicas, mantém-se, por vezes incompreensível, por vezes revelado na experiência do amor.
Apesar dos pares de oposição entre campo e cidade, ruína e construção, masculino e feminino, interior e exterior, permanência e mudança, que se apresentam como temas neste romance, o elemento que os costura, por assim dizer, é a continuidade. Ela está presente nos detalhes, como a vida de João, o irmão que vive na cidade, mas cultiva plantas no quintal para se manter ligado ao campo. Na casa da Vessada, que permanece de pé apesar do incêndio e da falência econômica da família em dado momento. Na herdeira Germa, que é filha do irmão que carrega o nome de família da mãe. Na simplicidade aparente de Quina, que oculta uma vaidade quase ingênua.
A estrutura em eco do texto corrobora essa continuidade, pois o começo é retomado no fim, que permanece inacabado, suscitando, através das reticências, uma continuação.
TEXTOS PARA LEITURA
Texto I
...(o incêndio) Acontecera pouco tempo depois da chegada de Maria. Ela sentara-se, exausta, na velha mó de lagar de azeite que estava meio tombada na margem da eira, e olhara os escombros donde o fumo subia misturando-se com a névoa da madrugada. Tinha apenas uma saia mal acolchetada sobre a camisa, e tirintava. Os moços moviam-se à sua frente, enfarruscados pelo travejamento que desabara e sobre o qual pulavam, e que ardia ainda com um serpear de lume no cerne seco; Narcisa Soqueira, vizinha muito afeta à casa da Vessada, chorava, cirandando, seminua, um ombro esquálido aparecendo pelos rasgões do velho chambre.
- Ah, mulher, mulher! Isto foi a amiga do teu Chico, que é fêmea que o diabo enjeitava - disse-lhe, muito sufocada de aflição.
- Cantés - murmurou Maria. E voltou o rosto das paredes calcinadas, junto das quais a grande meda de palha centeia se consumira, ficando apenas a armação de ferro onde a velha pintura escamara, derretendo em goras vermelhas sobre as lajes. Francisco Teixeira não voltara ainda. E ali estava aquela jovem mulher, cujas feições contraídas, porém, frias, se desenhavam na esverdeada luz da madrugada; não confiava uma emoção à turba que a rodeava, que ia e vinha, num afadigado fervor de auxílio, que se aproximava na timidez daquela dor que não sabia como aliviar, e se afastava sem ter proferido senão palavras bruscas e banais, vexada pela própria impotência, desejando apenas distrair-se da desgraça que não podia vencer. Maria não chorava. Com a palma da mão arrepiava às vezes os cabelos frisados das fontes e que lhe descaiam sobre os olhos; o seu coração estava fechado, porém na expectativa de alguma coisa que nele renovasse a felicidade, pois ela pertencia a essa casta rara e invencível dos que, a par da mais crua teoria do pessimismo, se mantêm fiéis à esperança, e que mesmo na morte não sucumbem. Francisco Teixeira veio então, sem se apressar muito em se chegar, em falar, pousou-lhe a mão no ombro, delicadamente, alisando-lhe as pregas do xaile, e como se, com esse gesto humilde e repetido, quisesse definir um arrependimento.
- Eu tinha pensado já fazer umas obras... - disse.
- Ainda bem que estou aqui para vigiar isso - contestou Maria. O seu tom possuía a nota irônica que nela testemunhava bom humor e generosidade. As contas estavam saldadas. Assim ela confessava que o amava através de todos os incidentes e catástrofes, todos os esquecimentos e abandonos. Morreria muito velha e, com a idade, a mente havia de se debilitar, provocando-lhe arrazoados vagos, atropeladas recordações, esse viver retrospectivo cheio de visões passadas, de fatos e pessoas mortas. Mas o seu homem estava sempre presente junto dela, vivendo as suas seduções, fazendo-a vibrar em cuidados e penas, como quando ela era jovem e se entregava às suas íntimas batalhas de cólera e de perdão. “Que culpa tinha ele de ser bonito?” - dizia, tomada duma filosofia gracejadora e doce. E, avistando da janela o filho que tomava o caminho dos lameiros, num dia outoniço em que chovia, alarmava-se, julgando que era Francisco Teixeira que partia desprevenido de abafos. “Vai-se molhar todo, o meu Chico. Levem-lhe um capote, porque vai se molhar.” No entanto, havia quarenta anos que ele tinha morrido.” Capítulo I, trecho final
Neste trecho podemos destacar dois planos: o lingüístico e o temático.
