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MAÍRA
(Darcy Ribeiro )

Estudo dos professores
Teutônio Marques Filho e Delson Gonçalves Ferreira

1922 - Nascimento em Montes Claros.
“... Escorpião, gosta de dizer que é mineiro de Montes Claros, a melhor cidade do mundo (a avenida principal tem o nome da mãe dele: Mestra Fininha). Depois de nascer de parto natural (dizem que foi fundado, mas não é verdade), cresceu e fez as bobagens habituais”. (in Ensaios lnsólitos — L. &PM — Porto Alegre—1979—pág.7)

1930 - Revolução getulista com suas grandes transformações sociais.

1937-1945 - Estado Novo: organização ditatorial tendo à frente Getulio Vargas. O Manifesto dos Coronéis o derrubou em 1945, quando se criaram dois importantes partidos para recomeçar o processo democrático: U.D.N. (União Democrática Nacional) e P.S.D. (Partido Social Democrático).

1939-1945 - IIª - Grande Guerra. O Brasil participou dela com suas forças armadas que combateram na Itália. (F.E.B.)

1946 - Já moço quis ser médico, bacharelou-se em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo. E acabou antropólogo profissional. “Como tal passou os dez melhores anos de sua vida (1945-1955) dormindo em rede nas aldeias indígenas da Amazônia e do Brasil Central e assessorando Rondon no Rio de Janeiro.” (Ensaios Insólitos — pág.7).
“A primeira década de sua vida profissional foi dedicada principalmente ao trabalho de campo entre tribos indígenas da Amazônia e do Brasil Central, como os Kadiwéu, Terena, Kaywá, Ofaié-Xavante; Bororo, Karajá, Urubus-Kaapor, Kaingang, Xokleng e diversos grupos da área do Xingu...” (O Processo Civiliza-tório — Vozes —1981 — 6ª ed. — pág.19).

1947 — Etnólogos do Serviço de Proteção aos Índios (S.P.l.).

152-1956 - Dirigiu a seção de estudos do mesmo Serviço e criou o Museu do índio que também dirigiu durante alguns anos.
1954 - “Suicídio de Getúlio Vargas, então presidente eleito (24 de agosto) e não ditatorial”.

1955-1964 - “Seduzido por Anísio Teixeira, virou educador e fez carreira como educador, reitor e, afinal, ministro. Foi professor de Antropologia da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (1953-1954). Foi professor-regente de etnografia e língua Tupi da Faculdade Nacional de Filosofia da U. do Brasil (1956-1961).
Em 1957, foi Diretor da Divisão de Pesquisas Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Fundou e dirigiu a revista “Educação e Ciências Sociais”, Em 1958, foi encarregado do centro de pesquisas sociais da Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo.

1959 - Planificação e programa de pesquisas interdisciplinares sobre “urbanização e industrialização, seus efeitos sobre a família e a escola”. Foi o primeiro reitor da Universidade Nacional de Brasília que, em grande parte, planejou. E, em 1962, foi Ministro da Educação e Cultura no Governo João Goulart. Foi Chefe da Casa Civil da Presidência da República.

1960 - 21 de abril. Inauguração oficial de Brasília.

1964 - 31 de março. Revolução que derrubou o presidente João Goulart. Darcy Ribeiro teve seus direitos cassados por 10 anos.
“Exilado, virou latino-americano e passou muitos anos (1964-1975) remendando universidades no Uruguai, na Venezuela, no Peru e até na Argélia. Nesses anos escreveu demasiados livros, que andam sendo editados mundo afora. Foi professor de Antropologia da Faculdade de Humanidades da República Oriental do Uruguai (1964-1968).

1982 - Sinal da abertura democrática pregada pelo presidente João Figueiredo: eleições. O P.D.T. (Partido Democrático Trabalhista) ganhou as eleições de governador e vice-governador no Estado do Rio. Darcy Ribeiro se elegeu, pelo voto direto, vice-governador na chapa de Leonel Brizola.

1983 - Tomada de posse na vice-governança do Estado do Rio. Governador em exercício pela viagem ao exterior do governador. Ele mesmo se considera “um antropólogo profissional, intelectual da minha geração e político militante”. (Os Brasileiros — Vozes — 1980 — pág.9).
“Fiz meu o seu (de Anísio Teixeira) lema: Não tenho compromisso com minhas idéias, busco a verdade”. (Os Brasileiros — Vozes — e.c. pág. 15).
Em 1973, escrevia: “A única forma de se saber com segurança como será nosso mundo dentro de trinta anos é sobreviver para ver. Eu felizmente não terei que fazê-lo. Morrerei em 1983”. (Ensaios Insólitos — e.c.pág.39).
Não morreu: entrou na política.

1985 - Saiu a sua “história” (?) do Brasil: “Aos Trancos e Barrancos. Como o Brasil deu no que deu”.
É uma visão sectária: na lista dos grandes personagens da nossa história não podiam faltar nem ele mesmo (Darcy Ribeiro) nem o seu grande ídolo, Leonel Brizola.
“Versão composta com as brasas e as pedras do meu sectarismo professo de homem de ideais e de partido”.

II. O romance MAÍRA.

1. ENREDO

É uma seqüência de acontecimentos ou episódios que se encadeiam, conforme a estrutura tradicional do romance, formando princípio, meio e fim. Ou segundo uma estrutura móvel, não linear, muito mais complexa, como em MAÍRA.
MAÍRA começa da descoberta feita pelo cientista suíço — Dr. Peter Becker - de uma branca, morta, com dois fetos, numa praia dos índios mairuns, em 26 de outubro de 1974, às margens do Iparanã. (21)

“Sobre a praia, distante vinte metros aproximadamente da linha-d’água, jazia em decúbito dorsal, uma jovem mulher branca, meio despida, com o corpo pintado de traços negros e vermelhos, formando linha e círculos. Dita mulher tinha as pernas abertas e entre as coxas se podia ver um duplo feto, quero dizer, dois nascituros do sexo masculino ainda envoltos na placenta e ligados à mãe pelos cordões umbelicais. Verificou que a mulher estava morta — corpo frio, rigidez cadavérica — bem como os fetos..” (21) Leia-se o resto do relatório in loco.

