Análise de
Massaud Moisés
Adquira obras do autor
FRAGMENTO DA OBRA
A Tragédia
CENA IX
JORGE (só)
— Eu faço por estar alegre, e queria
vê-los contentes a eles… mas não sei já que diga do estado em que vejo minha
cunhada, a filha… Até meu irmão o
desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça… E eu quase que
também já se me pega o mal. Deus seja conosco!
CENA X
JORGE, MADALENA
MADALENA
(falando ao bastidor)
— Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá
estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me dizer para
eu ficar descansada. (Vem para a cena.)
Não há vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a
volta… quem sabe? O tempo muda tão depressa…
JORGE
— Não, hoje não tem perigo.
MADALENA
— Hoje… hoje! Pois hoje é o dia da minha
vida que mais tenho receado… que ainda temo que não acabe sem muito grande
desgraça… É um dia fatal para mim; faz
hoje anos que… que casei a primeira vez, faz anos que se perdeu el-rei D.
Sebastião, e faz anos também que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.
JORGE
— Pois contais essa entre as infelicidades
da vossa vida?
MADALENA
— [5] Conto. Este amor, que hoje está
santificado e bendito no céu, porque Manuel de Sousa é meu marido, começou com
um crime, porque eu amei-o assim que o vi… e quando o vi, hoje, hoje… foi em
tal dia como hoje, D. João de Portugal ainda era vivo! O pecado estava-me no
coração; a boca não o disse… os olhos não sei o que fizeram, mas dentro da alma
eu já não tinha outra imagem senão a do amante… já não guardava a meu marido, a
meu bom… a meu generoso marido… senão a grosseira fidelidade que sua mulher bem
nascida quase que mais deve a si do que ao esposo. Permitiu Deus… quem sabe se
para me tentar?… que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse
também D. João.
CENA XI
MADALENA, JORGE,
MIRANDA
MIRANDA
(apressurado)
— Senhora… minha senhora!
MADALENA
(sobressaltada)
— Quem vos chamou, que quereis? Ah! és tu,
Miranda. Como assim! já chegaram? Não pode ser.
MIRANDA
— Não, minha senhora: ainda agora irão
passando o pontal. Mas não é isso.
MADALENA
— Então que é? Não vos disse eu que não
viésseis dali antes de os ver chegar?
MIRANDA
— [5] Para lá torno já, minha senhora: há
tempo de sobejo. Mas, venho trazer-vos recado… um estranho recado, por minha
fé.
MADALENA
— Dizei já, que me estais a assustar.
MIRANDA
— Para tanto não é; nem coisa séria, antes
quási para rir. É um
pobre velho peregrino, um destes romeiros
que aqui estão sempre a
passar, que vêm das bandas de Espanha…
MADALENA
— Um cativo… um remido?
MIRANDA
— Não, senhora, não traz a cruz , nem é; é
um romeiro, algum destes que vão a Santiago; mas diz ele que vem de Roma e dos
Santos Lugares.
MADALENA
— [10] Pois, coitado, virá. Agasalhai-o, e
dêem-lhe o que precisar.
MIRANDA
— É que ele diz que vem da Terra Santa, e…
MADALENA
— E porque não virá! Ide, ide; e fazei-o
acomodar já. É velho?
MIRANDA
— Muito velho, e com umas barbas!… Nunca
vi tão formosas barbas de velho e tão alvas. Mas, senhora, diz ele que vem da
Palestina e que vos traz recado…
MADALENA
— A mim!
MIRANDA
— [15] A vós; e que por força vos há-de
ver e falar.
MADALENA
— Ide vê-lo. Frei Jorge. Ingano há-de ser;
mas ide ver o pobre do velho.
MIRANDA
— É escusado, minha senhora: o recado que
traz, diz que a outrem não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo.
JORGE
— Eu sei o que é: alguma relíquia dos
Santos Lugares, se ele om efeito de lá vem, que o bom do velho vos quer dar…
como tais oisas se dão a pessoas da vossa qualidade… a troco de uma esmola
vultada. É o que ele há-de querer: é o costume.
MADALENA
— Pois venha embora o romeiro! E trazei-mo
aqui, trazei.
