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Memorial do Convento

      "Por que escrevo?

      Escrevo para não morrer."

      (José Saramago)

      Análise da professora Esther P.S. Rosado

      1. Sobre o autor:

      Quando a Academia Sueca, no dia 8 de outubro de 1998, anunciou o Prêmio Nobel de Literatura, ele estava sendo, pela primeira vez, atribuído a um escritor de língua portuguesa e O Memorial do Convento completava, então, dezesseis anos de lançamento.

      Saramago tinha 76 anos, e somente aos 60 é que atingira notoriedade.

      Nascido na pequenina cidade de Azinhaga — Ribatejo -, ao norte de Lisboa, tem suas origens no campo; abandonou os estudos precocemente e, em virtude de dificuldades econômicas da família, fez o curso profissional para serralheiro mecânico. Depois, já adulto, passou por várias experiências profissionais: funcionário público, jornalista, editor.

      Em 1969, filiou-se ao Partido Comunista Português, mantendo sempre independência quanto às críticas; devido aos acontecimentos políticos de novembro de 1975, abandonou os jornais e passou a ganhar a vida como tradutor de textos. Somente a partir do lançamento d'O Memorial do Convento, em 1982, é que passou a viver única e exclusivamente de literatura.

      A partir de 1992, passa a morar em Lanzarote, ilha do arquipélago das Canárias. Sua obra compreende prosa (contos e romances), poesia e teatro, além de ensaios sobre variados assuntos.

      Fartamente premiado, já recebeu , entre outros, o Prêmio Camões (1995).

      Biografia

      Vida e arte se misturam na história de mais um mito português

      Autodidata, José Saramago é verdadeiramente um fenômeno. Como explicar que um homem que apenas concluiu os estudos secundários, face à pobreza da juventude, tenha atingido o ápice de sua carreira literária arrebatando o primeiro Prêmio Nobel de Literatura, o primeiro concedido a um escritor de expressão portuguesa?

      Como deixar de admirar um homem que, privado da tranqüilidade financeira necessária ao pleno desenvolvimento da atividade de escrever, e tendo que, paralelamente à carreira literária, labutar arduamente como forma a garantir a sua subsistência, tenha logrado tamanho sucesso em diversos gêneros, alternadamente fazendo as vezes de poeta, romancista e dramaturgo?

      Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, concelho de Golegã, no Ribatejo. Com apenas dois anos mudou-se com a família para Lisboa. Com cinco anos, ao entrar para a escola, descobriu-se um erro na sua certidão de nascimento. O funcionário do Registro acrescentou Saramago, a alcunha da família, como seu apelido. Desta forma, José foi o primeiro Saramago da família Meirinho Sousa.

      O escritor leu seu primeiro livro aos 11 anos: "O Mistério do Moinho", um presente da mãe. Já o seu primeiro emprego foi como serralheiro, nas oficinas do Hospital Civil de Lisboa. Ao mesmo tempo em que trabalhava, Saramago enriquecia sua cultura, lendo tudo que lhe chegasse às mãos.

      Foi em 1944 que o jovem José casou-se com a pintora Ilda Reis. Três anos depois, publicou sua primeira novela, chamada "Terra do Pecado." Em 49 nasceu sua primeira filha, que recebeu o nome de Violante.

      Em 1966, Saramago lançou seu primeiro livro de poesias, intitulado "Os Poemas Possíveis", para, três anos mais tarde, ingressar no Partido Comunista Português, partido no qual permanece até hoje e do qual virou uma espécie de baluarte, antes e depois do Nobel.

      No início da década de 70 o escritor divorciou-se da sua primeira mulher e passou a exercer as funções de editorialista no "Diário de Notícias". Saramago fez de tudo um pouco durante a vida: foi desenhador, funcionário da saúde, representante da previdência social, editor, tradutor e jornalista.

      Em 74, tiveram lugar dois acontecimentos importantes na vida de Saramago: antes da revolução, editou seu primeiro livro de crônicas políticas. Depois do 25 de Abril, foi chamado para trabalhar no Ministério de Comunicação Social. Posteriormente foi nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias, cargo em que durou pouco. Desempregado, tomou a melhor atitude que poderia tomar em sua vida, qual seja a de dedicar-se somente à tarefa de escrever, aquilo que sabia fazer melhor, sem dúvida alguma.

      Durante alguns meses, mudou-se para Lavre, Montemor-o-Novo, local onde conviveu com os trabalhadores da União Cooperativa de Produção Boa Esperança. Deste relacionamento nasceu "Levantado do Chão", um grande sucesso. No último ano da década de 70 foi galardoado com o Prémio da Associação de Críticos Portugueses pela peça "A Noite". Pouco depois, "Levantado do Chão" recebeu o Prémio Cidade de Lisboa.

      Em 1982, mais dois prémios: do PEN Clube Português e o Literário do Município de Lisboa, pelo seu mais novo sucesso, "Memorial do Convento". Dois anos depois surgia "O Ano da Morte de Ricardo Reis", galardoado com o Prémio do PEN Clube Português e com o Prémio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus.

      Pouco mais tarde veio mais uma distinção, o Prémio da Crítica pelo conjunto da obra. Os prémios e o reconhecimento não paravam mais: da Itália vieram mais duas vitórias na vida daquele que, apesar das dificuldades encontradas no longo caminho da vida, jamais abdicara de seus sonhos e suas convicções: o Prémio Grinzane-Cavour (Alba) concedido a "O Ano da Morte de Ricardo Reis", o doutoramento "Honoris Causa" da Universidade de Turim.

      Foi em 1988 que Saramago casou-se pela segunda vez, com a jornalista espanhola Pilar del Rio, sua companheira até hoje. Em 1990 estreava a ópera Blimunda, no Teatro Alla Scala de Milão, com música de Azio Corghi baseado no libreto extraído de "Memorial do Convento". Um ano depois deu-se o lançamento da obra mais polémica e mais feliz do autor: "O Evangelho segundo Jesus Cristo", imediatamente recebendo o Grande Prémio de Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Saramago venceu também o Prémio Bracati (Zafferana, Itália) e foi nomeado Doutor "Honoris Causa" pela Universidade de Sevilha, sendo posteriormente condecorado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras Francesas (França).

      Em 1992, absurdamente, o governo português proibiu a candidatura de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" ao Prémio Literário Europeu, sem saber que o tempo e os fatos seriam implacáveis com essa arbitrariedade.

      Seguiu-se mais reconhecimento na Itália: Saramago foi o ganhador Prémio Internacional Ennio Faiano (Pescara) por "Levantado do Chão", e do "Prémio Internacional Literário Mondello" (Palermo).

      Em 1993 o escritor mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias e tornou-se membro do Parlamento Internacional de Escritores, com sede em Estrasburgo. Foi consagrado com mais dois Prémios, sendo estes o "The Independent" de ficção estrangeira para a tradução inglesa de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", e o "Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores".

      Em 1994 veio a público o primeiro volume da série "Cadernos de Lanzarote", mesmo ano em que Saramago ingressou na Academia Universal das Culturas, de Paris, associou-se à Academia Argentina de Letras, tornou-se membro do Patronato de Honra da Fundação César de Manrique, de Lanzarote e foi proclamado sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Autores.

      Um ano depois o escritor publicava "Ensaio sobre a cegueira", bem como o segundo volume dos "Cadernos...", arrebatava o Prémio Camões e o Prémio Consagração da Sociedade Portuguesa de Autores, ao passo em que era também alçado à condição de Doutor "Honoris Causa" pela Universidade inglesa de Manchester.

      Há muito o mundo já se rendeu ao talento de Saramago e vários de seus livros ganharam tradução pelos quatro cantos do planeta.

      As obras de José Saramago encontram-se publicadas na Espanha, na França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Grécia, Brasil, Bulgária, Polónia, Cuba, Rússia, Checoslováquia, Dinamarca, Israel, Noruega, Roménia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia e México, entre outros.

      Contudo, foi em 1998 que veio verdadeiramente o auge de sua carreira literária e, por conseguinte, a coroação da qualidade da literatura de expressão portuguesa, tão injustiçada pelos organizadores do Prémio Nobel durante esse século: José Saramago foi finalmente laureado com o galardão máximo do mundo das letras.

      A entrega do Prémio, decorrida a 10 de Dezembro em Estocolmo, na Suécia, não somente fez justiça à excelência desse grande autor lusitano, como simbolizou o reconhecimento - tardio - da importância de nossa literatura, cobrindo tanto os portugueses de Portugal, quanto os que se encontram espalhados pelo mundo, com um raro e imensurável sentimento.

      ( 01 de Abril de 1999- Jornal da ALBI, Portugal)

      Eis aqui o Comunicado da Academia Sueca, Prêmio Nobel de 1988, que distinguiu o escritor português:

      Academia Sueca

      Comunicado à imprensa

      O Secretário permanente 8 de Outubro de 1998

      Prêmio Nobel da Literatura 1998

      José Saramago

      que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia

      O português José Saramago faz 76 anos de idade em Novembro. É um prosador oriundo da classe trabalhadora que só atingiu a celebridade quando cumpriu os 60 anos. Desde então alcançou a notoriedade e tem visto a sua obra ser frequentemente traduzida. Vive presentemente nas ilhas Canárias.

      "Manual de Pintura e Caligrafia : um romance", que saiu em 1977, ajuda-nos a entender o que viria a acontecer mais tarde. No fundo, trata-se do nascimento de um artista, tanto o do pintor como o do escritor. O livro pode, em grande parte, ser lido como uma autobiografia mas, na sua intensidade, encerra também o tema do amor, assuntos de natureza ética, impressões de viagens e reflexões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. A libertação alcançada com a queda do regime salazarista transforma-se numa imagem final portadora de abertura.

      "Memorial do Convento", de 1982, é o romance que o vai tornar célebre. É um texto multifacetado e plurissignificativo que tem, ao mesmo tempo, uma perspectiva histórica, social e individual. A inteligência e a riqueza de imaginação aqui expressadas caracterizam, de uma maneira geral, a obra saramaguiana. A ópera "Blimunda", do compositor italiano Corghi, baseia-se neste romance.

      "O Ano da Morte de Ricardo Reis", publicado em 1984, é um dos pontos altos da sua produção literária. A acção passa-se formalmente em Lisboa no ano de 1936, em plena ditadura, mas possui um ambiente de irrealidade superiormente evocado. Este ambiente de irrealidade é acentuado pelas repetidas visitas do falecido poeta Fernando Pessoa a casa da personagem principal (que é extraída da produção pessoana) e das suas conversas sobre os condicionalismos da existência humana. Juntos deixam o Mundo após o seu último encontro.

      Em "A Jangada de Pedra", publicada em 1986, o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.

      Existem todas as razões para também mencionar "História do Cerco de Lisboa", de 1989, um romance sobre um romance. A história nasce da obstinação de um revisor ao acrescentar um não, um estratagema que dá ao acontecimento histórico um percurso diferente e, ao mesmo tempo, oferece ao autor um campo livre à sua grande imaginação e alegria narrativa, sem o impedir de ir ao fundo das questões.

      "O Evangelho segundo Jesus Cristo", de 1991, romance sobre a vida de Jesus encerra, na sua franqueza, reflexões merecedoras de atenção sobre grandes questões. Deus e o Diabo negoceiam sobre o Mal. Jesus contesta o seu papel e desafia Deus.

      Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título "Ensaio sobre a Cegueira". O autor omnisciente leva-nos numa horrenda viagem através da interface que é formada pelas percepções do ser humano e pelas camadas espirituais da civilização. A riqueza efabulatória, excentricidades e agudeza de espírito encontram a sua expressão máxima, de uma forma absurda, nesta obra cativante. "Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem."

      O último dos seus romances, "Todos os Nomes", sairá este Outono, em tradução sueca.Trata-se de uma história sobre um pequeno funcionário público da Conservatória dos Registos Centrais de dimensões quase metafísicas. Ele fica obcecado por um dos nomes e segue a sua pista até ao seu trágico final.

      A arte romanesca multifacetada e obstinadamente criada por Saramago, confere-lhe um alto estatuto. Em toda a sua independência Saramago invoca a tradição que, de algum modo, no contexto actual, pode ser classificada de radical. A sua obra literária apresenta-se como uma série de projectos onde um, mais ou menos, desaprova o outro mas onde todos representam novas tentativas de se aproximarem da realidade fugidia.

