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Menino de Engenho
(José Lins Rego )

      por Teotônio Marques Filho

      Outros resumos

      Para o crítico José Aderaldo Castelo, a obra romanesca de José Lins do Rego está sob o “signo da memória e do regionalismo” e pode ser dividida em cinco ciclos.

      O primeiro, constituído pelo ciclo da cana-de-açúcar, abrange os romances Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo Morto (1943). Todos esses romances têm forte ligação com a terra e traem aspectos memorialísticos de natureza autobiográfica.

      Pedra bonita (1938) e Congaceiros (1953) constituem o que se pode chamar de ciclo do cangaço associado ao misticismo messiânico e ao flagelo das secas.

      Ligados à paisagem nordestina, mas independentes dos dois ciclos indicados, José Lins do Rego publica os romances Pureza (1937) e Riacho Doce (1939).

      O quarto ciclo é formado de dois romances que constituem uma tentativa de fuga à paisagem nordestina: Água-Mãe (1941), cuja ação se passa me Cabo Frio, e Eurídice (1947), que tem como cenário o Rio de Janeiro.

      No quinto e último ciclo, o escritor retorna à paisagem nordestina e escreve Cangaceiros (incluído no segundo ciclo) e o livro de memórias Meus verdes anos (1956), obra que “confirma plenamente, segundo observação de José Aderaldo Castelo, a origem memorialista e primitivista do que há de melhor na sua obra de romancista”.

      Primeiro romance publicado do autor, o nosso Menino de Engenho situa-se, pois, no “ciclo de cana-de-açúcar” e traz, como observa o crítico citado, “o germe de outros romances”. Nele, num depoimento pessoal que trai elementos autobiográficos, o autor fixa o esplendor do engenho de açúcar com sua estrutura feudal e patriarcal que caracterizou a paisagem agrária nordestina do século passado.

      ENREDO DE MENINO DE ENGENHO

      O romance, narrado em primeira pessoa, apresenta uma estrutura memorialista, em quarenta capítulos. O tempo flui cronologicamente: o narrador (Carlinhos) tem quatro anos quando a narrativa começa e doze, quando termina o livro.

      1) A mãe do narrador (Clarisse) está morta, assassinada pelo pai no quarto de dormir. “Por quê?” Ninguém sabia compreender”. O menino, apesar de pequeno, sente o impacto da morte da mãe e a solidão que esta lhe deixa. “Então comecei a chorar baixinho para os travesseiros, um choro abafado de quem tivesse medo de chorar”.

      2) O pai então é levado para o presídio. Era uma pessoa nervosa, um temperamento excitado, “para quem a vida só tivera o seu lado amargo”. Num momento de desequilíbrio, matara a esposa com quem sempre discutia. O narrador o recorda com saudade e ternura. “O meu pobre pai, dez anos depois, morria na casa de saúde, liquidado por uma paralisia geral”.

      3) O narrador lembra, com ternura e carinho, a mãe tão precocemente ceifada pelo destino. Recorda as suas carícias, a sua bondade, a sua brandura. “Os criados amavam-na”. Era filha de senhor de engenho, mas “falava para todos com um tom de voz de quem pedisse um favor”.

      “A morte de minha mãe me encheu a vida inteira de uma melancolia desesperada. Por que teria sido com ela tão injusto o destino, injusto com uma criatura em que tudo era tão puro? Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético, meio atormentado de visões ruins”.

      4) Um mundo novo espera o narrador. “Três dias depois da tragédia, levaram-me para o engenho do meu avô materno. Eu ia ficar ali morando com ele”. Conduzido pelo tio Juca, que viera buscá-lo, encanta-se com tudo que vê: tudo é novidade naquele mundo novo. A imagem que sempre fizera do engenho era a “de um conto de fadas, de um reino fabuloso”. À primeira vista, a realidade ia comprovando fantasia.

      No engenho, é levado para receber a bênção do avô e da preta velha Tia Galdina e ganha uma nova mãe – a tia Maria. No dia seguinte, com o mergulho nas águas frias do poço, o narrador está batizado para a nova vida que vai começar.

