MAÍRA
(Darcy Ribeiro
)
Estudo dos professores
Teutônio Marques Filho e Delson Gonçalves Ferreira
1922 - Nascimento em Montes Claros.
“... Escorpião, gosta de dizer que é mineiro de Montes Claros,
a melhor cidade do mundo (a avenida principal tem o nome da mãe dele:
Mestra Fininha). Depois de nascer de parto natural (dizem que foi fundado, mas
não é verdade), cresceu e fez as bobagens habituais”. (in
Ensaios lnsólitos — L. &PM — Porto Alegre—1979—pág.7)
1930 - Revolução getulista com suas grandes transformações
sociais.
1937-1945 - Estado Novo: organização ditatorial tendo à
frente Getulio Vargas. O Manifesto dos Coronéis o derrubou em 1945, quando
se criaram dois importantes partidos para recomeçar o processo democrático:
U.D.N. (União Democrática Nacional) e P.S.D. (Partido Social Democrático).
1939-1945 - IIª - Grande Guerra. O Brasil participou dela com suas forças
armadas que combateram na Itália. (F.E.B.)
1946 - Já moço quis ser médico, bacharelou-se em Ciências
Sociais pela Escola de Sociologia e Política da Universidade de São
Paulo. E acabou antropólogo profissional. “Como tal passou os dez
melhores anos de sua vida (1945-1955) dormindo em rede nas aldeias indígenas
da Amazônia e do Brasil Central e assessorando Rondon no Rio de Janeiro.”
(Ensaios Insólitos — pág.7).
“A primeira década de sua vida profissional foi dedicada principalmente
ao trabalho de campo entre tribos indígenas da Amazônia e do Brasil
Central, como os Kadiwéu, Terena, Kaywá, Ofaié-Xavante;
Bororo, Karajá, Urubus-Kaapor, Kaingang, Xokleng e diversos grupos da
área do Xingu...” (O Processo Civiliza-tório — Vozes
—1981 — 6ª ed. — pág.19).
1947 — Etnólogos do Serviço de Proteção aos
Índios (S.P.l.).
152-1956 - Dirigiu a seção de estudos do mesmo Serviço
e criou o Museu do índio que também dirigiu durante alguns anos.
1954 - “Suicídio de Getúlio Vargas, então presidente
eleito (24 de agosto) e não ditatorial”.
1955-1964 - “Seduzido por Anísio Teixeira, virou educador e fez
carreira como educador, reitor e, afinal, ministro. Foi professor de Antropologia
da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação
Getúlio Vargas (1953-1954). Foi professor-regente de etnografia e língua
Tupi da Faculdade Nacional de Filosofia da U. do Brasil (1956-1961).
Em 1957, foi Diretor da Divisão de Pesquisas Sociais do Centro Brasileiro
de Pesquisas Educacionais. Fundou e dirigiu a revista “Educação
e Ciências Sociais”, Em 1958, foi encarregado do centro de pesquisas
sociais da Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo.
1959 - Planificação e programa de pesquisas interdisciplinares
sobre “urbanização e industrialização, seus
efeitos sobre a família e a escola”. Foi o primeiro reitor da Universidade
Nacional de Brasília que, em grande parte, planejou. E, em 1962, foi
Ministro da Educação e Cultura no Governo João Goulart.
Foi Chefe da Casa Civil da Presidência da República.
1960 - 21 de abril. Inauguração oficial de Brasília.
1964 - 31 de março. Revolução que derrubou o presidente
João Goulart. Darcy Ribeiro teve seus direitos cassados por 10 anos.
“Exilado, virou latino-americano e passou muitos anos (1964-1975) remendando
universidades no Uruguai, na Venezuela, no Peru e até na Argélia.
Nesses anos escreveu demasiados livros, que andam sendo editados mundo afora.
Foi professor de Antropologia da Faculdade de Humanidades da República
Oriental do Uruguai (1964-1968).
1982 - Sinal da abertura democrática pregada pelo presidente João
Figueiredo: eleições. O P.D.T. (Partido Democrático Trabalhista)
ganhou as eleições de governador e vice-governador no Estado do
Rio. Darcy Ribeiro se elegeu, pelo voto direto, vice-governador na chapa de
Leonel Brizola.
1983 - Tomada de posse na vice-governança do Estado do Rio. Governador
em exercício pela viagem ao exterior do governador. Ele mesmo se considera
“um antropólogo profissional, intelectual da minha geração
e político militante”. (Os Brasileiros — Vozes — 1980
— pág.9).
“Fiz meu o seu (de Anísio Teixeira) lema: Não tenho compromisso
com minhas idéias, busco a verdade”. (Os Brasileiros — Vozes
— e.c. pág. 15).
Em 1973, escrevia: “A única forma de se saber com segurança
como será nosso mundo dentro de trinta anos é sobreviver para
ver. Eu felizmente não terei que fazê-lo. Morrerei em 1983”.
(Ensaios Insólitos — e.c.pág.39).
Não morreu: entrou na política.
1985 - Saiu a sua “história” (?) do Brasil: “Aos Trancos
e Barrancos. Como o Brasil deu no que deu”.
É uma visão sectária: na lista dos grandes personagens
da nossa história não podiam faltar nem ele mesmo (Darcy Ribeiro)
nem o seu grande ídolo, Leonel Brizola.
“Versão composta com as brasas e as pedras do meu sectarismo professo
de homem de ideais e de partido”.
II. O romance MAÍRA.
1. ENREDO
É uma seqüência de acontecimentos ou episódios que
se encadeiam, conforme a estrutura tradicional do romance, formando princípio,
meio e fim. Ou segundo uma estrutura móvel, não linear, muito
mais complexa, como em MAÍRA.
MAÍRA começa da descoberta feita pelo cientista suíço
— Dr. Peter Becker - de uma branca, morta, com dois fetos, numa praia
dos índios mairuns, em 26 de outubro de 1974, às margens do Iparanã.
(21)
“Sobre a praia, distante vinte metros aproximadamente da linha-d’água,
jazia em decúbito dorsal, uma jovem mulher branca, meio despida, com
o corpo pintado de traços negros e vermelhos, formando linha e círculos.
Dita mulher tinha as pernas abertas e entre as coxas se podia ver um duplo feto,
quero dizer, dois nascituros do sexo masculino ainda envoltos na placenta e
ligados à mãe pelos cordões umbelicais. Verificou que a
mulher estava morta — corpo frio, rigidez cadavérica — bem
como os fetos..” (21) Leia-se o resto do relatório in loco.
Aí o fato e o mistério que só se vai revelando com o correr
da narrativa. Enquanto o Dr. Nonato investiga a morte da moça branca,
o autor, por si mesmo ou por personagens, vai recriando todo o mundo mairum,
suas crenças, seus usos, seus ritos, sua organização, sua
vida e sua morte... Já que a civilização dos brancos vai,
rapidamente, cercando suas terras e suas gentes para o massacre final. Que virá.
