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   DIRETÓRIO Principal -> Resumos de livros -> (documento)
Memórias Póstumas de Brás Cubas
(Machado de Assis )

      COMO SÃO VISTAS AS RELAÇÕES HUMANAS NO LIVRO

      (UMA VISÃO MACHADIANA)

      Relações humnas

      Fingidas, dissimuladas: (prazerosas) - busca de ascensão social

      busca de poder

      Relações humanas

      Verídicas dolorosas)

      - infalíveis (tempo)

      - naturais (natureza)

      * fatalidade

      * azar

      * indiferença

      * doença

      * velhice

      * morte

      Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando

      a missa viu entrar a dama, que devia ser sua colabo-

      radora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias,

      durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma

      graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias

      de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se.

      Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona

      Plácida. É de crer que Dona Plácida não falasse ain-

      da quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos au-

      tores de seus dias: – aqui estou. Para que me cha-

      mastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe

      responderiam: – Chamamos-te para queimar os de-

      dos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou

      não comer, andar de um lado para outro, na faina,

      adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer

      e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, ama-

      nhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e

      os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou

      no hospital; foi para isso que te chamamos, num

      momento de simpatia.

      No trecho acima, por um processo indireto, o nar-rador não julga os pais de Plácida, mas este tipo de pessoa que em nome do amor vai mandando os outros para o in-ferno. A linguagem machadiana é assim, ele denuncia por forma indireta.

      Memórias Póstumas de Brás Cubas mostra a clas-se alta da vida carioca, que vai do primeiro ao último reina-do.

      Gravitam em torno dos ricos:

      * classes médias: funcionários, pessoas remediadas, pobres à cata de ascensão social.

      Economia agrária:

      * exportação de matéria prima

      * importação de manufaturados: cultura, objetos de ouro e prata, vestimentas, companhias de óperas.

      Elite precária, com charme europeu. Gostava de aparecer avançada, na prática era retrógrada.

      Machado mostra essa máscara, sem querer expli-car, pois ele apresenta a realidade sob o prisma de Brás Cubas – membro dessa elite.

      Pessimismo objetivo

      O tempo corre sem nos pedir licença, está fora de nós, até certo ponto contra nós.

      Ser mais/ ter mais = mais forte que nós, governa-nos por todos os lados.

      No livro não há personagem feliz, mas apenas feli-zardo. Ninguém consegue ser verdadeiro.

      Machado é moralista, pois trabalha com o mal-estar do mundo. Sonhamos demais e desejamos demais.

      Erros pessoais + erros sociais = infelicidade

      RESUMINDO E AMPLIANDO

      Sofremos, porque somos egoístas, vaidosos, porque so-nhamos além da conta, porque a sociedade é mal estrutura-da, porque os homens se exploram mutuamente, ou porque somos errados por princípio. Tais críticas parecem apontar as causas da dor humana. Mas, como são várias, não pode-mos ter certeza de nenhuma em particular. Por isso, em relação a elas, devemos sempre utilizar uma certa desconfi-ança, uma dúvida metódica. Para Brás Cubas, as certezas absolutas são tolas. E como é sempre esse o caso de que ele trata, nada de estranhar um certo clima de humor.

      Quase determinista

      Não é o meio nem a hereditariedade que determina a vida, mas a própria condição humana. Todos, sem distin-ção, estão sob seu jugo.

      Apresentou a sociedade carioca, por ela analisa o ser humano de todos os tempos e lugares.

      Quem goza a vida irá sofrer. Que não goza também.

      Quem erra paga. Quem não erra paga também.

      Exemplo: Dona Plácida não errou, mas é resultado do erro dos pais.

      Pandora é figura da mitologia grega, gigantesca mulher. Ela é mãe e inimiga de Brás Cubas. Uma figura alegórica da história humana. Como Brás Cubas relutasse em aceitar os desígnios da natureza, ela leva-o a uma elevação para ver a pobre humanidade.

      Ela não é personagem, embora desencadeie a hi-tória.

      Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o

      minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo,

      supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e pe-

      rece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo,

      dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo,

      conservação. A onça mata o novilho porque o racio-

      cínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é

      tenro tanto melhor; eis o estatuto universal. Sobe e

      olha" (cap. VII - O Delírio).

      Narrador

      Há uma distância entre o leitor e as personagens, pois elas não são mostradas, sem serem antes analisadas.

      "Serra abaixo, como eu a visse um pouco diferen-

      te, não sei se abatida ou outra coisa, perguntei-lhe o

      que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de mal-

      estar, de fadiga; ateimei, ela disse-me que... Um fluido

      sutil percorreu todo o meu corpo: sensação forte, rá-

      pida, singular, que eu não chegarei jamais a fixar no

      papel. Travei-1he das mãos, puxei-a levemente a mim, e

      beijei-a na testa, com uma delicadeza de zéfiro e uma

      gravidade de Abraão" (LXXXVI, "O Mistério")

      Narrador de 1ª pessoa é um filtro

      Realidade - Brás Cubas - Leitor

      Há dois tipos de Realismo, essa constitui uma das teorias do romance contemporâneo. A diferença está no narrador.