CENA XII
MADALENA, JORGE
JORGE
— Que é precisa muita cautela com estes
peregrinos! A Vieira o chapéu e o bordão na mão, às vezes não são mais do que
negaças ara armar à caridade dos fiéis. E nestes tempos revoltos…
CENA XIII
MADALENA, JORGE
e MIRANDA, que volta com o ROMEIRO
MIRANDA (da
porta)
— Aqui está o romeiro.
MADALENA
— Que entre. E vós, Miranda, tornai para
onde vos mandei; ide já, e fazei como vos disse.
JORGE (chegando
à porta da direita)
— Entrai, irmão, entrai. (O romeiro entra devagar.) Esta é a senhora
D. Madalena de Vilhena. É esta a quem desejais falar?
ROMEIRO
— A mesma. (A um sinal de Frei Jorge,
Miranda retira-se.)
CENA XIV
MADALENA, JORGE,
ROMEIRO
JORGE
— Sois português?
ROMEIRO
— Como os melhores, espero em Deus.
JORGE
— E vindes?
ROMEIRO
— Do Santo Sepulcro de Jesus Cristo.
JORGE
— [5] E visitastes todos os Santo Lugares?
ROMEIRO
— Não os visitei; morei lá vinte anos
cumpridos.
MADALENA
— Santa vida levastes, bom romeiro.
ROMEIRO
— Oxalá! Padeci muita fome, e não a sofri
com paciência; deram-me muitos tratos, e nem sempre os levei com os olhos
naquele que ali tinha padecido tanto por mim… Queria rezar e meditar nos
mistérios da Sagrada Paixão que ali se obrou… e as paixões mundanas, e as
lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne travavam-me do coração e do
espírito, que os não deixavam estar com Deus, nem naquela terra que é toda sua.
Oh! eu não merecia estar onde estive: bem vedes que não soube morrer lá.
JORGE
— Pois bem: Deus quis trazer-vos a terra
de vossos pais; e quando for sua vontade, ireis morrer sossegado nos braços de
vossos filhos.
ROMEIRO
— [10] Eu não tenho filhos, padre.
JORGE
— No seio de vossa família…
ROMEIRO
— A minha família… Já não tenho família.
MADALENA
— Sempre há parentes, amigos…
ROMEIRO
— Parentes!… Os mais chegados, os que eu
me importava
achar… contaram com a minha morte, fizeram
a sua felicidade com
ela; hão-de jurar que me não conhecem.
MADALENA
— [15] Haverá tão má gente… e tão vil, que
tal faça.
ROMEIRO
— Necessidade pode muito. Deus lho
perdoará, se puder!
MADALENA
— Não façais juízos temerários, bom
romeiro.
ROMEIRO
— Não faço. De parentes, já sei mais do
que queria. Amigos,
tenho um; com esse conto.
JORGE
— Já não sois tão infeliz.
MADALENA
— E o que eu puder fazer-vos, todo o
amparo e agasalho que puder dar-vos, contai comigo, bom velho, e com meu
marido, que há-de folgar de vos proteger…
ROMEIRO
— Eu já vos pedi alguma coisa, senhora?
MADALENA
— Pois perdoai, se vos ofendi, amigo.
ROMEIRO
— Não há ofensa verdadeira senão as que se
fazem a Deus.
Pedi-lhe vós perdão a Ele, que vos não
faltara de quê.
MADALENA
— Não, irmão, não, decerto. E Ele terá
compaixão de mim.
ROMEIRO
— [15] Terá…
JORGE (cortando
a conversação)
— Bom velho, dissestes trazer um recado a
esta dama: dai-lho já, que havereis mister de ir descansar…
ROMEIRO
(sorrindo amargamente)
— Quereis lembrar-me que estou abusando da
paciência com que me têm ouvido? Fizestes bem, padre: eu ia-me esquecendo…
talvez me esquecesse de todo da mensagem a que vim… Estou tão velho e mudado do
que fui!
MADALENA
— Deixai, deixai, não importa, eu folgo de
vos ouvir: dir-me-eis vosso recado quando quiserdes… logo, amanhã… ROMEIRO
— Hoje há-de ser. Há três dias que não
durmo nem descanso nem pousei esta cabeça nem pararam estes pés dia nem noite,
para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado… e morrer depois… ainda que
morresse depois; porque jurei… faz hoje um ano… quando me libertaram, dei
juramento sobre a pedra santa do Sepulcro de Cristo…
MADALENA
— [30] Pois éreis cativo em Jerusalém?