Aí o fato e o mistério que só se vai revelando com o correr da narrativa. Enquanto o Dr. Nonato investiga a morte da moça branca, o autor, por si mesmo ou por personagens, vai recriando todo o mundo mairum, suas crenças, seus usos, seus ritos, sua organização, sua vida e sua morte... Já que a civilização dos brancos vai, rapidamente, cercando suas terras e suas gentes para o massacre final. Que virá. No tempo e no espaço, desfilam personagens dos dois mundos: o indígena e o civilizado. (Quem é a morta? De que morreu? Morte natural, causada pela delivrance ou assassínio? Onde viveu? O que fazia no meio dos mairuns?) O Major Nonato vai desvendando, pouco a pouco os pontos principais do mistério: a morta é uma moça carioca: Alma das Neves Freire, que foi para a aldeia mairuna como índio e ex-seminarista Isaías (Avó), onde chegou uns dois anos antes de morrer. Parece que foi acidente de parto, falta de recursos, primeiro parto... Os brancos (caraíbas) avançam, cada vez mais, nas terras indígenas, o Senador Andorinha planeja um grande loteamento nas terras para a criação de gado, conta com suas influências, tem testas-de-ferro e outros menores para a execução da obra, segundo ele, de alto sentido patriótico a civilização dos índios...

O centro da narrativa é a aldeia dos índios mairuns, sua vida, atividades, movimentos, caças e pescarias, sua religião, suas lendas cosmogônicas, seus deuses protetores (Maíra e Micura), as festas, os jogos, uma grande explosão de sexo, a surrucaçâo... (Alma seria uma das causas dessa explosão, pela sua vitalidade, pela sua liberação?). Há mortes que fazem parte da história ou estória daquele povo o grande Tuxaua, de cem anos, Anacã, resolve morrer e recebe longas e solenes celebrações; morre a indiazinha Cori de mordida de cascavel e causa a morte do oxim da tribo; morte em Corrutela (Xisto arranca a íngua de Perpetinha, para livrá-la do demônio); Quinzim é encontrado morto, talvez picado de cobra; o massacre de seu Juca e seu empregado Boca...; relações dentro e fora da Missão, padres e freiras, esperanças ou frustrações dos missionários; a presença do pastor Bob, norte americano e de sua mulher, a lingüista D. Gertrudes... Com a morte de Ancaã, o sucessor é Avá, seu filho, que volta agora, depois de longa ausência, no meio dos padres, dentro dos seminários de Goiás Velho, São Paulo ou Roma. Seu nome cristão é o do grande profeta saías. Era uma grande esperança para os padres da Missão de N.S.do Ó. Seria padre, voltaria para pregar o Evangelho aos seus irmãos de raça... Voltou. Não se ordenou, não veio pregar, não veio ser o novo tuxaua, não era mais um mairum, nem era um civilizado. Voltou despersonalizado, ficou marginalizado, sem qualidades para ocupar a chefia da tribo. Em seu lugar, o novo cacique será seu sobrinho Jaguar. (Jaguar tem dois grandes amores na tribo: a branca Alma e a índia Inimá. A primeira é uma queimação explosiva e a segunda as ternuras de amor...) Com saías chega à aldeia a moça carioca —Alma — com vontade definitiva de abandonar a civilização. Ajeitou-se àquela vida, distribui remédios, cura os doentes, corre o perigo de virar oxim (o curandeiro), tenta mairunizar-se, vive uma vida estuante, é uma mirixorã querida, ama principalmente o moço Jaguar, engravida, tem ciúmes de Inimá e morre no parto. E lsaías, cada vez mais desajustado, arredio, sem presença na sua própria casa e aldeia. Dão-lhe Inimá por mulher, mas ela não o quer e vive de amores com outro, o seu sobrinho, Jaguar. Dele, ela só quer os presentes. Sua paixão por ela não tem correspondência nenhuma. Até desaparecer, em penumbra e sombra, dentro da narrativa.

O enredo do romance não é linear, mas cheio de vaivéns, compondo uma grandiosa narrativa que envolve os dois mundos conflitantes dos índios e dos brancos. Alguns personagens têm o seu destino selado (para sempre) dentro do romance: morrem Ancã, Alma, Cori seu Juca, Boca, o oxim, Pe. Vecchio, Pe. Aquino, Irmã Canuta, Jaguar é feito tuxaua. E, tendo perdido a canindejub (Alma), faz (no último capítulo), com Inimá, outra amada, um pequeno e amoroso “cântico dos cânticos”. E fechando o livro, o índio faz o último convite para o amor, chamando Inimá em língua mairum (406). Chega gente nova à Missão para reacender as esperanças da evangelização. Nem mais um puro mairum, nem nunca uma caraíba, apesar de tantos anos de seminário no meio dos brancos, Isaias, Avá, fica completamente relegado ao esquecimento. Qual será o seu destino? (O mesmo dos índios massacrados pela civilização: o fim, a destruição, o desaparecimento. lsaías é um símbolo trágico...).

2. ESPAÇO

Elemento da estrutura de uma narrativa: onde se desenvolvem as ações. É um pedação do Mato Grosso, terras dos índios, região dos mairuns, protegidos do deus Maíra. A aldeia está às margens do rio Iparanã perto da Missão N. Senhora do Ó. Os mairuns vivem na sua aldeia, ao contacto com os caraíbas (brancos). Os xaepes são inimigos dos brancas e se isolaram nas matas. Há um espaço geográfico, físico e outro cultural: aí se chocam o índio com sua civilização primitiva e o branco que vai avançando cada vez mais. É claro que o espaço romanesco não corresponde, exatamente, ao geográfico nem a paisagem do romance tem que corresponder, com precisão, à realidade. O certo é que o autor conviveu anos comas índios, quer no Mato Grosso, quer na Amazônia. E conhece muito bem esse “habitat”.

3. TEMPO

A ação do romance se passa na década de 70. Há duas datas certas: 12 de maio de 1972: chegada de lsaías e Alma, pelo avião do C.A.N. ao campo de Naruai. Em 19 do mesmo mês, chegam à Missão de N.S.do Ó, onde ficaram apenas três dias. (323).
Em 26 de outubro de 1974, o cientista suíço Dr. Peter Becker encontrou o cadáver de uma jovem mulher branca e um duplo feto. (Era o corpo de Alma das Neves Freire). O que significa que Alma viveu, uns dois anos no meio dos índios mairuns. É o tempo cronológico; o psicológico (estado de alma) está nos pensamentos, reflexões e ruminações, principalmente, de Alma e Isaías. Naquele monólogo interior, feito de recordações e de meditações no íntimo dos personagens. O tempo que rege esse mundo não depende dos relógios, mas dos estados de alma.