      Primeiro narrador (terceira pessoa)

      Não fala de si mesmo

      Fala diretamente dos outros

      Mostra a personagem

      Foco narrativo de 3ª pessoa

      Busca empolgar epicamente o leitor

      Um eu que se esconde

      Onisciência

      Só narração

      Objetividade

      Segundo narrador (primeira pessoa - M. Póstumas)

      Fala de si mesmo

      Fala indiretamente dos ou-tros.

      Analisa a personagem.

      Foco de primeira pessoa

      Busca persuadir analitica-mente o leitor.

      Um eu que se mostra.

      Observação e conjectura.

      Narração e descrição.

      Subjetividade.

      Brás Cubas – personagem: patife, palhaço

      Brás Cubas – narrado: inteligenter

      Metalinguagem digressiva

      O narrador conversa com o leitor, explica o livro, fazendo metalinguagem digressiva para o leitor não se perder no ziguezague do enredo. Veja um exemplo:

      Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda de-vagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorre-gam e caem...

      (Cap. LXXI - O Senão do livro)

      Lema de Brás Cubas

      No mundo, tudo se altera, nada fica como foi, nada está sendo como será amanhã, por isso a história é dolorida, como afirma Pandora.

      Nossas crenças, idéias e filosofias são relativas e temporais, embora quiséssemos que fossem absolutas, eter-nas, para nossa própria segurança.

      O narrador vai desmontando essas quimeras do leitor, sem feri-lo, como se estivesse brincando, elaborando um passatempo. E para provar que está dizendo a “verdade” ele conta sua vida, suas falhas, suas grandes e pequenas tolices. Sem sair do bom humor.

      No final, o narrador se mostra amargo e pessimis-ta: com remorso. Uma culpa que persegue a humanidade por não encontrar a grandiosidade, um caminho, a luz, por isso, ele se limita a gozá-la.

      RESUMINDO E AMPLIANDO

      As Memórias são um romance de primeira pessoa. Os romances de primeira pessoa têm um caráter subjetivo, porque o narrador dá sua visão pessoal dos fatos, e estes podem haver ocorrido de maneira diferente daquela mos-trada pelo narrador. Esse narrador é um EU, que fala de si. Às vezes, porém, ele pode mostrar seus sentimentos.

      No caso de Brás Cubas, isso é raro, mas ocorre.

      Brás Cubas joga com seriedade e brincadeira, e é difícil perceber a "alma" de uma pessoa assim, sempre sorrindo, ironizando, se mostrando o centro do espetáculo. No en-tanto, quando Brás Cubas deixa escapar sentimentos (prin-cincipalmente os de remorso), sua linguagem se aproxima um pouco da poética, particularmente da lírica.

      Infância

      “Menino diabo” que espancava Prudêncio, denunciava os amantes, ouvia conversas, estragava ambientes. Na escola, era comparsa de Quincas Borba, um terrível, que dava tombos no professor Barata.

      A família dividia-se entre os que adoravam e detestavam Napoleão.

      Adolescência

      Marcela aparece quando o narrador tinha 17 anos. O primeiro amor durou “quinze meses e onze contos de réis” (cap. XVII).

      Diante dos excessos, o pai manda-o para Coimbra. Durante a viagem, conhece o capitão-poeta, chefe do navio, com sua esposa enferma, que morta, é jogada ao mar. A viagem marca a entrada do Brás Cubas na mocidade, deixa a adolescência.

      Marcela não foi ao cais, despedir-se, como pro-metera. É o anticlímax. A viagem nauseante é a ligação entre dois estágios de sua vida.

      Fase adulta

      Volta de Coimbra a tempo de dizer adeus à mãe (há 13 óbitos no livro). Não quer morar com Sabina e Co-trim, sua irmã e cunhado.

      Do amor entre Eusébia e Vilaça, nasce a “flor do moita”, Eugênia, com 17 anos agora.

      Na casa de ambas: Eusébia e Eugênia, Brás Cubas luta com uma borboleta preta. Por que narrar tal fato? Eu-gênia era coxa, e a borboleta manquitolava com o golpe de toalha. Ela saíra do mato como Eugênia era “filha da moi-ta”. Alguns analistas vinculam as borboletas ao simbolismo vaginal.

      Virgília

      Bento Cubas levara o filho a conhecer Virgília, a quem chamara “Ursa Maior”. Virgília tinha 16 anos. Era 1831, época regencial.

