A FARSA DE INÊS PEREIRA
(Gil Vicente
) Estudo copiado do material do Curso Universitário
1. CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL
A expansão ultramarítima traz ao homem do século XV uma nova maneira de olhar o mundo que o circunda. Ele começa a se dar conta de que o seu esforço e estudo podem acarretar na dominação da natureza. É evidente, porém, que tamanha mudança cultural não se fez da noite para o dia. Os séculos anteriores são uma longa preparação para o que eclode no século XV e os séculos seguintes são ainda etapas de adaptação a essas mudanças.
A crença no poder de dominação do homem — o Antropocentrismo — provocará o choque com o arraigado Teocentrismo da sociedade medieval. Durante a Idade Média, a cultura esteve voltada de forma radical para a religiosidade. Todas as explicações eram dadas pela Igreja, representante do poder divino na terra. A relação entre Deus — superior, perfeito, senhor — e o pecador — submisso, inferior —aparece retratada nas relações sociais, nas figuras do senhor feudal e do vassalo e, como não poderia deixar de ser, nas artes, como exemplificam as cantigas de amor trovadorescas. Muitas vezes, o desejo de estudo, de conhecimento, a busca por novas explicações para velhas perguntas parecerão aos mais tradicionais um verdadeiro ato de petulância do homem de atrevimento diante de princípios que haviam sido estabelecidos por Deus.
Muitas das mudanças por que passa a sociedade dessa época devem-se ao surgimento de uma nova classe social, a burguesia. Esse novo segmento social surge das atividades mercantis que passam a ser exercidas entre os feudos e não pára mais de crescer.
Junto com o aparecimento da classe burguesa, surgem as cidades. O homem do campo passa cada vez mais a se interessar pela vida nos grandes centros. O sistema feudal, base da estrutura medieval, começa a se enfraquecer e um novo padrão de vida começa a se formar. Na busca por seu espaço, a burguesia faz valer seu poder econômico em oposição aos títulos de nobreza.
Portugal começava a expandir os horizontes do mundo com as Grandes Navegações. O homem passa a confiar cada vez mais em seu conhecimento e sua capacidade de romper barreiras. Pouco a pouco, a dominação da Igreja vai dando lugar à crença no potencial humano. O Teocentrismo medieval começa a dar espaço para o Antropocentrismo, que marcaria o período seguinte, o Renascimento. Neste momento, o homem passa a dar mais atenção ao que está ao seu redor, ao mundo que está à sua volta: é a humanização da cultura.
É claro que valores tão arraigados não desaparecem da noite para o dia. A época que estamos estudando foi, portanto, uma longa fase de transição, em que ideais medievais e renascentistas passam a conviver numa sociedade.
2. A ESCOLA LITERÁRIA
A arte desse momento, seja na forma de literatura, pintura, escultura ou arquitetura, sofre como primeira conseqüência importante a sua própria humanização, ou seja, afasta-se gradativamente dos temas religiosos. A vida cotidiana começa a ganhar mais espaço no gosto do público.
Em Portugal, o Humanismo estende-se de 1434 — quando Fernão Lopes foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, assumindo uma função equivalente a de um historiador — a 1527 — ano do retomo do poeta Sá de Miranda da Itália para Portugal trazendo novidades artísticas da nação que serviria como berço do Renascimento.
A produção escrita do Humanismo concentra sua importância na prosa. É o momento das crônicas de Fernão Lopes, Zurara e Rui de Pina. A essa produção dá-se o nome de historiografia1; ao lado dela, na prosa não-ficcional, aparece também a prosa doutrinária2 e, na prosa ficcional, a novela de cavalaria.3. Só na sua fase final ganharão destaque a poesia palaciana4 e o teatro vicentino.
3. O AUTOR: VIDA E OBRA
Não se sabe ao certo as datas de nascimento e morte de Gil Vicente. Provavelmente, nasceu em torno de 1465 e morreu entre 1536 e 1540. Com essas datas, sabe-se que viveu durante os reinados de D. Afonso V, D. João II, D. Manuel 1 e D. João III. Testemunhou, portanto, a expansão ultramarítima de Portugal.