O tempo na aldeia se marca por outros elementos e é como uma canoa que desce o rio de bubuia, ao sabor da corrente, com sol ou chuva, no clarão da lua. Tempo de calor ou frio, de vento ou calmaria.
“O tempo acabou de virar. Chegaram, afinal, os dias azuis. O céu está azulíssimo de tão lavado de toda a bruma...” (44) E vão chegando, numa variedade muito grande, todas as espécies de pássaros. É a estação da seca. As chuvas foram embora.
“Cada tarde a cova de Anacã é regada uma vez mais”. (55)
“Termina o dia na vila de Corrutela”. (68)
“O chuvisco da noite assenta a po&ra do pátio e lava os ares para que impere mais forte a catinga de Anacã”. (117)
“O douglas voa baixo na manhã nevoenta por cima dos cerrados altos do Iparanã”. (136)
“Glória do sol nascendo na água”. (143)
“Um tempo velho, seco, ático — asas aparadas, olhos cegados — derrama sem termo sua areia impalpável. Entretece com longuíssimas horas os dias e as noites sem conta dos tempos missionais...” (163).
“Entre o rio e o céu, a canoa corre ligeiro, debaixo do sol...” (171).
“Acanoa voa no rio, o sol voa no céu”. (186)
somar
“Xisto, acocorado ao pé da capela, prega hoje como toda tarde”. (192)
“Antigamente é o tempo do Sem-Nome”. (197)
“Correm os dias livres, sem se enroscar em semanas, e as semanas soltas, sem somar meses.” (363).

4. MINIDICIONÁRIO DE PERSONAGENS

Alma

Carioca, loura, bonitona, clara e esguia. Seu nome inteiro: Alma das Neves Freira No Rio, experimentou de tudo: sexo e drogas. O pai morreu e ela enjoou de tudo. Quis ser missionária. Foi para a Missão N.S.do Ó. Por acaso encontra saías, ex-seminarista, índio mairum, em Brasília. Seguem juntos para a aldeia. Os Padres não a deixaram ficar. Lá se foi como índio para o meio deles. Entregou-se de corpo e alma aos índios: dava remédio aos doentes, fez amor com os índios, ajudou, tentou se adaptar, viveu dois anos no meio deles. Foi achada morta com um parto duplo na praia dos mairuns, no rio Iparanã. Major Nonato fez um relatório e concluiu pela morte natural, durante a delivrance. Quem encontrou seu cadáver foi o cientista suíço — Dr. Petter Becker, em 26 de outubro de 1974. (Ela chegara à aldeia em 1972, maio). Era uma mulher atraente, generosa em todas as suas ações, impulsiva, em busca de alguma coisa que enchesse os seus vazios. Amava a vida mairum. Inteligência lúcida, via com clareza a situação de desajuste do ex-seminarista Isaías. Os mairuns gostavam muito dela e a enterraram dignamente. Ficou na memória de todos. Gostava da vida que vivia gulosamente. Ficou grávida de algum índio. Não sabia se foi de Terá ou de Jaguar. Pensava que foi de terá, mas gostaria que os filhos fossem de Jaguar, sobrinho de lsaías e futuro tuxaua. Alguns amigos do Rio souberam e lamentaram sua morte. Ela representa o civilizado que tenta indianizar-se enquanto Isaías, o índio que tentaram civilizar. Apesar de todos os esforços, ela própria sentiu que era impossível virar uma mairuna. Era uma mirixorã, mulher livre, que não podia casar-se na tribo. Era de muitos, de todos que a quisessem. Amou, mais que a todos, ao moço Jaguar.

Anaçã

Grande e velho tuxuaua, organizador da aldeia, respeitado de todos. Morreu, aos cem anos, quando teve vontade. Houve longas e solenes cerimônias pela sua morte, segundo os rituais miruns. O cargo de tuxuaua ficou vazio, na espera do Avá (Isaías). Darcy Ribeiro o conheceu: era índio caapor. “Companheirão muito querido. Era baixinho, gordo, risonho. O mais parecido com um intelectual que eu encontrei num índio”. (209)

Senador Andorinha
Político influente, poderoso, Planeja o loteamento de imensas terras indígenasnas, o seu desmatamento e criação de gado. Para realizar a grande obra conta com o Dr. Cleto e os serviços diretos do regatão seu Juca. Os privilegiados, a começar por ele, representante e defensor dos interesses do povo (1) serão os ricos donos das terras indígenas. Estava de bem com a Missão e prometeu novas terras ao novo diretor, Pe. Ludgero.

Aninha
Mulher do Major Nonato, o do relatório sobre a morta do Iparanã. Aparece em conversa amorosa com o Major, no último capítulo.

Anoã
Venha da casa dos tracajás que gosta muito de perguntar as coisas ao Avá (lsaías). Queria conhecer, por meio dele, o mundo dos caraíbas. (305)

Antão
Paraense que desceu até o Paraná. E se fixou no Ibeporã. Casou-se com Dóia, viúva do Chico Remo. Tinha um filho de quatro anos. Recebeu Isaías e Alma, quando a caminho da aldeia, em Naruai.

Pe. Aquino
Era velho de uns 70 anos, um pouco menos que o octogenário Pe. Vecchio. Pôs muita confiança na vocação e missão de saías. Fracasso. Discute com o companheiro, Pe. Vecchio, a vida e a ação missionária. Será que o índio se converte, de fato, ao cristianismo? Ele não crê. “Com um anzol os converto; com dois os desconverto”. Há muito de desencanto no seu diálogo com o Pe. Vecchio. Diálogo semelhante ao criado pelo Pe. Nóbrega: “Diálogo sobre a conversão do gentio”. Estavam os dois escrevendo a “Etnologia Mairum” (390) ou “Etnografia Mairum” (391)

Aroe
E o dono da fala, o que conversa com os mortos. Tem visões, recebe as mensagens e as comunica. Espécie de médium. (Shaden-80)

Aruá
Um velho e grande avaeté, Homem honrado, de valor.

Avá
Ou Abá. É o nome mairum do ex-seminarista Isaías. Devia ser o novo tuxuaua, mas não tinha qualidades. Em seu lugar, foi escolhido tuxuaua o sobrinho Jaguar, amado da canindejub (Alma). Avá ou Abá quer dizer homem, gente, homem ilustra Darcy Ribeiro conheceu o Avá que era índio bororó e se chamava Tiago (nome cristão). (209). (Ver Isaías).

Avaeté
Ou Abaeté. Significa: homem medonho, coisa medonha, que mete medo; terrível. Também: homem de verdade.

Bob
Robert Toddy, pregador evangélico, norte americano. Casado com D. Gertrudes. Mora numa casa que mais parece um disco voador pousado no chão.

Boca
Bugre roubado aos índios epexãs. Trabalhava no batelão do seu Juca. Meio abobado, canta uma canção sem pé nem cabeça. (39 e 40). Vai ser massacrado a borduna pelos índios aepês, junto com seu patrão.

Camãe
Velha mairum que vive relembrando o passado. No seu tempo a vida era muito melhor, segundo dizia sempre.

Camucim
Variantes: camuci, camocim, camotim. Vaso qualquer. Vaso funerário: servia para sepultamento dos mortos.