      Antes de ir almoçar em casa de Virgília, encontrou Marce-la, com rosto bexiguento. Chega tarde ao jantar e vê no rosto de Virgília o rosto de Marcela. Fim do namoro. En-trada de Lobo Neves.

      Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra ara-gem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoia-

      da por grandes influências. Cedi; tal foi o começo da mi-nha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.

      – Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.

      Virgília replicou:

      – Promete que algum dia me fará baronesa?

      – Marquesa, porque eu serei marquês.

      Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com seu espan-to, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer cousa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.

      A explicação do tempo

      Como na vida, a gente só entende o hoje amanhã. Assim acontece no livro. Aliás, esta é uma teoria de Brás Cubas, que contraria Pascal: a nossa força está no pensa-mento, pois nosso corpo não passa de um caniço.

      Brás Cubas está certo. “Se o pensamento fosse tudo, nós entenderíamos tudo o que acontecesse num dia, numa hora, numa primavera. A experiência mostra que Brás Cubas tem razão. Nós entendemos muitas coisas só depois de passado muito tempo, inclusive percebemos nossos erros anterio-res.”

      Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas

      páginas vierem à luz, – tu que me lês, Virgília ama-

      da, não reparas na diferença entre a linguagem de

      hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê

      que era tão sincero então como agora; a morte não

      me tornou rabugento, nem injusto,

      Mas, dirás tu, como e que podes assim discernir a ver-dade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

      Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mes-

      mo que nos faz senhores da terra, e esse poder de res-

      taurar o passado, para tocar a instabilidade das nos-

      sas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá

      dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida tam-bém, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

      Nova fase

      Sabina, Cotrim e Brás Cubas brigam por causa da herança do velho Bento Cubas. O narrador curte solidão, amores de ocasião. Até o primeiro encontro com Virgília (capítulo L) num baile.

      Duas forças disputam Brás Cubas:

      Virgília quer uma casa em Gamboa, com Dona Plácida, para manter as aparências.

      Quincas Borba quer trazer o ex-colega de escola para o Humanitismo, uma paródia do positivismo.

      O escravo e seu senhor

      A liberdade precisa ser conquistada. Como Prudêncio ganhou a liberdade, ele reproduz a opressão.

      O Vergalho

      Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-me um ajuntamento; era um preto que verga-lhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: - “Não, perdão, meu se-nhor, meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

      - Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêba-do!

      - Meu senhor! gemia o outro.

      - Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

      Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, - o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

      - É, sim, nhonhô.

      - Faz-te alguma cousa?

      - É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ela na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

      - Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

      - Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entre para casa, bêbado!

      Saí do grupo, que me olhava espantado e cochi-chava as suas conjecturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdi-do; aliás, seria matéria pra um bom capítulo, e talvez ale-gre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteri-ormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteri-ormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, - transmitindo-as a outro. Eu, em criança, mon-tava-o, punha-lhe um freio na boca, desancava-o sem com-paixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia tra-balhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim rece-bera. Vejam as subtilizes do maroto!

      Evita o drama

      Machado de Assis evita o drama, a violência, a colisão. Ele prefere a comédia. Esse abrandamento é uma das marcas de Memórias Póstumas de Brás Cubas..

      Exemplo 1: Lobo Neves não é nomeado presidência de província no Norte. Se ele fosse com a esposa, a narrativa tomaria outro rumo.

      "No dia seguinte, abro uma folha política e leio a notícia de que, por decretos de 13, tínhamos sido nomeados, presi-dente e secretário da província de*** o Lobo Neves e eu (...) Virgília chegou daí a pouco, lépida como uma andori-nha; mas, ao ver-me triste, ficou muito séria (...) Contou-me que o marido ia recusar a nomeação, e por motivo que só lhe disse, a ela, pedindo-lhe o maior segredo; não pode-ria confessá-lo a ninguém mais. – E pueril, observou ele, e ridículo; mas, em suma, é um motivo poderoso para mim. Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre O pai morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar era que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n. 13. Et coetera. Era um algarismo fatídico" (cap. LXXXIII).

      Exemplo 2: Brás Cubas não se casa com Nhá-loló. Ela morre antes de febre amarela.. Se Brás Cubas se cassasse, tornaria a vida da personagem mais medíocre ainda.

      A moral das utilidades: nestes casos, Machado prefere a ideologia dos panos quentes de Jacó Tavarés: “a vera-cidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas”. A tese de Jacó, mesmo que elegante, é indecente. A saber, o progresso, a harmonia, a virtude são possíveis onde não se diga a verdade nua e crua, onde façam “vistas grossas” a tudo.

      Exemplo: Lobo Neves sabia que Virgília o traía, mas se fazia de não sabedor para evitar problemas.