      ( Texto retirado do site sobre o Prêmio Nobel de 1998)

      2. Obras Publicadas:

      Poesia

      Os Poemas Possíveis, 1966

      Provavelmente Alegria, 1970

      O Ano de 1993, 1975

      Crônica

      Deste Mundo e do Outro, 1971

      A Bagagem do Viajante, 1973

      As Opiniões que o DL teve, 1974

      Os Apontamentos, 1976

      Diário

      Cadernos de Lanzarote I, 1994

      Cadernos de Lanzarote II, 1995

      Cadernos de Lanzarote III, 1996

      Cadernos de Lanzarote IV

      Viagem

      Viagem a Portugal, 1981

      Teatro

      A Noite, 1979

      Que Farei Com Este Livro?, 1980

      A Segunda Vida de Francisco de Assis, 1987

      In Nomine Dei, 1993

      Conto

      Objecto Quase, 1978

      Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979

      Romance

      Manual de Pintura e Caligrafia, 1977

      Levantado do Chão, 1980

      Memorial do Convento, 1982

      O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984

      A Jangada de Pedra, 1986

      História do Cerco de Lisboa, 1989

      O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991

      Ensaio sobre a Cegueira, 1995

      Terra do Pecado

      Todos os Nomes

      As obras de José Saramago encontram-se publicadas nos seguintes países: Espanha (Castelhano e Catalão), França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha (Edições na RDA e na RFA), Grécia , Brasil, Bulgária, Polônia, Cuba, União Soviética (Russo), Checoslováquia (Checo e Eslovaco), Dinamarca, Israel, Noruega, Romênia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia, México.

      O seu romance "Memorial do Convento" foi adaptado para a Ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda".

      A peça de teatro "In Nomine Dei" foi adaptada para a Ópera por Azio Corghi, com o título "Divara".

      Memorial do Covento

      3. O romance e sua estrutura:

      " Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem,

      fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e

      tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu."

      ( José Saramago)

      3.1 Capítulos:

      O romance está dividido em 25 capítulos não-denominados, sem numeração alguma também, estabelecendo-se como divisão apenas os espaços em branco entre os que compõem a obra.

      3.2 Espaço:

      No romance existem alguns espaços nomeados:

      1. O palácio que abriga a nobreza de D. João V, por onde o clero transita com facilidade; 2. As ruas de Lisboa, sempre cheias da "arraia-miúda", o povo pobre , faminto; 3. A quinta ( chácara) para onde vão Blimunda e Baltazar construir a Passarola; 4. A cidade de Mafra e os arredores.

      3.3 Tempo:

      O tempo narrativo é do tipo cronológico e está inserido entre duas datas: "dezessete de novembro deste ano da graça de 1717" e , como indica o último capítulo, a data da morte do escritor e comediógrafo brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu, autor das Guerra de Alecrim e Manjerona, em 1739.

      Ou seja, a história que vamos analisar tem duração temporal de 22 anos.

      3.4 Foco narrativo:

      O foco narrativo do romance é do tipo cambiante, também chamado múltiplo, com predominância em 3a. pessoa.

      Verifique os exemplos:

      1. Foco com terceira pessoa:

      "Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixo cinqüenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da coceira." (p. 16)

      Observação: Tanto em primeira quanto em terceira pessoas , o narrador se comporta como uma espécie de "guia" para seus leitores. Usa pronomes demonstrativos como se apontasse os acontecimentos, os seres e as coisas:

      "Esta é a cama que veio da Holanda(...)"

      "Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltazar Mateus."

      2. Terceira + primeira: cambiante

      "A pontos de há pouco tempo terem soltado uns cento e cinqüenta de culpas menos pesadas, que então estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com as muitas levas de homens que vieram para a Índia e que acabaram por não ser necessários, e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que se declarou uma doença que nos ia matando a todos, por isso soltaram aqueles, um deles sou eu."

      "(...) enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã- nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco(...)

      4. Personagens históricos:

      "Devem ser felizes os santos , assim como os fizeram, assim

      ficam, se isto é a santidade, que será a condenação."

      José Saramago

      Em seu Memorial do Convento, o escritor português inseriu personagens reais, históricas, pertencentes ao século XVIII:

      1. D. João Quinto, rei de Portugal, a quem se atribuía grande sabedoria, mau humor e sexualidade exagerada. No romance, é retratado como um libertino ignorante, libidinoso e vulgar, que gostava de montar réplica da Basílica de S. Pedro.

      2. D. Ana Maria Josefa, princesa austríaca que se tornou rainha de Portugal, casada com D. João V. A história a descreve como beata, submissa e medrosa.

      3. Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, brasileiro, nascido em 1685, apelidado de "O Voador" por ter inventado a passarola ( aeróstato); morto em 1724, dado como louco pela Inquisição.

      4. Domênico Scarlatti, músico italiano barroco, compôs inúmeras músicas para cravo e esteve realmente em Portugal por tempos, ensinando música para a infanta D. Beatriz. Ao voltar à Itália, notabilizou-se e ganhou nome e destaque como compositor e maestro.

      5. Personagens de ficção:

      As personagens que compõem este romance nos encantam pela singeleza de que são compostas, pela coragem, bravura. Mas sobretudo nos encantam pelo que são de humanas, inquietas e capazes de ir ao encontro de seu verdadeiro destino.

      1. Blimunda de Jesus ( Blimunda Sete-Luas)

      Blimunda é uma criatura diferente: enxerga as pessoas "por dentro" se estiver em jejum. Tem 19 anos, é forte, decidida, ama Baltazar assim que o vê, sabia que ele seria seu amor para sempre: "Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração. Estavam ambos nus."

      2. Baltazar Mateus ( Baltazar Sete-Sóis)

      Fora soldado e, na guerra, perdera a mão esquerda: "Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros."

      Tem 26 anos, é forte e destemido.

      Também sabe que terá Blimunda para sempre: "Baltazar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra."

      3. Outras personagens: João Elvas, Manuel Milho, José pequeno, Álvaro Diogo e Inês Antônia ( cunhado e irmã de Baltazar), Marta Maria (mãe de Baltazar) e João Francisco ( pai de Baltazar).

      6. A pontuação "estranha":

      Leia o trecho:

      "(...) Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar. Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste. Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

      Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltazar, e Blimunda respondeu, Dezenove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.

      Quando, de manhã, Baltazar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro."

      Ler Saramago é isso: uma certa dificuldade (a princípio) de saber quem fala. A pontuação não obedece a marcação comum e os diálogos entre as personagens são introduzidos por vírgulas que se interpõem entre os discursos diretos. Só sabemos que o interlocutor se manifesta porque após a vírgula aparece uma letra maiúscula. São, também, excluídos os pontos de interrogação e exclamação.

      Isso não ocorre, no entanto, quando se trata de discurso do narrador:

      "Não dormiu ele, ela não dormiu. Amanheceu, e não se levantaram, Baltazar apenas para comer, Baltazar apenas para comer uns torresmos frios e beber um púcaro de vinho, mas depois tornou a deitar-se, Blimunda quieta, de olhos fechados, alargando o tempo do jejum para se lhe aguçarem as lancetas dos olhos, estiletes finíssimos quando enfim saírem para a luz do sol, porque este é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos. Passou a manhã, foi a hora de jantar, que é este o nome da refeição do meio-dia, não esqueçamos, e enfim levanta-se Blimunda, descidas as pálpebras, faz Baltazar a sua segunda refeição, ela pra ver não come, ele nem assim veria, e depois saem de casa, o dia está tão sossegado que nem parece próprio para estes acontecimentos, Blimunda vai à frente, Baltazar atrás, para que o não veja ela, para que saiba ele o que ela vê, quando lho disser."

      7. Os capítulos um a um:

      Primeiro

      "O cântaro está à espera da fonte."

      D. João V está casado com D. Maria Ana Josefa há mais de dois anos, mas ela ainda não engravidou. "Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça."

      A rainha reza novenas e, duas vezes por semana, recebe o rei em seus aposentos.

      É preciso dizer aqui que o rei, quando ambos se casaram, dormia com ela todos os dias, mas resolveu separar os aposentos por causa de um cobertor de penas de ganso que trouxe ela da Áustria, e, com o passar do tempos, somando-se a ele humores de ambos, passou a ter cheiro insuportável:

      "(...) e venham as damas a este aconchegar D. Maria Ana debaixo do cobertor de penas que trouxe da Áustria também e sem o qual não pode dormir, seja Inverno ou Verão. E é por causa deste cobertor, sufocante até no frio Fevereiro, que D. João V não passa toda a noite com a rainha, ao princípio sim, por ainda superar a novidade ao incômodo, que não era pequeno sentir-se banhado em suores próprios e alheios, com uma rainha tapada por cima da cabeça, recozendo cheiros e secreções."

      O rei não fez ainda 22 anos e monta, para se distrair e porque gosta, a réplica da Basílica de S. Pedro.

      Mas, "O cântaro está à espera da fonte." metáfora para definir que a rainha está à espera do rei como se fora um vaso onde ele depositará seu sucessor. E para os aposentos da rainha o rei se dirige, mas , como se fosse um apresentador, o narrador nos informa que chegou ao castelo D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Afirma o bispo que o frei Antônio de São José assegurou que se o rei se dignasse a construir um convento em Mafra, teria descendência:

      "Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei Antônio disse, Sei, não sei como vim a saber , eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé já não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá."

      Enquanto isso, a rainha conversa com a marquesa de Unhão, rezam jaculatórias e proferem nomes de santos. Saído o bispo e o frei, o rei se anuncia "e vem de espírito aceso, estimulado pela conjunção mística do dever carnal e da promessa que fez a Deus por intermédio e bons ofícios de frei Antônio de S. José."

      D. Maria tem que "guardar o choco", a conselho dos médicos e murmura orações, pedindo ao menos um filho que seja. Sonha com o infante D. Francisco, seu cunhado e dorme em paz. Em paz? Os percevejos, mal cessam as mexidas no colchão real, "começam a sair das fendas, dos refegos, e se deixam cair do alto do dossel, assim tornando mais rápida a viagem."

      D. João também sonhará esta noite, em seu quarto. Sonhará com seus descendentes, com o filho que poderá advir da promessa da construção do convento de Mafra. Um convento, conforme disse frei Antônio de S. José, só para franciscanos...

      Segundo

      "Mas isso, confessemo-lo sem vergonha, é uma terra

      de ladrões, olho vê, mão pilha..."

      Aqui, o narrador fala sobre determinados milagres ocorridos em Lisboa. Mas, na verdade, prepara o comentário para o desfecho deste capítulo:

      "Bem servido de milagres, igualmente. Ainda é cedo para falar deste que se prepara ( atenção: refere-se ao "milagre"da rainha ter engravidado) , aliás milagre não tanto, mas simples obséquio divino, descimento de olhar piedoso e propiciatório para um ventre sáfaro, qual há-de ser o nascimento do infante na hora própria, mas é justamente tempo de mencionar veros e certificados milagres que, por virem da mesma e ardentíssima sarça franciscana, bem auguram da promessa do rei."

      Frei Miguel da Anunciação morreu de tifo ( ou febre tifóide) e seu corpo exalou, durante três dias, nas cerimônias, um suavíssimo cheiro: "(...) se vivo fizera caridades, defunto obrava maravilhas."

      A notícia correu e, antes que invadissem a igreja à procura de milagres, levaram o corpo às ocultas, e às ocultas o enterraram:

      "Privados da esperança de cura enquanto não constasse o passamento doutro bem-aventurado, no mesmo lugar se esbofetearam de desespero e fé lograda mudos e manetas, se a estes lhes sobrava mão, em gritos todos e invocações a quantos santos, até que os padres saíram fora a benzer o ajuntamento, e com essa suficiência, à falta de melhor, se foram uns e outros."