      5) Aos poucos, o narrador vai penetrando no mundo novo do engenho. Levam-no para ver o engenho e ele fica deslumbrado com o seu mecanismo. Tio Juca vai-lhe explicando todos os detalhes:

      “- É aqui onde se cozinha o açúcar. Vamos agora para a casa de purgar”

      6) Os primos chegam para passar as férias na fazenda e o narrador se solta de vez – “já estava senhor de minha vida nova”; passeios, banhos proibidos, brincadeiras, sol o dia todo e as recomendações de Tia Maria:

      “- Você está um negro. Chegou tão alvo, e nem parece gente branca.”

      7) Ao lado da fada boa e terna que era tia Maria, vivia no engenho uma velha de nome Sinhazinha que “tomava conta da casa do meu avô com um despotismo sem entranhas”. “Esta velha seria o tormento da minha meninice”. Todos a temiam e fugiam dela. “As negras odiavam-na. Os meus primos corriam dela como de um castigo”.

      8) Este é o capítulo da prima Lili – “magrinha e branca”; “parecia mais de cera, de tão pálida. Tinha a minha idade e uns olhos azuis e uns cabelos louros até o pescoço”. “Na verdade a prima Lili parecia mais um anjo do que gente”.

      “- Esta menina não se cria, diziam as negras”.

      E tal sucedeu com a pobrezinha: um dia, amanheceu vomitando preto e morreu, para desconsolo do narrador, que se afeiçoara muito a ela.

      9) Com a morte de Lili, o desvelo e os cuidados de tia Maria com o narrador se acentuam. Era tempo das primeiras letras, mas nada entra na sua cabeça, pois só pensava na liberdade nas patuscadas no mundo lá fora.

      “- Nunca vi um menino tão rude, dizia asperamente a velha Sinhazinha.”

      No mesmo capítulo, uma recordação do flagelo das secas: as aves de arribação.

      10) O cangaceiro Antônio Silvino faz uma visita de cortesia ao engenho Santa Rosa. Há uma grande expectativa sobretudo por parte dos meninos. O famoso cangaceiro chega e é recebido pelo senhor de engenho. A partir, entretanto, o narrador demonstra o seu desencanto: “Para mim tinha perdido um bocado de prestígio. Eu fazia outro, arrogante e impetuoso, e aquela fala bamba viera desmanchar em mim a figura de herói”. É que o mito se tornou real, descendo do seu pedestal.

      11) Organiza-se um passeio ao sítio do Seu Lucino, nas proximidades do engenho. No caminho, gente que voltava da feira com seus quilos de carne. A caravana chega ao sítio e são recebidos com a boa hospitabilidade sertaneja.

      À tardinha, voltam todos para casa, quando os moleques começam a falar de mal-assombrados.

      12) O narrador leva a sua primeira surra pelas mãos da velha Sinhazinha. Ficou desolado o dia todo, e à noite, foi dormir pensando na vingança: “Queria vê-la despedaçada entre dois cavalos como a madrasta da História de Trancoso.”

      13) A cheia do Paraíba chegou devastadora, matando gente e animais, destruindo plantações e casas. A gente do engenho refugia-se na casa do velho Amâncio, fugido da fúria das águas. A enchente tinha sido arrasadora e as águas chegaram a penetrar na casa grande. Os prejuízos eram enormes”

      “- O Coronel este ano não fez duzentos pães de açúcar, dizia o carreiro. Só ficou com cana pra semente”.

      14) As primeiras letras, enfim, vieram com a bela Judite, mulher do Dr. Figueiredo. Com ela, começam a surgir os primeiros lampejos do amor. “Sonhava com ela de noite, e não gostava dos domingos porque ia ficar longe de seus beijos e abraços”.

      Depois mandaram-no para uma escolha onde tinha todas as regalias, em meio da miséria geral, por ser o “neto do Coronel Zé Paulino”.

      15) Paralelamente às letras, começa a iniciação sexual, apesar da pouca idade. Com Zé Guedes, moleque que o levava e buscava na escola, aprendeu “muita coisa ruim”. Com o primo Silvino e outros andou fazendo muita “porcaria” com as cabras e vacas da fazenda.

      “- Hoje vamos fazer porcaria no curral”, dizia o Silvino.