      Fechando para Balanço

      A vida, a partir daí, serão trivialidades e miudezas (jor-nalismo, política, emplasto, "ordem terceira" e outras ex-centricidades, etc.). Chega a rever Virgília num baile, e ambos conversaram por momentos. Ela, magnífica. Ele, no outono da vida. Toda essa época recebe um tratamento sóbrio, com bem menos efeitos de humor. O que é curioso. Porque Brás Cubas, agora que está morto, é narrador sutil e inteligente. Todavia, enquanto se vê no passado, vê mui-tas vezes como o próprio idiota. O último capítulo é de amargor insuperável:

      "Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O princi-pal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que mor-reu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do céu. O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.

      Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo,

      que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas:

      – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o lega-do da nossa miséria" (cap. CLX).

      O Espírito e a Letra

      Comecemos por uma divagação, agora nossa. Se você, caro leitor, tivesse de escolher entre nascer num mundo já todo pronto e preparado ou nascer num mundo por fazer, qual dos dois escolheria? Não responda, por favor. Cha-memos o primeiro de Letra. Chamemos o segundo de Espí-rito. A Letra é sossego. O Espírito dá inquietação. A Letra é, portanto, a norma, o costume, a lei. O Espirito é a dúvida, a ciência, a filosofia, que não param. Você gosta daquela moça, e gostaria de tê-la junto de você, pelo menos alguns momentos. Mas ela não lhe dá bola. Você pensa, medita, sofre. É seu Espírito especulando. Entretanto, você a vê num baile, e a convida para dançar. Ela aceita. Repare como foi bom que a sociedade, nessa hora, lhe ofertasse essa saída, essa regra, essa convenção dos bailes (e a Letra!). A letra salvou você das malhas agônicas do espirito. Na saída, ela lhe dá um beijinho no rosto (isso também é permitido, é convenção): viva a Letra!

      Ora, Brás Cubas também conclui que a letra é superior ao espírito. A Letra dá vida, e o espírito é que mata (ao contrário do que pensa a maioria). Pois bem. Brás Cubas conclui isso, e embora parte de sua vida foi coerente com isso (inclusive com as "facilidades" da Letra e da lei). En-tretanto, agora que está morto, seu pensamento é convulsão do espírito! Ele pensa, e repensa, e talvez faça isso pela eternidade afora. Por isso é que ele sabe que a

      Letra é melhor. Mas não pode mais voltar a ela. Ou melhor: a única volta possível é encontrar uma paz absoluta, defini-tiva. Mas não a encontra.

      RESUMINDO E AMPLIANDO

      Brás Cubas polemiza com a sentença paulina. Dizia o Evangelista que o Espirito é que traz a vida, pois a letra pode conferir a morte. Paulo questionava os judeus e seu apego à Letra, ao texto da Bíblia, e, portanto, a tradição das escrituras. Para Paulo, a Letra só valia se animada pelo Espírito. Paulo tencionava converter os judeus. O cristia-nismo era novo. O judaísmo era antigo. O primeiro se apoi-ava nos riscos, na aventura, na coragem. Valorizava o

      Espírito. O segundo se apoiava na Lei, sem discuti- la ou reinterpretá-la. Paulo dizia assim:

      Tal é a confiança que temos em Deus por Cristo. Não que por própria força sejamos capazes de pensar alguma coisa como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus.

      Ele e que nos capacitou como ministros da nova aliança, não da letra mas do Espirito. Pois a letra mata e o espírito dá vida.

      Pois, se o ministério da morte, gravado em letras de pedra, se revestiu de tal glória que os israelitas não podi-am fixar os olhos no rosto de Moisés, por causa do esplen-dor de sua face, que era transitório, como não será de maior glória o ministério do Espirito? (2 Cor 3. 4-8).

      Vejamos como Brás Cubas "semiotizou" a discussão, transformando-a num problema de lógica da vida. Para começar, ele não tirara esse assunto do nada. O assunto lhe fora sugerido pela formalidade (Letra!) do Damasceno. Quando lhe morrera Nhá-lo-ló, Damasceno chorou mais pela ausência de figurões ao velório do que pela morte da filha. Damasceno convidara parlamentares, ministros. Ne-nhum compareceu. Seu sofrimento, com isso, foi terrível (sofrimento, porque a Letra não fora cumprida!). Assim, o não cumprimento da formalidade (que Brás Cubas chama Letra) é o que nos torna infelizes. E, nesse caso, sofremos no Espírito, porque é este que se põe em dúvida, quando a Letra falta. Um sacerdote muçulmano pode ver mulheres nuas. Isso o faria sofrer, se não houvesse entre eles um pouco da santa Formalidade, que permite ver lindas mulhe-res sob a transparência de um véu... E, como as Memórias são um livro de dúvidas contínuas, aí temos o retrato de Brás Cubas por si mesmo: um sofredor, um

      gozador continuamente frustrado em busca de um Absolu-to.

      (Resumo, paráfrase e transcrições da análise do profes-sor Antônio Medina Rodrigues – Curso Anglo)



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