Libertinagem
(Manuel Bandeira
) Vida noves fora zero
Célia A. N. Passoni
Mais resumos e questionários sobre livros da lista da Fuvest
Devido às constantes insistências de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, Manuel Bandeira escreve Itinerário de Pasárgada, depoimento autobiográfico incluindo seu roteiro poético.
Sou natural do Recife, mas na verdade nasci para a vida consciente em Petrópolis, pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências.
Em breve o poeta identificaria essas “velhas reminiscências” com a profunda emoção que brota da saudade de ter sido criança, de ter simplesmente vivido; e do acúmulo de lembranças nasce a experiência artística, identificada também como emoção.
Desde esse momento, posso dizer que havia descoberto o segredo da poesia, o segredo do meu itinerário em poesia. Verifiquei ainda que o conteúdo emocional daquelas reminiscências da primeira meninice era o mesmo de certos raros momentos em minha vida de adulto: num e noutro caso alguma coisa que resiste à análise da inteligência e da memória consciente, e que me enche de sobressalto ou me força a uma atitude de apaixonada escuta.
Confessa ainda que seus primeiros contatos com a poesia datam do mais fundo de sua memória, quando
na companhia paterna ia-me eu embebendo dessa idéia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas.
Da primeira infância guarda impressões poéticas sobretudo de Viagem à Roda do Mundo numa Casquinha de Noz, adquirindo aí
a noção de haver uma realidade mais bela, diferente da realidade cotidiana, e a página do macaco tirando cocos para os meninos despertou o meu primeiro desejo de evasão. No fundo, já era Pasárgada que se prenunciava.
Aos seis anos, muda-se para o Recife, onde permanecerá quatro anos e, nesse tempo,
construiu-se a minha mitologia, e digo mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma D. Aninha Viegas, a preta Tomásia, velha cozinheira da casa de meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica das personagens dos poemas homéricos. A Rua da União, com os quatro quarteirões adjacentes limitados pelas ruas da Aurora, da Saudade, Formosa e Princesa Isabel, foi a minha Tróada; a casa de meu avô, a capital desse país fabuloso. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante.
De volta ao Rio, cursa o colégio Pedro II e mora nas Laranjeiras, onde toma contato com o “realismo da gente do povo”, o vendeiro, o açougueiro, o quitandeiro, o padeiro, os moleques de rua. A essa influência da fala popular contrapõe-se a formação do ginásio, voltada para o conhecimento do idioma e os primeiros contatos com os clássicos.
Escrevia versos, mas se
escrevia versos, era com o mesmo espírito desportivo com que me equilibrava sobre um barril lançado a toda a força das pernas, o que de modo nenhum me fazia sentir com vocação para artista de circo.
Destinava-se, por influência do pai, à Arquitetura e, por isso, partiu para São Paulo,
onde ia matricular-me no curso de engenheiro-arquiteto da Escola Politécnica. Pensava que a idade dos versos estava definitivamente encerrada. Ia começar para mim outra vida. Começou de fato, mas durou pouco. No fim do ano letivo adoeci e tive de abandonar os estudos, sem saber que seria para sempre. Sem saber que os versos, que eu fizera em menino por divertimento, principiaria então a fazê-los por necessidade, por fatalidade.
De 1904, ano em que adoeceu, a 1917, quando publicou Cinza das Horas, confessa:
Foi nesses treze anos que tomei consciência de minhas limitações, nesses treze anos que formei a minha técnica.
Técnica resultante não do esforço consciente, mas do transe ou alumbramento que era a poesia a fluir do subconsciente.
Tomei consciência de que era um poeta menor; que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações generosas; que não havia em mim aquela espécie de cadinho onde, pelo calor do sentimento, as emoções morais se transmudam em emoções estéticas: o metal precioso eu teria que sacá-lo a duras penas, ou melhor, a duras esperas, do pobre minério das minhas pequenas dores e ainda menores alegrias.
Mas ao mesmo tempo compreendi (...) que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia.
Inicialmente, Manuel Bandeira constrói seus poemas com versos metrificados. A passagem para o verso livre é difícil, precisando aos poucos ir-se acostumando a ele
No verso livre autêntico o metro deve estar de tal modo esquecido que o alexandrino mais ortodoxo funcione dentro dele sem a virtude de verso medido.