Canindejub
A caraíba, mulher branca. E Alma. O velho aroe diz que ela é mulher de lsaías, o Avá que vem para ser tuxuaua. O aroe afirma ainda que o Avá não fecundará nenhuma mulher, mas somente a caraíva, a canindejub. O que não acontece: ela será de todos, mas principalmente de Jaguar.

Irmã Canuta
Risonha, gorda, surda e muda. Trabalha na cozinha da Missão.

Carlos
(213) — Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta itabirano (*1902-1987) José escreveu:
“Minas não há mais’
Darcy Ribeiro faz esta referência: “Minas, aquela, há ainda, é Carlos, e haverá, enquanto eu houver. E um território da memória que vou recuperar, se o tempo der. Ali luzem, eu vi, barrocos profetas vociferantes. Entre eles me fala sem pausa nem termo. o da boca queimada pela palavra de Deus: lsaías...” (213). A dedicatória do romance é para o grande poeta itabirano.

Pe. Ceschiatti
Confessor e guia espiritual de saías, em Roma. Quis convencer a lsaías que ele era como qualquer um, de qualquer lugar. Acompanhou saías no seu drama dê consciência. Mas não conseguiu fazer dele uma oferenda do povo mairum a N.S.Jesus Cristo.

Pe. Cirilo
Missionário que ainda não sabe a língua dos Mairuns. É da geração mais nova que vem substituir os velhos.

Nhô Cleto
É um fiel que escuta as pregações de Xisto. É muito casmurro. Mais esclarecido e sente o fanatismo, muito perigoso, do pregador. Tem pressentimento de alguma desgraça. É casado com D. Gueda e pai de Perpetinha. Para vingar a morte da filha, sangrou o Xisto e fugiu para a mata onde os soldados o prenderam completamente louco.

Dr. Cleto
Homem de confiança do Senador Andorinha. Enche a cabeça de seu Juca de sonhos de grandeza e riqueza com os projetos do Senador.

Nhá Coló
Mulher de seu Juca. Casou-se, depois da morte dele, com o Manelão Gão.

Cori
Indiazinha pacu, picada por uma cascavel. A menina foi pegar um tatu no buraco e acabou picada pela cobra. Não teve jeito: morreu. O oxim, é claro, não pôde salvá-la. Por isso foi massacrado.

D. Creuza
Mulher do seu Elias, agente 17 do Posto da Funai.

Curt
Aquele alemão que, ouvindo as lamentações de D.Creuza, mulher do agente do Posto, comentou:
“A senhora tem toda a razão, dona toda a razão. Destino de mulher é muito ingrato.
As mulheres não deviam engravidar, nem sofrer as dores do parto sozinhas. Tudo isso á uma injustiça. Deviam á botar ovo. Em tempo de crise, se comia, em tempo de fartura, se chocava... “(397)

Dóia
Viúva do Chico Remo e, depois, casada com Antão. Recebia os passageiros que desciam em Naruai. Recebeu, em casa, Isaías e Alma. Há também a Dóia, casada com o Quinzim (396).

Douglas
Avião pesadão e firme que serviu na 1 l Grande Guerra e depois em vôos domésticos no Brasil. Fabricação norte americana.

Elias Pantaleão da Silva
Casado com D.Creuza, cinqüenta anos, deve ser crente, Agente 17, encarregado do Posto Indígena Eduardo Enéias, dos índios mairuns, do rio Iparanã. Segundo informações do Major Nonato (encarregado do relatório sobre a morta da praia dos índios) era relapso e mentiroso. (324). Mas seu relatório sobre a morte de seu Juca e o Boca está correto. (380). O relatório final do Major Nonato, de fato, esculhamba com o pobre do Agente 71.

Epexãs
Tribo indígena. As criações de gado vão invadir suas terras e massacrá-los. Na palavra do Senador Andorinha, são uns marginais. (401). Um batalhão do Terceiro Regimento foi chamado para escorraçá-los como invasores da fazenda do Senado: “Fazenda dos Epexãs...”.

Ernesto Guevara
Médico argentino que se meteu nas lutas libertárias dos países americanos e acabou em Cuba. Parece que era um idealista: juntou-se a Fidel Castro e fizeram a libertação de Cuba. Che Guevara acabou morto numa guerrilha na Bolívia. Nascido em 1928 acabou guerrilheiro, morto em 1967, Darcy Ribeiro o recorda como amigo e com saudade. (213).

F.Huxley o Thief
Colega do Dr. Peter Becker nas pesquisas de formigas. Testemunhou também a presença do cadáver de uma mulher branca e dois fetos, numa praia dos mairuns no Iparanã. (21)

Fred
Um dos amigos cariocas de Alma, um dos seus amores. (85) Segundo ela, sofre de complexo de Édipo. (87) Era médico psiquiatra e, no Rio, ficou sabendo da morte da moça. Conversou sobre o assunto, com pesar, com o Queco.

D.Gertrudes
(249) Mulher do pastor norte americano Bob. Formada em Iingüística, estuda a língua dos mairuns e traduz, por meio de saias, a Bíblia, para a mesma língua. Antipática.

Iacumá
Um índio mais velho, imbatível nas lutas da tribo. Vence mais uma vez a Diaí. (56-57)

Inharon
(212) Doido, raivoso, estado de depressão do índio que, para curar-se se isola. (Uirá...pág.18)

Inimá
(279) A gaviãzinha, destinada a ser mulher de Avó (lsaías). Mas não é, a princípio, desejada por ele. Não quer nada com ele e vive como solteira cheia de amores com os índios. É uma das amadas de Jaguar, rival de mirixorã (Alma). O Avá, depois, se mostra apaixonado por ela; mas dele, só quer saber de presentes. Alma conta ao Avá (Isaias) como Inimá anda com os outros. A intenção da candejub deve ser afastar a rival índia do seu preferido, Jaguar. Não consegue.

Isaías
(29) O seu nome indígena é Avó, O nome de batismo é Isaías, o profeta que teve sua boca purificada por uma brasa antes de começar as profecias. Da Missão, o menino foi mandado para Goiás Velho, como seminarista. Depois São Paulo, depois Roma. Iria, depois de ordenado padre, voltar, para cumprir sua grande missão entre os irmãos maruns. (E o sonho e o desejo dos padres de N.S. do Ó. Principalmente o Pe. Aquino...). Depois de vários anos, lsaías não se ordena e resolve voltar à tribo. Quer ser mairum de novo e se limpar da casca de civilizado e branco. Deveria ser o novo tuxaua da tribo: não tem as qualidades necessárias, não é mais um índio como os outros. Na aldeia já não é mais um mairum puro e muito menos um caraíba. É um gauche, um desajustado. Voltou à tribo, trazendo consigo a carioca Alma. Ela vai se ajeitando bem à nova vida, em total liberdade. Ele fica de fora, marginalizado. Inimá, que deveria ser sua mulher, não tem ligação nenhuma com ele, Alma faz um pequeno retrato dele, com muita veracidade:

“O mal de Isaías é ser ambíguo. Ser e não-ser. Não é índio, nem cristão. Não é homem, nem deixa de ser, coitado; Ser dois é não ser nenhum, ninguém...” (372-373).