No tempo e no espaço, desfilam personagens dos dois mundos: o indígena
e o civilizado. (Quem é a morta? De que morreu? Morte natural, causada
pela delivrance ou assassínio? Onde viveu? O que fazia no meio dos mairuns?)
O Major Nonato vai desvendando, pouco a pouco os pontos principais do mistério:
a morta é uma moça carioca: Alma das Neves Freire, que foi para
a aldeia mairuna como índio e ex-seminarista Isaías (Avó),
onde chegou uns dois anos antes de morrer. Parece que foi acidente de parto,
falta de recursos, primeiro parto... Os brancos (caraíbas) avançam,
cada vez mais, nas terras indígenas, o Senador Andorinha planeja um grande
loteamento nas terras para a criação de gado, conta com suas influências,
tem testas-de-ferro e outros menores para a execução da obra,
segundo ele, de alto sentido patriótico a civilização dos
índios...
O centro da narrativa é a aldeia dos índios mairuns, sua vida,
atividades, movimentos, caças e pescarias, sua religião, suas
lendas cosmogônicas, seus deuses protetores (Maíra e Micura), as
festas, os jogos, uma grande explosão de sexo, a surrucaçâo...
(Alma seria uma das causas dessa explosão, pela sua vitalidade, pela
sua liberação?). Há mortes que fazem parte da história
ou estória daquele povo o grande Tuxaua, de cem anos, Anacã, resolve
morrer e recebe longas e solenes celebrações; morre a indiazinha
Cori de mordida de cascavel e causa a morte do oxim da tribo; morte em Corrutela
(Xisto arranca a íngua de Perpetinha, para livrá-la do demônio);
Quinzim é encontrado morto, talvez picado de cobra; o massacre de seu
Juca e seu empregado Boca...; relações dentro e fora da Missão,
padres e freiras, esperanças ou frustrações dos missionários;
a presença do pastor Bob, norte americano e de sua mulher, a lingüista
D. Gertrudes... Com a morte de Ancaã, o sucessor é Avá,
seu filho, que volta agora, depois de longa ausência, no meio dos padres,
dentro dos seminários de Goiás Velho, São Paulo ou Roma.
Seu nome cristão é o do grande profeta saías. Era uma grande
esperança para os padres da Missão de N.S.do Ó. Seria padre,
voltaria para pregar o Evangelho aos seus irmãos de raça... Voltou.
Não se ordenou, não veio pregar, não veio ser o novo tuxaua,
não era mais um mairum, nem era um civilizado. Voltou despersonalizado,
ficou marginalizado, sem qualidades para ocupar a chefia da tribo. Em seu lugar,
o novo cacique será seu sobrinho Jaguar. (Jaguar tem dois grandes amores
na tribo: a branca Alma e a índia Inimá. A primeira é uma
queimação explosiva e a segunda as ternuras de amor...) Com saías
chega à aldeia a moça carioca —Alma — com vontade
definitiva de abandonar a civilização. Ajeitou-se àquela
vida, distribui remédios, cura os doentes, corre o perigo de virar oxim
(o curandeiro), tenta mairunizar-se, vive uma vida estuante, é uma mirixorã
querida, ama principalmente o moço Jaguar, engravida, tem ciúmes
de Inimá e morre no parto. E lsaías, cada vez mais desajustado,
arredio, sem presença na sua própria casa e aldeia. Dão-lhe
Inimá por mulher, mas ela não o quer e vive de amores com outro,
o seu sobrinho, Jaguar. Dele, ela só quer os presentes. Sua paixão
por ela não tem correspondência nenhuma. Até desaparecer,
em penumbra e sombra, dentro da narrativa.
O enredo do romance não é linear, mas cheio de vaivéns,
compondo uma grandiosa narrativa que envolve os dois mundos conflitantes dos
índios e dos brancos. Alguns personagens têm o seu destino selado
(para sempre) dentro do romance: morrem Ancã, Alma, Cori seu Juca, Boca,
o oxim, Pe. Vecchio, Pe. Aquino, Irmã Canuta, Jaguar é feito tuxaua.
E, tendo perdido a canindejub (Alma), faz (no último capítulo),
com Inimá, outra amada, um pequeno e amoroso “cântico dos
cânticos”. E fechando o livro, o índio faz o último
convite para o amor, chamando Inimá em língua mairum (406). Chega
gente nova à Missão para reacender as esperanças da evangelização.
Nem mais um puro mairum, nem nunca uma caraíba, apesar de tantos anos
de seminário no meio dos brancos, Isaias, Avá, fica completamente
relegado ao esquecimento. Qual será o seu destino? (O mesmo dos índios
massacrados pela civilização: o fim, a destruição,
o desaparecimento. lsaías é um símbolo trágico...).
2. ESPAÇO
Elemento da estrutura de uma narrativa: onde se desenvolvem as ações.
É um pedação do Mato Grosso, terras dos índios,
região dos mairuns, protegidos do deus Maíra. A aldeia está
às margens do rio Iparanã perto da Missão N. Senhora do
Ó. Os mairuns vivem na sua aldeia, ao contacto com os caraíbas
(brancos). Os xaepes são inimigos dos brancas e se isolaram nas matas.
Há um espaço geográfico, físico e outro cultural:
aí se chocam o índio com sua civilização primitiva
e o branco que vai avançando cada vez mais. É claro que o espaço
romanesco não corresponde, exatamente, ao geográfico nem a paisagem
do romance tem que corresponder, com precisão, à realidade. O
certo é que o autor conviveu anos comas índios, quer no Mato Grosso,
quer na Amazônia. E conhece muito bem esse “habitat”.
3. TEMPO
A ação do romance se passa na década de 70. Há
duas datas certas: 12 de maio de 1972: chegada de lsaías e Alma, pelo
avião do C.A.N. ao campo de Naruai. Em 19 do mesmo mês, chegam
à Missão de N.S.do Ó, onde ficaram apenas três dias.
(323).
Em 26 de outubro de 1974, o cientista suíço Dr. Peter Becker encontrou
o cadáver de uma jovem mulher branca e um duplo feto. (Era o corpo de
Alma das Neves Freire). O que significa que Alma viveu, uns dois anos no meio
dos índios mairuns. É o tempo cronológico; o psicológico
(estado de alma) está nos pensamentos, reflexões e ruminações,
principalmente, de Alma e Isaías. Naquele monólogo interior, feito
de recordações e de meditações no íntimo
dos personagens. O tempo que rege esse mundo não depende dos relógios,
mas dos estados de alma.
O tempo na aldeia se marca por outros elementos e é como uma canoa que
desce o rio de bubuia, ao sabor da corrente, com sol ou chuva, no clarão
da lua. Tempo de calor ou frio, de vento ou calmaria.
“O tempo acabou de virar. Chegaram, afinal, os dias azuis. O céu
está azulíssimo de tão lavado de toda a bruma...”
(44) E vão chegando, numa variedade muito grande, todas as espécies
de pássaros. É a estação da seca. As chuvas foram
embora.
