Posfácio
(Lisbela e o Prisioneiro
)
Sandra Nitrini
(1ª.ed. São Paulo: Planeta, 2003 São Paulo, junho de 2003)
Osman Lins participou da vida literária e cultural do Brasil entre
1955, quando publicou seu primeiro romance, O visitante, até sua morte,
a 08 de julho de 1978. Autor de uma obra vasta e variada (contos, romances,
novelas, peças de teatro, livros de viagem, poesias, casos especiais
para televisão, ensaios e artigos), este pernambucano de Vitória
de Santo Antão sempre deixou claro que a menina de seus olhos era a ficção
narrativa.
De fato, contos e romances foram objeto de extrema dedicação,
imune a concessões que garantiriam a Osman Lins sucesso de público,
mas que o desviariam de seu projeto literário, direcionado pela idéia
de encontrar uma forma específica para dar conta da visão de mundo
a que chegara em sua maturidade. Visão expressa literariamente a partir
de Nove, novena (1966).
Além do romance inaugural já mencionado, antecederam este livro
composto por nove narrativas, Os gestos (contos1957) e O fiel e a pedra (romance,
1961). Todos gravitam em torno da narrativa tradicional e demonstram um feliz
domínio de fusão de técnica e estilo, regado por frases
com ritmos adequados, por palavras exatas, por acertadas e belas imagens.
Os mesmos tipos de personagens de seus primeiros livros (velhos, doentes,
crianças, adolescentes, mulheres em situações prosaicas
da vida, em geral, em solo nordestino) se mantêm ao longo de sua obra,
num registro lírico de literatura introspectiva, marcada pela solidão,
mas também impregnada de problemática de ordem social, às
vezes com sutileza, outras, com tintas mais fortes. Nove, novena e os romances
Avalovara (1973) e Rainha dos Cárceres da Grécia (1976) diferenciam-se,
no entanto, de seus primeiros livros pela quebra da ilusão da realidade
com a rarefação e a dispersão do enredo, por novos processos
de composição da personagem e por alta dose de reflexão
sobre o romance, o que lhes permite representarem um “momento de decisiva
modernidade”, na Literatura Brasileira dos anos de 1970. A fidelidade
de Osman Lins à busca de uma expressão própria na ficção,
decorrente de uma recusa à cômoda retomada do já conquistado
e de uma fé inabalável no poder criador da palavra, foi reconhecida
e admirada pela crítica brasileira e estrangeira, com raras exceções.
No entanto, ele é um autor ainda pouco difundido. Por isso é oportuna
esta publicação de Lisbela e o prisioneiro.
O reaparecimento desta obra é especial porque permite ao público
entrar em contato com o texto, no registro dramático, de um autor meticuloso
no uso da palavra e na arquitetura da peça. Além disso, revela
um aspecto decisivo de sua personalidade literária e cultural no sentido
de procurar dar o melhor de si, mesmo na esfera que, a rigor, não é
a de sua preferência. Consciente e cioso de seu ofício com a palavra,
tudo o que dispõe para seus leitores é fruto de um período
de preparação.
Para escrever Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins não demorou dez anos
de exercício constante até atingir a configuração
harmoniosa como ocorrera com seu livro de contos Os gestos. Ao contrário,
iniciou-a em 25 de julho e a concluiu a 9 de setembro de 1960, tendo se dedicado
às modificações que lhe pareceram necessárias nos
dias restantes do referido mês, conforme seu depoimento, publicado no
programa distribuído por ocasião da primeira temporada de encenação
da peça pela Companhia Tonia, Celi, Autran (CTCA) no Teatro Mesbla, no
Rio de Janeiro, em 1961.
No entanto, Lisbela e o prisioneiro é fruto de um meticuloso trabalho
preparatório, pois Osman Lins já tinha obtido menção
honrosa no I Concurso Nacional da Cia. Toni-Celi-Autran, com a peça,
O vale sem sol, em 1958. Insatisfeito com sua incursão como dramaturgo,
considerando-a deficiente, matricula-se, nesse mesmo ano, no Curso de Dramaturgia
da Escola de Belas Artes de Recife, onde vem a ser aluno de Joel Pontes, de
Hermilo Borba Filho e de Ariano Suassuna. Numa entrevista, Osman Lins mencionará
este último como professor da disciplina de play-writer, que teria exercido
uma possível influência sobre ele, no que diz respeito às
normas de composição de Lisbela e o prisioneiro.
Ao concluir o curso, em 1959, escreve um drama em três atos, Os animais
enjaulados. No ano anterior, solicitado por uma de suas filhas, compusera num
só dia um auto de Natal, O cão do segundo livro, em dois atos.