No plano lingüístico, perceberemos algumas características que vão se repetir no decorrer da obra. Uma delas é a riqueza de detalhes descritivos, de pormenores que recriam a ambientação rural e contribuem para estabelecer o retrato fiel das personagens.
O vocabulário regional marca não só um falar típico de Portugal à época retratada, como também a distinção entre personagens e narrador.
Note-se também que o discurso das personagens, discurso direto, é composto por frases curtas que, em geral, ficam suspensas, pois o narrador intervém com seus comentários e descrições. As personagens são de poucas falas, os gestos e atitudes são elementos importantes para a comunicação de suas emoções.
Em relação ao todo da obra, este trecho representa uma amostra da estrutura em eco que vai percorrer o romance. O final do capítulo coincide com a primeira fala de Germa, que abre o capítulo: “Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a cinzas toda a estrutura primitiva.”
O vaivém repete-se ao longo de todo o romance, até que o capítulo final coincida com o inicial, retomando o diálogo entre Germa e seu primo.
No plano temático, notaremos a introdução do elemento sobrenatural, folclórico, presente na fala da vizinha, que atribui o incêndio da casa à inveja da amante de Francisco.
Fica clara também a relação de ausência que Francisco tem com Maria, e a aceitação submissa que esta lhe dedica por amor. Esse amor-aceitação será retomado em diversas passagens da intriga, sendo também recuperado por Quina, que tinha o pai como objeto de admiração, quase um herói.
O tema da reconstrução guiada pelas mãos femininas aparece sugerido neste trecho, através da fala irônica de Maria, e de sua inclusão em uma “casta rara e invencível”.
Texto 2
...Assim, os primeiros anos foram muito amargos, se bem que Maria no futuro os recordasse com uma ternura muito viva, e os achasse, de fato, os mais risonhos da sua vida; três filhos perderam-se, e a criança que logo nasceu em condições de sobreviver deveu-se a Narcisa, conselheira assídua de Maria.
- Come sempre antes de o teu homem chegar a casa - disse-lhe. - Se ele não vier ceado, comes outra vez com ele; se não, podes deitar o teu caldo na pia, que já não faz falta...
Isso desagradava os seus ingênuos pundonores de mulher, e, como Maria só sacrificava a prudência a uma história de honra, conciliando ambas atingia uma satisfação suprema. Um ano depois, nasceu Justina, menina afoita e que prometia ser bela; depois se seguiu Joaquina Augusta e ainda três rapazes, o último batizado por um lapso de registro ou como fora em tempos costume, com o sobrenome da mãe. A família enraizava-se de novo e estendia os seus ramos naquela casa da Vessada que se reedificava lentamente.
Com cinco anos, enquanto Estina, calçada com as suas meias de lã parda e branca, corria para a mestra, Quina ficava sentada no degrau que comunicava a nova cozinha com os outros aposentos, e que era um pequeno caixote oscilante, posto ali para facilitar a subida das crianças. Ela segurava nos braços o mais novo dos irmãos, e cantava com a vozinha trôpega quadras irreverentes a respeito da Patuleia, em cujas trincheiras combatera o marido de Narcisa Soqueira, um homem bronco até o inverossímil, herói de muitas histórias galhofeiras. Capítulo II.
Neste trecho temos a constituição da segunda geração da família: Estina (Justina), Quina, Abílio, João, Abel. É essa geração que vai ocupar o maior espaço textual da narrativa.
Sublinha-se o fato de o filho mais novo ter sido registrado com o sobrenome da mãe. É uma reminiscência do regime de matriarcado secularmente vigente em uma zona ao Norte de Portugal. É de se notar que é desse filho que descenderá Germana, a herdeira da família e, por conseguinte, continuadora do clã feminino.