      O narrador enfatiza que Lisboa é terra de ladrões que pilham as igrejas e acrescenta que outros lugares também foram roubados: Guimarães, por exemplo. Um outro caso que é narrado sobre milagres é o de ladrões que foram roubar a igreja de S. Francisco e que lá foram recebidos pelo próprio santo, em pessoa. Um dos ladrões, tomado pelo pavor, sofreu um choque tão grande que ficou como morto, estatelado, no chão. Socorrido por fiéis que o colocaram sobre o altar, recuperou-se. O santo transpirou demasiado e para fazer acordar o homem que estava dado como morto, passaram nele uma toalha umedecida com o suor do santo. O ladrão se recuperou e , levantou-se e foi embora, "salvo e arrependido".

      Outro caso contado pelo narrador é o do furto de três lâmpadas de prata do convento de S. Francisco de Xabregas no qual entraram gatunos pela clarabóia e, passando junto à capela de Santo Antônio, nada ali roubaram . Entrando na igreja, os frades deram com ela às escuras. Constato que não era o azeite que faltava, mas as lâmpadas que haviam sido levadas; os religiosos ainda puderam ver as correntes de onde pendiam as lâmpadas se balançando e saíram esbaforidos pelas estradas, atrás dos ladrões.

      E então, desconfiados de que os ladrões pudessem estar ainda escondidos na igreja, deram volta a ela, palmilharam-na e só então viram que no altar de Santo Antônio, rico em parta, nada havia sido mexido.

      O frade, inflamado pelo zelo, culpou Santo Antônio por ter deixado ali passar alguém, sem que nada lhe tirasse, e ir roubar ao altar-mor:

      "E vós, santo, só guardais a prata que vos toca, e deixais levar a outra, pois em paga disso não vos há de ficar nenhuma , e ditas estas violentíssimas palavras, foi-se à capela e começou a despi-la toda, tirando não só as pratas, mas as toalhas e adornos, e não só à capela, mas também ao próprio santo, que viu levarem-lhe a auréola de tirar e pôr, e a cruz, e que ficaria sem Menino ao colo se outros religiosos não tivessem acudido, achando a punição excessiva e advertindo que o deixasse para consolação do pobre castigado."

      O frade deixou que o Menino "como fiador", até que o santo se dignasse a devolver as lâmpadas. Dormiram os frades, alguns temerosos que o santo se desforrasse do insulto...

      Na manhã seguinte, apareceu na portaria do convento um estudante que, querendo falar ao prelado, revelou estarem as lâmpadas no Mosteiro da Cotovia, dos padres da Companhia de Jesus. O narrador faz-nos desconfiar que tal estudante, apesar de querer ser padre, fora o autor do furto e que, arrependido, deixara lá as lâmpadas, posto não ter coragem de restituí-las pessoalmente.

      Voltaram as lâmpadas a S. Francisco de Xabregas...

      Retoma o narrador o caso do frei Antônio de S. José , observe que ele ( o narrador) faz-nos de novo desconfiar de que o frei, através do confessor de D. Maria Ana, tinha sabido da gravidez da rainha bem antes de que o rei:

      "Vimos como em instância final saiu absolvido o estudante da suspeita do roubo das lâmpadas. Agora não se vá dizer que, por segredos de confissão divulgados, souberam os arrábidos que a rainha estava grávida antes mesmo que ela o participasse ao rei. Agora não se vá dizer que D. Maria Ana, por ser tão piedosa senhora, concordou calar-se o tempo bastante para aparecer com o chamariz da promessa o escolhido e virtuoso frei Antônio. Agora não se vá dizer que el-rei contará as luas que decorrerem desde a noite do voto ao dia em que nascer o infante, e as achará completas. Não se diga mais do que ficou dito.

      Saiam então absolvidos os franciscanos desta suspeita, se nunca se acharam noutras igualmente duvidosas."

      Ou seja, nem é preciso que se comente o que o narrador quis dizer: D. Maria Ana foi usada para que os franciscanos obtivessem a construção do Convento em Mafra.

      Terceiro

      "(...) é porque a cidade é imunda, alcatifada de excrementos, de lixo,

      de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando não chove.

      Agora é tempo de pagar os cometidos excessos."

      O narrador inicia o capítulo contando que há quem morra por comer muito a vida toda e não falta que morra por ter comido pouco durante toda a vida. Lisboa é uma cidade imunda, cheia de lixo, gatos e cães abandonados, atapetada de excrementos. Foi-se o Entrudo ( festas pagãs assemelhadas ao Carnaval) , ocasião em que as pessoas comeram sem parar , e inicia-se a Quaresma, tempo de martirizar o corpo físico:

      "Agora é tempo de pagar os cometidos excessos, mortificar a alma para que o corpo finja arrepender-se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa.

      Vai sair a procissão de penitência. Castigamos a carne pelo jejum, maceremo-la agora pelo açoite. Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma."

      Os homens vão à procissão e as mulheres ficam à janela, "esse é o costume."

      Os penitentes passam com grilhões enrolados às pernas, os ombros suportando grossas barras de ferro; chicoteiam-se com cordões em cujas pontas prendem-se bolas de cera dura "armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo. "

      Enquanto o povo de diverte (!) com tal procissão, o narrador faz digressões sobre os adúlteros e infiéis, sobretudo adúlteras e disso estão excluídas as rainhas "principalmente se já estão grávidas, e de seu legítimo senhor, que por nove meses não voltará a aproximar-se delas, regra aliás comum ao popular, mas que vai sofrendo as suas infrações. D. Maria Ana, com razões acrescentadas de recato, tem a mais maníaca devoção com que foi educada na Áustria, e a cumplicidade que deu ao artifício ao franciscano, assim mostrando ou dando a entender que a criança que em seu ventre se está formando é tão filha do rei de Portugal como do próprio Deus, a troco de um convento."

      Depois de rezar, D. Maria Ana, acompanhada das damas, começa a adormecer. Sonha com o sudário e quando adormece profundamente aparece-lhe o cunhado Francisco, montado em um cavalo enfeitado, voltando da caça: "observa a rainha que de cada vez chega o infante mais perto, que quererá ele, e ela que quererá."

      Acaba a Quaresma , e a natureza canta, livre de cuidados.

      Quarto

      "Um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos"

      "Na guerra, há mais caridade."

      Baltazar é apresentado a nós e, a partir daqui, serão ele e Blimunda as nossas personagens protagonistas. Observe que o narrador nos apresenta o Sete-Sóis como se fosse um guia de sua história, a que você está lendo, usando demonstrativo "este", como se fôssemos visitantes da narrativa . É uma belíssima apresentação, esta:

      "Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltazar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros, na grande entrada de onze mil homens que fizemos em Outubro do ano passado e que se terminou com a perda de duzentos nossos e debandada dos vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóis fizeram sair de Badajoz."

      Observe aqui como o narrador troca o foco narrativo e assume a primeira pessoa, um soldado entre os onze mil que debandaram. Atente para a figura de Baltazar: desparelhadas vestes, sem a mão esquerda. Há um toque de lástima e horror quando o narrador se dispõe e dizer como lhe cortaram a mão, mas há também, na figura de Baltazar uma coisa qualquer, inexplicável talvez, que o faz forte e, ao mesmo tempo, tão frágil para as coisas deste mundo tão difícil. Para ele, nós saberemos mais adiante, haverá o amor de Blimunda Sete-Luas. E a este amor ele fará jus.

      "Por muita sorte, ou graça particular do escapulário que traz ao peito, não gangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram as veias com a força com a força do garrote, e, sendo hábil o cirurgião, bastou desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foi preciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhe almofadaram o coto, e tão excelente era a carnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois meses estava sarado.

      Por ser pouco o que pudera guardar do soldo, pedia esmola em Évora para juntar moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão. Assim passou o Inverno, forrando metade do que conseguia angariar, acautelando para o caminho metade da outra metade, e entre a comida e o vinho, se lhe ia o resto."

      Sem a mão, que ficara metade em Portugal, metade na Espanha, Baltazar não se dobrara: mandara fazer um gancho e um espigão, perambulara pelo interior de Portugal, soubera que o exército de que fizera parte andava agora roto e disperso, a tropa andava descalça e violentando mulheres, "cobrando, enfim, a dívida de quem nada lhes devia e sofria de desespero igual."

      Baltazar dirigia-se agora para Lisboa, credor de uma mão que perdera na guerra:

      "Veio andando devagar. Não tem ninguém à sua espera em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade, se pai e mãe se lembram dele, julgam-no vivo porque não têm notícias de que esteja morto, ou morto porque as não têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará por saber-se com o tempo."

      Leva os ferros no alforge porque, em dados momentos, sente que ainda tem a mão e, por isso, se sente mais livre e feliz. É como se escondesse de si mesmo esta infelicidade:

      "E quando esta noite sonhar, se a si próprio se olhar no sono, ver-se-á sem que nada lhe falte e poderá apoiar a cabeça cansada nas palmas das duas mãos."

      Passa por Pegões e ali matará um homem, entre dois que o quiseram roubar, mesmo que os avisasse que nada portava de valor. Observe o narrador em foco cambiante:

      "Matará adiante um homem, de dois que o quiseram roubar, mesmo tendo-lhes ele gritado que não levava dinheiros, porém vindo nós de uma guerra onde vimos morrer tanta gente(...)"

      Baltazar sonha frequentemente que ainda tem a mão que perdera; anda descalço: "Não há pior vida que a do soldado."

      De barco, terminou o percurso e chegou a Lisboa, finalmente. O cais imundo, com seus cheiros, aguça os sentidos de Baltazar e torce-lhe o estômago, mas ele tem esperanças de que o indenizem pela mão perdida. De longe, vê o palácio de D. João V e vendo passar as pessoas, dá-lhe uma enorme saudade da guerra. Andou por bairros e praças e , por fim, à tarde, foi beber um caldo à portaria do convento de São Francisco.

      Conhece João Elvas, soldado como ele, um pouco mais velho. Ambos pobres, perdidos por Lisboa, procuram um lugar para dormir: dormiram entre homens, uns temendo os outros, contando casos de assassinatos e mortes.

      Quinto

      "Olhaste-me por dentro..."

      D. Maria Ana está de luto pela morte do irmão José, imperador da Áustria, que morreu de varíola. Apesar de grávida, sangraram-na três vezes e deixaram-na tão debilitada a ponto de estar abatida.

      O palácio também está triste, o rei declarou luto oficial; mas a cidade, esclarece o narrador, está alegre:

      "Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras muiçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro pessoas que hoje saem, as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes e impiedades, sendo cinqüenta e um os homens e cinqüenta e três as mulheres."

      Hoje vai haver um auto-de-fé, é um domingo e os moradores gostam de assistir aos tormentos impostos aos condenados. O rei jantará na Inquisição junto com os irmãos, os infantes, a rainha, pelo motivo exposto, não participará da festa. Abunda a comida, o rei é sóbrio e não bebe vinho.

      "Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos à frente, trazendo a bandeira de S. Domingos, e os inquisidores depois, todos em comprida fila, até aparecerem os sentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazem círios na mão, ao lado os acompanhantes, e tudo são rezas e murmúrios, por diferenças de gorro e sambenito se conhece quem vai morrer e quem não, embora um outro sinal haja que não mente, que é ir o alçado crucifixos de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira, pelo contrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que desta escaparão com vida, maneira simbólica de se entenderem todos que trazem vestido, e isso sim, é tradução visual da sentença, o sambenito amarelo com a cruz de Santo André a vermelho para os que não mereceram a morte(...)"

      O povo furioso grita impropérios aos condenados, as mulheres , debruçadas nos peitoris, guincham: "a procissão é uma serpente enorme". Entre as pessoas, está Sebastiana Maria de Jesus, a mãe de Blimunda , "um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfêmias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola."

      Procura aflitamente pela filha, que imaginava estar condenada também a degredo e de quem não ouviu o nome. Vê a filha entre as pessoas que acompanham o auto, mas sabe que ela não poderá falar-lhe, sob pena de condenação:

      "(...) e ao lado dela está o padre Batolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltazar Mateus, também me chamam Sete-Sóis."

      Aqui encontramos, pela primeira vez juntas, as três personagens protagonistas deste romance. Blimunda indaga o nome a Baltazar. Não se dirige à mãe, "Porém, agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água."

      O padre e Baltazar estavam com ela em casa:

      "Baltazar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra."