Atinge sua plenitude em 1921, mas antes afirma:
Não me lembro de problemas dentro da metrificação, que eu não tivesse resolvido prontamente. No entanto os primeiros versos do poema “Gesso”, que é em versos livres, me deram água pela barba durante anos. Originalmente me saíram assim:
Aquela estatuazinha de gesso, quando ma deram, era nova
E o gesso muito branco e as linhas muito puras
Mal sugeriam imagem de vida.
Não era possível manter aquele “ma deram” tão avesso ao gênio da fala brasileira. Além disso, o verso soava pesado e desgracioso. Só em 1924, acertei com a solução:
Esta estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as linhas muito puras —
- mal sugeria imagem de vida
Um número fixo de sílabas com as suas pausas cria um certo movimento rítmico, mas não é forçoso ficar no mesmo metro para manter o ritmo. Quando atentei nisso, senti-me verdadeiramente liberto da tirania métrica.
Há, na produção de Bandeira, além das influências literárias, as extraliterárias como a música e o desenho. Além da influência recebida, o autor escreve letras para músicas de Villa-Lobos, Francisco Mignone, Jaime Ovalle, Lourenzo Fernandez, entre outros - todos de primeira plana no cenário da moderna música brasileira.
Em 1917 publica Cinza das Horas, contendo uma seleção de poemas ligados pela tonalidade dos sentimentos.
Publiquei o livro, ainda que sem intenção de começar carreira literária: desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteiramente ocioso.
Não fiz grande distribuição do folheto, senão entre parentes e amigos. E um dos motivos foi que, tendo mandado um exemplar a Bilac, não recebi nenhuma resposta.
Logo após sai Carnaval e, sob pretexto de que no Carnaval tudo é possível, não há unidade. O livro contém poemas escritos de várias datas, inserindo o ruidoso “Sapos”, sátira dirigida contra alguns poetas parnasianos.
Naturalmente a sátira dos “Sapos” estava a calhar como número de combate e, com efeito, por ocasião da Semana de Arte Moderna, três anos depois, foi o meu poema bravamente declamado no Teatro Municipal de São Paulo pela voz de Ronald de Carvalho sob os apupos, os assobios, a gritaria de “foi não foi” da maioria do público, adversa ao movimento.
O contato com o grupo modernista se faz ao longo do tempo, através, principalmente, de Ribeiro Couto, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e outros. Admite que a influência do Modernismo lhe foi importante.
Pouco me deve o movimento; o que eu devo a ele é enorme. Não só por intermédio dele vim a tomar conhecimento da arte de vanguarda na Europa (da literatura e também das artes plásticas e da música), como me vi sempre estimulado pela aura de simpatia que me vinha do grupo paulista.
Com a morte do pai e sua transferência para o morro do Curvelo, o poeta confessa-se mais maduro.
Quando meu pai era vivo, a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me preocupava, porque eu sabia que pondo a minha mão na sua, nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar. Sem ele eu me sentia definitivamente só. E era só que teria de enfrentar a pobreza e a morte.
Nesse período (1920-1933), escreve três livros de poesias - O Ritmo Dissoluto, Libertinagem e Estrela da Manhã — e um de prosa — Crônicas da Província do Brasil
O Ritmo Dissoluto (1924) é editado pela Revista da Língua Portuguesa.
Causou grande e divertida surpresa nos arraiais modernistas aparecer eu, autor de um poema já publicado (“Poética”), onde primitivamente havia este verso:
Abaixo a Revista da Língua Portuguesa,
aparecer eu da noite para o dia editado por essa mesma revista. (...) É verdade que o verso irreverente foi suprimido, mas para ser substituído pelo que lá está:
Abaixo os puristas!
O livro apresenta-se como elemento de transição para a maturidade poética. Versos livres e metrificados encontram-se harmoniosamente como para deixarem rolar os sentimentos e idéias do autor. Mas a liberdade de movimentos surge e atinge o auge em Libertinagem, contendo poemas escritos entre 1924 e 1930, anos de força e calor do movimento modernista.
Empolgado pela libertação, escreve aí alguns de seus mais famosos poemas, destacando-se “Dialeto Brasileiro”, paródias como de Bocage, Castro Alves, Macedo, entre outros.