Com a notícia do nascimento desses cinco filhos ressalta-se o poder multiplicador do elemento feminino, fundamental para a reedificação da casa.
Ocorre a retomada das desventuras de Maria, cujo marido estava constantemente ausente de casa e que sacrificava a própria saúde, perdendo assim três filhos, pois se recusava a comer se seu homem não a acompanhasse.
Mas, se o recorte de Maria vai se repetir ainda em outros capítulos, a novidade deste trecho é a referência discreta às diferenças de trato entre as irmãs. Estina vai ter uma educação mais refinada, instruída nas artes de bordados, enquanto Quina será preparada apenas para os afazeres domésticos.
A mestra referida neste trecho é mais um detalhe da realidade rural (ela era a mulher que ensinava costura e bordado a grupos de meninas), bem como a arquitetura da casa (cozinha nova).
Aparece ainda neste trecho a inserção da história na História, nas quadras de Patuleia cantadas por Quina. Os acontecimentos históricos permanecem à margem da narrativa, sendo apenas citados de relance, sempre a pretexto de outras histórias. É o que ocorre, por exemplo, com as anotações breves sobre a implantação da República, no quinto capítulo, e sobre a Primeira Guerra Mundial, no oitavo capítulo.
Texto 3
Na casa, a situação de Quina sofrera uma profunda reforma. Isto já antes da morte do pai. Uma vez, tinha ela não mais de quinze anos - estava espigada, pálida, com achaques de cansaço, desvanecimentos muito atalhados com cozeduras de arruda - quando foi acometida duma síncope mais grave. Era em Agosto, e ela acabara de pular da presa onde estivera a desencardir-se da terra, depois das regas, quando caiu para o lado, desacordada, muito gelada, os lábios cinzentos. Foi o prelúdio duma longa doença. Durante um ano não deixou o leito; habitaram-se todos a considerá-la inválida, muito sujeita a breves desmaios a que chamavam ataques, branca, escoada, falando baixo e sorrindo inesperadamente para o vazio, e segurando tardes inteiras um rosário cujas contas, de modo um tanto febril, repassava. Achavam que morria. Choravam-na muito, atrás das portas, o pai trazia-lhe sempre um mimo particular, um lenço de seda, um pacote de lérias, e sentava-se à sua beira para lhe dizer que partiriam ambos um dia, para ver a festa dos Remédios em Lamego, levando um farnel de bolos de bacalhau, em cujo preparo Maria era perita, esmoendo o peixe seco a golpes de martelo, na pedra da lareira. Quina sorria sem ânimo.
- Está no fim - diziam as vizinhas, com a regência de Narcisa Soqueira, que aparecia, compungida, segredando receitas e vagamente descoroçoada, pois ela pretendia Quina para seu filho Augusto, um pingão, muito sujo de língua, com tino para a escolha de bácoros e para a enxertia de pomares. Porém, o mal de Quina estacionava. Nos primeiros tempos teve delírios, parecia agonizar recitando adeuses, palavras de conformação, ou apenas movia os lábios num colóquio infinito, suave. Isto aterrorizava as mulheres, depois as encheu duma devoção recolhida, acreditando a moça possuída de sobrenatural, vítima ou eleita, não sabiam. A mãe, sobretudo, mudou a sua conduta de repelões, de azedume, passou a servi-la com uma deferência dir-se-ia que entusiasta e cheia de orgulho, se alguma coisa se pudesse traduzir da sua concisão de falas e de maneiras. Capítulo IV.
A doença de Quina serviu como desencadeadora de dotes que lhe estavam predestinados desde o nascimento, quando notaram, no pulso esquerdo, a “mancha cor de sépia, motivada pelo fato de sua mãe ter sido salpicada de fígado de porco, por ocasião duma matança, estando ela nos primeiros tempos de gravidez”.