ROMEIRO
— Era; não vos disse que vivi lá vinte
anos?
MADALENA
— Sim, mas…
ROMEIRO
— Mas o juramento que dei foi que, antes
de um ano cumprido, estaria diante de vós, e vos daria da parte de quem me
mandou…
MADALENA
(aterrada)
— E quem vos mandou, homem?
ROMEIRO
— [35] Um homem foi, e um honrado homem… a
quem unicamente devi a liberdade… a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e
vim.
MADALENA
— Como se chama?
ROMEIRO
— O seu nome, nem o da sua gente nunca o
disse a ninguém no
cativeiro.
MADALENA
— Mas, enfim, dizei vós…
ROMEIRO
— As suas palavras trago-as escritas no
coração com as lágrimas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me caíram
nestas mãos, que me correram por estas faces. Ninguém o consolava senão eu… e
Deus! Vede se me esqueceriam as suas palavras.
JORGE
— [40] Homem, acabai!
ROMEIRO
— Agora acabo; sofrei, que ele também
sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: “Ide a D. Madalena de Vilhena, e
dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis… aqui está vivo… por seu mal… e
daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas, de há vinte anos que o trouxeram
cativo”.
MADALENA (na
maior ansiedade)
— Deus tenha misericórdia de mim! E esse
homem, esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha sido… levaram-no aí
de donde?… de África?
ROMEIRO
— Levaram.
MADALENA
— Cativo?
ROMEIRO
— [45] Sim.
MADALENA
— Português!… cativo da batalha de?…
ROMEIRO
— De Alcácer-Quibir.
MADALENA
(espavorida)
— Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a
terra debaixo de meus pés… Que não caem estas paredes, que me não sepultam já
aqui?…
JORGE
— Calai-vos, D. Madalena! A misericórdia
de Deus é infinita. Esperai. Eu duvido, eu não creio… estas não são cousas para
se crerem de leve. (Reflecte, e logo
como por uma idéia que lhe acudiu de repente.) Oh ! inspiração divina… (chegando ao romeiro) . Conheceis bem esse
homem, romeiro, não é assim?
ROMEIRO
— [50] Como a mim mesmo.
JORGE
— Se o víreis… ainda que fora noutros
trajos… com menos
anos, pintado, digamos, conhecê-lo-eis?
ROMEIRO
— Como se me visse a mim mesmo num
espelho.
JORGE
— Procurai nesses retratos, e dizei-me se
algum deles pode ser.
ROMEIRO (sem
procurar, e apontando logo para o retrato de D. João)
— É aquele.
MADALENA (com um
grito espantoso)
— Minha filha, minha filha, minha
filha!… (Em tom cavo e profundo.)
Estou… estás… perdidas, desonradas… infames!
(Com outro grito do coração.) Oh! minha filha, minha filha!… (Foge espavorida e neste gritar.)
CENA XV
JORGE e o ROMEIRO, que seguiu MADALENA com
os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspecto severo e tremendo
JORGE
— Romeiro, romeiro, quem és tu?
ROMEIRO
(apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal)
— Ninguém! (Frei Jorge cai prostrado no
chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.)
ANÁLISE DO FRAMENTO
1. As cenas transcritas pertencem à tragédia Frei Luis de Sousa, que Almeida Garrett (1799-1854) teria composto entre 27 de março e 8 de abril de 1843. A 4
de julho do mesmo ano, encenou-a pela primeira vez, num teatro particular, e a 24 de fevereiro de 1850 no Teatro de D. Maria II, em
Lisboa. Imprimiu-se a peça em 1844, Lisboa,
Imprensa Nacional. Servimo-nos da edição integrada nos “Clássicos Garnier”, da
Difusão Européia do Livro, S. Paulo, 1965, preparada por Antônio Soares Amora,
e por sua vez calcada na “edição crítica baseada nos manuscritos”, de Rodrigues
Lapa, dada à estampa em 1943, Lisboa,
“Seara Nova”.
2. O entrecho
da tragédia gravita em tôrno da vida de Frei Luís de Sousa, o historiador português
do século XVII: supondo-se viúva de D. João de Portugal, dado como desaparecido
na batalha de Alcácer-Quibir (África, 1578),
D. Madalena de Vilhena esposa Manuel de Sousa Coutinho. Passados anos,
e já com uma filha, D. Madalena sabe que seu primeiro marido continuava vivo.