      16) Nas visitas e incertas do Coronel José Paulino à sua propriedade, está patente todo o seu poder de senhor de engenho, de patriarca absoluto daquelas terras. “O velho José Paulino gostava, de percorrer a sua propriedade, de andá-la canto por canto, entrar pelas suas matas, olhar as suas nascentes, saber das precisões do seu povo, dar os seus gritos de chefe, ouvir queixas e implantar a ordem”.

      17) A religião no engenho se restringia aos limites do quarto de santos com suas estampas e imagens. O Coronel Zé Paulino não era um devoto, e mesmo a tia Maria, sempre preocupada com rezas e orações, não era de freqüentar igreja e comungar. Na semana santa, especialmente na Sexta-Feira da Paixão, havia um recolhimento natural em obediência à tradição.

      18) O cabra Chico Pereira está amarrado ao tronco para receber a punição pelo malfeito: A vítima, a mulata Maria Pia, jogara-lhe a culpa, e o senhor patriarcal, inflexível, ordenara que o moleque assumisse.

      “- Moro aqui, e não caso. Aquela desgraçada me paga. O Coronel pode me picar de facão.”

      Convidada a jurar sobre o livro sagrado, a mulata confessa.

      “- Juro que foi o Dr. Juca quem me fez mal”. O culpado era o próprio filho do Coronel.

      19) Uma traquinagem de criança e um ato de heroísmo – eis a síntese deste capítulo. O primo Silvino, querendo provocar um desastre, coloca uma pedra enorme na linha de trem para vê-lo tombar. O narrador imagina a cena terrível com gente morta e ferida e, num gesto heróico, atira-se diante do trem e rola a pedra dos trilhos.

      20) Pelo engenho, corria o boato de que um lobisomem estava aparecendo na Mata do Rolo. “Diziam que ele comia fígado de menino e que tomava banho com sangue de criança de peito”. Seria José Cutia?

      Além do lobisomem, outros duendes da superstição popular povoaram a infância do narrador: o zumbi, as caiporas, as burras-de-padre etc. “Um mundo inteiro de duendes em carne e osso vivia para mim”.

      21) A velha Totonha com suas histórias fabulosas encantam o narrador. Quando passava pelo engenho era um festa. Suas histórias, sempre de reis e rainhas comoviam. Ela sabia como ninguém contar uma história. Mas “o que fazia a velha Totonha mais curiosa era a cor local que ela punha nos seus descritivos (...) Os rios e as florestas por onde andavam os seus personagens se pareciam muito com o Paraíba e a Mata do Rolo. O seu Barba Azul era um senhor de engenho de Pernambuco”.

      22) “A senzala do Santa Rosa não desaparecera com a abolição. Ela continuava pregada à casa-grande, com suas negras parindo, as boas amas-de-leite e os bons cabra do eito e as boas cabras do cifo”. Apesar de terem sido aforriados, muitos ficaram no engenho. Aí estava a velha Galdina, doente e alquebrada, Generosa, que mandava na cozinha da casa-grande e a demoníaca Maria Gorda.

      23) Tal como um monarca, o senhor de engenho, sentado no seu trono, ia ou­vindo as queixas e pedidos dos seus súditos. “Chegavam sempre de chapéu na mão com um “Deus guarde a Vossa Senhoria”. Queriam terras para botar roçados, lugar para fazer casas, remédio para os meninos, carta para deixar gente no hospital. Alguns vinham fazer queixa dos vizinhos”.

      24) Mais um passeio. Agora é ao engenho do Oiteiro. Saem cedo e vão de carro-de-boi. Destaca-se aqui a habilidade do carreiro Miguel Targino na condução dos bois. Por onde passa a comitiva é recebida com festejos e cortesia. Destaca-se em cada lugar a hospitalidade e gentileza do povo simples e humilde. Tia Maria, a senhora do Santa Ro­sa, retribui a tudo com simpatia.

      25) Este capítulo é o retrato de um menino triste e solitário que cultivava o hábito de aprisionar canários: o narrador. A morte trágica da mãe o marcou profunda­mente e, apesar das brincadeiras e traquinagens com os moleques, era um menino melancólico que buscava sempre a solidão.

      26) Aqui entram mais contadores de histórias — os mestres de ofício dos quais o narrador se tornou amigo. É através deles que ele fica conhecendo o Capitão Quincas Vieira, irmão mais novo do Coronel Zé Paulino, que morreu brigando. “O irmão mais moço do meu avô passava para a galeria dos meus heróis”.