Sua primeira peça foi escrita em homenagem ao nascimento do futuro rei D. João III, em 1502. A peça, Monólogo do Vaqueiro, fez tanto sucesso que a rainha pediu uma nova reprodução na data do Natal. Gil Vicente voltou à corte, com sua já conhecida equipe de saltimbancos, mas para apresentar uma nova peça, Auto Pastoril Castelhano. Confirmado o sucesso, foi nomeado o organizador das festas da corte, ocasiões em que apresentava seus autos.
Ao todo, foram mais de 40 peças escritas em português, castelhano e num idioma já extinto, o saiaguês. As mas conhecidas e consideradas de melhor qualidade são o Auto da Barca do Inferno (1517) e a Farsa de Inês Pereira (1523).
Vejamos outras peças importantes de sua autoria:
1503 - Auto dos Reis Magos
1504 - Auto de 5. Martinho
1509 - Auto da Índia
1512 - O velho da Horta
1514 - Exortação da Guerra
1515 - Quem tem farelos
1518 - Auto da Barca do Purgatório; Auto da Barca da Glória; Auto da Alma
1522 - Pranto de Maria Parda; Dom Duardos
1523 - Auto Pastoral Português
1525 - O Juiz da Beira
1526 - Breve Sumário da História de Deus
1527 - Farsa dos Almocreves; Auto Pastoril da Serra da Estrela
1528 - Auto da Feira
1529 - O Clérigo da Beira
1532 - Auto da Lusitânia
1533 - Romagem de Agravados; Auto de Amadis de Gaula
1534 - Auto de Mofina Mendes
1536 - Floresta de Enganos
Podem-se perceber dois tipos de composições na obra de Gil Vicente: os Autos e as Farsas. Autos são peças teatrais cujo assunto predominante está ligado a idéias religiosas. Já as Farsas são peças cômicas, curtas, com poucos personagens e com assuntos relacionados ao cotidiano.
Seja abordando um assunto religioso , seja trabalhando sobre um tema profano, Gil Vicente procurou sempre dar às suas peças um tom moralizante. Marcado por uma educação medieval, o teatrólogo percebia a decadência dos valores em que acreditava e procurava conscientizar o público do que considerava correto. Com isso, suas peças ganham um aspecto de crítica à sociedade de seu tempo.
A influência medieval está presente também na estrutura formal da obra de Gil Vicente. Suas peças são escritas em versos redondilhos, respeitando a medida velha, isto é, a métrica comumente usada na literatura da Idade Média. A regra das três unidades5 do teatro clássico também é deixada de lado pelo compositor. Fugindo dessas limitações, Gil Vicente procurava representar cada vez mais tipos sociais, ampliando a duração das ações e criando uma justaposição de lugares.
Para Gil Vicente, o teatro tinha uma função educadora. Seu desejo era de que o público se identificasse com os personagens e apreendessem a “moral da história”. Para representar toda urna sociedade, o autor fez uso de personagens tipos, ou seja, personagens que, de um modo caricato, representam um grupo social. Assim, encontramos na maioria de suas peças gente de todas as classes sociais: a moça casadoira, a alcoviteira, o padre, o comerciante, o judeu, o juiz, o parvo etc... Com isso, os principais defeitos ou qualidades da sociedade portuguesa eram retratados em suas peças. Além dessa espécie de personagem, é comum também encontrarmos personagens alegóricos. Para tomar mais claros os princípios a serem transmitidos para o público, Gil Vicente procurava concretizá-los em forma de personagens. Alma, Diabo, Anjo são alguns exemplos de alegorias trabalhadas por ele.
Todo um quadro de época formava-se dessa forma. Costumes, crenças, princípios e a falta deles eram representados com a intenção de se conseguir uma recuperação da sociedade. Mas a preocupação didática de Gil Vicente não terminava aí. Para chamar ainda mais a atenção do público, o cômico se faz presente de várias formas. A platéia ria da linguagem estereotipada dos personagens, dos trocadilhos, das grosserias, das obscenidades e por vezes até dos nomes das personagens que revelavam traços psicológicos ou sociais. O lado humanista de Gil Vicente evidencia-se nesse aspecto: é o
artista observando atentamente a sociedade ao seu redor. E delicia-se com isso, rindo das fraquezas do ser humano, procurando encontrar o aspecto mais marcante de cada tipo, de cada camada social, inclusive o padrão de linguagem. Por isso, encontraremos nas peças uma grande variedade lingüística usada com talento de quem sabe usar o código para fazer arte.