      Baltazar nem sabia por que viera àquela casa; depois do auto-de-fé viera a ela com padre Bartolomeu Lourenço; Blimunda deixara a porta aberta para que Baltazar entrasse. Ele viera atrás, o padre acendera a candeia e Blimunda esquentou a sopa para os três.

      Havia somente uma colher. O padre comeu primeiro e passou-a a Baltazar e, depois, pegando a colher de que se servira o soldado, dirigiu-se à Blimunda:

      "Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de ser perguntada, Então declaro-vos casados."

      Casados...

      O padre deitou a bênção em tudo quanto cercava o casal e saiu.

      Blimunda jura que nunca olhará por dentro de Baltazar , ele retruca que ela já o fez: "Juras que não o farás, e já o fizeste."

      Deitaram-se. Blimunda era virgem e entrega-se a ele. Com o sangue que correu dela, persignou-se, fez uma cruz sobre o peito de Baltazar. E quando amanheceu, ele viu Blimunda deitada a seu lado, de olhos fechados, a comer pão.

      Quando terminou de comer, abriu os olhos e disse: "Nunca te olharei por dentro."

      Sexto

      "Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples

      coisa comparando com Blimunda."

      O narrador fala sobre comer pão e de como, em Portugal, não há trigo que baste ao perpétuo apetite de pão dos portugueses. Divaga sobre esse hábito antigo e arraigado ao povo daquele país.

      Corre um boato de que os franceses estão para invadir Portugal, mas chega, na verdade, uma frota francesa trazendo bacalhau, o que andava em falta. Baltazar imagina como se sentem os soldados que esperavam pela batalha, "sabe como bate então o coração, que irá ser de mim, se daqui a pouco ainda estarei vivo, apura-se um homem à altura da possível morte e depois vêm dizer-lhe que estão a descarregar fardos de bacalhau na Ribeira nova, se os franceses vêm a saber do engano, ainda se rirão mais de nós."

      O soldado que mora em Baltazar sente saudades da guerra, mas imagina que se para lá fosse teria muitas saudades, demasiadas, de Blimunda, de quem ainda não consegue decifrar direito a certa cor dos olhos.

      Estavam Baltazar e João Elvas no Terreiro do Paço, conversando , quando viram sair do palácio o padre Bartolomeu de Gusmão; João Elvas o aponta como "o Voador". O padre chama Baltazar a um lado e diz que, após ter falado aos desembargadores sobre a pensão de guerra pretendida pelo soldado, por ter perdido nela a mão, responderam a ele que "iam ponderar o teu caso, se vale a pena fazeres petição, depois me darão uma reposta."

      Baltazar pergunta quando poderá obter a resposta e Bartolomeu diz que não sabe, mas promete pessoalmente falar ao rei, "que me distingue com sua estima e proteção." O soldado espanta-se ao saber que o padre privava da amizade do rei e nada fez para salvar a mãe de Blimunda, que também era sua conhecida: "que padre é este padre, palavras estas últimas que Sete-Sóis não terá dito em voz alta, só inquieto as pensou."

      O narrador fala sobre Bartolomeu de Gusmão, brasileiro que novo ainda foi estudar em Portugal e que, pela sua genealidade e inteligência, ficou de todos conhecido e admirado.

      Baltazar pergunta a ele por que o apelidaram O Voador. O padre diz porque voara:

      "Com perdão da confiança, só os pássaros voam, e os anjos, e os homens quando sonham, mas em sonhos não há firmeza, Não tens vivido em Lisboa, nunca te vi, Estive na guerra quatro anos e a minha terra é Mafra, Pois eu faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão que ardeu, depois construí outro que subiu até ao teto duma sala do paço, enfim outro que saiu por uma janela da Casa da Índia e ninguém tornou a ver, Mas voou em pessoa, ou só voaram os balões, foi o mesmo que ter voado eu."

      Bartolomeu se queixa de que as pessoas não o compreendem e diz temer o Santo Ofício, por isso tem amizades que o defendam e é cheio de precauções. O soldado, então, pergunta a ele, que conhecia a mãe de Blimunda e sabia-lhe as artes, por que a moça sempre come pão antes de abrir os olhos.

      " Porque come Blimunda pão antes de abrir os olhos de manhã, Sim, Se o vieres a saber um dia, será por ela, por mim não, Mas sabe a razão, Sei, E não ma diz, Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples coisa comparando com Blimunda."

      Bartolomeu convide Baltazar para ir a S. Sebastião da Pedreira ver a máquina que estava construindo; aluga uma mula, mas Baltazar vai a pé; o padre lhe diz que cham por ironia o seu objeto voador de "passarola" . Ao chegar ao portão da quinta do duque, onde está a máquina voadora, o padre tira a chave do bolso e abre o portão, depois conduz Baltazar até o celeiro:

      "O padre retirou a tranca, empurrou a porta, afinal não estava vazia a grande casa, viam-se panos de vela, barrotes, rolos de arame, lamelas de ferro, feixes de vimes, tudo arrumado por espécies, em boa ordem, e , ao meio, no espaço desafogado, havia o que parecia uma enorme concha, toda eriçada de arames, como um cesto que, em meio ao fabrico, mostra as guias do entrançado. "

      Bartolomeu indica-lhe leme, velas e mastro e o convida para trabalhar para ele, o que assusta o soldado, que se considera, na realidade, um homem do campo e, ainda por cima, maneta:

      "Com essa mão e esse gancho podes fazer tudo quanto quiseres, e há coisas que um gancho faz melhor que a mão completa, um gancho não sente dores se tiver de segurar um arame ou um ferro, nem se corta, nem se queima, e eu te digo que maneta é Deus, e fez o universo. (...)

      Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda."

      Sete-Sóis ouvira com atenção a explicação do padre e levantando um pouco os braços, tomado de coragem, disse:

      "Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar."

      Sétimo

      "Todos os homens são reis, rainhas são todas as mulheres,

      e príncipes os trabalhos de todos."

      O padre arranjou emprego para Baltazar, enquanto não pode, por falta de dinheiro, continuar a construir a passarola. O Sete-Sóis trabalha num açougue do Terreiro do Paço, transportando peças de carne nas costas. Podem, então, ele e Blimunda, comer melhor, com o que ganha de resto, "querendo Deus e o humor do açougueiro".

      D. Maria Ana está no fim da gravidez, bojuda "como uma nau da Índia". Holandeses invadem Pernambuco, naus trazem carregamento da China, há lutas no Recife, mas nada disso interessa à rainha que "está flutuando, indiferente, no seu torpor de grávida".

      O narrador nos anuncia que "D. João V vai ter de contentar-se com uma menina. Nem sempre se pode ter tudo(...)"

      Batizaram a princesa, no dia de Nossa Senhora do Ó , sete bispos e "ficou a chamar-se Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara, logo ali com o título de Dona adiante, apesar de tão pequena ainda, está ao colo, baba-se e já é dona(...) Do tio e padrinho, D. Francisco, ganhou uma cruz de brilhantes, pouco, perto do que a mãe recebera do cunhado: brincos de diamantes, de alto valor.

      Baltazar e Blimunda foram ver a festa, ele mais cansado, de tanto carregar tanta carne para o banquete; e dói-lhe a mão esquerda, na qual usa o gancho para tais finalidades; Blimunda segura-lhe a mão direita. Frei Antônio morrera pouco antes, sem ter visto o fruto de sua premonição.

      Oitavo

      "Eu posso olhar por dentro das pessoas."

      "Dorme Baltazar no lado direito da enxerga, desde a primeira noite aí dorme, porque é desse lado o seu braço inteiro, e ao voltar-se para Blimunda pode, com ele, cingi-la contra si, correr-lhe os dedos desde a nuca até à cintura, e mais abaixo ainda se os sentidos de um e de outro despertaram no calor do sono e na representação do sonho."

      Baltazar acorda sempre cedo, antigo hábito de soldado, e o narrador nos anuncia que o ano mudou já, distante aquele dia em que ambos se conheceram e se amaram pela primeira vez. Todos os dias, antes que nascesse o sol, Blimunda acordava e, antes de abrir os olhos, comia o pão que deixava de propósito no alforje.

      Baltazar, hoje, escondera-lhe o pão: "Hoje se saberá.", anuncia o narrador pondo-a diante de nós a buscar e tatear o que o soldado havia escondido. Baltazar avisa a mulher que escondera o pão; ela grita, apavorada, brava:

      Não me faças isso, e foi o grito tal que Baltazar a largou, assustado, quase arrependido da violência, Eu não te quero fazer mal, só queria saber que mistérios são, Dá-me o pão, e eu digo-te tudo, Juras, Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não, Aí tens, come, e Baltazar tirou o taleigo de dentro do alforje que lhe servia de travesseira.

      Cobrindo o rosto com o antebraço, Blimunda comeu enfim o pão. Mastigava devagar. Quando terminou, deu um grande suspiro a abriu os olhos."

      Confessa a ele que "enxerga as pessoas por dentro", caso esteja em jejum, por isso come o pão, mastigando-o vagarosamente antes de abrir os olhos: "Que poder é esse teu, Vejo o que está por dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo o que está por baixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o quarto da lua, mas volta logo a seguir, quem me dera que o não tivesse, Por quê, Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver-se, Mesmo a alma, já viste a alma, Nunca a vi, Será porque não se possa ver, Será, e agora larga-me, tira a perna de cima de mim, que me quero levantar."

      Durante todo o dia, no trabalho, duvidou Baltazar se tivera ou não tal conversa com a mulher que amava, achando que sonhara. À noite, combinaram que , dia seguinte, sairiam cedo, ela na frente, sem comer, ele atrás, sem ser visto por dentro e caminhariam pela cidade. Assim foi. Blimunda indica o lado de dentro das pessoas: uma mulher com uma criança no ventre, mas o bebê tem duas voltas do cordão enrolado no pescoço; vê um um peixe gigante, fossilizado, sob o granito, um frade com suas bichas. E indica-lhe um lugar, onde pede que ele cave com o gancho, à procura da moeda que ali se encontra.

      Pede que a leve para casa, não quer mais ver.

      Da tença que pediu ao padre Bartolomeu, nada de notícias ainda; e sabe que o mandarão embora do açougue logo que possam se livrar dele; restará, no entanto, a portaria dos conventos onde se oferecem caldos: é difícil morrer de fome em Lisboa.

      O infante D. Pedro é nascido e quatro bispos o batizaram.

      "Baltazar conta a Blimunda casos da sua guerra, e ela segura-lhe o gancho do braço esquerdo como se a verdadeira mão segurasse, é o que ele está sentindo, a memória da sua pele sentindo a pele de Blimunda."

      O rei foi a Mafra escolher onde se construiria o convento prometido.

      Nono

      "É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou

      torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais

      no pano de vela, mas as coisas obedecem mal quando

      lhes falta a carícia da pele humana(...)"

      Blimunda e Sete-Sóis foram trabalhar na quinta do duque de Aveiro, a pedido do padre. Levavam um quase nada como mudança, tão pouco os haveres dos dois; e a moça deixou para sempre o lugar em que nascera, onde viveu Sebastiana Maria de Jesus.

      "Descansaram aqui e além no caminho, calados, nem tinham o que dizer, se até uma simples palavra sobra se é a vida que está mudando, muito mais que estarmos nós mudando nele. Quanto à leveza do fardo, assim deveria ser de cada vez, levarem consigo mulher e homem o que têm, e cada um deles ao outro, para não terem de tornar sobre os mesmos passos, é sempre tempo perdido, e basta."

      Passam a morar ali; Blimunda cata os bichos do cabelo de Baltazar, mas ele pouco pode ajudá-la: falta-lhe a mão com que mate o inseto. Mas nem sempre o trabalho pode ser completo para Sete-Sóis: "Não é verdade que a mão esquerda não faça falta. Se Deus pode viver. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto, quantas vezes já teve Blimunda de vir limpar o sujo que ficou agarrado às costas da mão e doutro modo não sairia, são os desastres da guerra, mínimos estes, porque muitos outros soldados houve que ficaram sem os dois braços, ou as duas pernas, ou as suas partes de homem, e não têm Blimunda para ajudá-los ou por isso mesmo a deixaram de ter. É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais no pano da vela, mas as coisas obedecem mal quando lhes falta a carícia da pele humana(...)"