“Traduzi” para moderno o famoso soneto de Bocage que começa pelo Se é doce no recente, ameno estio. Eram assim os quartetos:
Doçura de, no estio recente
Ver a manhã toucar-se de flores
E o rio
mole
queixoso
Deslizar, lambendo areias e verduras;
Doçura de ouvir as aves
Em desafio de amores
cantos
risadas
Na ramagem do pomar sombrio.
Como se vê, eu estava mas era assinalando maliciosamente certas maneiras de dizer, certas disposições tipográficas que já se tinham tornado clichês modernistas.
ou ainda do autor de A Moreninha que, no original, é:
Mulher, irmã, escuta—me: não ames.
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue.
Não creias, não, mulher: ele te engana!
As lágrimas são galas da mentira
E o juramento manto da perfídia.
e que na “tradução” ficou:
Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
Cai fora.
Estrela da Manhã e Lira dos Cinqüenta Anos contêm poesias de diferentes épocas, desde o morro do Curvelo até os feitos no quarto em Moraes e Vale, rua no centro da Lapa.
A tristeza dessa mudança exprimi-a numa quadra sibilina intitulada “O Amor, a Poesia, as Viagens”. E um poema ininteligível nos seus elementos, porque só eu possuo a chave que o explica; mas que a explicação não é necessária para que pessoas dotadas de sensibilidade poética penetrem a intenção essencial dos versos, se prova pelo comentário da nossa grande Cecília Meirelles, que os qualificou de “pura lágrima”. Aproveito a ocasião para jurar que jamais fiz um poema ou verso ininteligível para me fingir de profundo sob a especiosa capa de hermetismo. Só não fui claro quando não pude — fosse por deficiência ou impropriedade de linguagem, fosse por discrição
Em 1940, concorre a uma cadeira na ABL, e
Eleito, me vi em apuros para escrever o elogio do meu antecessor, cuja obra jamais me havia atraído. Do patrono, Júlio Ribeiro, conhecia A Carne, lida na adolescência, e a fama de gramático.
A edição de suas Poesias Completas ainda inclui outros volumes: Belo Belo, Opus 10 e Estrela da Tarde. A editora José Olympio publicou-os com o título de Estrela da Vida Inteira.
Ao encerrar o Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira faz uma breve e melancólica retrospectiva, assentando que o convívio com a idéia de morte é repousante, fazendo dela a sua companheira e imbuindo a poesia de profundo sentimento de solidão.
Olhemos agora para trás. Quando caí doente em 1904, fiquei certo de morrer dentro de pouco tempo: a tuberculose era ainda a “moléstia que não perdoa”. Mas fui vivendo, morre-não-morre, e em 1914 o Dr. Bodmer, médico-chefe do sanatório de Clavadel, tendo-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida me respondeu assim:
O Sr. tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entanto está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos... Quem poderá dizer?..
Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. Nos primeiros anos da doença me amargurava muito a idéia de morrer sem ter feito nada; depois a forçada ociosidade. Já disse como publiquei A Cinza das Horas para de certo modo iludir o meu sentimento de vazia inutilidade. Este só começou a se dissipar quando fui tomando consciência da ação dos meus versas sobre amigos e principalmente sobre desconhecidos. Uma tarde voltei para casa seriamente impressionado de ter ouvido, na Livraria José Olímpio, Raquel de Queirós me dizer:
Você não sabe o que a sua poesia representa para nós.
Foi a força de testemunhos como esse, às vezes de gente quase de todo alheia à literatura, que principiei a aceitar sem amargura o meu destino. Hoje na verdade me sinto em paz com ele e pronto para o que der e vier.
Otto Maria Carpeaux, escrevendo uma vez a meu respeito, disse, com certeira intuição, que no livro ideal em que ele estruturaria a ordem da minha poesia, esta partia da vida inteira que poderia ter sido e que não foi para outra vida que viera ficando cada vez mais cheia de tudo.
De fato esse é o sentido profundo da “Canção do vento e da minha vida”. De fato cheguei ao apaziguamento das minhas insatisfações e das minhas revoltas pela descoberta de ter levado à angústia de muitos uma palavra fraterna. Agora a morte pode vir — essa morte que espero desde os dezoito anos; tenho a impressão que ela encontrará, como em “Consoada” está dito,
....................a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Em outubro de 1968 a morte levou o poeta que conhecia a arte de criar versos.