4. ANÁLISE DA OBRA
A Farsa de Inês Pereira foi representada pela primeira vez ao rei D. João III, no convento de Tomar em 1523.
A peça foi escrita por ocasião de um desafio feito pelos nobres. Cansados de serem desmoralizados nas peças do escritor, acusam-no de plagiar o teatro espanhol. Em resposta, ele sugere que lhe seja dado um tema, sobre o qual escreverá urna nova peça. O tema foi o ditado popular: “Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube”.
A peça tem início com a entrada de Inês Pereira cantando e fingindo que trabalha em um bordado. Logo começa a reclamar do tédio deste serviço e da vida que leva, sempre fechada em casa. A mãe, ouvindo suas reclamações, aconselha-a a ter paciência. Lianor Vaz aproxima-se contando que um padre a assediou no cominho. Depois de contar suas aventuras, diz que veio trazer uma proposta de casamento para Inês e lhe entrega uma carta de seu pretendente, Pero Marques, filho de lavrador rico. Inês aceita conhecê-lo apesar de não ter se interessado pela carta. Pessoalmente, acha Pero ainda mais desinteressante ainda e recusa o casamento. Sua esperança agora está nos Judeus casamenteiros a quem encomendou o noivo de seus sonhos. Depois de haverem procurado muito, os atrapalhados Latão e Vidal dizem ter encontrado um escudeiro que se encaixa nas exigências de Inês. Antes de vir conhecê-la, porém, o tal Escudeiro, na verdade, pretensioso e falido, combina com seu mal-humorado pajem as mentiras que dirá para enganar Inês. O plano dá certo e eles se casam. Logo no início da nova vida, o sonhado marido revela-se um tirano que não deixa sequer a esposa aparecer na janela. Mas logo ele segue para a guerra, deixando-a guardada pelo seu pajem. Três meses depois, Inês recebe uma carta do irmão dela avisando-a de que o marido morrera nas mãos de um pastor. Finalmente em liberdade, a moça não perde tempo. Seguindo o conselho de Lianor Vaz, aceita casar-se novamente, agora com Pero Marques. Quando Inês está começando a perceber as vantagens de seu novo casamento, surge um ermitão pedindo esmolas e se identificando como um velho apaixonado de Inês. Já prevendo os futuros prazeres nos braços de seu amante, ela segue em romaria carregada nas costas por Pero e cantando suas felicidades futuras ao lado do marido com vocação para ser traído.
Estrutura Formal
O gênero dramático tem características específicas que devemos levar em conta durante a análise da peça de Gil Vicente. Em primeiro lugar, devemos lembrar que não há, do modo tradicional, um narrador; em geral, há rubricas, isto é, anotações à parte da narrativa que servem de orientação para os atores ou para o leitor. São elas que esclarecem, geralmente, as questões de vestimenta, cenário, tempo, posição das personagens etc. As peças de Gil Vicente não trazem rubricas muito específicas. O tempo representado na peça não é indicado. As cenas vão tendo seqüência não dando a idéia de tempo decorrido entre uma e outra. A única menção feita é do período passado desde que o Escudeiro foi à guerra até a chegada da notícia de sua morte: três meses, segundo o Moço. A maioria das cenas se passa num mesmo espaço especificado apenas como a casa de Inês. Todos os personagens acabam passando por ali. Em alguns momentos, os personagens vêm se preparando no caminho para a casa, como acontece com Pero Marques, o Escudeiro e o Moço. Mas de nenhum desses lugares há indicações cenográficas específicas como descrição do ambiente, iluminação etc. A mesma desatenção aparece com relação aos trajes dos personagens. Apenas Pero Marques tem sua roupa genericamente explicitada: “Aqui vem Pero Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gibão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante”.