O comportamento que Quina adotou enquanto doente fez ratificar a crendice popular daquele universo rústico. E o comportamento das pessoas em relação a ela naquele momento fez com que desejasse permanecer naquela condição. As pessoas a adulavam, o pai trazia-lhe mimos, a mãe deixou de hostilizá-la. Quina percebe as mudanças e entende que, para continuar sendo tratada daquele modo, com amor, respeito, atenção, teria que usar talentos de convicção e até mesmo charlatanismo.
Sua força interior será proporcional à fraqueza física que ostentará pelo resto de sua vida.
A forma de se expressar alimenta uma atmosfera de misticismo e religiosidade, ora por estar “falando baixo e sorrindo inesperadamente para o vazio”, ora “movendo os lábios num colóquio infinito, suave”.
Destaca-se neste trecho o quadro tipicamente rural, com a descrição dos atributos de Augusto ao lidar com leitões ou cuidar dos pomares; e a proposta do pai de Quina, de irem ver a festa dos Remédios, em Lamego, numa alusão às romarias a templos sagrados, em busca de cura para doenças desconhecidas.
O narrador cita o caráter quieto de Maria, com sua “concisão de falas e maneiras”. Em capítulos posteriores, esse tipo de caráter será também atribuído a Estina, revelando a continuidade que há entre as mulheres do clã.
Texto 4
...era Quina a primeira a auscultar uma conduta estranha, um gesto, uma palavra que se não previram, um passo que fugiu do equilíbrio, uma decisão falhada, uma razão que sofreu um súbito reencontro e daí surgiu o inesperado. O imponderável nas criaturas era para ela motivado pela influência de espíritos favoráveis ou malignos, sombras manifestas do além. Mercê dum sentido finíssimo para se embrenhar nos fenômenos da natureza humana ou simplesmente do meio vital, com os seus elementos, suas causas e efeitos, depressa adquiriu uma sabedoria profunda acerca de todos os ritmos da consciência, do instinto, das forças telúricas que se conjugam no fatalismo da continuidade. Conhecia os homens sem o aprender jamais. Sabia, uma por uma, qual a reação que correspondia a determinado tipo, perante determinado fato. Adivinhava-lhes os pensamentos, mesmo antes de ela os poder raciocinar. Um sorriso fazia-a pôr-se em guarda, assim como uma aranha que tecia a sua teia duma folha a outra dum pé de malva a decidia a mandar espalhar o grão na eira, ou os carolos de milho ainda úmidos da debulha. Como o que distingue para lá das montanhas qual a sombra de fumo, de pó ou de nuvem; como o que na floresta conhece o rasto do animal em tempo de caça ou tempo de amores; como o que aspira no vento o perigo, como o que pressente na atmosfera a confiança ou a traição, assim ela vivia, intensamente adaptada com essa capacidade selvagem de defesa, de astúcia, de previsão e pré-conhecimento da vida e das coisas e que o homem civilizado, unido em rebanhos pacíficos, amparado em convenções artificiais, vai perdendo ou nunca desenvolve por completo. Capítulo IV.
Neste excerto, temos um retrato de como se manifestavam, em Quina, as qualidades sibilinas. Seu poder de adivinha, sua capacidade de profetizar advêm da facilidade de conjugar o instinto aos conhecimentos passados tradicionalmente de pai para filho e à observação atenta da personalidade de cada indivíduo.
A linguagem marcada por comparações “como... como... como...” acentua a dimensão de humanidade da personagem Quina, que tem seus atributos “mágicos” mais ligados à tradição rural do que à religiosidade propriamente dita. Essa forma de linguagem é recorrente em todo o texto do romance. Grande parte da narrativa é composta por histórias menores, ditos, comparações, provérbios, enfim, elementos recuperados da tradição oral lusitana.
O último período desse trecho traz, ainda, uma espécie de crítica ao comportamento do homem moderno, dito civilizado, que perde parte das capacidades “sibilinas” inerentes a cada ser humano. Essa crítica vai de encontro a um conceito vigente até bem pouco tempo na Europa, de que a sociedade portuguesa era ainda muito arcaica, rústica e conservadora, avessa ao progresso e às idéias liberais.