“Cada tarde a cova de Anacã é regada uma vez mais”.
(55)
“Termina o dia na vila de Corrutela”. (68)
“O chuvisco da noite assenta a po&ra do pátio e lava os ares
para que impere mais forte a catinga de Anacã”. (117)
“O douglas voa baixo na manhã nevoenta por cima dos cerrados altos
do Iparanã”. (136)
“Glória do sol nascendo na água”. (143)
“Um tempo velho, seco, ático — asas aparadas, olhos cegados
— derrama sem termo sua areia impalpável. Entretece com longuíssimas
horas os dias e as noites sem conta dos tempos missionais...” (163).
“Entre o rio e o céu, a canoa corre ligeiro, debaixo do sol...”
(171).
“Acanoa voa no rio, o sol voa no céu”. (186)
somar
“Xisto, acocorado ao pé da capela, prega hoje como toda tarde”.
(192)
“Antigamente é o tempo do Sem-Nome”. (197)
“Correm os dias livres, sem se enroscar em semanas, e as semanas soltas,
sem somar meses.” (363).
4. MINIDICIONÁRIO DE PERSONAGENS
Alma
Carioca, loura, bonitona, clara e esguia. Seu nome inteiro: Alma das Neves
Freira No Rio, experimentou de tudo: sexo e drogas. O pai morreu e ela enjoou
de tudo. Quis ser missionária. Foi para a Missão N.S.do Ó.
Por acaso encontra saías, ex-seminarista, índio mairum, em Brasília.
Seguem juntos para a aldeia. Os Padres não a deixaram ficar. Lá
se foi como índio para o meio deles. Entregou-se de corpo e alma aos
índios: dava remédio aos doentes, fez amor com os índios,
ajudou, tentou se adaptar, viveu dois anos no meio deles. Foi achada morta com
um parto duplo na praia dos mairuns, no rio Iparanã. Major Nonato fez
um relatório e concluiu pela morte natural, durante a delivrance. Quem
encontrou seu cadáver foi o cientista suíço — Dr.
Petter Becker, em 26 de outubro de 1974. (Ela chegara à aldeia em 1972,
maio). Era uma mulher atraente, generosa em todas as suas ações,
impulsiva, em busca de alguma coisa que enchesse os seus vazios. Amava a vida
mairum. Inteligência lúcida, via com clareza a situação
de desajuste do ex-seminarista Isaías. Os mairuns gostavam muito dela
e a enterraram dignamente. Ficou na memória de todos. Gostava da vida
que vivia gulosamente. Ficou grávida de algum índio. Não
sabia se foi de Terá ou de Jaguar. Pensava que foi de terá, mas
gostaria que os filhos fossem de Jaguar, sobrinho de lsaías e futuro
tuxaua. Alguns amigos do Rio souberam e lamentaram sua morte. Ela representa
o civilizado que tenta indianizar-se enquanto Isaías, o índio
que tentaram civilizar. Apesar de todos os esforços, ela própria
sentiu que era impossível virar uma mairuna. Era uma mirixorã,
mulher livre, que não podia casar-se na tribo. Era de muitos, de todos
que a quisessem. Amou, mais que a todos, ao moço Jaguar.
Anaçã
Grande e velho tuxuaua, organizador da aldeia, respeitado de todos. Morreu,
aos cem anos, quando teve vontade. Houve longas e solenes cerimônias pela
sua morte, segundo os rituais miruns. O cargo de tuxuaua ficou vazio, na espera
do Avá (Isaías). Darcy Ribeiro o conheceu: era índio caapor.
“Companheirão muito querido. Era baixinho, gordo, risonho. O mais
parecido com um intelectual que eu encontrei num índio”. (209)
Senador Andorinha
Político influente, poderoso, Planeja o loteamento de imensas terras
indígenasnas, o seu desmatamento e criação de gado. Para
realizar a grande obra conta com o Dr. Cleto e os serviços diretos do
regatão seu Juca. Os privilegiados, a começar por ele, representante
e defensor dos interesses do povo (1) serão os ricos donos das terras
indígenas. Estava de bem com a Missão e prometeu novas terras
ao novo diretor, Pe. Ludgero.
Aninha
Mulher do Major Nonato, o do relatório sobre a morta do Iparanã.
Aparece em conversa amorosa com o Major, no último capítulo.
Anoã
Venha da casa dos tracajás que gosta muito de perguntar as coisas ao
Avá (lsaías). Queria conhecer, por meio dele, o mundo dos caraíbas.
(305)
Antão
Paraense que desceu até o Paraná. E se fixou no Ibeporã.
Casou-se com Dóia, viúva do Chico Remo. Tinha um filho de quatro
anos. Recebeu Isaías e Alma, quando a caminho da aldeia, em Naruai.
Pe. Aquino
Era velho de uns 70 anos, um pouco menos que o octogenário Pe. Vecchio.
Pôs muita confiança na vocação e missão de
saías. Fracasso. Discute com o companheiro, Pe. Vecchio, a vida e a ação
missionária. Será que o índio se converte, de fato, ao
cristianismo? Ele não crê. “Com um anzol os converto; com
dois os desconverto”. Há muito de desencanto no seu diálogo
com o Pe. Vecchio. Diálogo semelhante ao criado pelo Pe. Nóbrega:
“Diálogo sobre a conversão do gentio”. Estavam os
dois escrevendo a “Etnologia Mairum” (390) ou “Etnografia
Mairum” (391)
Aroe
E o dono da fala, o que conversa com os mortos. Tem visões, recebe as
mensagens e as comunica. Espécie de médium. (Shaden-80)
Aruá
Um velho e grande avaeté, Homem honrado, de valor.
Avá
Ou Abá. É o nome mairum do ex-seminarista Isaías. Devia
ser o novo tuxuaua, mas não tinha qualidades. Em seu lugar, foi escolhido
tuxuaua o sobrinho Jaguar, amado da canindejub (Alma). Avá ou Abá
quer dizer homem, gente, homem ilustra Darcy Ribeiro conheceu o Avá que
era índio bororó e se chamava Tiago (nome cristão). (209).
(Ver Isaías).
Avaeté
Ou Abaeté. Significa: homem medonho, coisa medonha, que mete medo; terrível.
Também: homem de verdade.
Bob
Robert Toddy, pregador evangélico, norte americano. Casado com D. Gertrudes.
Mora numa casa que mais parece um disco voador pousado no chão.
Boca
Bugre roubado aos índios epexãs. Trabalhava no batelão
do seu Juca. Meio abobado, canta uma canção sem pé nem
cabeça. (39 e 40). Vai ser massacrado a borduna pelos índios aepês,
junto com seu patrão.
Camãe
Velha mairum que vive relembrando o passado. No seu tempo a vida era muito melhor,
segundo dizia sempre.
Camucim
Variantes: camuci, camocim, camotim. Vaso qualquer. Vaso funerário: servia
para sepultamento dos mortos.