Outra grande característica presente no gênero dramático é a predominância do discurso direto. Como as personagens são representadas concretamente, elas mesmas têm direito à fala, sendo o diálogo o meio usado para criar a trama narrativa.
Uma vez que as personagens falam diretamente, Gil Vicente, muito habilmente, soube usar essa artimanha para garantir o humor. Na fala de cada uma encontramos marcas importantes na delimitação de suas características: a ingenuidade de Pero Marques, o descaso e a argúcia de Inês, a malandragem do Escudeiro e daí em diante.
Conforme já foi dito, Gil Vicente segue a Medida Velha, característica da poesia medieval. Todas as falas foram compostas em verso redondilhos maiores, isto é, com sete sílabas poéticas, e sempre rimados:
1—2— 3— 4—5— 6— 7
Re-ne-go des-te Ia-vrar A
e do primeiro que o usou! B
Ao diabo que eu o dou, B
Que tão mau é de aturar! A
1— 2—3— 4— 5—6—7
Oh! Je-sus! Que en- fa- da-men-to C
E que raiva e que raiva e que tormento, C
Que cegueira e que canseira! D
Eu hei-de buscar maneira D
Dalgum outro aviamento. C
Muito comum nas falas também é a presença de ditados populares:
amiga e bom amigo
mais aquenta que bom lenho;
ou seja sapo ou sapinho,
ou marido ou maridinho
tenha o que houver mister,
este é o certo caminho;
No chão de Couce,
Quem não puder andar, choute;
O que não haveis de comer,
deixai-o outrem mexer.
A cultura popular assim presente nas falas das personagens confirma as atitudes corrompidas no cotidiano da sociedade. E mais uma vez, o teatrólogo garante o entendimento e a identificação do seu público.
· Personagens
Inês Pereira: representa a moça casadoira, fútil, preguiçosa e interesseira. Casa-se duas vezes apenas para livrar-se do tédio da vida de solteira. Não o conseguindo na primeira tentativa, garante-se na segunda, com o marido ingênuo. Apesar de seu comportamento impróprio, consegue até mesmo a simpatia do público pela inteligência com que planeja seus passos. É, sem dúvida, resultado do sistema social do qual faz parte, por isso mesmo, um personagem atemporal.
Lianor Vaz: é a alcoviteira, a mulher que ajeita casamentos, revelando que a base da família está corrompida.
Mãe: apesar de dar conselhos à filha, acha importante que ela não fique solteira e se toma cúmplice das atitudes dela.
Pero Marques: é o marido parvo, bobo, “o asno que me carregue”. Apesar de ser ridicularizado por Inês, espera-a,casa-se com ela e sujeita-se aos seus caprichos e traições. A figura do parvo é freqüente nas peças de Gil Vicente garantindo, por meio da sua bobice e ingenuidade o riso fácil. Além disso, ressaltam de modo implícito a inversão de valores da sociedade.
Escudeiro: é o “cavalo que me derrube”. Preocupado em arrumar uma boa esposa, finge, dissimula, engana, criando uma imagem de “homem discreto” que depois se revela um tirano, aprisionando Inês dentro de casa. Termina morto por um pastor. É outra figura corriqueira na galeria de tipos vicentinos, retratando a busca pela vida fácil num casamento rendoso.
Moço: espécie de pajem do Escudeiro, serve para realçar as falcatruas e mentiras arquitetadas pelo primeiro marido de Inês a fim de enganá-la e conseguir o casamento.
Ermitão: antigo flerte de Inês que agora é padre. Serve para realçar as intenções de traição da mulher agora casada com Pero Marques e o caráter promíscuo do clero.
Latão e Vidal: judeus casamenteiros. Seres marginalizados, os judeus aparecem para realçar o tom cômico da peça e, assim como a alcoviteira, desmascarar a hipocrisia dos casamentos arranjados.