LIBERTINAGEM
O volume contém 38 pequenos poemas representativos de diferentes momentos da vida poética do autor, mas que podem ser agrupados devido a uma recorrência a certos tipos de tema.
Inicia o volume o poema “Não Sei Dançar”, em que o poeta se embebe de uma alegria ilusória e passageira para tentar fugir de sua triste sina:
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
E por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
A referência musical deixa transparecer a cadência que será constante em sua obra: o ritmo poético como pano de fundo para o relato do que existe de mais interior e essencialmente biográfico do poeta.
Segue-se “Anjo da Guarda”, singela homenagem que o poeta faz à irmã morta.
Na mesma linha autobiográfica, Manuel Bandeira redige “Pneumotórax”, em que trata a própria doença (tuberculose) com irreverência, traduzida com frases cortantes, vazadas com o humor que beira o sarcástico:
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Em “Porquinho da Índia”, “Andorinha”, “O Último Poema”, a caracterização autobiográfica é conduzida para recordações da infância, sempre tratada com melancólica proximidade; são relatadas as reminiscências mais longínquas do poeta, que refletem a amargura de perceber-se contemplando o final de uma vida poética:
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos
[intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes
[mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Caracteriza a poesia de Manuel Bandeira a forma simples e singela de repassar para o leitor o tom pessoal, o envolvimento sentimental, a amargura e a melancolia; transmite a sensação de uma vida vazia, muito bem definida em alguns versos como “A vida inteira que podia ter sido e que não foi” (“Pneumotórax”), ou nos quartetos de “Poema de Finados”, em que a sensação de morte que o poeta experimenta está associada à sensação de perda dos parentes próximos:
Amanhã é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
E a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
Qual é então o refúgio do poeta? A ele resta fugir, com o bom sentimentalismo herdado dos românticos, para um mundo criado pela sua imaginação. Embora modernista, Manuel Bandeira aproxima-se da cosmovisão romântica não só pelo caráter pessoal, melancólico e sentimental de sua poesia, como também pela simplicidade da composição alicerçada na busca do verso melódico e popular, com preferência pelos redondilhos maiores, tão bem ilustrados por “Vou-me Embora pra Pasárgada”, como se vê nas estrofes transcritas a seguir:
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tornarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
O mesmo comportamento poético é notado em versos extremamente líricos como em “Profundamente”, em que são confundidos os tempos em função da emotividade. Aí surgem os avós, a saudade do passado identificada pelas vozes de um tempo remoto, encarcerados na memória dos seus seis anos. Dessa evocação surgem personagens como Totônio Rodrigues, Rosa, Tomásia.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Uma segunda linha poética a ser apontada em Libertinagem é realçada pela atenção que o poeta dá às coisas que podem ser captadas pela observação. Voltando-se para o cotidiano, preocupa-se em provar que a poesia nasce do encontro do poeta com o mundo em que vive. A poesia nasce a qualquer momento, do contato com as praças públicas ou com os homens nas ruas, da vivência brasileira, do jeitão nosso de ser. Como apregoavam os modernistas, a poesia nasce a qualquer momento, é concebida pelo encontro com situações mais diversas do cotidiano. A beleza se esconde nos fatos mais banais, a ternura está nas coisas mais simples, como são exemplos “Pensão Familiar”, “Major”, “Poema Tirado de uma Notícia de Jornal”, “Namorados” e “Camelôs”, de onde se extraiu o trecho a seguir.
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam box
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma
Alegria das calçadas.
Em poemas mais intelectualizados como “O Cacto”, associa a uma aparente simplicidade um trabalho que envolve conceitos e conhecimentos da história da arte e da mitologia, até se envolver na dura realidade do seco Nordeste, evocado a partir de sua árvore-símbolo. Ao cacto, que submerge ao impacto da também grande e agressiva imagem do tufão, mistura-se a ferocidade do turbilhão da cidade, como se o cacto pudesse por si só provar a força da paisagem áspera e intratável do Nordeste:
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de ferocidades
excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:
— Era belo, áspero, intratável.