Isaias representa todos os índios que, abandonando a tribo e sua religi&o, pelados catequistas, não se converte de fato, mas são na epiderme. O pior é que, depois, não consegue mais ser aquele índio primitivo. Sem ser mais um avó e sem conseguir ser um cristão, é marginalizado na aldeia e o seria também na cidade dos brancos. Eis a sua tragédia. Não possuindo qualidades para chefe, é preterido; em seu lugar, torna-se tuxaua, o moço Jaguar seu sobrinho.
Isaias reza, reflete sobre os problemas da vida, recita latins, lembra o seminário. No fim, cresce muito Alma e o deixa, dentro da narrativa, numa humilde penumbra. Seu apelido, dentro da tribo, segundo diz Alma, é “lsaías Sarigüê”. (327) Era fraco, magro e moreno... (127).
Darcy Ribeiro revela no capítulo Egosum (209):
“Cheguei a ver o Avá que era Bororo e se chamava Tiago. Assim o conheci. O vi uma vez, emplumando os ossinhos da filha morta de bexiga. Estava muito consolado, declinando, no compasso certo, uma ladainha em latim.”

luicui
Nome que Alma pensava dar ao filho, caso fosse mulher. (376)
Jaguar
Moço, corajoso, sobrinho do Avá. Anda de amores principalmente com duas mulheres: a branca Alma e a índia Inimá. Alma tem ciúmes da outra. As duas são apaixonadas por ele. A índia, que deveria ser do Avá, o esquece completamente por causa de Jaguar. Alma gostaria que seu filho fosse dele. Não tem certeza. E com ele que faz mais amor. (347-350). Foi escolhido tuxaua em lugar de saías, seu tio e ele próprio amarra o seu rancuãi, segundo os ritos da tribo. A mirixorã branca é sua paixão; Inimá sua ternura. (304).

Pe. Ludgero
(165) Padre mais novo, renovador da Missão. Vem suceder aos velhos Pe. Aquino e Pe. Vecchio.

Maíra
Ente sobrenatural, divindade dos indígenas. (Cunha). Protetor e reformador dos homens, deus dos Mairuns. Veio de um arroto do Sem-Nome. (197). Criou seu irmão Micura.

Maíra-Coraci
Deus-Sol. (197).

Mairahu
É o Sem-Nome, pai de Maíra, criador de tudo (133-134). O V&ho gostava de gargalhar. Suas gargalhadas eram as trovoadas com raios. E Coriscos que enchiam de medo todo o povinho indígena. (135).

Maira íra
Nome escolhido por Alma para o filho, se fosse homem. (376).

Maíra-Monan
Deus-defunto. (197)

Mairum-Coracipor
Deus-Sol. E o mairum vivo, não morto. (253)

Mairuns -
E o povo de Maíra, os índios, suas criaturas. Habitam às margens do lparanã, no Mato Grosso. “Deus é Deus e Maíra. Maira é Deus”. (108). Os acontecimentos do romance se passam entre eles. Toda a narrativa gira em torno de sua aldeia, sua gente, seus usos e costumes, suas crenças, suas cosmogonias, seu folclore. Darcy Ribeiro criou esse povo indígena à imagem e semelhança dos que conheceu, na sua experiência entre os índios. Há um certo encantamento do autor diante dos mairuns, principalmente pela sua alegria de viver. Mairum gosta de rir, gosta de viver. E não quer desaparecer. O mairum Avá (Isaías) mostra a tragédia do índio que foi despersonalizado pela civilização ou catequização. O que certamente acontecerá com todo o povo mairum.

Manelão
Empregado de seu Juca. Mais esperto do que o pobre do Boca. Acaba se casando com a viúva do patrão, nhá Coló. Escapou do massacre dos índios. Virou regatão e agora, seu nome é Manuel Gão de Araújo. (401)

Maxi
Rapagão da casa dos garças. Enfrenta Jaguar e consegue vencê-lo. (59).

Maxihu
Pai de Maxi (373).

Mbiá
Mulher de Náru. Pariu e foi logo para os trabalhos costumeiros. O marido foi para a rede de resguardo se lamentando os sofrimentos do parto. (375).

Meichior
Dono de uma venda. Xisto mandou quebrar todas as suas garrafas de pinga para acabar com as cachaçadas em Corrutela. (359).

Micura
(214) Micura-Faci, o Lua, Irmão e parceiro de Maíra; também um deus dos mairuns.

Mirixorã
Mulher que não pode ser tomada por esposa (110). Não é mulher de ninguém; é de todos. Não tem o sentido exato de prostituta, porque é querida e respeitada. (314). Existe até um ritual especial para a sua consagração. (314). É ocaso de Alma.

Moitá
Velha mãe de Avá (lsaías). Ele ficou, assim, ambíguo, segundo as más línguas, porque a mãe sururucou com muitos homens e misturou os semens. É-o que pensa o oxim. (368)

Mosaingar
É a mãe que não sururucou com a verga de Deus, mas vai parir. (153-347)

Dr. Noel Nutels
Médico, presença inesquecível de amor ao índio brasileiro. Nasceu judeu e se fez brasileiro numa doação completa ao serviço do índio, Não foi servi-lo como alguém que faz pesquisa de campo, mas como quem busca um irmão. (Alma tem alguma coisa dele na sua generosidade de vida e entrega total. De corpo e alma (sem trocadilho).
Otávio Malta o chamou de “índio cor de rosa”. Orígenes Lessa se aproveitou da antonomásia para escrever uma belíssima evocação do grande médico. (O índio Cor de Rosa — Edit. Codecri — Rio — 1978). Nasceu na Ucrânia: judeu-russo-brasileiro — 1913. “Num sábado á noite, 10 de fevereiro de 1973, deixava seus amigos aquele que tora santo e herói, sem o saber e a seu despeito. E muito mais que herói ou santo, gente.” (Orígenes Lessa — ib.pág. 159).

Major Nonato
Foi encarregado pelo Ministro da Justiça para fazer um relatório completo sobre o acontecimento d branca encontrada morta numa praia dos mairuns. (53). O Ministro é o General Cipriano Catapreta (Ministro da Justiça.., General.) e o nome completo do Major é Nonato dos Anjos. Desanca, duramente, em seu relatório, o funcionário da Funai, Elias Pantaleão. E não apresenta nem grandes novidades, nem totais esclarecimentos sobre o caso. (53,322).