Texto 5
- Ah, Joaquina Augusta - disse ela, dando-se à canseira de se fingir pensativa -, haverá muita gente assim, pelo mundo? É que diz palavras de iluminada, como se só contasse um chiste.
- Doutra maneira, quem me ouvia?
- Talvez tenha razão. - E a condessa pôs-se a olhar a sua babucha turca, que era como um focinho de doninha assomando sob a fímbria do vestido enodoado. – É tão nova! Como parece nova ainda! Não é a juventude de feições, o rosto que não murchou ou a cor que não ficou desbotada. É outra coisa. Um reflexo de vitalidade que não parece bem resultado somente duma bela forma física. Talvez seja até doente. E está perto dos cinqüenta...
- Não, nada que se pareça - acudiu Quina, exultante e também azeda. - Minha irmã Estina, que é mais velha, podia lembrar-se da senhora, porque andaram na mesma mestra; mas eu só ouvi falar da condessa Monteros quando casou, e vi de longe a sua carruagem, uma vez ou outra, quando, no tempo das sachas, eu ia parar a casa de minha madrinha Balbina. Eu era muito pequena ainda, quando comecei a ir lá.
- E eu, no fim das contas, tinha doze anos quando casei.
- Catorze. Doze tinha a prima do Souto quando lhe nasceram dum ventre dois rapazes.
A condessa fez um trejeito duro, logo desvanecido de autoridade. Depois riu-se. Ela não sabia já qual a sua própria idade; voluntariamente fora perdendo a memória dela, e acontecia-lhe gozar uma espécie de tranqüilidade momentânea, o retardar duma lei amarga, tendo a impressão algo desesperada de que retinha em si o tempo e que o iludia. Capítulo VII.
O discurso da condessa de Monteros a respeito da juventude de Quina serve de pretexto para estabelecer comparações entre a condessa e Estina, irmã que Quina visitará nessa mesma manhã. Ambas nasceram no mesmo lugar, têm a mesma idade, tiveram o mesmo princípio de educação (de novo referência à mestra), mas tiveram oportunidades diferentes:
Elisa Aida casou-se com um tio rico e se fez fidalga, Estina, por sua vez, casou-se com um déspota, também num enlace por conveniência, mas não teve a mesma sorte que a outra.
A condessa pertence a um universo de fidalgas bem tratadas que mantêm as aparências sob todos os olhos. Todavia, se permitem ver em sua essência, pela sibila. A descrição da indumentária que usa aponta para esse despojamento diante da mulherzinha que consideram iluminada.
Este trecho é uma das mais longas seqüências em discurso direto que aparecem na narrativa d’A Sibila. Ele evidencia o alongamento das visitas a Elisa Aida, que gosta de “papaguear” e a oposição desta a Estina, que é lacônica.
Texto 6
...a prosperidade trazia-lhe também espinhos – os inimigos, aqueles que nascidos na mesma condição, não sofreram ver-se ultrapassados, ou os que tendo visto aluir-se-lhes os degraus sob os pés, lançavam a poeira daquelas belas ruínas aos olhos dos que conquistavam direitos. Essa poeira deslumbrava Quina, perturbava-a a ponto de a inferiorizar, de a transformar nalguma coisa miserável e ingenuamente timorata. Não lhe bastava, para se corrigir, a frieza espiritual de sua mãe e de Estina, que, em ser solitárias, em obedecer a si próprias, em recusar influências, encontravam a paz. Elas não precisavam do mundo, e viviam com uma plenitude inigualável. Mas Quina amava o mundo, as suas manifestações de poder, de grandeza e superficiais européias; amava, se não a multidão, os que venciam, o espalhafato e a exterioridade. Admirava todas as coisas bafejadas pelo êxito; invejava tudo quanto lhe parecia culminância de situações, de felicidade - moda, classe, saber. Isto condenou-a. Esse apego apaixonado ao momentâneo manteve-a sempre ao nível do efêmero. Criou asas, sem jamais poder voar. Havia nela uma admirável capacidade de entusiasmo que podia arrastá-la ao sobre-humano. Mas o instinto prático pesava-lhe como chumbo no coração, e ela subordinava aos interesses a chama que Prometeu furtou e cujo valor ela nunca compreendeu. Todos os seus passos acabavam por deixar um rasto de auto-suficiência tão inocente quanto grotesca, e todas as suas ações traziam consigo um selo de vaidade e ânsia de louvor que as tornavam desde logo inúteis, ridículas e falsas. Como veículo do sobrenatural, ela achava-se mais venerável do que as forças de que se propunha ser intermediária; e, quando se sentava à cabeceira de um moribundo, dizendo-lhe “durma, descanse, que eu estou aqui”, procurava-lhe no olhar velado o sereno êxtase que a sua presença lhe provocava, e lágrimas de alegria caíam-lhe pelas faces. Capítulo VIII.