      27) Um antigo sonho do narrador se realiza: ganhou um lindo Carneiro para montaria. Chamava-se Jasmim. Entretinha-se com ele boa parte do tempo e, com isso, os canários ganharam a liberdade. Nos seus passeios com Jasmim, na solidão do entardecer, a melancolia de sempre, “arrastava-me aos pensamentos de melancólico”.

      28) Da história triste do Santa Fé e seu senhor decadente — O Coronel Lula de Holanda, surgiu um dos grandes romances de José Lins: Fogo Morto. O Santa Fé é um engenho em decadência, símbolo de um mundo que está prestes a ruir. Em vão, o Coronel tenta manter a fachada com seu cabriolé. Um pouco mais e o Santa Fé estará de fogo morto.

      29) A doença tira a liberdade do narrador por um bom espaço de tempo. Era o puxado, “uma moléstia horrível que me deixava sem fôlego, com o peito chiando, como se houvesse pintos sofrendo dentro de mim”. Amargou, por causa do puxado, muitos dias de solidão e de cama.

      30) O narrador penetra no quarto do tio Juca e na sua intimidade: “uma coleção de mulheres fluas, de postais em todas as posições da obscenidade”.

      31) A descrição de um incêndio de largas proporções faz brotar de todos os cantos a solidariedade do sertanejo. Mais uma vez sobressai aqui a figura do avô, com sua autoridade e com seus gritos de ordem para conter o fogo que ia devastando o canavial.

      32) Um exército de homens miseráveis e esfarrapados trabalham no eito: “estavam na limpa do partido da várzea”. “Às vezes eu ficava por lá, entretido com o bate-boca dos cabras”. Muitos desfilam pelo capítulo — uns com suas virtudes, outros com seus defeitos. Em todos, um ponto comum: a vida de servidão, a miséria, a degradação.

      33) Após a ceia, o Coronel Zé Paulino gostava de contar seus casos de escravos a senhores de engenho, antes e depois da abolição. As ruindades do Major Ursulino com os negros sempre se destacam nas suas histórias. Gostava também de relembrar a visita de Dom Pedro ao Pilar e tinha grande orgulho de sua casta branca e nobre.

      35) O amor desperta forte no coração do narrador que possuía então oito anos. Era Maria Clara, uma prima civilizada do Recife, que estava ali com a família para passar férias. A paixão é violenta: os passeios, o beijo, as lágrimas da partida.

      35) A loucura solitária e miserável do pai remete o narrador a doentes (como o Cabeção e o doido) e a maus presságios que o deprimem. O seu puxado atormenta-o e os cuidados o aprisionam: “a minha vida ia ficando como a dos meus canários prisioneiros”.

      Por outro lado, a sexualidade precoce encontra na negra Luísa uma comparsa das “minhas depravações antecipadas”; “Só pensava nos meus retiros lúbricos com o meu anjo mau, nas masturbações gostosas com a negra Luísa.”

      36) O casamento da tia Maria foi digno da opulência e grandeza do senhor de Engenho do Santa Rosa. Atraiu gente de toda a redondeza e do Recife. É com tristeza que tudo é descrito pelo narrador que perde a sua segunda mãe: “E pela estrada molha­da das chuvas de fim de junho, lá se fora a segunda mãe que eu perdia”. Até mesmo o Jasmim, o carneiro montaria, fora-se nessa, servindo de almoço e jantar, juntamente com outros, aos inúmeros convidados.

      37) “— Você, no mês que entra, vai para o colégio”. Arranjavam-se os preparativos, e, com o casamento de tia Maria, “vivia a desejar o dia da minha partida”. Já estava grandinho (cerca de doze anos) e não sabia quase nada. Sabia ruindades, puxava demais pelo meu sexo, era um menino prodígio da porcaria”.

      Lá fora, a chuva caía fazendo crescer as plantações: “os pés de milho crescendo, a cana acamando na várzea, o gado gordo e as vacas parindo”.

      38) Uma briga entre dois negros se encerra com a morte de um deles que deixou mulher e cinco filhos órfãos. Levam preso o assassino, mas a alma do morto continuou pairando pelo engenho sob a forma de assombração.