Canindejub
A caraíba, mulher branca. E Alma. O velho aroe diz que ela é mulher
de lsaías, o Avá que vem para ser tuxuaua. O aroe afirma ainda
que o Avá não fecundará nenhuma mulher, mas somente a caraíva,
a canindejub. O que não acontece: ela será de todos, mas principalmente
de Jaguar.
Irmã Canuta
Risonha, gorda, surda e muda. Trabalha na cozinha da Missão.
Carlos
(213) — Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta itabirano (*1902-1987)
José escreveu:
“Minas não há mais’
Darcy Ribeiro faz esta referência: “Minas, aquela, há ainda,
é Carlos, e haverá, enquanto eu houver. E um território
da memória que vou recuperar, se o tempo der. Ali luzem, eu vi, barrocos
profetas vociferantes. Entre eles me fala sem pausa nem termo. o da boca queimada
pela palavra de Deus: lsaías...” (213). A dedicatória do
romance é para o grande poeta itabirano.
Pe. Ceschiatti
Confessor e guia espiritual de saías, em Roma. Quis convencer a lsaías
que ele era como qualquer um, de qualquer lugar. Acompanhou saías no
seu drama dê consciência. Mas não conseguiu fazer dele uma
oferenda do povo mairum a N.S.Jesus Cristo.
Pe. Cirilo
Missionário que ainda não sabe a língua dos Mairuns. É
da geração mais nova que vem substituir os velhos.
Nhô Cleto
É um fiel que escuta as pregações de Xisto. É muito
casmurro. Mais esclarecido e sente o fanatismo, muito perigoso, do pregador.
Tem pressentimento de alguma desgraça. É casado com D. Gueda e
pai de Perpetinha. Para vingar a morte da filha, sangrou o Xisto e fugiu para
a mata onde os soldados o prenderam completamente louco.
Dr. Cleto
Homem de confiança do Senador Andorinha. Enche a cabeça de seu
Juca de sonhos de grandeza e riqueza com os projetos do Senador.
Nhá Coló
Mulher de seu Juca. Casou-se, depois da morte dele, com o Manelão Gão.
Cori
Indiazinha pacu, picada por uma cascavel. A menina foi pegar um tatu no buraco
e acabou picada pela cobra. Não teve jeito: morreu. O oxim, é
claro, não pôde salvá-la. Por isso foi massacrado.
D. Creuza
Mulher do seu Elias, agente 17 do Posto da Funai.
Curt
Aquele alemão que, ouvindo as lamentações de D.Creuza,
mulher do agente do Posto, comentou:
“A senhora tem toda a razão, dona toda a razão. Destino
de mulher é muito ingrato.
As mulheres não deviam engravidar, nem sofrer as dores do parto sozinhas.
Tudo isso á uma injustiça. Deviam á botar ovo. Em tempo
de crise, se comia, em tempo de fartura, se chocava... “(397)
Dóia
Viúva do Chico Remo e, depois, casada com Antão. Recebia os passageiros
que desciam em Naruai. Recebeu, em casa, Isaías e Alma. Há também
a Dóia, casada com o Quinzim (396).
Douglas
Avião pesadão e firme que serviu na 1 l Grande Guerra e depois
em vôos domésticos no Brasil. Fabricação norte americana.
Elias Pantaleão da Silva
Casado com D.Creuza, cinqüenta anos, deve ser crente, Agente 17, encarregado
do Posto Indígena Eduardo Enéias, dos índios mairuns, do
rio Iparanã. Segundo informações do Major Nonato (encarregado
do relatório sobre a morta da praia dos índios) era relapso e
mentiroso. (324). Mas seu relatório sobre a morte de seu Juca e o Boca
está correto. (380). O relatório final do Major Nonato, de fato,
esculhamba com o pobre do Agente 71.
Epexãs
Tribo indígena. As criações de gado vão invadir
suas terras e massacrá-los. Na palavra do Senador Andorinha, são
uns marginais. (401). Um batalhão do Terceiro Regimento foi chamado para
escorraçá-los como invasores da fazenda do Senado: “Fazenda
dos Epexãs...”.
Ernesto Guevara
Médico argentino que se meteu nas lutas libertárias dos países
americanos e acabou em Cuba. Parece que era um idealista: juntou-se a Fidel
Castro e fizeram a libertação de Cuba. Che Guevara acabou morto
numa guerrilha na Bolívia. Nascido em 1928 acabou guerrilheiro, morto
em 1967, Darcy Ribeiro o recorda como amigo e com saudade. (213).
F.Huxley o Thief
Colega do Dr. Peter Becker nas pesquisas de formigas. Testemunhou também
a presença do cadáver de uma mulher branca e dois fetos, numa
praia dos mairuns no Iparanã. (21)
Fred
Um dos amigos cariocas de Alma, um dos seus amores. (85) Segundo ela, sofre
de complexo de Édipo. (87) Era médico psiquiatra e, no Rio, ficou
sabendo da morte da moça. Conversou sobre o assunto, com pesar, com o
Queco.
D.Gertrudes
(249) Mulher do pastor norte americano Bob. Formada em Iingüística,
estuda a língua dos mairuns e traduz, por meio de saias, a Bíblia,
para a mesma língua. Antipática.
Iacumá
Um índio mais velho, imbatível nas lutas da tribo. Vence mais
uma vez a Diaí. (56-57)
Inharon
(212) Doido, raivoso, estado de depressão do índio que, para curar-se
se isola. (Uirá...pág.18)
Inimá
(279) A gaviãzinha, destinada a ser mulher de Avó (lsaías).
Mas não é, a princípio, desejada por ele. Não quer
nada com ele e vive como solteira cheia de amores com os índios. É
uma das amadas de Jaguar, rival de mirixorã (Alma). O Avá, depois,
se mostra apaixonado por ela; mas dele, só quer saber de presentes. Alma
conta ao Avá (Isaias) como Inimá anda com os outros. A intenção
da candejub deve ser afastar a rival índia do seu preferido, Jaguar.
Não consegue.
Isaías
(29) O seu nome indígena é Avó, O nome de batismo é
Isaías, o profeta que teve sua boca purificada por uma brasa antes de
começar as profecias. Da Missão, o menino foi mandado para Goiás
Velho, como seminarista. Depois São Paulo, depois Roma. Iria, depois
de ordenado padre, voltar, para cumprir sua grande missão entre os irmãos
maruns. (E o sonho e o desejo dos padres de N.S. do Ó. Principalmente
o Pe. Aquino...). Depois de vários anos, lsaías não se
ordena e resolve voltar à tribo. Quer ser mairum de novo e se limpar
da casca de civilizado e branco. Deveria ser o novo tuxaua da tribo: não
tem as qualidades necessárias, não é mais um índio
como os outros. Na aldeia já não é mais um mairum puro
e muito menos um caraíba. É um gauche, um desajustado. Voltou
à tribo, trazendo consigo a carioca Alma. Ela vai se ajeitando bem à
nova vida, em total liberdade. Ele fica de fora, marginalizado. Inimá,
que deveria ser sua mulher, não tem ligação nenhuma com
ele, Alma faz um pequeno retrato dele, com muita veracidade:
“O mal de Isaías é ser ambíguo. Ser e não-ser.