Depois deste paciente exercício, assumido com humildade (Osman Lins já
tinha publicado dois livros de ficção, reconhecidos e premiados,
quando se tornou aluno no Curso de Dramaturgia), o obstinado escritor pernambucano
obteve o primeiro lugar de comédia no 2 Concurso Nacional da Cia. Tônia
, Celi , Autran.
Outras peças serão ainda escritas por Osman Lins: Guerra do
cansa-cavalo (prêmio Anchieta, 1965; encenada em 1971, na inauguração
do Teatro Municipal de Santo André); peça infantil, Capa Verde
e o Natal (prêmio Narizinho, da Comissão Estadual de Teatro, 1965);
Mistério das figuras de barro (dirigida pelo autor e encenada pelos alunos
da Faculdade de Marília, em 1974); Santa, automóvel e soldado
(coleção de três peças, publicadas em 1975); Romance
dos soldados de Herodes (encenada no Rio Grande do Sul e em São Paulo,
em 1977).
Lisbela e o prisioneiro foi sua primeira peça a ser encenada, com retumbante
sucesso. E com certeza é a que até hoje teve mais alcance de público.
Se muito da fama de uma peça deve ser creditado ao trabalho de direção,
ao desempenho dos atores, à cenografia, ao figurino, à iluminação,
ao som; outro tanto pelo menos também deve ser atribuído ao texto
do dramaturgo.
No caso específico desta peça, adensa-se a função
do texto porque se inscreve no ideário do teatro tradicional, sob a pena
de um autor obsessivo com a arquitetura da estória e com a atenção
à palavra. Desse modo, trata-se de uma peça que também
pode ser lida com prazer tanto pelo leitor que se contenta apenas com o divertimento
como por aquele mais exigente, que busca, além da fruição,
incursões em diferentes níveis de significação que
a obra lhe oferece.
Lisbela e o prisioneiro é uma comédia de caracteres, embora
as ações desenvolvidas na cadeia de Vitória de Santo Antão
desempenhem uma função considerável na sua estrutura tradicional,
com exposição, desenvolvimento, falso clímax, clímax,
desfecho de situações, vivenciadas por personagens nordestinas
e muito bem amarradas.
Lisbela, filha do Tenente Guedes, delegado da Cadeia de Santo Antão,
forma par amoroso com o funâmbulo Leléu, um Don Juan nordestino.
Esse casal anticonvencional assume riscos em nome de sentimentos intensos. Lisbela
foge com Leléu, no dia de seu casamento com Dr. Noêmio, advogado
vegetariano, por isso mesmo personagem destoante do meio em que se encontra,
prestando-se a alvo de muitas tiradas cômicas. Ao marido, doutor, representante
do estabelecido e da segurança, a jovem prefere Leléu, o artista
de circo preso, com tudo o que este significa de risco e subversão dos
valores vigentes em seu meio.
A peça é dominada pela presença de personagens masculinas.
Além das já referidas, atuam na cadeia de Vitória de Santo
Antão, Jaborandi, soldado e corneteiro, afeiçoado a fitas em série;
Testa-Seca e Paraíba, outros presos; Juvenal, outro soldado; Heliodoro,
cabo de destacamento, casado, já com uma certa idade, apaixonado por
uma jovem, o qual chega a forjar um falso casamento para possui-la; Tãozinho,
vendedor ambulante de pássaros, que rouba a mulher de Raimundinho; Frederico,
assassino profissional, à procura de Leléu, que deflorou sua irmã
Inaura,e que por ele é salvo, sem saber, de um ataque de boi; Lapiau,
artista de circo, amigo de Leléu, que participa da farsa de casamento
de Heliodoro com a jovem; Citonho, o velho carcereiro, esperto e dinâmico,
cúmplice, no final, de Lisbela e de Leléu e mais dois soldados,
personagens mudas.
Lisbela, a única filha do tenente Guedes, é também a
única mulher que atua em cena; as outras são apenas mencionadas
nos diálogos. E atua com força, porque enfrenta a autoridade patriarcal,
representada pelo pai e pelo noivo, ao tomar iniciativa para colaborar com a
fuga de Leléu da prisão e a se dispor a abandonar o marido no
dia de seu casamento para aventurar-se na vida com o equilibrista. Como se não
bastasse isso, é ela quem livra Leléu da morte, ao atirar, aparentemente,
em Frederico, o assassino profissional, quando este lhe apontava a arma, pouco
antes do desfecho da peça. Parece e julga-se tornar-se uma criminosa,
colocando o pai numa situação incômoda. Para livrar a própria
filha da cadeia, este usará expedientes comprometedores para a lisura
de uma autoridade, com o fito de embaralhar ou ocultar a autoria do suposto
crime, pois no desfecho da peça revela-se que Frederico morreu de morte
natural. Por suas ações, Lisbela não apenas renega os mesquinhos
valores, mas também expõe as fraturas da sociedade patriarcal.