      Uma vez ou outra, levanta-se Blimunda mais cedo, e sem pôr os olhos em Baltazar, vai inspecionar o trabalho da passarola, a ver se descobre bolha de ar entrançada nos escondidos do ferro utilizado. Vai desvendando onde o ferro é frágil e disso gosta o padre: "Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras(...)"

      De vez em quando, o padre vem por lá a experimentar para aquelas paredes os sermões que compõem, enquanto Blimunda varre o pátio e Baltazar bate os ferros que compõem a passarola. O padre observa que precisa construir ali uma forja para que possam fundir os ferros.

      Anuncia-lhes, ainda, que vai para a Holanda, onde pretende aprender a arte de comandar o éter, o que fará subir a nave até onde queira.

      "Deitou o padre Bartolomeu Lourenço a bênção ao soldado e à vidente, eles beijaram-lhe a mão, mas no último momento se abraçaram os três, teve mais força a amizade que o respeito, e o padre disse, Adeus Blimunda, adeus Baltazar, cuidem um do outro e da passarola, que eu voltarei um dia com o que vou buscar(...) " Montou na mula e partiu.

      Baltazar e Bliunda despedem-se de Lisboa e vão a uma tourada; na madrugada seguinte,os dois partem para Mafra.

      Décimo

      "Há muitos modos de se juntar um homem e uma mulher."

      Baltazar foi recebido pelo pai e pela mãe, que demonstraram por ele muitas saudades. Contou-lhes a guerra, a mão perdida e apresentou-lhes Blimunda. Tiveram alguma dúvida sobre ela, mas esta contou-lhes a vida, a de sua mãe, negou ser judia e acabou tocando o coração de Marta Maria, a sogra.

      A única irmã de Baltazar, Inês Antônia, casara-se com Álvaro Pedreiro e já tinha dois filhos.

      Baltazar dispõe-se a arrumar trabalho para si e Blimunda, mas Marta diz que prefere que ela fique, para que possa conhecê-la devagar. Blimunda , ao ver os filhos de Inês, sabe que o mais velho vai morrer de bexigas ( varíola) e que só o mais novo sobrará.

      Em Lisboa, a rainha engravida novamente. D. Pedro morrerá e o novo infante será rei "o que daria matéria para outro memorial e outros abalos, e se alguém tiver curiosidade de saber quando equilibrará Deus este nascimento real com um popular nascimento, equilibrará sim, mas não por via destes homens mal conhecidos e destas mulheres por adivinhar, que não quererá Inês Antônia que outros filhos lhe morram, e Blimunda desconfia que possui artes misteriosas para não os ter."

      Baltazar ajuda o pai no campo, onde, por força da mão perdida, tem que reaprender cada coisa. Ainda tenta auxiliar o cunhado na construção da quinta dos viscondes de Vilanova e pela primeira vez lhe ocorre que poderia ter perdido uma perna, em vez do braço, seria bem mais fácil, dessa forma, viver. Todos esperam que se inicie a construção do convento, aí, sim, haverá trabalho para todos.

      Em Lisboa, o rei anda doente e de vez em quando lhe dão confissão e extrema-unção; vai para Azeitão ver se com mezinhas se curam estas melancolias de que sofre. D. Francisco fica em Lisboa, a tramar a sua vida e a do próprio irmão; pela cabeça dele passam pensamentos esquisitos como casar-se com a cunhada. Por sua vez, D. Maria Ana tem sonhos que considera "fraquezas de mulher guardadas no meu coração e que nem ao confessor confesso."

      Confessam-se ambos o amor que nutrem um pelo outro, mas D. João se salvará e nunca mais D. Maria reviverá tais sonhos ou conversas com o cunhado.

      Décimo primeiro

      "Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram

      o mundo na sua órbita."

      O padre Bartolomeu regressou da Holanda, não sabemos se trouxe ou não os segredos que buscava. Foi à Quinta de S. Sebastião da Pedreira: três anos inteiros haviam se passado e tudo estava abandonado, o material que trabalhara disperso pelo chão, "ninguém adivinharia o que ali se andara perpetrando." O padre vê rastros de Baltazar, mas não os vê de Blimunda e julga que ela morrera. Depois, parte para Coimbra, não sem antes passar por Mafra, onde vai ver os homens que iniciam o trabalho do Convento.

      Procurou por Baltazar e Blimunda, ao pároco, informa que os casara em Lisboa, "(...)contente por assim ter mentido à face de Deus saber que Deus não se importava, um homem tem de saber, por si próprio, quando as mentiras já nascem absolvidas."

      Blimunda veio abrir a porta e reconheceu-o pelo vulto, quando desmontava. Beijou-lhe a mão. Marta Maria estranhou que sua nora fosse abrir a porta a quem não batesse ainda. Mais tarde, chegam Baltazar e o pai e aquele, por convivência com Blimunda, ao ver a mula adivinha tratar-se do padre.

      Marta Maria, que já desconfiava ter uma "nascida"( tumor) no ventre, lamenta nada ter a oferecer ao padre, nem comida — a não ser o galo -, nem abrigo para passar a noite.

      O padre Bartolomeu dorme na casa do pároco e, pela madrugada, chegam Blimunda e Baltazar. Ela sem comer. Bartolomeu os ama, eles sabem:

      "No mundo, tenho-te a ti, Blimunda, a ti, Bltazar, estão no Brasil meus pais, em Portugal meus irmãos, portanto pais e irmãos tenho, mas para isto não servem irmãos e pais, amigos se requerem, ouçam então, na Holanda soube o que é o éter, não aquilo que geralmente se julga e ensina, e não se pode alcançar pelas artes da alquimia, para ir buscá-lo lá onde ele está, no céu, teríamos nós de voar e ainda não voamos, mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive dentro dos homens e das mulheres."

      Baltazar pergunta se o éter é a alma e o padre diz que não, que é da vontade dos vivos que ele se compõe. Blimunda espantou-se e o padre pediu que ela o olhasse por dentro. Ela viu uma nuvem escura, à altura do estômago. Era a vontade, diferente da alma, o que faria voar a passarola.

      Bartolomeu montou na mula, disse que ia a Coimbra e que , quando retornasse à Lisboa, mandaria avisar os dois para que lá tivessem. Baltazar ofereceu o pão à Blimunda, mas ela pediu, primeiro, pra ver a vontade dos homens que trabalhavam no convento.

      Décimo segundo

      "(...) na vida, tem cada um sua fábrica, estes ficam aqui a levantar paredes,

      nós vamos a tecer vimes, arames e ferros, e também a recolher vontades,

      para que com tudo junto nos levantemos, que os homens são anjos nascidos

      sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer."

      O filho mais velho de Inês Antônia e Álvaro Diogo morreu há três meses, de bexigas. Álvaro tem a promessa de conseguir emprego na construção do convento; Marta Maria sofre de dores terríveis no ventre. João Francisco está infeliz porque o filho partirá novamente para Lisboa, e o convento dará trabalho a muitos homens.

      Blimunda foi a missa em jejum e viu que dentro da hóstia também havia a tal nuvem fechada, vontade dos homens...

      O padre Bartolomeu de Gusmão escreve de Coimbra e diz ter chegado bem, mas agora viera uma nova carta para que seguissem para Lisboa "tão cedo pudessem". Partiram em dois meses, porque o rei vinha a Mafra inaugurar a obra do convento. Sete-Sóis e Blimunda conseguiram lugar na igreja: "Tocava airoso o órgão, sopravam os músicos entoavam as vozes os cantores, e, cá fora, o povo que não coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e assim acabou o primeiro dia." No dia seguinte formou-se a procissão, o rei apareceu. A pedra principal foi benzida; foi tanta a pompa que gastaram-se nisso duzentos mil cruzados.

      Partiram Baltazar e Blimunda para Lisboa. A mãe Marta Maria se despede do filho dizendo que não o tornará a ver. Blimunda e Sete-Sóis dormem na estrada:

      "De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, abrindo e fechando os braços, segurando debaixo do queixo as dobras feitas, depois descendo as mãos ao centro do seu próprio corpo e aí fazendo a dobra final, quem para ela olhasse não diria que tem estranhos poderes de ver, que, se esta noite estivesse fora do seu corpo, a si se veria debaixo de Baltazar, em verdade, de Blimunda se pode afirmar que vê os seus próprios olhos vendo."

      Por fim, chegaram à quinta onde esperariam o padre voador. Mal chegaram, choveu.

      Décimo terceiro

      "São ditos de maneta e visionária, ele porque lhe falta,

      ela porque lhe sobra."

      Os arames e os ferros enferrujaram-se e os panos da passarola cobrem-se de mofo; o vime, ressequido, destrança-se: "obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína." Baltazar experimenta os ferros, tudo perdido, melhor começar outra vez.

      Enquanto o padre não chega, constrói-se a forja, vai-se a um ferreiro e vê como se faz o fole.

      Quando Bartolomeu de Gusmão chegou e viu o fole pronto, peça por peça desenhada e feita por Sete-Sóis, ficou contente e disse: "Um dia voarão os filhos do homem."

      Encomendou a Blimunda duas mil vontades dos homens e mulheres que morreriam a fim de que, junto com âmbar e ímãs, pudessem fazer subir a nau que agora construíam: "(...) mas as vontades são, de tudo, o mais importante, sem elas não nos deixaria subir a terra"

      O padre distribui tarefas, indica a Sete-Sóis onde comprar ferro, vime e peles para os foles, pede segredo absoluto de tudo o que estão a fazer. "Tornou o padre aos estudos, já bacharel, já licenciado, doutor não tarde, enquanto Baltazar chega os ferros à forja e os tempera na água, enquanto Blimunda raspa as peles trazidas do açougue, enquanto ambos cortam o vime e trabalham à bigorna."

      Trabalham na passarola quase um ano inteiro, procissões passam em delírio pelas ruas, povo misturado ao clero, clero misturado aos nobres.

      Décimo quarto

      "Tendes razão, disse o padre, mas, desse modo, não está o homem livre

      de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre

      também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a

      verdade."

      "Então, ao homem nada é impossível."

      O padre Bartolomeu Lourenço voltou a Coimbra já doutor em cânones, e agora pode ser visto na casa de uma viúva. D. João manda vir da itália o maestro barroco Domênico Scarlatti, a fim de dar lições de música a sua filha, a infanta D. Maria Bárbara. Maestro e padre tornam-se amigos, comungando as mesmas idéias e sonhos. Confiante no amigo, o padre leva-o a S. Sebastião da Pedreira:

      "No dia seguinte, cavalgou cada um a sua mula e foram a S. Sebastião da Pedreira. Entre o palácio, de um lado, e o celeiro e a abegoaria, do outro, o pátio apresentava-se varrido. Corria água numa caleira, ouvia-se girar uma nora. Os canteiros próximos estavam cultivados, as árvores de fruto tinham sido limpas e podadas, à vista nada havia que pudesse lembrar a brava selva de há dez anos, quando pela primeira vez Baltazar e Blimunda aqui entraram. Lá para diante, a quinta continua inculta, por força assim tem de ser, se para trabalhar a terra só há três mãos, e essas ocupadas, grande parte do tempo, em obra que da terra não é. De dentro da abegoaria, portas abertas, vêm rumores de oficina."

      Padre Bartolomeu apresenta os amigos e a passarola a Scarlatti. Blimunda chega da horta trazendo "brincos de cereja", a fim de brincar com Baltazar. Quando os viu, o músico pensou: Vênus e Vulcano... É bom você se lembrar disso também: o mito que rege o livro é exatamente este: Vênus e Vulcano, a deusa da beleza e o feio e desengonçado, manco Vulcano, filho feito somente por Hera, a quem horrorizou o nascimento de filho tão feio... "Perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, sabe ele lá como é o corpo de Blimunda debaixo das roupas grosseiras que veste, e Baltazar não é apenas o tição negro que parece, além de não ser coco como foi Vulcano, maneta sim, mas isso também Deus é. Sem falar que a Vênus cantariam todos os galos do mundo se tivesse os olhos que Blimunda tem, veria facilmente nos corações amantes, em alguma coisa há-de um simples mortal prevalecer sobre as divindades. E sem contar que sobre Vulcano também Baltazar ganha, porque se o deus perdeu a deusa, este homem não perderá a mulher."