Não é índio, nem cristão. Não é homem,
nem deixa de ser, coitado; Ser dois é não ser nenhum, ninguém...”
(372-373).
Isaias representa todos os índios que, abandonando a tribo e sua religi&o,
pelados catequistas, não se converte de fato, mas são na epiderme.
O pior é que, depois, não consegue mais ser aquele índio
primitivo. Sem ser mais um avó e sem conseguir ser um cristão,
é marginalizado na aldeia e o seria também na cidade dos brancos.
Eis a sua tragédia. Não possuindo qualidades para chefe, é
preterido; em seu lugar, torna-se tuxaua, o moço Jaguar seu sobrinho.
Isaias reza, reflete sobre os problemas da vida, recita latins, lembra o seminário.
No fim, cresce muito Alma e o deixa, dentro da narrativa, numa humilde penumbra.
Seu apelido, dentro da tribo, segundo diz Alma, é “lsaías
Sarigüê”. (327) Era fraco, magro e moreno... (127).
Darcy Ribeiro revela no capítulo Egosum (209):
“Cheguei a ver o Avá que era Bororo e se chamava Tiago. Assim o
conheci. O vi uma vez, emplumando os ossinhos da filha morta de bexiga. Estava
muito consolado, declinando, no compasso certo, uma ladainha em latim.”
luicui
Nome que Alma pensava dar ao filho, caso fosse mulher. (376)
Jaguar
Moço, corajoso, sobrinho do Avá. Anda de amores principalmente
com duas mulheres: a branca Alma e a índia Inimá. Alma tem ciúmes
da outra. As duas são apaixonadas por ele. A índia, que deveria
ser do Avá, o esquece completamente por causa de Jaguar. Alma gostaria
que seu filho fosse dele. Não tem certeza. E com ele que faz mais amor.
(347-350). Foi escolhido tuxaua em lugar de saías, seu tio e ele próprio
amarra o seu rancuãi, segundo os ritos da tribo. A mirixorã branca
é sua paixão; Inimá sua ternura. (304).
Pe. Ludgero
(165) Padre mais novo, renovador da Missão. Vem suceder aos velhos Pe.
Aquino e Pe. Vecchio.
Maíra
Ente sobrenatural, divindade dos indígenas. (Cunha). Protetor e reformador
dos homens, deus dos Mairuns. Veio de um arroto do Sem-Nome. (197). Criou seu
irmão Micura.
Maíra-Coraci
Deus-Sol. (197).
Mairahu
É o Sem-Nome, pai de Maíra, criador de tudo (133-134). O V&ho
gostava de gargalhar. Suas gargalhadas eram as trovoadas com raios. E Coriscos
que enchiam de medo todo o povinho indígena. (135).
Maira íra
Nome escolhido por Alma para o filho, se fosse homem. (376).
Maíra-Monan
Deus-defunto. (197)
Mairum-Coracipor
Deus-Sol. E o mairum vivo, não morto. (253)
Mairuns -
E o povo de Maíra, os índios, suas criaturas. Habitam às
margens do lparanã, no Mato Grosso. “Deus é Deus e Maíra.
Maira é Deus”. (108). Os acontecimentos do romance se passam entre
eles. Toda a narrativa gira em torno de sua aldeia, sua gente, seus usos e costumes,
suas crenças, suas cosmogonias, seu folclore. Darcy Ribeiro criou esse
povo indígena à imagem e semelhança dos que conheceu, na
sua experiência entre os índios. Há um certo encantamento
do autor diante dos mairuns, principalmente pela sua alegria de viver. Mairum
gosta de rir, gosta de viver. E não quer desaparecer. O mairum Avá
(Isaías) mostra a tragédia do índio que foi despersonalizado
pela civilização ou catequização. O que certamente
acontecerá com todo o povo mairum.
Manelão
Empregado de seu Juca. Mais esperto do que o pobre do Boca. Acaba se casando
com a viúva do patrão, nhá Coló. Escapou do massacre
dos índios. Virou regatão e agora, seu nome é Manuel Gão
de Araújo. (401)
Maxi
Rapagão da casa dos garças. Enfrenta Jaguar e consegue vencê-lo.
(59).
Maxihu
Pai de Maxi (373).
Mbiá
Mulher de Náru. Pariu e foi logo para os trabalhos costumeiros. O marido
foi para a rede de resguardo se lamentando os sofrimentos do parto. (375).
Meichior
Dono de uma venda. Xisto mandou quebrar todas as suas garrafas de pinga para
acabar com as cachaçadas em Corrutela. (359).
Micura
(214) Micura-Faci, o Lua, Irmão e parceiro de Maíra; também
um deus dos mairuns.
Mirixorã
Mulher que não pode ser tomada por esposa (110). Não é
mulher de ninguém; é de todos. Não tem o sentido exato
de prostituta, porque é querida e respeitada. (314). Existe até
um ritual especial para a sua consagração. (314). É ocaso
de Alma.
Moitá
Velha mãe de Avá (lsaías). Ele ficou, assim, ambíguo,
segundo as más línguas, porque a mãe sururucou com muitos
homens e misturou os semens. É-o que pensa o oxim. (368)
Mosaingar
É a mãe que não sururucou com a verga de Deus, mas vai
parir. (153-347)
Dr. Noel Nutels
Médico, presença inesquecível de amor ao índio brasileiro.
Nasceu judeu e se fez brasileiro numa doação completa ao serviço
do índio, Não foi servi-lo como alguém que faz pesquisa
de campo, mas como quem busca um irmão. (Alma tem alguma coisa dele na
sua generosidade de vida e entrega total. De corpo e alma (sem trocadilho).
Otávio Malta o chamou de “índio cor de rosa”. Orígenes
Lessa se aproveitou da antonomásia para escrever uma belíssima
evocação do grande médico. (O índio Cor de Rosa
— Edit. Codecri — Rio — 1978). Nasceu na Ucrânia: judeu-russo-brasileiro
— 1913. “Num sábado á noite, 10 de fevereiro de 1973,
deixava seus amigos aquele que tora santo e herói, sem o saber e a seu
despeito. E muito mais que herói ou santo, gente.” (Orígenes
Lessa — ib.pág. 159).
Major Nonato
Foi encarregado pelo Ministro da Justiça para fazer um relatório
completo sobre o acontecimento d branca encontrada morta numa praia dos mairuns.
(53). O Ministro é o General Cipriano Catapreta (Ministro da Justiça..,
General.) e o nome completo do Major é Nonato dos Anjos. Desanca, duramente,
em seu relatório, o funcionário da Funai, Elias Pantaleão.