O gênero comédia aliado ao perfil anticonvencional da dupla protagonista
foi muito bem escolhido por Osman Lins para pôr em cena, no contexto de
uma região de valentias, de sentimentos exaltados, de honra e vinganças,
um crime inesperado, porque aparentemente cometido pela jovem Lisbela. Inesperado,
mas plenamente justificado, se tivesse ocorrido.
Atitudes que causam surpresa também compõem Leléu, que
nada tem de prisioneiro em termos dos valores estabelecidos, garantidores de
acomodada segurança, mas negadores da “flama da vida”. Volúvel
nos amores, experimentador de várias profissões, portador de diferentes
identidades, afeiçoado a riscos e deslocamentos, o circence Leléu,
que tanto quer e tanto faz para sair das grades da cadeia de Vitória
de Santo Antão, não hesita a ela retornar, só para ficar
próximo de Lisbela, quando fracassa o plano de fuga dos dois. O paradoxal
retorno à prisão é mais um movimento desta personagem para
a libertação das amarras de valores que lhe são menores
do que os impulsos da vida. Ele vive sempre com fervor seu minuto de aflição
ou de alegria, como bem acentuou o próprio Osman Lins, ao apontar para
o efeito contaminador de sua ”flama”, no programa da primeira temporada
desta comédia: Leléu acende, mesmo na cadeia, as apagadas chamas
de Lisbela e desperta em Citonho, o velho carcereiro, o herói escondido.
Aliás, essa personagem é uma daquelas que mais se destacam na
peça e atraem a atenção e a conivência do leitor,
porque de velho caduco e fraco, propício a gozações dos
mais jovens e fortes, ele não tem nada. Com maestria, Osman Lins desvela
na personagem octogenária, enfraquecida, em tese, pela faixa etária
e pela categoria da função exercida, a mais desqualificada do
contexto da peça, sua perspicácia, lucidez, força e coragem.
O velho solitário considerado caduco pelo tenente Guedes é o que,
de todos os seus submissos, mais o enfrenta: toma partido de Lisbela e de Leléu,
em prol do amor libertário, com todos os seus riscos, e age com esperteza
para proteger a jovem da suposta autoria de seu crime. Enfim, do velho também
emanam vida e movimento.
Essa poética do avesso contribui ainda para relativizar o lado antipático
do tenente Guedes, representante da polícia. Apesar de suas atitudes
condenáveis, como os desmandos, a prepotência, a conivência
com o crime, o delegado mostra-se humano quase todo o tempo. Por causa de sua
função, não consegue se desvencilhar do “encarceramento
profissional” e se vê obrigado a tomar atitudes contrárias
a seu temperamento. Eis um dos motivos pelos quais está sempre a afirmar
que “a autoridade é um fardo”. Bordão com efeitos
cômicos, de acordo com as situações nas quais é proferida.
No fundo, o tenente Guedes é mais prisioneiro de sua profissão
que todos seus subalternos.
Dentre estes, merece menção especial o soldado e corneteiro,
Jaborandi, que vive fugindo do local de trabalho, para assistir fitas em série
no cinematógrafo, interrompendo seus momentos de fantasia, na hora que
tem de tocar a corneta. Em meio a idas e vindas, ele vive entre o sonho e a
realidade, mas uma realidade na qual sua função, tocar corneta,
é desprovida de sentido conseqüente, a não ser o de acentuar
a sua falta de sentido naquele contexto: para quê tocar corneta numa prisão?
No mínimo, tais cenas provocam o riso, cumprindo sua função
na comédia, e abrem brechas para o próprio Jaborandi e outras
personagens estabelecerem ligação entre as estruturas das fitas
em série (filmes de bandido e mocinho) e os episódios da comédia,
além de interiorizarem na própria peça alusões às
relações entre a vida e a fantasia.
Por mais despretensioso que tenha sido Osman Lins na composição
simples e direta desta comédia, quando se encontrava ainda na fase da
busca de caminhos próprios para sua ficção e para seu teatro,
como ele próprio afirmou em entrevista concedida em 1961, o fato é
que Lisbela e o prisioneiro é uma peça de um autor seguro, engenhoso
e talentoso, que tem muito ainda a dizer em nossos dias, desde o que se refere
aos desmandos e à conivência da polícia com o crime até
questões de ordem existencial.
O regionalismo de Lisbela e o prisioneiro, fundado no aproveitamento de incidentes
testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na
transposição de ditados, expressões populares e dísticos
encontrados em pára-choques de caminhões, é transfigurado
sob a pena de seu autor. Matéria e linguagem re-elaboradas tecem esta
peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura,
e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as
portas para outros tempos e outros espaços.