Noronha
Ajudante do Delegado Dr. Ramiro, em Brasília. Tomou os depoimentos, através de intérprete, do Dr. Peter Becker sobre o caso da moça branca, encontrada morta, numa praia do Iparanã.

Pe. Orestes
Amigo e orientador de Alma no Rio de Janeiro. (88-89).

Oscar Niemeyer
(209) — Arquiteto brasileiro (Rio 1907) de nome internacional e projetos originais. Trabalhou com Lúcio Costa, no projeto do Ministério da Educação e Saúde, renovando a arquitetura nacional. Além de outras obras, projetou algumas das construções principais da nova capital brasileira: Brasília. Deixou também suas marcas no exterior.

Oxim
É o pajé, o feiticeiro ou curandeiro. Mordia a carne que os índios iam comer, para purificá-la. (189). Se um índio morre e outro piora, todos pensam que foi o oxim que o enfeitiçou, fez mal ou matou. Isaías chama atenção de Alma que vai acabar virando oxim, porque dá remédios para os índios. E o que acontece, com o oxim que não cura? Ele é massacrado pelos índios porque não ressuscitou a indiazinha Cori que morreu de picada de cascavel. (386).

Pajé-Sacaca
(290) Missionário caraíba (branco), padre ou pastor protestante. A palavra parece ter alguma conotação pejorativa.

Perpetinha
Filha do seu Cleto e D. Gueda, moradores em Corrutela, ouvinte constante do beato Xisto. Parece dominada pelas suas pregações. Pequena, magrinha, quieta e calada. (368). Tem ouvido e voz musical: puxa sempre os cantos, segundo a ordem do pregador. Xisto lhe arranca a língua para libertá-la da possessão do diabo. (361).

Dr. Peter Becker
(21,53...) Cientista suíço que estuda formigas e formigueiros, lá nas regiões do Ipiranã. Encontrou o corpo de uma branca e dois fetos numa praia do rio, território dos mairuns, em 26 de outubro de 1974. Relatou tudo, de modo oficial, ao Dr. Ramiro, delegado de Brasília, que lamenta a amolação.
“Com os diabosl Morre gente aqui a toda hora e eu tenho que tomar conta desta defunta que morreu a mil quilômetros...” (19).
A partir desse acontecimento, que ficará explicado no decorrer da narrativa, o romancista cria todo o seu mundo romanesco: é como a célula-mater de todo o organismo.

Irmã Petrina
Com quem Alma conversa no Rio sobre a sua decisão de abandonar a civilização e seguir para a Missão. É severa e seca como o nome: conhece, certamente, quem era a moça e não acreditava na sua vocação. (49). Vai ser, no final do romance, uma espécie de reformadora da Missão. (400). Seu trabalho é elogiado pelo Pe. Ludgero.

Pinuarana
(314) — Mulher de Terá. Como estava amamentando, pode ter indicado a Caníndejub (Alma) para as relações sexuais do marido. (314). Costumes da tribo.

Seu Pio
É empregado de Manelão (Manuel Gão) e gostaria de trabalhar para o Senador Andorinha, mas não pode porque está escravizado ao patrão pelas suas dívidas. (402).

Queco
Amigo de Alma, nos tempos cariocas. Soube, bestificado, de sua morte numa reportagem de O Globo. (402-403). Conversou, pelo telefone, sobre o acontecido com outro amigo da moça, Fred.

Quinzim
Era casado com Doía. (396). Empregado (ou escravo) de seu Juca. Não tem condições de sair, por causa das dívidas. Xisto o encontrou morto, no mato, talvez picado por uma cobra. Trabalhou para o Dr. Peter, conduzindo-o lá pelas regiões dos mairuns, Chamava-se Joaquim Quinzim. (21).

Dr. Ramiro
Delegado a quem o suíço — Dr. Peter Becker — denunciou a morte de uma branca, nas praias perdidas do Iparanã; em território dos Mairuns. Delegado de Brasília, responde pelo acontecido em regiões tão longínquas.

Remei
É o aroe da tribo (adivinho ou médium). (118). Elemento importante entre os mairuns, sempre presente nos grandes momentos. Abandonou sua mulher Moitá. Era o pai do Avá.


Salvador
Referência do autor ao ex-presidente do Chile — Salvador Allende - que projetou uma grande reforma socialista no país. Foi derrotado e morto pelas forças contrárias. Darcy Ribeiro trabalhou em sua equipe e o recorda como companheiro.
“O que sei é da minha inveja enorme das vidas na morte dos meus dois amigos amados e apagados: Ernesto e Salvador. (213).

Teró
Índio da família dos carcarás. Mais velho, valente, forte, respeitado, Tem amores também com Alma, (Os fetos seriam seus filhos?) (350).

Seu Tonico
Homem do Senador Andorinha: executa os seus planos na fazenda de gado. Em homenagem aos índios (de quem tomou as terras), a fazenda do Senador se chama “... dos Epexãs”.

Pe. Vecchio
Velho missionário, fundador da Missão N.S. do Ó. Ficou cego pelo glaucoma. Já com seus oitenta anos. A vida inteira, discutiu com o Pe. Aquino os problemas da vida de missionários. Não é tão pessimista como o companheiro, em relação à conversão do gentio. Dá, num diálogo final com o Pe. Aquino, a impressão de frustração meio resignada, depois de quarenta anos de missão. (Os dois dialogantes se parecem com os irmãos jesuítas do “Diálogo sobre a conversão do gentio” do Pe. Manuel da Nóbrega). Morre. (400). Os dois padres amigos escreveram a ‘Etnologia ou Etnografia dos Mairuns... (390-391).

Xaepês
Índios perigosos que se afastaram dos brancos, Vivem em luta contra os caraíbas e os outros índios. Não procuram contacto. São caçadores de gente e de ferramentas. Roubam e matam. Parece que foram os autores do massacre de seu Juca e seu empregado Boca. (Os mairuns acham que não...).

Xisto
É um beato pregador e catequista de Corrutela, sob as ordens do pastor Sob. Fala bem, conhece as passagens mais importantes da Bíblia. Fala de Deus e do Diabo e suas terríveis manhas e ardis. É meio fanático. Só fala de castigos, não prega o perdão dos pecados. Ensina que, para vencer o diabo, não basta a fé: é preciso também a manha. Distribui a Bíblia, vestido de camisolão, como batina, branco-azulado (359). Mandou quebrar as garrafas de pinga, uma a uma, do bar do seu Melchior. Não admite a bebida. Expulsou do lugar todas as prostitutas, Conquista o seu auditório. Para livrar Perpetinha da possessão diabólica, arranca-lhe a língua. O próprio Bob, pastor e chefe, nota os seus fanatismos, mas não esperava pela tragédia. Apesar de sangrado pelo pai de Perpetinha (seu Cleto), não morre. E mais um beato do nosso ciclo brasileiro, fruto das estruturas, do seu próprio temperamento e de sua capacidade de falar e convencer as pessoas humildes.