E não apresenta nem grandes novidades, nem totais esclarecimentos sobre
o caso. (53,322).
Noronha
Ajudante do Delegado Dr. Ramiro, em Brasília. Tomou os depoimentos, através
de intérprete, do Dr. Peter Becker sobre o caso da moça branca,
encontrada morta, numa praia do Iparanã.
Pe. Orestes
Amigo e orientador de Alma no Rio de Janeiro. (88-89).
Oscar Niemeyer
(209) — Arquiteto brasileiro (Rio 1907) de nome internacional e projetos
originais. Trabalhou com Lúcio Costa, no projeto do Ministério
da Educação e Saúde, renovando a arquitetura nacional.
Além de outras obras, projetou algumas das construções
principais da nova capital brasileira: Brasília. Deixou também
suas marcas no exterior.
Oxim
É o pajé, o feiticeiro ou curandeiro. Mordia a carne que os índios
iam comer, para purificá-la. (189). Se um índio morre e outro
piora, todos pensam que foi o oxim que o enfeitiçou, fez mal ou matou.
Isaías chama atenção de Alma que vai acabar virando oxim,
porque dá remédios para os índios. E o que acontece, com
o oxim que não cura? Ele é massacrado pelos índios porque
não ressuscitou a indiazinha Cori que morreu de picada de cascavel. (386).
Pajé-Sacaca
(290) Missionário caraíba (branco), padre ou pastor protestante.
A palavra parece ter alguma conotação pejorativa.
Perpetinha
Filha do seu Cleto e D. Gueda, moradores em Corrutela, ouvinte constante do
beato Xisto. Parece dominada pelas suas pregações. Pequena, magrinha,
quieta e calada. (368). Tem ouvido e voz musical: puxa sempre os cantos, segundo
a ordem do pregador. Xisto lhe arranca a língua para libertá-la
da possessão do diabo. (361).
Dr. Peter Becker
(21,53...) Cientista suíço que estuda formigas e formigueiros,
lá nas regiões do Ipiranã. Encontrou o corpo de uma branca
e dois fetos numa praia do rio, território dos mairuns, em 26 de outubro
de 1974. Relatou tudo, de modo oficial, ao Dr. Ramiro, delegado de Brasília,
que lamenta a amolação.
“Com os diabosl Morre gente aqui a toda hora e eu tenho que tomar conta
desta defunta que morreu a mil quilômetros...” (19).
A partir desse acontecimento, que ficará explicado no decorrer da narrativa,
o romancista cria todo o seu mundo romanesco: é como a célula-mater
de todo o organismo.
Irmã Petrina
Com quem Alma conversa no Rio sobre a sua decisão de abandonar a civilização
e seguir para a Missão. É severa e seca como o nome: conhece,
certamente, quem era a moça e não acreditava na sua vocação.
(49). Vai ser, no final do romance, uma espécie de reformadora da Missão.
(400). Seu trabalho é elogiado pelo Pe. Ludgero.
Pinuarana
(314) — Mulher de Terá. Como estava amamentando, pode ter indicado
a Caníndejub (Alma) para as relações sexuais do marido.
(314). Costumes da tribo.
Seu Pio
É empregado de Manelão (Manuel Gão) e gostaria de trabalhar
para o Senador Andorinha, mas não pode porque está escravizado
ao patrão pelas suas dívidas. (402).
Queco
Amigo de Alma, nos tempos cariocas. Soube, bestificado, de sua morte numa reportagem
de O Globo. (402-403). Conversou, pelo telefone, sobre o acontecido com outro
amigo da moça, Fred.
Quinzim
Era casado com Doía. (396). Empregado (ou escravo) de seu Juca. Não
tem condições de sair, por causa das dívidas. Xisto o encontrou
morto, no mato, talvez picado por uma cobra. Trabalhou para o Dr. Peter, conduzindo-o
lá pelas regiões dos mairuns, Chamava-se Joaquim Quinzim. (21).
Dr. Ramiro
Delegado a quem o suíço — Dr. Peter Becker — denunciou
a morte de uma branca, nas praias perdidas do Iparanã; em território
dos Mairuns. Delegado de Brasília, responde pelo acontecido em regiões
tão longínquas.
Remei
É o aroe da tribo (adivinho ou médium). (118). Elemento importante
entre os mairuns, sempre presente nos grandes momentos. Abandonou sua mulher
Moitá. Era o pai do Avá.
Salvador
Referência do autor ao ex-presidente do Chile — Salvador Allende
- que projetou uma grande reforma socialista no país. Foi derrotado e
morto pelas forças contrárias. Darcy Ribeiro trabalhou em sua
equipe e o recorda como companheiro.
“O que sei é da minha inveja enorme das vidas na morte dos meus
dois amigos amados e apagados: Ernesto e Salvador. (213).
Teró
Índio da família dos carcarás. Mais velho, valente, forte,
respeitado, Tem amores também com Alma, (Os fetos seriam seus filhos?)
(350).
Seu Tonico
Homem do Senador Andorinha: executa os seus planos na fazenda de gado. Em homenagem
aos índios (de quem tomou as terras), a fazenda do Senador se chama “...
dos Epexãs”.
Pe. Vecchio
Velho missionário, fundador da Missão N.S. do Ó. Ficou
cego pelo glaucoma. Já com seus oitenta anos. A vida inteira, discutiu
com o Pe. Aquino os problemas da vida de missionários. Não é
tão pessimista como o companheiro, em relação à
conversão do gentio. Dá, num diálogo final com o Pe. Aquino,
a impressão de frustração meio resignada, depois de quarenta
anos de missão. (Os dois dialogantes se parecem com os irmãos
jesuítas do “Diálogo sobre a conversão do gentio”
do Pe. Manuel da Nóbrega). Morre. (400). Os dois padres amigos escreveram
a ‘Etnologia ou Etnografia dos Mairuns... (390-391).
Xaepês
Índios perigosos que se afastaram dos brancos, Vivem em luta contra os
caraíbas e os outros índios. Não procuram contacto. São
caçadores de gente e de ferramentas. Roubam e matam. Parece que foram
os autores do massacre de seu Juca e seu empregado Boca. (Os mairuns acham que
não...).
Xisto
É um beato pregador e catequista de Corrutela, sob as ordens do pastor
Sob. Fala bem, conhece as passagens mais importantes da Bíblia. Fala
de Deus e do Diabo e suas terríveis manhas e ardis. É meio fanático.
Só fala de castigos, não prega o perdão dos pecados. Ensina
que, para vencer o diabo, não basta a fé: é preciso também
a manha. Distribui a Bíblia, vestido de camisolão, como batina,
branco-azulado (359). Mandou quebrar as garrafas de pinga, uma a uma, do bar
do seu Melchior. Não admite a bebida. Expulsou do lugar todas as prostitutas,
Conquista o seu auditório. Para livrar Perpetinha da possessão
diabólica, arranca-lhe a língua. O próprio Bob, pastor
e chefe, nota os seus fanatismos, mas não esperava pela tragédia.