      Veja agora que metonímias ( parte pelo todo) aparecerão encadeadas neste trecho:

      "Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, se não outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltazar, cascosa como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exata de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei se estivesse aqui faria o mesmo, e por pequenas coisas assim que se v6e serem os homens realmente iguais."

      O padre diz a Scarlatti que ele e Baltazar têm, ambos, 35 anos e que não poderiam ser pai e filho, mas poderiam ser irmãos; portanto, desde o

      começo da história, o tempo que se passou pode ser contado: nove anos.

      Mostrada a passarola por dentro, retira-se o músico, mas promete voltar e trazer o cravo, que tocará enquanto Blimunda e Baltazar trabalham. O padre lá permaneceu, onde treinou seu sermão para que os dois ouvissem. Discutem sobre Deus uno, trino: "Deus não fica no homem quando quer, mas quando o homem o deseja tomar."

      Blimunda adormeceu, com a cabeça apoiada no ombro de Baltazar; um pouco mais tarde ele a levou para dormir. O padre saiu para o pátio, e toda a noite ali permaneceu, tomado por tentações.

      Décimo quinto

      "A música é outra coisa."

      Domênico Sacarlatti trouxe seu cravo para a abegoaria, por conta de dois carregadores que o trouxeram apenas até o portão, impedidos de ver a passarola ou desconfiar dela. Chegou o maestro nessa tarde e o afinou porque os homens tinham-no trazido sem cuidados pela estrada.

      "Ao fim de uma hora levantou-se Scarlatti do cravo, cobriu-o com um pano de vela, e depois disse para Baltazar e Blimunda, que tinham interrompido o trabalho, Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música, e Baltazar , lembrando-se da guerra, Se não for inferno todo o céu."

      Muitas vezes voltou o maestro à quinta e pedia que não parassem o trabalho; ali, em meio aos ruídos e grandes barulhos, confusão, tocava seu cravo.

      Há um surto de varíola em Lisboa, oriundo de uma nau vinda do Brasil. O padre pede à Blimunda que vá à cidade e recolha as vontades das pessoas. É assim que ela, em jejum, um dia inteiro se põe a recolher tais vontades. Um mês depois , são mais de mil vontades presas ao frasco em que Blimunda as recolhia.; e quando a epidemia terminou, ela havia aprisionado duas mil vontades.

      Foi então que Blimunda caiu doente. Nada a curava da extrema magreza; mas um dia, Scarlatti pôs a tocar e ela abriu os olhos e chorou. O maestro veio , então, todos os dias, havendo chuva ou sol; e a saúde de Blimunda voltou depressa.

      Um dia , Baltazar e Blimunda vão à Lisboa e encontram Bartolomeu doente, magro e pálido. Parecia ter medo de algo.

      Décimo sexto

      "Bem sabem que, querendo o Santo Ofício, são más todas as razões boas."

      O duque de Aveiro está por voltar , Blimunda e Sete-Sóis querem saber que destino darão às suas vidas. Morre o Infante D. Miguel por salvar D. Francisco, dizem que o reino está mal governado.

      "Mas o padre anda inquieto, dir-se-ia que não crê no que diz, ou tem o que diz tão pouco valor que não lhe alivia outras inquietações, por isso Blimunda pergunta, em voz muito baixa, é noite, a forja está apagada, a máquina ali continua, mas parece ausente, Padre Bartolomeu Lourenço, de que é que tem medo, e o padre, assim interpelado diretamente, estremece, levanta-se agitado, vai até à porta, olha para fora, e, tendo voltado, responde em voz baixa, Do Santo Ofício. Entreolharam-se Baltazar e Blimunda, e ele disse, Não é pecado, que eu saiba, nem heresia, querer voar, ainda há quinze anos voou um balão no paço e daí não veio mal, Um balão é nada, respondeu o padre, voe agora a máquina e talvez o Santo Ofício considere que há arte demoníaca nesse vôo, e quando quiserem saber que partes fazem navegar a máquina pelos ares, não poderei responder-lhes que estão vontades humanas dentro das esferas, para o Santo Ofício não há vontades, há só almas, dirão que as mantemos presas, a almas cristãs, e as impedimos de subir ao paraíso."

      Blimunda diz ao padre saber que o Santo Ofício se aproxima dele e Bartolomeu fica com medo de que o acusem de haver se convertido ao judaísmo ( isso realmente aconteceu na história real de Bartolomeu Lourenço de Gusmão), que se entrega a feitiçarias. Presos à quinta, os dois vêem passar os meses; um dia, ouvem a mula do padre bater os cascos nas pedras:

      "O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse apodrecendo. Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me, onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estào aqui, e Baltazar perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui. Baltazar e Blimunda olharam-se demoradamente, Estava escrito, disse ele, Vamos, disse ela."

      Eram duas horas da tarde e havia muito trabalho a fazer, não poderiam mais perder sequer um minuto. retiraram as telhas, colocaram as bolas de âmbar nos cruzamentos dos arames, abriram as velas superiores. Blimunda está calma, como se em toda a sua vida nada mais tivesse feito senão voar. Às quatro horas está tudo pronto; o cravo ficará lá, a fim de despertar a curiosidade dos inquisidores.

      "Agora, sim, podem partir. O padre bartolomeu Lourenço olha o espaço celeste descoberto, sem nuvens, o sol que parece uma custódia de ouro, depois Baltazar que segura a corda com que se fecharão as velas, depois Blimunda, prouvera que adivinhassem os seus olhos o futuro, Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltazar, não o fez logo Baltazar, tremeu-lhe a mão, que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar, para onde. Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltazar, e, num só movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu toda para um lado, o sol bateu em cheio nas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós."

      Subiu a passarola. Baltazar e Blimunda foram lançados ao chão, Bartolomeu controlou-a e chamou os dois:

      "Por obra da mão direita de Baltazar, aqui te levo, Deus, um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo."

      Já não tinham medo de nada, ela e Baltazar. Quando Sete-Sóis viu que voavam tão belamente, pôs-se a chorar; aquele homem tão forte, que já estivera na guerra e já matara um homem com seu espigão, chorava agora de felicidade. Abraçaram-se os três

      e ainda tiveram tempo de ver, do alto, os homens que os perseguiam. Nada foi achado na quinta a não ser vestígios, nem o cravo se achou porque Scarlatti, indo visitar a quinta, viu quando os três fugiam às pressas na passarola. Entrando, deu fim ao cravo, jogando-o no poço.

      Quando, finalmente, passam por sobre Mafra, velejam sobre as obras do convento e as pessoas, tantas, julgam ter visto ali, naquela hora, passar sobre eles o Espírito Santo. A máquina pousara, o padre, falando a pessoas invisíveis, parece ter enlouquecido. Quando ambos dormem, o padre tenta atear fogo à máquina , mas Baltazar e Blimunda, sacudidos do sonho, salvam a passarola.

      Ao amanhecer, dão pelo desaparecimento de Bartolomeu de Gusmão. Fingindo vir de Lisboa, chegam a Mafra. Ouvem os homens estarrecidos contarem sobre a passagem do Espírito Santo sobre o convento.

      Décimo sétimo

      Num tempo em que sucedem tantos prodígios, Blimunda e Sete-Sóis não podem comentar que voaram porque estariam perdidos. Estavam todos na casa dos pais de Baltazar, o pai estava triste pela morte da mãe, mas Inês Antônia contou-lhes, maravilhada, os prodígios do Espírito Santo.

      Na manhã seguinte, Baltazar sai de casa com o cunhado e vai em busca do emprego na obra da construção do convento. A Mafra, chegam notícias de que Lisboa sofreu um terremoto, não muito danoso, apenas caíram beirais:

      "Passam mais de dois meses que Baltazar e Blimunda chegaram a Mafra e cá vivem. Em um dia santo, parado o trabalho na obra, fez Baltazar uma jornada e foi ao Monte Junto ver a máquina de voar. Estava no mesmo sítio, na mesma posição, descaída para um lado e apoiada na asa, debaixo de uma cobertura de ramagens já secas."

      Cuida dela , esconde-a melhor. Dois meses mais tarde, vê Blimunda que, como sempre, vem esperá-lo no caminho. Ao vê-la toda trêmula e nervosa, presume que o pai está doente, mas não. Blimunda lhe conta que Scarlatti está na casa do visconde. No outro dia, desconfiada de que ele viera delatá-los, rondou o palácio. Scarlatti tinha feito um pedido ao rei para que pudesse pôr os olhos sobre a construção do convento e o visconde o hospedara, apesar de não gostar de música.

      Mas encontram-se, e se falam: "Vim te dizer e a Baltazar, que o padre Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, que é em Espanha, para onde tinha fugido, dizem que louco, e como não se falava de ti nem de Baltazar, resolvi vir a Mafra saber se estavam vivos. Blimunda juntou as mãos, não como se rezasse, mas como quem estrangula os próprios dedos, Morreu, Foi essa a notícia que chegou a Lisboa, Na noite em que a máquina caiu na serra, o padre Bartolomeu Lourenço fugiu de nós e nunca mais voltou."

      No dia seguinte, o música vai embora, mas no caminho esperam-no , para se despedirem, Baltazar e Blimunda. Scarlatti vai triste.

      Décimo oitavo

      "De Portugal não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha

      para queimar, e homens para a força bruta, ciência pouca."

      O reino português vai cada vez melhor: diamantes, especiarias, impostos, milhões de cruzados se arrecadam. D. João V pensa o que fazer com tanto dinheiro, mas conclui que deve ser a alma a primeira a ser cuidada. Em Mafra, continua a construção do convento.

      "É sabido que Baltazar vai beber, mas não se embriagará. Bebe desde que soube da morte do padre Bartolomeu Lourenço, triste morte, foi um abalo muito grande, como um terremoto profundo que lhe tivesse rachados os alicerces, deixando embora, à superfície, as paredes aprumadas. Bebe porque constantemente se lembra da passarola, lá na serra do Barregudo, numa encosta do Monte Junto, quem sabe se jé encontrada por contrabandistas ou pastores, e só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro. Mas bebendo, sempre chega o momento em que sente pousar sobre o seu ombro a mão de Blimunda, não é preciso mais nada, está Blimunda sossegada em casa, Baltazar pega o púcaro cheio de vinho, julga que vai beber como bebeu os outros, mas a mão toca-lhe no ombro"

      Neste capítulo, Baltazar está rodeado pelos amigos que contam histórias; o narrador transfere a cada um deles a narrativa:

      "O meu nome é Francisco Marques, nasci em Cheleiros, que é aqui perto de Mafra, umas duas léguas..."

      "O meu nome é João pequeno, não tenho pai..."

      "Chamo-me Joaquim da Rocha, nasci no termo do Pombal..."

      "O meu nome é Manuel Milho, venho dos campos de Santarém..."

      "O meu nome é João Anes, vim do Porto e sou tanoeiro..."

      "O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo..."

      Cada um deles conta, em primeira pessoa, a sua história de família, destino e expectativas, e cada um deles é narrador em foco cambiante.

      Décimo nono

      " Tivessem morrido que iam logo direitos ao paraíso."

      Durante muitos meses, Baltazar havia puxado e empurrado carros de mão, até que um dia, com a promoção e ajuda de João Pequeno, começou a puxar uma junta de bois, fazendo companhia ao amigo corcunda. Se lá podia funcionar como boieiro um aleijado, podiam, então, ir dois.

      "Estava Baltazar há pouco tempo nesta sua nova vida, quando houve notícia de que era preciso ir a Pero Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava, destinada à varanda que ficará sobre o pórtico da igreja, tão excessiva a tal pedra que foram calculadas em duzentas as juntas de bois necessárias para trazê-la, e muitos os homens que tinham de ir também para as ajudas. Em Pero Pinheiro se construíra o carro que haveria de carregar o calhau, espécie de nau da Índia com rodas, isto dizia quem já o tinha visto em acabamentos e igualmente pusera os olhos, alguma vez, na nau da comparação. Exagero será, decerto, melhor é julgarmos pelos nossos prórpios olhos, com todos estes homens que se estão levantando noite ainda e vão partir para Pero Pinheiro, eles e os quatrocentos bois, e mais de vinte carros que levam os petrechos para a condução, convém a saber, cordas e calabres, cunhas, alavancas, rodas sobressalentes feitas pela medida das outras, eixos para o caso de se partirem alguns dos primitivos."