Conteúdo
A Farsa de Inês Pereira é considerada a obra-prima dentre as demais farsas de Gil Vicente. As farsas sempre caíram mais no gosto do público pela maneira de tratar os temas sexuais, no caso, por exemplo, a falta de compaixão para com o marido corno e parvo, provocando não só o riso mas também a cumplicidade com as mulheres espertas e adúlteras, capazes de driblar hipocritamente as convenções sociais para satisfazer seus desejos carnais. Sem dúvida, essa é a crítica central da peça, mas não é a única. Em segundo plano, mas não de menor importância dentro da totalidade da obra de Gil Vicente, encontramos a ironia e o desmascaramento do comportamento do clero por meio do padre que tenta agarrar Lianor Vaz, do que já o tentou fazer com a mãe de Inês e do que se tomará amante da jovem. Temos também a visão satírica do comportamento de nobres que não o são, mas fingem, dissimulam, como é o caso do Escudeiro. Temos a intromissão na base da família de alcoviteiras e alcoviteiros como Lianor e os Judeus. Enfim, retratando todo o trabalho de Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira não dispensa críticas a nenhum setor da sociedade. É o instrumento usado por um homem medieval, com valores medievais, por meio de formas medievais, para mostrar a sua preocupação com o homem de seu tempo. É a arte baseada no teocentrismo mas já preocupada com o homem que vive na terra. É a literatura humanista.
Cabe ainda ressaltar que a grandeza da obra de Gil Vicente extrapola sua preocupação em caracterizar uma determinada sociedade dentro de uma época específica. O domínio poético que exibe por meio dos versos redondilhos usados revelam sua consciência artística, assim como o gosto na escolha de metáforas, trocadilhos, sonoridade, garantindo a grandeza poética das peças. E por essa qualidade que o teatro vicentino é considerado rico enquanto texto e simples enquanto cenografia. Sem dúvida, os recursos poéticos foram muito mais valorizados que os cênicos. Tudo isso para retratar na sociedade portuguesa traços das sociedades de todos os tempos: o lado humano.
Antologia
Inês
Renego deste lavrar
e do primeiro que o usou!
Ao diabo que eu o dou,
que tão mal é de aturar!
Oh Jesus! Que enfadamento
e que raiva e que tormento,
que cegueira e que canseira!
Eu hei-de buscar maneira
Dalgum outro aviamento.
Lavrar = trabalhar, bordar
A fala inicial de Inês já revela logo a falta de gosto pelo trabalho, o que é mal visto aos olhos medievais, e a vontade de fazer qualquer coisa para sair dessa rotina sem emoções e romantismo. A personagem central, portanto, é construída como alguém voltada para os prazeres carnais e ansiosa por realizá-los.
Inês
Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado;
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar:
Que assi o tenho assentado.
Lianor
Eu vos trago um bom marido
Rico, honrado conhecido:
Diz que em camisa vos quer.
Inês
Primeiro eu hei-de saber
Se é parvo, se sabido.
Avisado = prudente, discreto
Em camisa vos quer = pobre, sem dote
Parvo = bobo
O diálogo entre Inês e Lianor permite perceber tanto o papel da alcoviteira, tão comum na sociedade daquela época, quanto os interesses da noiva: um casamento que valorizava as aparências, a classe, a distinção.
Chega Pero Marques aonde elas estão (...)
Mãe
Tomai aquela cadeira.
Pero
E que vai aqui uma destas?
Inês
(Oh Jesus! Que João das Bestas!
Olhai aquela canseira!)
Assentou-se com as costas para elas e diz:
Eu cuido que não estou bem...
(...)
Cuido que lhe trago aqui
Peras da minha pereira
(...)
Nunca tal me aconteceu...
Algum rapaz mas comeu,
Que as meti no capelo,
E ficou aqui o novelo,
E o pente não se perdeu,
Pois trazia-as de boa mente...
(...)
Vossa mãe foi-se? Ora bem!
Sós nos deixou ela assi,
Cant’eu quero-me ir daqui,
Não diga algum demo alguém...
Inês
E vós, que havíeis de fazer,
Nem ninguém que há-de dizer?
(o galante despejado!)
Pero
Se eu fora já casado,
Doutra arte havia de ser...
Como homem de bom recado...
Inês
(Quão desviado este está!