Apesar de sangrado pelo pai de Perpetinha (seu Cleto), não morre. E mais
um beato do nosso ciclo brasileiro, fruto das estruturas, do seu próprio
temperamento e de sua capacidade de falar e convencer as pessoas humildes.
5. TÉCNICAS NARRATIVAS
A narração não segue uma linha reta, mas em vaivéns.
Muitos capítulos são narrados pelos personagens, na primeira pessoa.
O autor, narrador em terceira pessoa, onisciente e onipresente, se encarrega
de organizar e dispor as partes e capítulos, segundo seu plano, geral,
isto é, a carpintaria do seu romance. Exemplifiquemos os capítulos
narrados em primeira pessoa (autobiografia): no cap. Isaias, ele monologa em
torno de sua situação exótica: não é civilizado
e já não é mais índio mairum: no cap. Alma, ela
conversa com irmã Petrina, revelando sua decisão de ir para as
missões. Neste capítulo, o narrador, de fora, na 3ª pessoa,
apenas introduz a cena. Assim também, na primeira pessoa os capítulos:
Nonato, Avá, Serviço, Inquérito, Retorno, Encontro, Maira:
Avá, Incúria, H? Muhere Té, Os Brabos...
Às vezes, o personagem, em primeira pessoa, revela suas ruminações,
em forma de monólogo interior, uma espécie de fluxo de consciência
(stream of consciousness):
Alma: “Aqui estou eu, meu Deus, para servi-lo. Servi-lo com minha alma
e com meu corpo, no sentimento e na dor...” (85 a 89).
E Isaías (Avá):
“Aqui estou, afinal, em Santa Cruz, esperando para ir adiante, voltando
atrás.” (105 a 110).
Depois da tragédia na vila de Corrutela,o pastor Bob diz/pensa, em inglês
bíblico, palavras terríveis e apocalípticas. (362)
“1 saw an evil, evil tongue. 1 saw a holy tongue...”
“1 saw the beast, 1 saw the beast...”
O Pastor estava vendo, na tragédia, a besta do Apocalipse...
Entre muitos diálogos que tecem toda a trama, no cap. Kirie, o do Pe.
Vecchio e Pe. Aquino, dois velhos, é comovente pela frustração
que revela. Parece que tudo foi inútil, a própria vida, pelo fracasso
da catequização e da vocação de safas.
Há no texto também um depoimento, o do Dr. Peter Becker (21),
reduzido às formalidades cartoriais, nomeação do Dr. Nonato
para investigar a morte da moça branca ( ), o seu relatório (
) e outro relatório do Agente 17, Elias Pantaleão. ( ).
Toda a carpintaria do romance é grandiosa e ultrapassa aquela linha tradicional
e contínua de princípio, meio e fim. Tudo vai nascendo e crescendo
como acontece na realidade complexa do mundo, da vida e dos homens. E daí
o nascimento de um pequeno e grande mundo romanesco, tão povoado e tão
movimentado como um enorme formigueiro.
O último capítulo — Indez dá uma síntese de
domínio das técnicas: começa com Xisto, o beato, conversando
com Dóia, mulher de seu Quinzim, Depois se misturam personagens, monólogos,
diálogos, presente, passado, pensamentos... em superposição
de planos e com mudanças caleidoscópicas. Tudo parece um filme,
rápido, cheio de acontecimentos, de episódios que vão se
acavalando uns sobre os outros, atropelando-se em verdadeira enumeração
caótica. Mortos e vivos voltam à lembrança e passam. Dois
amigos comentam, tristes e incrédulos, a morte de Alma Freire. Tudo vem
entremeado com uma conversa de amor entre Jaguar e Inimá, um pequeno
e amoroso “cântico dos cânticos”, muito carnal. Algumas
palavras revelam no finalzinho da conversa amorosa, em língua mairum,
o convite final para o prazer da sururucaçao.
6. LINGUAGEM
... de “MAÍRA” inclui vasto vocabulário indígena,
quer de palavras isoladas como de algumas frases (não traduzidas). O
mundo das palavras caracteriza o mundo dos seus usuários. As palavras
revelam a visão, a ideologia, as concepções, o tempo, a
cultura... dos que as usam, O autor, que conviveu alguns anos com os índios,
em pesquisas de campo, tem na sua mão um rico cabedal de palavras indígenas:
assim é que procura recriar, ao vivo, a história do povo mairum.
De outro lado, há um numeroso, vocabulário de disfemismos referentes
ao sexo. Alma também usa, em sua linguagem desabrida. Às vezes
chocam certas palavras chulas porque são usadas para retratar o sexo
entre os índios. Nossos palavrões correspondem s concepções
mairuns com relação ao sexo? No romance O Mulo acontece a mesma
exarcerbação sexual com o correspondente vocabulário. (Até
Isaías não gostava dos palavrões de Alma...).
De qualquer modo, a linguagem do romance é forte, impressiva, rica e
poética. Há verdadeiros poemas e verdadeira poesia: o antropólogo,
na ânsia de recriar, em profundidade, corpo e alma, o mundo mairum, esquece
a ciência e se banha em poesia. Para compreender tudo desse complexo mundo
dos índios, se faz poeta.
“Maíra” ... esse milagre estético em Darcy Ribeiro
se consagra como o primeiro dos nossos cientistas sociais a conseguir ser, igualmente,
um de nossos maiores romancistas. E mesmo poeta... (Tristão de Ataíde
- in contracapa do livro).
Como Guimarães Rosa, o autor sabe descobrir também “o canto
e a plumagem das palavras”.
7. ASPECTOS SOCIAIS
MAÍRA é um resumo, a visão do mundo indígena (diante
do mundo civilizado. De um lado Alma que fugiu do Rio de Janeiro ( da civilização)
para o mundo mairum; de outro, Isaías que saiu da aldeia para a civilização,
para a cidade dos caraíbas. Perdeu a sua “indianidade” e
não conseguiu adquirir a “civilização” Ficou
despersonalizado. A simplicidade, a vida ao natural do índio, sem o terrível
peso do pecado, sem as implicações e complicações
do civilizado, a sua organização tribal, uma vida “comunista”,
sem o consumismo dos brancos, a ganância, o “capitalismo”,
o dinheiro... se apresentam quase como se fossem um modelo. (A felicidade no
campo e no inferno na cidade... Velhíssimo lugar-comum da literatura).
Durante os dois anos que o índio não se “civiliza”.
Recebe uma pele apenas de gente da cidade, sem nenhuma transformação
mais profunda. Mas, ao mesmo tempo, sofre uma terrível deformação
na sua “indianidade”. Já não é mais aquele
índio em estado de pureza, com uma que passou na aldeia, Alma sentiu
nova vida e novo mundo. Isaías (Avá) demonstra mentalidade completamente
diferente de nós. Quando volta à tribo, já não se
adapta totalmente. Por isso, o ex-seminarista ficou também um ex-mairum.