Outra vertente temática que aparece em Libertinagem é a composição de versos que expõem o compromisso do escritor com a estética modernista. Nesse sentido, produz uma espécie de profissão de fé em “Poética”, reduzindo sua pretensão poética ao compromisso de buscar liberdade de criação:
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Encerra o poema o famoso verso “— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” — desabafo de um oprimido que diz não ao formalismo parnasiano, à linguagem culta, ao lirismo comedido e se propõe a buscar uma língua brasileira, o ritmo livre, o tema aberto.
Essa mesma língua brasileira é proposta em “Evocação do Recife”:
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há tanto tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
Ainda em “Evocação do Recife” é possível perceber o apego do poeta em relação à paisagem que está próxima, quer pela saudade (no caso do Recife), quer pela proximidade física, como em “Mangue”:
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Ou ainda em “Belém do Pará”:
(...) Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de
[todas as cidades do Brasil
Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro
Bembelelém
Viva Belém
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
QUADRO DE ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DOS POEMAS
DE LIBERTINAGEM
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1 |
Não Sei Dançar |
autobiografia, melancolia e consciência da miscigenação |
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2 |
O Anjo da Guarda |
memorialismo, lirismo e evasão |
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3 |
Mulheres |
a poesia do cotidiano, evocação da infância e leve erotismo |
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4 |
Pensão Familiar |
A poesia do cotidiano e leve ironia |
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5 |
Camelôs |
A poesia do cotidiano, evasão e evocação da infância |
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6 |
O Cacto |
A poesia do cotidiano, mitologia, metalinguagem e reflexão |
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7 |
Pneumotórax |
Autobiografia, humor, melancolia e antirilismo |
|
8 |
Comentário Musical |
A poesia do cotidiano e epifania |
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9 |
Poética |
Metalinguagem, a busca da estética e a força de um manifesto |
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10 |
Chambre Vide |
A poesia do cotidiano e reflexão |
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11 |
Bonheur Lyrique |
Autobiografia, melancolia e lirismo |
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12 |
Porquinho-da-Índia |
Evocação da Infância, lirismo, leve ironia e epifania |
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13 |
Mangue |
Memorialismo, aspectos da cultura brasileira e lirismo |
|
14 |
Belém do Pará |
Memorialismo, lirismo e exaltação da pátria |
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15 |
Evocação Recife |
Memorialismo, lirismo, autobiografia e exaltação da pátria |
|
16 |
Poema Tirado de uma Notícia do Jornal |
A poesia do cotidiano, observação e ironia |
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17 |
Teresa |
Ironia, lirismo, epifania e intertextualidade |
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18 |
Lenda Brasileira |
Mitologia, epifania, humor e evasão |
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19 |
A Virgem Maria |
Autobiografia, epifania, evasão e morte |
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20 |
Oração do Saco de Magaratiba |
Autobiografia e melancolia |
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21 |
O Major |
A poesia do cotidiano e morte |
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22 |
Cunhatã |
A poesia do cotidiano, lirismo e aspectos do Brasil |
|
23 |
Oração a Teresinha do Menino Jesus |
Autobiografia, melancolia e evasão |
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24 |
Andorinha |
Autobiografia, pessimismo e ironia |
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25 |
Profundamente |
Metalinguagem, memorialismo, lirismo e morte |
|
26 |
Madrigal Tão Engraçadinho |
Ironia, a poesia do cotidiano, autobiografia e intertextualidade |
|
27 |
Noturno da Parada Amorim |
Epifania e evasão |
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28 |
Na boca |
Autobiografia e pessimismo |
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29 |
Macumba de Pai Zé |
Evasão, morte e aspectos do Brasil |
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30 |
Noturno da Rua da Lapa |
Autobiografia, melancolia, epifania e experimentalismo |
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31 |
Cabedelo |
Evasão, melancolia, lirismo e intertextualidade |
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32 |
Irene no Céu |
Evasão, humor e aspectos do Brasil |
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33 |
Palinódia |
Epifania, ludismo e experimentalismo |
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34 |
Namorados |
Coloquialismo, ironia e bom humor |
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35 |
Vou-me Embora pra Pasárgada |
Evasão, metalinguagem, epifania, lirismo e autobiografia |
|
36 |
O Impossível Carinho |
Metalinguagem, evasão, lirismo e evocação da infância |
|
37 |
Poema de Finados |
Autobiografia, evasão, pessimismo e morte |
|
38 |
O Último Poema |
Autobiografia, evasão, morte, metalinguagem e melancolia |