A caracterização humana de Quina é o principal objeto deste trecho. A vaidade dessa mulher é posta em relevo juntamente com alguns traços de seu temperamento.
Os adjetivos e substantivos utilizados caracterizam muito bem a “mania de grandeza” que Quina disfarçava muito bem:
poder, grandeza, êxito, vaidade, venerável.
Aparece também referência a um elemento da cultura universal, exterior ao romance, Prometeu (mitologia grega), revelando a inserção do romance em um universo mais abrangente. Essa inserção cultural fica exposta em vários capítulos d’A Sibila, como, por exemplo, quando Narcisa Soqueira foi levada para assistir à l’Arrouseur Arrosé no cinematógrafo, ou seja, os primórdios do cinema; ou quando se diz do pai de Quina que era “como as figuras de Greco”.
Texto 7
A verdade é que a educação de Germa recebeu um tributo incalculável naquele convívio com os costumes do campo e da sua gente, especialmente com as mulheres da Vessada. Todo o postiço que a sociedade lhe incutia, o supérfluo de que a cultura lhe rodeava o espírito, sofriam ali um contraste que lhe proporcionava um equilíbrio de valores. Vinda dum lar imponderável, de burguesia um tanto desenraizada e onde o dinheiro possuía todo esse prestígio obcecante, abjecto, mas positivo, que lhe emprestavam os que apenas dividem a vida em miséria e fartura, e tudo mais acham romance e habituada, por isso mesmo, a impor uma contradição de consciência, a preferir as coisas pobres e sem frenesi de avaliação, encontrava na casa da Vessada um ambiente um tanto árido de encantos, mas que lhe parecia digno de ser respirado. Capítulo IX.
É possível ver, na afirmação inicial desse parágrafo, a personagem Germa como um alter ego da romancista Agustina Bessa-Luís, influenciada pela infância de convívio com costumes e gentes do campo.
Note-se a oposição entre cidade e campo, acompanhada de outra mais sutil, entre cultura e rusticidade, tendo a personagem uma tendência a buscar o equilíbrio entre as duas realidades.
Texto 8
(Germa) Entrou depois no período esfuziante da adolescência, e durante muito tempo não voltou à casa da Vessada, que achava opressiva com a sua meia treva, com a sua falta de juventude, o seu isolamento, aquela calma abandonada das casas que vão caindo irremediavelmente na ruína, como se para sustê-la não bastasse escorar as vigas ou consertar caleiras, mas sim o calor duma geração nova. Capítulo XI
Além de oferecer elementos para a melhor caracterização da personagem Germa, há neste trecho um destaque para a oposição temática construção/ruína. Sublinha-se a importância do elemento humano, a nova geração, para garantir a sobrevivência da casa da Vessada, o espaço que simboliza a família Teixeira.