5. TÉCNICAS NARRATIVAS

A narração não segue uma linha reta, mas em vaivéns. Muitos capítulos são narrados pelos personagens, na primeira pessoa. O autor, narrador em terceira pessoa, onisciente e onipresente, se encarrega de organizar e dispor as partes e capítulos, segundo seu plano, geral, isto é, a carpintaria do seu romance. Exemplifiquemos os capítulos narrados em primeira pessoa (autobiografia): no cap. Isaias, ele monologa em torno de sua situação exótica: não é civilizado e já não é mais índio mairum: no cap. Alma, ela conversa com irmã Petrina, revelando sua decisão de ir para as missões. Neste capítulo, o narrador, de fora, na 3ª pessoa, apenas introduz a cena. Assim também, na primeira pessoa os capítulos: Nonato, Avá, Serviço, Inquérito, Retorno, Encontro, Maira: Avá, Incúria, H? Muhere Té, Os Brabos...
Às vezes, o personagem, em primeira pessoa, revela suas ruminações, em forma de monólogo interior, uma espécie de fluxo de consciência (stream of consciousness):
Alma: “Aqui estou eu, meu Deus, para servi-lo. Servi-lo com minha alma e com meu corpo, no sentimento e na dor...” (85 a 89).
E Isaías (Avá):
“Aqui estou, afinal, em Santa Cruz, esperando para ir adiante, voltando atrás.” (105 a 110).
Depois da tragédia na vila de Corrutela,o pastor Bob diz/pensa, em inglês bíblico, palavras terríveis e apocalípticas. (362)
“1 saw an evil, evil tongue. 1 saw a holy tongue...”
“1 saw the beast, 1 saw the beast...”
O Pastor estava vendo, na tragédia, a besta do Apocalipse...
Entre muitos diálogos que tecem toda a trama, no cap. Kirie, o do Pe. Vecchio e Pe. Aquino, dois velhos, é comovente pela frustração que revela. Parece que tudo foi inútil, a própria vida, pelo fracasso da catequização e da vocação de safas.
Há no texto também um depoimento, o do Dr. Peter Becker (21), reduzido às formalidades cartoriais, nomeação do Dr. Nonato para investigar a morte da moça branca ( ), o seu relatório ( ) e outro relatório do Agente 17, Elias Pantaleão. ( ).
Toda a carpintaria do romance é grandiosa e ultrapassa aquela linha tradicional e contínua de princípio, meio e fim. Tudo vai nascendo e crescendo como acontece na realidade complexa do mundo, da vida e dos homens. E daí o nascimento de um pequeno e grande mundo romanesco, tão povoado e tão movimentado como um enorme formigueiro.
O último capítulo — Indez dá uma síntese de domínio das técnicas: começa com Xisto, o beato, conversando com Dóia, mulher de seu Quinzim, Depois se misturam personagens, monólogos, diálogos, presente, passado, pensamentos... em superposição de planos e com mudanças caleidoscópicas. Tudo parece um filme, rápido, cheio de acontecimentos, de episódios que vão se acavalando uns sobre os outros, atropelando-se em verdadeira enumeração caótica. Mortos e vivos voltam à lembrança e passam. Dois amigos comentam, tristes e incrédulos, a morte de Alma Freire. Tudo vem entremeado com uma conversa de amor entre Jaguar e Inimá, um pequeno e amoroso “cântico dos cânticos”, muito carnal. Algumas palavras revelam no finalzinho da conversa amorosa, em língua mairum, o convite final para o prazer da sururucaçao.

6. LINGUAGEM

... de “MAÍRA” inclui vasto vocabulário indígena, quer de palavras isoladas como de algumas frases (não traduzidas). O mundo das palavras caracteriza o mundo dos seus usuários. As palavras revelam a visão, a ideologia, as concepções, o tempo, a cultura... dos que as usam, O autor, que conviveu alguns anos com os índios, em pesquisas de campo, tem na sua mão um rico cabedal de palavras indígenas: assim é que procura recriar, ao vivo, a história do povo mairum.
De outro lado, há um numeroso, vocabulário de disfemismos referentes ao sexo. Alma também usa, em sua linguagem desabrida. Às vezes chocam certas palavras chulas porque são usadas para retratar o sexo entre os índios. Nossos palavrões correspondem s concepções mairuns com relação ao sexo? No romance O Mulo acontece a mesma exarcerbação sexual com o correspondente vocabulário. (Até Isaías não gostava dos palavrões de Alma...).
De qualquer modo, a linguagem do romance é forte, impressiva, rica e poética. Há verdadeiros poemas e verdadeira poesia: o antropólogo, na ânsia de recriar, em profundidade, corpo e alma, o mundo mairum, esquece a ciência e se banha em poesia. Para compreender tudo desse complexo mundo dos índios, se faz poeta.
“Maíra” ... esse milagre estético em Darcy Ribeiro se consagra como o primeiro dos nossos cientistas sociais a conseguir ser, igualmente, um de nossos maiores romancistas. E mesmo poeta... (Tristão de Ataíde - in contracapa do livro).
Como Guimarães Rosa, o autor sabe descobrir também “o canto e a plumagem das palavras”.