      39) “Tinha uns doze anos quando conheci uma mulher, como homem”. E, com ela, apanhou doença-do-mundo a qual ia operando nele uma transformação: o menino de calça curta ia ficando na curva do tempo e dali, precocemente, ia brotando um rapazinho de sexualidade exacerbada. “Recorriam ao colégio como a uma casa de correção”:

      “- Lá ele endireita”.

      40) Enfim chega a época de o depravado menino ir para o colégio. “Uma outra vida ia começar para mim

      “— Colégio amansa menino”.

      Tudo ia ficando para trás com o trem em movimento. “Todo esse movimento me vencia a saudade dos meus campos, dos meus pastos”.

      Carlinhos “levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o corpo”. Era o oposto de Sérgio, em O Ateneu, que “entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade.”

      ESTILO DE ÉPOCA/LINGUAGEM

      A construção de Menino de Engenho apresenta muitos aspectos do estilo de época modernista.

      1) Como se pôde ver pelo enredo apresentado, o romance se apóia na cultura brasileira. Aí está um engenho-de-açúcar típico do Nordeste que constitui o microcosmo da construção do romance. Em torno dele giram costumes, crendices, superstições que refletem bem a nossa cultura.

      Esse nacionalismo , essa atmosfera bem brasileira é, como se sabe, própria do modernismo.

      2) Pode-se vislumbrar no romance uma certa postura engajada, embora predomine no livro a idéia de evocação de uma infância marcada pela magia e o encanto da vida no engenho Santa Rosa. Não obstante, o autor expõe a miséria degradante em que vivia o povo e mesmo, em alguns momentos, o mandonismo e a prepotência do Coronel Zé Paulino. É visível no romance a separação em castas, em que negros e trabalhadores vivem num regime de escravidão.

      3) O folclore nordestino está bem representado pela velha Totonha com suas histórias fabulosas e mesmo com o cangaceiro Antônio Silvino e seu bando. Nele fala alto a alma brasileira com sua maneira de ser e suas peculiaridades. Curioso observar que o estilo do autor reflete bem a espontaneidade desses “contadores” nordestinos.

      4) A linguagem, perpassada de termos regionais, retrata bem a realidade do mundo enfocado e evocado pelo autor. Como é comum no Modernismo, são freqüentes termos e construções próprios da linguagem oral:

      “— Sai daí, menino severgonho. Vou dizer ao Coronel.”

      “— Me deixou em cima da cama com a barriga rachando, e danou-se”

      “— Ela botou pra cima de mim os estragos que os outros fez”.

      “— Entra pra dentro, Carlinhos”.

      Entretanto, não há abuso no registro dessas construções deturpadas da língua oral. Quanto aos regionalismos, são tantos, que o autor chegou a organizar um glossário que costuma acompanhar o romance.

      Por outro lado, o processo narrativo de José Lins, marcado pela espontaneidade, reproduz bem a oralidade dos contadores e cantadores populares do folclore nordestino, como a velha Totonha. Daí, a quase total escassez de diálogo no romance.

      PERSONAGENS

      As personagens já ficaram apresentadas ao longo do enredo. Aqui, entretanto, apresentaremos uma súmula de suas características:

      1) Carlinhos. É o narrador do romance. Órfão aos quatro anos, tornou-se um menino melancólico, solitário e bastante introspectivo. De sexualidade exacerbada, mantém, aos doze anos, a sua primeira relação sexual, contraindo “doença-do-mundo” — a popular gonorréia.

      2) Coronel Zé Paulino. É o todo-poderoso senhor de engenho — o patriarca absoluto da região. Era uma espécie de prefeito — administrava pessoalmente, dando ordens e fazendo a justiça que ditava a sua consciência de homem bom e generoso.

      3) Tia Maria. Irmã da mãe de Carlinhos (Clarisse), torna-se para este a sua segunda mãe. Querida e estimada por todos pela sua bondade e simpatia, era chamada carinhosamente de Maria Menina.

      4) Velha Totonha. É uma figura admirável e fabulosa. Representa bem o folclore ambulante dos contadores de histórias.

      5) Antônio Silvino. Representa bem o cangaceiro sempre temido e respeitado pelo povo, em virtude de seu senso de justiça, tirando dos ricos e protegendo os fracos. Compõe bem a paisagem nordestina.