      Quando amanhece, logo que o dia nasceu, em meio ao calor de Junho, os homens saem a cumprir três léguas até o lugar onde está a pedra. Pelo tamanho, tal pedra espanta a todos que confessam nunca ter visto coisa igual na vida. Todos se dispuseram a cavar, a achar caminho, maneira ou jeito de levá-la a Mafra sem que quebrasse. O narrador lembra Arquimedes: "Dêem-me um ponto de apoio para vocês levantarem o mundo", parodia.

      Puxada a braço, lá vinha a pedra, em meio a um grande alarido das pessoas; depois, como que transportado para a guerra, Baltazar viu, num átimo de segundo, um esguiço de sangue: um homem se ferira, mas os esforço continuam.

      É extenuante ler o capítulo, pleno de descrições dos esforços para que tal pedra fosse removida: no primeiro dia, não avançaram mais do que quinhentos passos. Os homens dormem quando anoitece, alguns contam histórias sobre reis e rainhas.

      "O dia seguinte foi de grandes aflições. (...) Mas a aflição tornava-se agonia se o caminho era descer. A todo o momento o carro se escapava, era preciso meter-lhe logo os calços, desatrelar as juntas quase todas" Continuam as histórias contadas pelos homens, história sem pé nem cabeça, meninas com estrelas na testa, princesa que guardava patos.

      Francisco Marques, distraído, foi atropelado e morto pelo carro, a roda passou sobre o ventre, que ficou uma pasta de vísceras e ossos. Depois, ao chegarem ao fundo do vale, a plataforma desandou e atingiu dois animais: foi preciso que os matassem.

      "Dormiram ainda outra noite no caminho. Entre Pero Pinheiro e Mafra gastaram oito dias completos. Quando entraram no terreiro, foi como se estivessem chegando duma guerra perdida, sujos, esfarrapados, sem riquezas. Toda a gente se admirava com o tamanho desmedido da pedra, Tão grande. Mas Baltazar murmurou, olhando a basílica, Tão pequena."

      Vigésimo

      "Jamais se diga aconteça o que acontecer, porque podem sempre

      primeiro acontecer coisas com que não contávamos quando dissemos

      aconteça o que acontecer."

      Baltazar tinha ido seis ou sete vezes ao Monte Junto, a fim de ver a passarola, remediar-lhe os estragos que o tempo ia causando nela; como se se enferrujassem as lâminas de ferro, levou para lá uma panela de sebo e untou cuidadosamente as juntas, "renovando a operação de cada vez que lá voltava. também se habituara a transportar às costas um molho de vimes, que cortava numa terra meio alagadiça que lhe ficava em viagem, e com eles remendava as falhas e os rasgões do entrançado, nem sempre de causa natural, como quando encontrara dentro da carcaça da passarola uma toca com seis raposinhos."

      Pela primeira vez em três anos, Blimunda diz que quer ir junto para aprender o caminho: "(...) vais-te cansar, Quero conhecer o caminho, se alguma vez tiver de ir lá sem ti. Era uma boa razão, ainda que Baltazar não esquecesse a probabilidade do lobo, Aconteça o que acontecer, não vás nunca sozinha, os caminhos são ruins, o sítio ermo, se ainda te lembras, e não estás livres de que te assaltem feras, e Blimunda respondeu, Jamais se diga aconteça o que acontecer, porque sempre podem primeiro acontecer coisas com que não contávamos quando dissemos aconteça o que acontecer."

      Baltazar não quis que Blimunda caminhasse a pé e alugou um burro para a jornada que fariam. Inês Antônia preocupa-se e pergunta para aonde vão, mas Baltazar só diz ao pai, que Inês julga prestes a morrer. Conta-lhe o segredo, diz que o Espírito Santo era a passarola do padre, que vão ambos ao Monte Junto, na serra do Barregudo, a cuidar da nave. O pai acredita nele e o tranquiliza: "eu ainda não estou para morrer, quando chegar a ocasião, serei contigo onde estiveres."

      No caminho, cortou os vimes, colheu lírios d'água para Blimunda que fez deles uma guirlanda para enfeitar o burro. O tempo é de Primavera e as flores cobrem o campo, e Blimunda toma nota do caminho para, se precisar, reconhecê-lo depois, quando sozinha. Chegaram ao monte; Baltazar trabalhou, ferindo-se na mão. Tudo está em estado de decomposição; enquanto ela cosia as velas, ele azeitava as engrenagens. Dormiram depois de se procurarem cheios de amor um pelo outro e, ao amanhecer, sem olhar seu homem por dentro, Blimunda foi olhar as esferas e viu dentro delas as vontades presas. Comeu pão, Baltazar acordou e fizeram amor novamente.

      Pelo meio da manhã, acabaram o trabalho: por serem dois, a máquina estava como que renovada e se foram para Mafra outra vez.

      Morreu o pai de Baltazar, João Francisco: "João Francisco deixou um quintal e uma casa velha. Tinha um cerrado no alto da Vela. Levou anos a limpá-lo das pedras até que a enxada pudesse cavar em terra fofa. Não valeu a pena, as pedras já lá estão outra vez, afinal para que vem um homem a este mundo."

      Vigésimo primeiro

      "A obra é longa, a vida é curta."

      "Um homem nunca sabe quando a guerra acaba."

      D. João V continua a montar e desmontar a basílica de S. Pedro, "um lugar de fingimento onde nunca serão rezadas missas verdadeiras, embora Deus esteja em todo o lado." E mandou chamar o arquiteto de Mafra, um tal João Frederico Ludovice, a fim de pedir-lhe que construísse em Portugal uma basílica igual ao do Vaticano.

      O arquiteto concordou, mas achou-o néscio porque a obra exterior poderia ser a mesma, mas teria ele, o rei, que fazer nascer um pintor como Rafael, um Sangallo, um Peruzzi , para a fazer valer algo. E acrescentou:

      "A vontade de vossa majestade é digna do grande rei que mandou edificar Mafra, porém as vidas são breves, majestade, e S. Pedro, entre a bênção da primeira pedra e a consagração, consumiu cento e vinte anos de trabalhos e riquezas, vossa majestade, que eu saiba, nunca lá esteve, julga pelo modelo de armar que aí tem, talvez nem daqui a duzentos e quarenta anos o conseguíssemos, estaria vossa majestade morta, mortos estariam vossos filhos, neto, bisneto, trineto e tetraneto, o que eu pergunto, com todo o respeito, se é que vale a pena estar a construir uma basílica que só ficará terminada no ano dois mil, supondo que nessa altura ainda há mundo, no entanto vossa majestade decidirá."

      Inconsolável, melancólico, o rei resolve, então, ampliar o convento de Mafra e se reúne, no dia seguinte, com o provincial dos franciscanos que, ouvindo tão boa notícia, "o provincial, que ali fora sem ainda saber da novidade, derrubou-se no chão dramaticamente, beijou com abundância as mãos da majestade, e enfim declarou, com a voz estrangulada, Senhor, ficai seguro de que neste mesmo momento está Deus mandando preparar novos e mais suntuosos aposentos no seu paraíso para premiar quem na terra o engrandece e louva em pedras vivas, ficai seguro de que por cada tijolo que for colocado no convento de Mafra, uma oração será dita em vossa intenção, não pela salvação da alma, que vos está garantidíssima pelas obras(...)"

      Assim que saíram o provincial e o arquiteto, mandou D. João V vir à sua presença o guarda-livros:

      "Então diz-me lá como estamos de dever e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais(...) Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas, graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras, que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros. Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso, e também profundamente imoral, não respeita o trono e nem o altar(...)"

      E dobra o rei o salário do guarda-livros.

      A Mafra, manda o rei um vedor, doutor Leandro de Melo, para que encontre João Frederico Ludovice e lhe entregue uma carta. O engenheiro beija o selo real e empalidece: não bastava o que havia combinado com o rei e este já lhe envia outro aumento para o prédio, quer agora um novo corpo da construção, que abrigue trezentos frades e que se arrase logo o monte por detrás da obra e tudo o que ao redor dela está.

      O rei escreveu a Baltazar e João Pequeno, dizendo: "Tenham lá paciência, veio-me esta idéia de pôr aí trezentos fardes em vez dos oitenta combinados, por outra parte é bom para todos quantos trabalham na obra, ficam com o emprego garantido por mais tempo, que o dinheiro, ainda há dias mo disse o meu almoxarife, que é de confiança, esse não falta, fiquem sabendo que somos a nação mais rica da Europa, não devemos nada a ninguém e pagamos a todos, e com isso não enfado mais, dá lembranças aos meus queridos trinta mil portugueses que aí andam a fazer a vida, tanto se esforçando por dar ao seu rei o supremo gosto de ver alçado aos ares e tempos o maior e mais formoso monumento sacro da história, que até me disseram já que comparado com isso S. Pedro de Roma é uma capela, adeus, até qualquer dia, saudades à Blimunda, da máquina voadora do padre Bartomeu Lourenço é que nunca mais soube nada, tanta proteção lhe dei, tanto dinheiro gasto, o mundo anda cheio de gente ingrata, agora é que é certo, adeus."

      Então , o rei sabia de tudo...

      Baltazar pensa em responder, tem vergonha, mas pensa no seu rei.

      Sabedor de que poderia morrer sem ver o convento inaugurado, D. João V dá uma ordem ao corregedor: buscar e intimar todos os homens de Lisboa, quiça de Portugal, para que fossem todos trabalhar em Mafra.

      Atenção para o trecho que você vai ler e que se parece com a despedida dos parentes, na Praia do Restelo, por ocasião da saída das naus de Vasco da Gama para as Índias:

      "Maldito sejas até à quinta geração, de lepra se te cubra o corpo todo, puta vejas a tua mãe, puta a tua mulher, puta a tua filha, empalado sejas do cu até à boca, maldito, maldito, maldito. Já vai andando a récua dos homens de Arganail, acompanham-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e amado esposo, e outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade, enfim já os levados se afastam, vão sumir-se na volta do caminho, rasos de lágrimas os olhos, em bagadas caindo aos mais sensíveis, e então uma grande voz se levanta, é um labrego de tanta idade já que não o quiseram, e grita subido a um valado, que é púlpito dos rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó Pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe um quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou morto."

      De todo Portugal chegam homens e são escolhidos um a um.

      Vigésimo segundo

      "Provado está que Deus ama muito as suas criaturas."

      A Infanta Maria Bárbara casa-se com Fernando da Espanha. Esta é a marca do tempo narrativo de Saramago: os fatos históricos.

      "Maria Bárbara tem dezessete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas como é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domênico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta."

      O noivo tem dois anos a menos que ela, e nunca será rei, pois é o sexto na linha sucessória.

      Domênico Scarlatti toca seu cravo para uma multidão de ignorantes, por ocasião do casamento da Infanta Dona Maria Bárbara, na fronteira com a Espanha.

      "Que é isso, perguntou uma mulher ao lado de João Elvas, e o velho respondeu, Não sei, alguém que está a tocar para divertimento das majestades e altezas, se estivesse aqui o meu fidalgo perguntava-lhe, ele sabe tudo, é lá deles. Acabará a música, todos irão aonde têm de ir, corre sossegadamente o rio Caia, de bandeiras não resta um fio, de tambores um rufo, e João Elvas nunca chegará a saber que ouviu Domênico Scarlatti tocando no seu cravo."

      Vigésimo terceiro

      "Os caminhos são muitos, mas às vezes repetem-se."

      "Nem pareces o mesmo homem."

      Neste capítulo, o narrador fala da procissão que levará os santos para serem colocados nos altares do convento de Mafra: S. Francisco, Santa Teresa, Santa Clara, S. Vicente, S. Sebastião e Santa Isabel, "Se este é o lugar que realmente melhor conviria a S. Francisco, por ser, de todos os santos que vão nesta leva, o de mais feminis virtudes, de coração manso e alegre vontade, também em lugar certo vêm S. Domingos e Santo Inácio, ambos ibéricos e sombrios, logo demoníacos, se não é isto ofender o demônio, se não seria justo, afinal dizer que só um santo seria capaz de inventar a inquisição e outro santo a modelação das almas. É evidente , para quem conheça estas polícias, que S. Francisco vai sob suspeita."