7. ASPECTOS SOCIAIS

MAÍRA é um resumo, a visão do mundo indígena (diante do mundo civilizado. De um lado Alma que fugiu do Rio de Janeiro ( da civilização) para o mundo mairum; de outro, Isaías que saiu da aldeia para a civilização, para a cidade dos caraíbas. Perdeu a sua “indianidade” e não conseguiu adquirir a “civilização” Ficou despersonalizado. A simplicidade, a vida ao natural do índio, sem o terrível peso do pecado, sem as implicações e complicações do civilizado, a sua organização tribal, uma vida “comunista”, sem o consumismo dos brancos, a ganância, o “capitalismo”, o dinheiro... se apresentam quase como se fossem um modelo. (A felicidade no campo e no inferno na cidade... Velhíssimo lugar-comum da literatura). Durante os dois anos que o índio não se “civiliza”. Recebe uma pele apenas de gente da cidade, sem nenhuma transformação mais profunda. Mas, ao mesmo tempo, sofre uma terrível deformação na sua “indianidade”. Já não é mais aquele índio em estado de pureza, com uma que passou na aldeia, Alma sentiu nova vida e novo mundo. Isaías (Avá) demonstra mentalidade completamente diferente de nós. Quando volta à tribo, já não se adapta totalmente. Por isso, o ex-seminarista ficou também um ex-mairum. É a desgraça. Nem os postos da Funai, nem as Missões conseguem, de fato, “civilizar” o índio. E o massacram. Desde Nóbrega, do séc. XVI, existe urna dolorosa consciência de fracasso diante da realidade da catequização: o índio não se converte, intimamente, profundamente. Muda apenas de roupa, ou de aparências. “O diálogo sobre a conversão do gentio” (Liv. S.José — Rio —1958 com longo estudo de Mecenas Dourado) é a confissão de frustração. O Pe. Nóbrega coloca dois irmãos leigos da Companhia discutindo sobre a conversão dos índios. Mateus Nogueira, em vista dos resultados, está muito pessimista; Gonçalo Álvares ainda tem esperanças. Apesar de todos os esforços, a converção dependeria de um milagre da graça divina. E milagre não acontece a toda hora. Parece que a visão do problema leva a uma conclusão pessimista. (Um anzol (um presente) converte o índio; dois, o desconvertem...) O índio em contacto com a civilização sai perdendo. Os Postos da Funai também não têm eficiência e seguem uma rotina ineficaz: como a do agente Elias Pantaleão da Silva que aparece retratado pejorativamente no relatório do Major Nonato. Padres e freiras recebem alguns aplausos.
Outro aspecto social relevante é a invasão, de todos os modos, do branco no território indígena: seu Juca explora índios e brancos, como se fossem seus escravos e procura executar, com absoluta fidelidade, os planos do Senador Andorinha, para a conquista de imensas terras. O ideal é ganhar riquezas e se tornar, cada vez mais, senhor do poder. O regatão mantém os seus empregados em regime de escravidão: eles não podem nem sair porque estão presos por dívidas irresgatáveis. (Caso semelhante no romance “A selva”, de Ferreira de Castro).
Nesse meio, a religião se torna também uma arma poderosa de domínio e fanatização. (Os missionários recebem grandes favores e, assim, colaboram com o Senador e outros iguais...). A religião se torna um terrível fanatismo: como no caso de beato Xisto que arranca a língua da devota Perpetinha para livrá-la da possessão diabólica. Não é uma religião de amor, mas de medo, a da pregação do beato. De maneira indireta, há uma crítica ao vazio, à solidão e à frustração da vida missionária. Na verdade, reduzindo todo o horizonte do homem aos limites terrenos, não faz sentido a vida de Missão. Se a única forma de viver é viver carnalmente como Alma, tudo se torna muito pouco para os nossos desejos..

“A alma humana, qualquer que seja, em seus sonhos, mesmo os mais ousados ou mais subtis, sua relação com o sistema econômico e social, ultrapassa o ambiente humano, no imenso ambiente cósmico, O contato com o universo faz vibrarem nela forças misteriosas e profundas, forças da vida eterna atuante, que precedeu às sociedades e as ultrapassará”. (J. Jaurés — apud O Cântico das Criaturas... Eloi Leclerc — Vozes — 1977 pág. 166).

As crenças mairunas parecem sugerir uma sobrevida: mortos e vivos se comunicam através do aroe. As cerimônias rituais, pela morte do grande tuxaua Anacã, indicam que ele vive ainda, de outro modo. E é para sobreviver, como povo, que o davizinho, o índio, enfrenta o golias branco. (174) Nessa luta desigual, o destino do índio é a destruição, o aniquilamento. E a visão que se fabrica do índio está completa nas palavras do “patriótico” Senador Andorinha:

“Ah! os marginais, os marginais como diz o senador: uns desgraçados. Não quiseram colaborar, safados. Com trabalho não querem nada. O jeito foi chamar um batalhão do Terceiro Regimento para escorraçá-los como invasores da fazenda do Senador.,.” (402).

As terras dos índios foram invadidas e tomadas. Agora, as posições mudam: o índio vira o grande e detestável invasor.

8. CONCLUSÃO (ÕES)

“MAÍRA”

Romance de Darcy Ribeiro. (Civilização Brasileira — Rio — 1981 — 5 ed4. Em torno da morte de uma branca nas praias dos índios Mairuns se tece toda a trama de um grande romance: uma visão do mundo indígena acossado pelo mundo dos civilizados e em processo de destruição. Assim como acontecia com o Avá (lsaías). A branca é uma moça estuante (Alma) que vai deixar marcas inesquecíveis na aldeia, O romance revela um mundo que se constrói em dimensões de grandeza épïco-lírico-dramática. Nesse mundo se entrelaçam ciência e ficcção, verdade e literatura, história, geografia, antropogeografia, prosa e poesia. E uma música indefinível. Livro escrito com lúcida inteligência e apaixonado ( e apaixonante) amor. Nessa cosmovisão (Weltanschauung) se defrontam as empolgantes figuras de Deus e do Demo das pregações do beato Xisto. Há urna massa enorme de informações sobre os índios e o seu mundo primitivo. O romance ultrapassa os limites pequenos de uma narrativa ficcional para se tornar uma grande rapsódia do indígena. Ai vivem índios e civilizados, sem que nenhum consiga assimilar o outro: Alma tenta mairunizar-se do mesmo modo como saias tentara civilizar-se. E quem leva a pior to pobre índio, o Avá, que, voltando, não consegue mais ser o mairum primitivo, como era antes de se meter num seminário. Torna-se uma figura pungente, marginalizado na aldeia e, se voltasse para a cidade, também o seria. Pelo menos, a moça carioca vai se adaptando, alegremente, à vida dos índios. Os civilizados vêm chegando e encurralando, cada vez mais, os índios, nos escondidos das matas ou nos cantos dos rios. As terras, agora, serão dos brancos que desmatam e abrem enormes campos de criação de gado. De vez em quando, os índios invadem suas terras e 550 rechaçados com violência... Agora, os índios é que são os invasores...
MAÍRA é uma cosmogonia mairum, um Gênesis cheio de deuses e de belezas, de crenças e lendas que desmantela toda a nossa concepção de civilizado, que se opõem, se contradizem e se destroem (“Você vai. Eu volto”, disse lsaías a Alma (138). Mas nenhum deles conseguirá assumir — profundamente —a condição de mairum. Ela porque não é índia; ele, porque já não é mais...) Nem mesmo os padres, velhos missionários, têm certeza da sua missão. Ou antes, têm a impressão de que fracassaram. O que se pode prever é a destruição do índio. A força da civilização do branco marcha [para um massacre total. Tomando-lhes as terras, civilizando-os, a nossa dita civilização está também tomando-lhes a própria alma de índio. “O Processo (Civilizatório) é um filho bem sucedido... Só menos querido da que o meu filho caçula — o romance MAÍRA que por outras razões, é meu xodó”. (O Processo Civilizatório — Vozes — 1981 —6ed.pág.21).





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Conteúdo: Hélio Consolaro
Manutenção: Luís Gustavo Almeida

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