      6) Tio Juca. Não chega a representar um papel de destaque no romance. Por ser filho do senhor de engenho, fazia e desfazia (sobretudo sexo com as mulatas), mas não era punido. De certa forma, representa o papel de pai de Carlinhos.

      7) Lula de Holanda. Embora ocupe pouco espaço, o Coronel Lula é uma personagem relevante, pois representa o senhor de engenho decadente que teima em manter a fachada aristocrática.

      8) Sinhazinha. Embora não fosse a dona da casa (era cunhada do Coronel), mandava e desmandava no governo da casa-grande. Era odiada por todos por seu rigor e carranquice, e pode ser identificada com as madrastas ruins dos contos populares.

      9) Negras. Restos do tempo de escravidão, destacam-se a negra Generosa, dona da cozinha, a vovó Galdina, que vivia entrevada numa cama.

      PROBLEMÁTICA APRESENTADA

      Como sugere o título, Menino de engenho pode ser analisado de duas perspectivas: a realidade do mundo rural do engenho e a educação, nesse contexto, do menino de engenho. Aliás, essa era a intenção expressa do autor. José Lins desejava, como ele mesmo confessou, “traçar a biografia de seu avô, o velho José Lins, que era para ele o tipo representativo do senhor de engenho, expressão legítima do patriarcalismo rural da região açucareira do Nordeste”.

      Por outro lado, no prefácio do romance Usina, a propósito dos livros do ciclo da cana-de-açúcar, o romancista declarou: “Comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos”.

      Assim, destacaremos aqui esses dois aspectos básicos da obra.

      1) O engenho, na sua estrutura sócio-econômica, envolve todo um mundo social que gira ao seu redor: as mais diversas castas estão aí representadas, desde o senhor de engenho até o moleque da bagaceira.

      Sua estrutura econômica centra-se evidentemente na figura do senhor de engenho que exerce, nos seus domínios, uma autoridade absoluta e avassaladora. Ali ele é o patriarca que “assoma como senhor absoluto” de gente e de coisas. Ao seu redor gira toda uma população a desempenhar o papel de uma vassalagem que cheira a escravidão. A todos o senhor de engenho, a um tempo, ordena e protege. Eis alguns trechos sobre o Coronel Zé Paulino — protótipo dessa realidade abrangente:

      “Herdara o Santa Rosa pequeno, e fizera dele um reino, rompendo os seus limites pela compra de propriedades anexas”.

      “Tinha para mais de quatro mil almas debaixo de sua proteção. Senhor feudal ele foi, mas os seus párias não traziam a servidão como um ultraje”.

      O mundo evocado em Menino de engenho, pois, é o latifúndio do engenho de açúcar em todo o seu esplendor e opulência. Em torno dele, evidentemente, gira todo um mundo social, quase sempre de penúria e miséria, representado por trabalhadores do eito, moleques da bagaceira, negros das moendas, negras da cozinha o das senzalas e até mesmo pela prostituição.

      2) Dentro desse contexto agrário-rural, o menino de engenho cresce solto, na ampla liberdade do latifúndio. Não existe na casa grande uma preocupação em pôr limites, e a criança vai crescendo livremente, à solta, sem nenhum policiamento e sem os freios até mesmo da religião, praticamente inexistente no mundo do engenho.

      Dessa forma, Carlinhos tem precocemente a sua sexualidade exacerbada pois vivia em contato direto com o mundo de “porcarias”, à solta com os moleques “depravados” da bagaceira, a ver livremente o sexo do gado no curral da fazenda. As masturbações precoces são inevitáveis, e o sexo, estimulado pela negra Luísa, que se torna para ele uma verdadeira professora de iniciação sexual, aflora em toda sua intensidade. Precocemente, aos doze anos de idade, o menino de engenho conhece a sua primeira mulher e contrai “doença-do-mundo” — a gonorréia. Esse fato, contudo, não o deprecia ou humilha; ao contrário, a gonorréia era, no mundo do engenho, uma espécie de atestado de virilidade adiantada.

      Assim, Libertina e deprevado, ele vai para a escola. Lá certamente ele “endireitaria”, pois esta é vista como uma “casa de correção”:

      “— Colégio amansa menino”



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