Todos andam por caçar
Suas damas sem casar,
E este... tomade-o lá!).
E que vai aqui uma destas? = e quanto vale uma cadeira destas
Capelo = chapéu
O galante despejado = que atrevimento do galante
Esta conversa entre Inês e seu pretendente evidencia em primeiro lugar a parvoíce, isto é, o jeito tolo e ignorante de Pero. Todo atrapalhado acaba por perder o que talvez fosse, na ocasião, sua única chance de conquistar Inês com atitudes mais ousadas quando sua mãe estava distante. Como nada de interessante acontece, Inês se enfadonha e o rejeita.
Aqui entram os judeus casamenteiros: e diz
LATÃO - Hou de cá!
INÊS - Quem está LÁ?
VIDAL - Em nome de Deus
aqui somos,
LATÃO - Não sabeis quão
longe fomos:
VIDAL - Corremos cá, acolá, (60)
este e eu;
LATÃO - sim, eu e este,
pela lama e pelo pó,
que era para haver dó,
com chuva, sol e nordeste.
Foi a coisa de maneira,
tal friura e tal canseira,
que trago as tripas maçadas;
assim me fadem boas fadas,
que me saltou caganeira
para vossa mercê ver
o que nos encomendou.
O que nos encomendou
será o que houver de ser,
todo este mundo é fadiga,
vós dissestes, filha amiga,
que vos buscássemos logo.
VIDAL - E logo pusemos fogo.
LATÃO - Cal’-te:
VIDAL - Não queres que diga
não sou eu também do jogo
LATÃO - Não fui eu também contigo
tu e eu não somos eu?
Tu judeu, e eu judeu?
Não somos massa de um trigo?
VIDAL - Sim, somos, juro por Deus
LATÃO - Deixa-me falar.
VIDAL - já calo.
Senhora, fomos... agora falo,
ou falas tu?
LATÃO - Dize, que dizias?
Que foste, que fomos, que ias
buscá-lo, esgaravatá-lo.
Vós, amor, quereis marido
mui discreto e de viola?
Esta moça não é tola
pois sabe escolher partido.
judeu, queres me deixar
VIDAL - Deixo, não quero falar.
Buscamo-lo.
LATÃO - Demo foi logo,
(e) crede que o vosso rogo
vencerá o Tejo e o mar.
Eu cuido que falo e calo:
falo eu agora, ou não?
Ou falo se vem à mão?
Não digas que não te falo.
INÊS - Não falará um de vós?
já queria saber isso.
MÃE - Que siso, Inês, que siso
tens debaixo desses véus.
INÊS - Diz o exemplo da velha:
“o que não haveis de comer
deixai-o a outrem mexer”.
MÃE - Mau conselho te aconselha.
INÊS - Enfim, que novas trazeis?
VIDAL - O marido que quereis,
de viola e dessa sorte
não no há senão na corte,
que cá não no achareis.
Falamos a Badajoz,
músico, discreto, solteiro;
este fora o verdadeiro,
porém safou-se de nós.
Fomos a Vila Castim
e falou-nos em latim:
“Vinde cá daqui a uma hora,
e trazei-me essa senhora.”
Assim que é tudo nada, enfim?
Esperai, aguardai ora:
soubemos dum escudeiro
que tem feição de moleiro,
que virá logo essora,
que fala, e como ora fala,
que estrugirá esta sala,
e tange, e como tange,
e alcança quanto abrange,
e se preza de ter gala.
(...)
Escudeiro
E se me vires mentir,
Gabando-me de privado,
Está tu dissimulado,
Ou sai-te lá fora a rir:
Isso eu te aviso daqui,
Faze-o por amor de mi.
Moço
Porém, senhor, digo eu,
Que mau calçado é o meu
Para estas vistas assi!
Escudeiro
Que farei, se o sapateiro
Não tem solas, nem tem pele?
Moço
Que pecado foi o meu?
Por que me dais tal prisão?
Moço
Sapatos me daria ele
Se me désseis dinheiro.
Escudeiro
Eu o haverei agora,
E mais, calças te prometo.