Texto 9
Foi também por essa altura que a condessa Monteros morreu. Estava decididamente acabada, a partir do dia em que, descendo a escadaria que comunicava com o átrio, o “foyer”, chamava-lhe ela, resvalou numa beira folgada de passadeira, e quebrou uma perna. Aquela escadaria tinha sido sempre a sua sublimação, o seu ponto estratégico de sedução. Por ela descera, arrastando suas rendas de Bruxelas e os seus cetins cor de marfim, quando se casara e era apenas uma garota magra a quem o espartilho fazia verde de angústia. Depois, nos tempos áureos em que recebia, com grande espalhafato dos seus milhões que, dizia o fidalgo do Lago, verboso má-língua e tenório sem sucesso, “não custavam a derreter porque eram feitos de açúcar” - e aludia com isto às plantações açucareiras que o conde administrara no Tucumán -, depois, dizíamos, ela valera-se dessa escada como uma rainha de opereta, surgindo no topo, com ar sensacional e majestoso, desdobrando por ela as suas caudas de veludo carmesim, rasto de vestidos acolchoados com botões de seda e que lhe davam o aspecto dum móvel estofado que se movimenta. Ah, a graça negligente com que apoiava a mão, calçada de compridas luvas claras, no corrimão que imitava mármore cor-de-rosa da Mauritânia! E o pé, avançando com o refulgir da fivela de diamantes, como atraía, como subjugava, como fazia repicar os corações e acendia nos olhos uma chama, quando ela descia, lenta, uma cascata de rendas pulando degrau a degrau atrás de si, como a espuma crepitante do próprio berço da Vênus! Capítulo XI
A morte da condessa Elisa Aida é um momento de caricatura no interior do romance A Sibila. A personagem condessa é constituída por traços de exagero, é uma figura teatral por excelência, a começar por sua origem: a moça pobre que se casa com um milionário. Seus modos, seu ambiente, suas roupas, tudo nela remete a um espetáculo.
A descida de sua vida é recuperada através da cena na qual se descreve a descida da escada. O tempo verbal dessa descrição é sobretudo o gerúndio, tempo da continuidade, através da qual as poses da condessa se imortalizam. Não foi sem razão que a condessa de Monteros tornou-se uma lenda naquela região.
Texto 10
Eis aqui a senhora Joaquina Augusta, da casa da Vessada, a quem o seu acréscimo de propriedades e riquezas em rendosos dinheiros conferia já o título de dona. Tinha cinqüenta e oito anos, mantinha-se com uma esbelteza de rapariga, se bem que um tanto corcovada e de cabeleira totalmente branca. Estava ela no apogeu das suas faculdades de administradora, de discernimento e de vivacidade. Sabia fruir o prazer de lisonja, sem lhe ceder os seus interesses; sabia ser cauta, sem deixar de ser audaciosa. Sabia ser generosa sem prejuízo seu e sem estabelecer entre ela e o desafortunado ou o vencido essa espécie de relações odiosas, comuns no mundo dos que mutuamente se espoliam e se degradam. Estava perfeita no seu cargo de sibila, pois conhecia a alma humana de dentro para fora, o que é talvez prever sempre nela o imprevisível, sem, porém, chegar a compreendê-la. Era uma fortaleza de prudência cuja torre de menagem era sempre a vaidade. Mas não passava duma mulherzinha inteiramente ignara, tola e vulnerável de coração, no dia em que aceitou em sua casa aquela criança e incondicionalmente a adotou. Capítulo XII
O narrador registra a posição de destaque atingida por Quina junto à comunidade em que vive. A ironia permeia sua forma de apresentação: “Eis aqui a senhora“, que reforça o contraste entre interior e exterior.
A aparente superioridade em relação ao mundo é desmascarada pelo narrador no último período, onde os predicativos mulherzinha, ignara, tola e vulnerável, revelam a fragilidade oculta sob a máscara de triunfante senhora.
É um órfão, filho de prostituta, que permite à Sibila externar sua dimensão mais humana, a fragilidade de quem ama o próximo:
Custódio não desistia, porém. Vigiava-a, num furor de aproveitar todas as horas, todos os instantes oportunos; não comia, quase ralado naquela paixão de vencer Quina, de lhe arrancar, com o suspiro derradeiro, a abnegação total, aquilo que ela destinava como legado da sua memória, exemplo do seu equilíbrio, da sua razão em que os sentimentos esbarravam, fossem eles trágicos, despedaçadores, como era o seu amor por Custódio. Capítulo XVIII
Custódio ambicionava herdar a casa da Vessada, não tanto pela razão econômica quanto pela importância sentimental e mesmo social que ela representava para Quina. Era o patrimônio conservado e ampliado por intermédio de artifícios da razão, dos quais Quina se orgulhava. Era o símbolo do equilíbrio conquistado pelo clã feminino, no qual o controle dos próprios sentimentos fora característica preponderante.