É a desgraça. Nem os postos da Funai, nem as Missões conseguem,
de fato, “civilizar” o índio. E o massacram. Desde Nóbrega,
do séc. XVI, existe urna dolorosa consciência de fracasso diante
da realidade da catequização: o índio não se converte,
intimamente, profundamente. Muda apenas de roupa, ou de aparências. “O
diálogo sobre a conversão do gentio” (Liv. S.José
— Rio —1958 com longo estudo de Mecenas Dourado) é a confissão
de frustração. O Pe. Nóbrega coloca dois irmãos
leigos da Companhia discutindo sobre a conversão dos índios. Mateus
Nogueira, em vista dos resultados, está muito pessimista; Gonçalo
Álvares ainda tem esperanças. Apesar de todos os esforços,
a converção dependeria de um milagre da graça divina. E
milagre não acontece a toda hora. Parece que a visão do problema
leva a uma conclusão pessimista. (Um anzol (um presente) converte o índio;
dois, o desconvertem...) O índio em contacto com a civilização
sai perdendo. Os Postos da Funai também não têm eficiência
e seguem uma rotina ineficaz: como a do agente Elias Pantaleão da Silva
que aparece retratado pejorativamente no relatório do Major Nonato. Padres
e freiras recebem alguns aplausos.
Outro aspecto social relevante é a invasão, de todos os modos,
do branco no território indígena: seu Juca explora índios
e brancos, como se fossem seus escravos e procura executar, com absoluta fidelidade,
os planos do Senador Andorinha, para a conquista de imensas terras. O ideal
é ganhar riquezas e se tornar, cada vez mais, senhor do poder. O regatão
mantém os seus empregados em regime de escravidão: eles não
podem nem sair porque estão presos por dívidas irresgatáveis.
(Caso semelhante no romance “A selva”, de Ferreira de Castro).
Nesse meio, a religião se torna também uma arma poderosa de domínio
e fanatização. (Os missionários recebem grandes favores
e, assim, colaboram com o Senador e outros iguais...). A religião se
torna um terrível fanatismo: como no caso de beato Xisto que arranca
a língua da devota Perpetinha para livrá-la da possessão
diabólica. Não é uma religião de amor, mas de medo,
a da pregação do beato. De maneira indireta, há uma crítica
ao vazio, à solidão e à frustração da vida
missionária. Na verdade, reduzindo todo o horizonte do homem aos limites
terrenos, não faz sentido a vida de Missão. Se a única
forma de viver é viver carnalmente como Alma, tudo se torna muito pouco
para os nossos desejos..
“A alma humana, qualquer que seja, em seus sonhos, mesmo os mais ousados
ou mais subtis, sua relação com o sistema econômico e social,
ultrapassa o ambiente humano, no imenso ambiente cósmico, O contato com
o universo faz vibrarem nela forças misteriosas e profundas, forças
da vida eterna atuante, que precedeu às sociedades e as ultrapassará”.
(J. Jaurés — apud O Cântico das Criaturas... Eloi Leclerc
— Vozes — 1977 pág. 166).
As crenças mairunas parecem sugerir uma sobrevida: mortos e vivos se
comunicam através do aroe. As cerimônias rituais, pela morte do
grande tuxaua Anacã, indicam que ele vive ainda, de outro modo. E é
para sobreviver, como povo, que o davizinho, o índio, enfrenta o golias
branco. (174) Nessa luta desigual, o destino do índio é a destruição,
o aniquilamento. E a visão que se fabrica do índio está
completa nas palavras do “patriótico” Senador Andorinha:
“Ah! os marginais, os marginais como diz o senador: uns desgraçados.
Não quiseram colaborar, safados. Com trabalho não querem nada.
O jeito foi chamar um batalhão do Terceiro Regimento para escorraçá-los
como invasores da fazenda do Senador.,.” (402).
As terras dos índios foram invadidas e tomadas. Agora, as posições
mudam: o índio vira o grande e detestável invasor.
8. CONCLUSÃO (ÕES)
“MAÍRA”
Romance de Darcy Ribeiro. (Civilização Brasileira — Rio
— 1981 — 5 ed4. Em torno da morte de uma branca nas praias dos índios
Mairuns se tece toda a trama de um grande romance: uma visão do mundo
indígena acossado pelo mundo dos civilizados e em processo de destruição.
Assim como acontecia com o Avá (lsaías). A branca é uma
moça estuante (Alma) que vai deixar marcas inesquecíveis na aldeia,
O romance revela um mundo que se constrói em dimensões de grandeza
épïco-lírico-dramática. Nesse mundo se entrelaçam
ciência e ficcção, verdade e literatura, história,
geografia, antropogeografia, prosa e poesia. E uma música indefinível.
Livro escrito com lúcida inteligência e apaixonado ( e apaixonante)
amor. Nessa cosmovisão (Weltanschauung) se defrontam as empolgantes figuras
de Deus e do Demo das pregações do beato Xisto. Há urna
massa enorme de informações sobre os índios e o seu mundo
primitivo. O romance ultrapassa os limites pequenos de uma narrativa ficcional
para se tornar uma grande rapsódia do indígena. Ai vivem índios
e civilizados, sem que nenhum consiga assimilar o outro: Alma tenta mairunizar-se
do mesmo modo como saias tentara civilizar-se. E quem leva a pior to pobre índio,
o Avá, que, voltando, não consegue mais ser o mairum primitivo,
como era antes de se meter num seminário. Torna-se uma figura pungente,
marginalizado na aldeia e, se voltasse para a cidade, também o seria.
Pelo menos, a moça carioca vai se adaptando, alegremente, à vida
dos índios. Os civilizados vêm chegando e encurralando, cada vez
mais, os índios, nos escondidos das matas ou nos cantos dos rios. As
terras, agora, serão dos brancos que desmatam e abrem enormes campos
de criação de gado. De vez em quando, os índios invadem
suas terras e 550 rechaçados com violência... Agora, os índios
é que são os invasores...
MAÍRA é uma cosmogonia mairum, um Gênesis cheio de deuses
e de belezas, de crenças e lendas que desmantela toda a nossa concepção
de civilizado, que se opõem, se contradizem e se destroem (“Você
vai. Eu volto”, disse lsaías a Alma (138). Mas nenhum deles conseguirá
assumir — profundamente —a condição de mairum. Ela
porque não é índia; ele, porque já não é
mais...) Nem mesmo os padres, velhos missionários, têm certeza
da sua missão. Ou antes, têm a impressão de que fracassaram.
O que se pode prever é a destruição do índio. A
força da civilização do branco marcha [para um massacre
total. Tomando-lhes as terras, civilizando-os, a nossa dita civilização
está também tomando-lhes a própria alma de índio.
“O Processo (Civilizatório) é um filho bem sucedido... Só
menos querido da que o meu filho caçula — o romance MAÍRA
que por outras razões, é meu xodó”. (O Processo Civilizatório
— Vozes — 1981 —6ed.pág.21).