      Seguem também para Mafra frei Manuel da Cruz e seus noviços, trinta, e ali , quando chegam cansados, são recebidos em triunfo.

      Baltazar vai para casa, o narrador nos anuncia que ele está velho:

      "Baltazar não tem espelhos, a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila, e els são que lhe dizem, Tens a barba cheia de brancas, Baltazar, tens a testa carregada de rugas, Baltazar, tens encorreado o pescoço, Baltazar, já te descaem os ombros, Baltazar, nem pareces o mesmo homem, Baltazar, mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos, porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo, o soldado a quem ela perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê, apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira, mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto, escondido nas nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem, abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escândalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um ao outro na praça pública, e com a idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos, talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventuras serão estes os únicos seres humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos."

      Depois da ceia, quando todos dormem, Baltazar leva Blimunda para ver as estátuas; juntos, vêem a lua nascer enorme, vermelha. Ele anuncia que vai ao Monte junto na manhã seguinte, ver como está a passarola. Ela pede cuidados, ele responde que ela fique sossegada, que seu dia ainda não chegou.

      Olham os santos inertes, o que seria aquilo? Morte, santidade ou condenação?

      Quando amanheceu, Blimunda se levantou e pegou a comida para o farnel do marido que ia ao Monte Junto, acompanhou-o até fora da vila: "Adeus, Blimunda, Adeus Baltazar."

      E se separam.

      Ao chegar ao lugar onde está a passarola, Baltazar come as sardinhas que lhe pusera a mulher no alforje: havia tanto trabalho a fazer.

      "Ia distraído, não reparou onde punha os pés, de repente duas tábuas cederam, rebentaram, afundaram-se. Esbracejou violentamente para se amparar, evitar a queda, o gancho do braço foi enfiar-se na argola que servia para afastar as velas, e, de golpe, suspenso em todo o seu peso, Baltazar viu os panos arredarem-se para o lado com estrondo, o sol inundou a máquina, brilharam as bolas de âmbar e as esferas. A máquina rodopiou duas vezes, despedaçou, rasgou os arbustos que a envolviam, e subiu. Não se via uma nuvem no céu."

      Vigésimo quarto

      "Não houve resposta, nem podia havê-la, um grito não é nada."

      Baltazar não voltou para casa, o que fez Blimunda não dormir aquela noite. Esperara que ele voltasse ao cair do dia, haveria os festejos da sagração da basílica, mas ele não voltara.

      Em jejum, olhando as pessoas que passavam para a festa, estava sentada numa vala e ali ficou, vendo o que os seres carregavam por dentro; recebendo xingamentos, dizendo outros. Voltou para casa, ceou com os cunhados e o sobrinho. Também não dormirá.

      O rei virá a Mafra e Blimunda não o verá; vai esperar Baltazar pelos caminhos, desesperadamente tentando encontrá-lo:

      "Parou para descansar, porque lhe tremiam as pernas, fatigadas do caminho, amolecidas do imaginário contato, mas de repente entrou-lhe no coração o convencimento de que vai encontrar lá em cima Baltazar, trabalhando e suando, talvez atando os últimos nós, talvez lançando para cima do ombro o alforje, talvez já descendo para o vale, por causa disto gritou, Baltazar."

      Grita inúmeras vezes por ele:

      "Ali é o lugar, como o ninho de uma grande ave que levantou vôo. O grito de Blimunda, terceiro, e sempre o mesmo nome, não foi agudo, apenas uma explosão sufocada, como se as tripas lhe estivessem sendo arrancadas por gigantesca mão, Baltazar, e ao dizê-lo compreendeu que desde o princípio soubera que viria encontrar deserto este lugar."

      Viu os arbustos arrancados, a depressão que o peso da máquina fizera no chão e o alforje de Baltazar. Procurou por todo lado, os pés sangrando nos espinhos. Começou a subir ao cume do monte, a fim de poder ver tudo ao redor. Mas no caminho estacou, à sua frente caminhava um frade dominicano, corpulento, a quem perguntou pelo seu homem, faltava-lhe a mão esquerda, não o tinha visto? Viera cá por ouvir dizer que aqui habitava um enorme pássaro...

      O frade aconselha-a a procurar abrigo, vai anoitecer, poderia dormir ali, nas ruínas do mosteiro. Sentada à beira do caminho, o cabelo desgrenhado, vazia do homem que ama, Blimunda chora e pensa em Baltazar, se morto, se vivo. Depois vai se refugiar nas ruínas onde o frade a busca tentando saciar seus instintos. Mas Blimunda o mata com o espigão de Baltazar. E depois , arrancando o espigão que se fincara entre as costelas do frei, pôs novamente a andar.

      "Toda a noite Blimunda andou. Precisava estar muito longe do Monte Junto quando a madrugada apontasse, quando a congregação se reunisse para as primeiras orações. Davam pela falta do frade, começariam por buscá-lo na cela, depois por todo o convento, no refeitório, na sala do capítulo, na livraria, na horta, o abade dá-lo-ia por fugido, haveria infinitas murmurações pelos cantos, mas, se algum dos irmãos soubesse do segredo, sobre brasas estaria, quem sabe se invejoso da fortuna do outro(...)

      Depois, imaginou ela a caminho de Pedregulho que ele poderia estar em Mafra, que tinham se desencontrado no caminho e pôs-se a correr como uma doida, "tão extenuada por fora, duas noites sem dormir, tão resplandecendo por dentro, duas noites batalhando, alcança e deixa para trás os que vão à sagração, se se juntam tantos não caberão em Mafra. (...) desce Blimunda para casa, ali é o palácio do Visconde, estão soldados da guarda real à porta. (...) Empurrou a cancela do quintal, gritou, Baltazar, mas ninguém lhe apareceu."

      À tardinha, chegaram Inês Antônio e Álvaro Diogo e a encontraram dormindo. pela manhã, esquecida de comer o pão, viu-os por dentro, vomitou e Inês achou que ao fim de todo este tempo poderia ela estar grávida.

      O narrador nos anuncia que D. João V fez quarenta e um anos e que era 22 de outubro de 1730.

      "Blimunda disse aos cunhados, Já volto. Desceu a ladeira para a vila deserta. Com a pressa, alguns moradores tinham deixado as portas e os postigos abertos. Os lumes estavam apagados, Blimunda foi à barraca buscar a manta e o alforje, entrou em casa, juntou o que podia de comida, uma escudela de pau, uma colher, algumas roupas suas, outras de Baltazar. Depois meteu tudo no alforje e saiu. Começava a escurecer, mas, agora, de nenhuma noite teria medo, se tão negra é a que leva dentro de si."

      Vigésimo quinto

      "Por onde passava, ficava um fermente de desassossego, os homens

      não reconheciam as suas mulheres, que subitamente se punham a

      olhar para eles, com pena de que não tivessem desaparecido, para

      enfim poderem procurá-los."

      Durante nove anos, Blimunda perambulou pelos caminhos de pó e lama, de branda areia e pedra aguda, neve. Ainda não queria morrer. Sabia que Baltazar estava vivo e se dispunha a procurá-lo por onde quer que fosse.

      "Onde chegava, perguntava se tinham visto por ali um homem com estes e estes sinais, a mão esquerda de menos, e alto como um soldado da guarda real, barba toda grisalha, mas se entretanto a rapou, é uma cara que não se esquece, pelo menos não a esqueci ei, e tanto pode ter vindo pelas estradas de toda a gente, ou pelos carreiros que atravessam os campos, como pode ter caído dos ares, num pássaro de ferro e vimes entrançados, com uma vela preta, bolas de âmbar amarelo, e duas esferas de metal baço que contêm o maior segredo do universo, ainda que de tudo isto não restem mais que destroços, do homem e da ave."

      Julgavam-na doida, mas ouvindo-lhe as demais sensatas palavras e ações, ficavam indecisos se aquilo que dizia era ou não falta de juízo completo. Passou a ser chamada de A Voadora, e sentava-se, então, às postas, ouvindo das mulheres as queixas. Por onde passava, as mulheres lamentavam, depois, que seus homens não tivessem também sumido, para que elas pudessem, ao menos, devotar-lhes um amor tão grande quanto o de Blimunda a Baltazar. E os homens, quando ela partia, ficavam tristes inexplicavelmente tristes.

      Pouco faltou para que a tomassem como santa.

      "Nove anos procurou Blimunda. Começou por contar as estações, depois perdeu-lhes o sentido. Nos primeiros tempos calculava as léguas que andava por dia, quatro, cinco, às vezes seis, mas depois confundiram-se-lhe os números, não tardou que o espaço e o tempo deixassem de ter significado, tudo se media em manhã, tarde, noite, chuva, soalheira, granizo, névoa e nevoeiro, caminho bom, caminho mau, encosta de subir, encosta de descer, planície, montanha, praia do mar, ribeira de rios, e rostos, milhares e milhares de rostos, rostos sem número que os dissesse, quantas vezes mais os que em Mafra se tinham juntado, e os por entre os rostos, os das mulheres para as perguntas, os dos homens para ver se neles estava a resposta."

      Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça, "Portugal inteiro esteve debaixo desses passos".

      Voltava aos lugares por onde passara, sempre indagando. Seis vezes passara por Lisboa, esta, a que vinha agora, era a sétima. Sem comer, o tempo era chegado para ela. No Rossio, finalmente encontrou Baltazar. Havia lá um auto-de-fé. Eram onze os condenados à fogueira; entre eles, estava o brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu, comediógrafo autor das Guerras de Alecrim e Manjerona.

      "São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltazar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda ."

      Palavras finais:

      "Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda."

      Ler José Saramago é sempre um susto bom. E este é um romance especialíssimo.

      A par da história de um rei sem escrúpulos e franciscanos ardilosos, existe a história magnífica de um amor longe da banalidade servil entre as criaturas. A par, também, dos sonhos de um rei de imortalizar-se por meio de uma obra monumental, um convento gigantesco e arraigado ao chão, está a leveza do sonho de um louco que queria voar numa passarola, de um músico que tocava um cravo magnífico, de um povo pobre e sem trabalho que se submetia a esforços sobre-humanos para erguer as paredes de um monumento nascido da ignomínia dos corações que perderam a razão para viver.

      Essa rainha católica e seu cobertor de penas, seus sonhos libidinosos, seus filhos; esse rei pequeno e imbecil, que imaginava poder construir uma basílica como a de S. Pedro para constar da História do mundo, jamais nos abandonarão a memória pelo que significam do superficial e infeliz que às vezes a natureza humana guarda... mas aquele soldado maneta e aquela vidente desgrenhada são os símbolos mais claros da natureza humana: fortes e delicados, sinceros, embora rudes, eles são o que sonhamos: o Bem e a Liberdade, a sabedoria de existir belamente e sem preconceitos.

      Guardados para sempre na alma de quem o livro lê, lá estarão eternamente Baltazar e suas "desparelhadas vestes", sua mão esquerda decepada pela guerra; os olhos ora verdes, ora azuis de Blimunda, olhos de "olhar por dentro" as criaturas, jamais poderão também ser esquecidos pelos leitores, não porque vêem por dentro apenas, mas , sobretudo, porque enxergam um mundo mágico e desconhecido: o mundo que qualquer um de nós quereria ter habitado.

      Carlos D. Perez em seu "Do gozo criador", diz que todo criador é um subversivo: "Ele o é por transcender aquilo que no gozo resiste ao saber; se a cultura reage contra a luz inesperada, fá-lo para preservar a estrutura do humano — ou seja, o seu invariante — da qual é guardiã."; Unamuno também se explica sobre isso: "Que uma coisa é a cultura e outra a luz. Isto é que há de se ter: luz."

      Assim, é que termino este trabalho que me deu tanto prazer, dizendo que Saramago é luz e que os falantes de língua portuguesa se orgulham não do Nobel que nos deu, mas sobretudo do mundo que inventa e reinventa, para o qual, subversivamente, traz luz. Pura luz.

      Salve Saramago e suas doces lições da liberdade de ser!



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Conteúdo: Hélio Consolaro
Manutenção: Luís Gustavo Almeida

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