Moço
(Homem que não tem nem preto
casa muito na má hora!)
não tem nem preto = não tem nem moeda de cobre
A revelação agora é sobre o Escudeiro. Distante dos olhos e do ouvido de Inês, o homem que ela acredita ser perfeito para marido, mostra-se falso, fingido, mascarado e além de tudo pobre e endividado. Mesmo assim, não perde a pose (que é o que Inês tanto admira) tendo até mesmo um pajem para servi-lo.
Escudeiro
Oh! Que me fora solteiro!
Inês
Já vós vos arrependeis!
Escudeiro
Oh, esposa, não faleis,
Que casar é cativeiro.
(...)
Vós cantais, Inês Pereira?
Em bodas me andáveis vós?
Juro ao corpo de Deus
Que esta seja a derradeira!
Se vos eu vejo cantar,
Eu vos farei assoviar...
(...)
Será bem que vos caleis.
E mais, sereis avisada
Que não me respondais nada,
Em que ponha fogo a tudo;
Porque o homem sisudo
Traz a mulher sopeada.
Vós não haveis de falar
Com homem nem mulher que seja;
Nem somente ir à igreja
Não vos quero eu deixar.
Já vos preguei as janelas,
Por que vos não ponhais nelas;
Estareis aqui encerrada,
Nesta casa tão fechada
Como freira de Oudivelas.
Inês
Que pecado foi o meu?
Por que me dais tal prisão?
Escudeiro
Vós buscastes discrição...
Que culpa vos tenho eu?
Pode ser maior aviso,
Maior discrição e siso,
Que guardar eu meu tesouro
Não sois vós, mulher, meu ouro?
Que mal faço em guardar isso?
Vós não haveis de mandar
Em casa somente um pelo;
Se eu disser: “Isto é novelo”,
Havei-lo de confirmar.
E mais, quando eu vier de fora,
E cousa que vós digais
Não vos há-de valer mais
Que aquilo que eu quiser.
Em que = mesmo que
Oudivelas = convento de Oudivelas
A máscara do Escudeiro caiu e agora Inês sabe o peso de sua escolha. A vida de casada nada tem, para ela, das alegrias e levezas com que tanto sonhara. Agora tomou-se mais prisioneira do que antes se sentia.
Inês
Cantemos, marido, quereis?
Pero
Eu não saberei entoar...
Inês
Pois eu hei de cantar
E vós me respondereis,
Cada vez que eu acabar:
Pois assim se fazem as cousas.
Canta Inês Pereira:
Marido cuco me evades,
e mais duas lousas.
Pero
Pois assim se fazem as cousas.
Inês
Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo;
Sempre fostes percebido
Para gamo
Carregado ides, noss’amo,
Com duas lousas.
Pero
Pois assim se fazem as cousas.
Inês
Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero;
Sempre fostes percebido
Par cervo.
Agora vos tomou o demo com duas lousas.
Pero
Pois assim se fazem as cousas
Cuco = enganado
Lousas = cornos
Percebido = com inclinação
Gamo, cervo = símbolos do marido enganado
Depois do destino livrá-la do primeiro marido, Inês, com a lição já muito bem aprendida, volta atrás, aceita casar-se com Pero Marques e já arrumou um padre para ser seu amante. Pero assume o papel que deveria ter sido seu desde o início, marido tolo, cego, enganado e submisso.
NOTAS
1- É o registro da vida de personagens e acontecimentos históricos
2 - É o texto com finalidade pedagógica ou destinado à doutrinação cavaleiresca, cortesã ou religiosa.
3- Tem com tema as aventuras dos cavaleiros medievais.
4- É a poesia recitada que substitui a poesia cantada do Trovadorismo. Recebe o nome de poesia palaciana por que os autores eram na sua maioria poetas da corte e as declamavam freqüentemente em saraus dos palácios. Mesmo assim, através da impressão, tais poemas tomaram-se acessíveis a outras camadas do público. O Cancioneiro Geral é um exemplo de antologia dessas poesias.
5- O teatro clássico pregava uma estrutura extremamente rígida por meio da concisão: enfoque em apenas uma ação, restrita a um único ambiente e que se passa em curto espaço de tempo.