Texto 11
Quina abriu os olhos, e disse em voz audível algumas palavras que não eram delírio, nem oração, porque o tempo de oração estava no fim, e toda a sua alma se projetava num abismo inefável, se dispersava para entrar na composição magnífica do cosmo. Um sentido, nela, permanecia cintilante e que, portanto sofria - era o amor, era a sua inesgotável dádiva de ternura, que sempre timidamente desviara da terra, para confiar ao mistério, ao que não é mesmo esperança, e que jamais trai e engana. Os passos ouvia-os agora mais sonoramente: eles vinham, e todas as portas se abriam à sua frente. Como repelios e como não amá-los também? Sentiu que os joelhos se lhe esfriavam e como que um banho de gelo a ia atingindo até à cintura, e subindo; as mãos guardavam algum calor, mas não as movia mais. Um sopro mais brusco do vento fez entreabrir as portas da varanda, e Quina, num último olhar, abrangeu aquele céu esverdeado do amanhecer e que era imenso, e que, como em ondas do espaço, continuava mesmo através dos mundos, das estrelas vivas ou extintas. Os seus lábios emudeceram, e o som dos passos deteve-se, por fim, sobre o seu coração. A mão, um instante depois, deslizou e ficou fora do leito, com a palma voltada para cima, numa atitude toda confiante no seu abandono, cortando de través o bastãozinho de luz que escorria sempre, sereno, até à porta; via-se-lhe no pulso a mancha arruivada, que ela, no mais inviolável segredo de si própria, acreditara sempre uma marca de predestinação. Capítulo XVIII
A morte da Sibila é o momento de revelação maior de sua dimensão humana.
As palavras desse momento contrastam com aquelas da época de sua doença, quando se revelaram seus dons sibilinos. Aquelas foram indecifráveis, enigmáticas, um misto de delírio e prece; estas não. Agora só havia o amor e a morte que se aproximava para carregá-la a um plano superior, ao qual sempre se achou participante.
E a cultura, a crendice popular influenciando decisivamente a vida particular das pessoas. Se não houvesse o sentido divino na mancha que trazia ao pulso, a vida de Quina teria sido outra.
Texto 12
Porém, Germa não reparava no que ele dizia. Pensava em Quina. Daquela casa, onde nada tinha mudado ou quase nada, onde os tetos mantinham a mesma pintura azul-cinzento de quando, depois do incêndio, fora reedificada, ela ria ficando cada vez mais ausente, pois os mortos só dos vivos se alimentam, e dependem apenas das suas recordações. Tinham decorrido três anos depois da sua morte, e Germa surpreendia-se, sem grande interrupção, meditando nela. Não tinham habitado juntas, e mesmo mutuamente se julgavam um tanto incompatíveis, separadas por uma grande disparidade de costumes, de educações e até por certas semelhanças de temperamento. Porém, Germa, aos poucos, fora achando como que revelações cintilantes em todos os fragmentos que reconstruía de Quina, e ela apareceu-lhe, por fim, como um ser raro e apaixonante. Capítulo XIX
Neste trecho a permanência é o tema em destaque. A permanência da casa enquanto construção e a permanência das pessoas enquanto lembranças que as gerações futuras se encarregam de manter vivas.
Germa descobre a humanidade de Quina ao reconstruir sua trajetória, é a explicitação de uma das possibilidades de leitura do romance, que, ao compor um quadro da vida de uma família portuguesa do início do século XX, enfoca a importância das relações humanas para a constituição da personalidade de cada indivíduo.
BIBLIOGRAFIA
Bessa-Luís, Agustina. A Sibila. Lisboa, Guimarães Editores, 23ª edição, 1998.
Fonte: caderno especial do Curso Universitário