Prêsa de remorso, ela e Manuel de Sousa Coutinho abraçam a vida sacerdotal,
êle com o nome de Frei Luís de Sousa. Garrett aproveitou, com muita liberdade,
a parte final da história, às vésperas do aparecimento de D. João de Portugal,
e, portanto, do desenlace. No ato primeiro, rememoram-se os antecedentes da
existência de D. Madalena, e a educação sebastianista que Maria de Noronha, sua
filha, recebera de Telmo Pais, velho escudeiro da Casa, fiel à memória de D.
João de Portugal. Como grassasse a peste em Lisboa, propalou-se que os
governantes espanhóis iriam mudar-se para o palácio de Almada, onde vivia a
família de Manuel de Sousa Coutinho, que resolve atear fogo ao edifício e
transferir-se para o palácio que pertencera ao ex-marido de D. Madalena. No ato
segundo, estalam as desavenças políticas de D. Manuel, culminando com sua ida a
Lisboa, em companhia de Maria de Noronha, a fim de agradecer a intercessão do
Arcebispo D. Miguel de Castro em seu favor. Durante sua ausência, decorrem as
cenas transcritas. No terceiro ato, caídos em desgraça pela revelação do
peregrino que chegara da Terra Santa com uma mensagem sinistra, resolvem
ingressar no convento, e enquanto professam, entra em cena Maria de Noronha, e
vem morrer a seus pés.
3. Cena IX: A cena IX abrange um solilóquio de Frei Jorge Coutinho,
cunhado de D. Madalena de Vilhena. Por meio de suas palavras, ficamos
inteirados do que vai pelo seu “eu profundo”, ao contrário do solilóquio
existente no Judas em Sábado de Aleluia, que
apenas surpreende as primeiras camadas da vida mental do Capitão, aquelas mais
vinculadas a acontecimentos banais. Dir-se-ia que êste é vazio de vida
interior, ao passo que Jorge a possui rica e tumultuosa, como se sua esfera de
ação se reduzisse ao essencial a fim de permitir o alargamento de sua dimensão
psicológica, que geraria um clima de permanente tensão interior, extravasada em
certos instantes para a vida de relação. Essa tensão, que é trágica por
natureza (ou seja, antípoda do ar de comicidade que vimos pervagar a peça de
Martins Pena), ressalta graças ao conteúdo psíquico que a promove: o
pressentimento. E êste, como se nota uma simples leitura, não prima pelo
otimismo; ao contrário, define-se logo como um presságio negativo, toldado de
nuvens negras: “A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça... E eu
quase que também já se me pega o mal. Deus seja conosco!”. Em suma: tensão
trágica, prenunciadora de grandes males, enviados pela fatalidade, pelo fatum, ou destino.
4. Cena X: Essa tensão trágica perdura na cena X, em que dialogam
Madalena e Jorge. Note-se, na primeira fala, pronunciada por Madalena, que a
tensão parece desenvolver-se agora noutro diapasão: tratar-se-ia de uma tensão
feminina, ao passo que a de Jorge ostentaria as características de seu sexo. Já
por aí percebemos a mestria psicológica de Garrett, mas há que ponderar o
seguinte: o embate interior de Jorge não se comunica a ninguém, o que lhe
aumentaria a carga, pela impossibilidade de uma qualquer evasão. Por seu turno,
Madalena ver-baliza para êle as angústias de sua alma: ao mesmo tempo que tal
projeção externa corre por conta da peculiar psicologia feminina, note-se que
as duas “temperaturas” trágicas correspondem às funções de protagonista (=
personagem principal) e deuteragonista (= personagem secundária).
Efetivamente, Madalena, heroína da tragédia que se vai desdobrando dentro e
fora de si, como que “desconhece” a extensão tôda da desgraça que se avizinha.
Jorge, por sua vez, na qualidade de testemunha ou personagem secundária, pode
observar a ambiência trágica circundante e, assimilando-a, aquilatar-lhe as
proporções. Tudo funciona como se Jorge encarnasse a consciência moral de
Madalena, capaz de confortá-la, bem como de testemunhar-lhe os transes da
fortuna com suas tintas mais carregadas. A verdade é que, na cena X, a
tragédia, ou o seu prelúdio, demora nêle e não nela, precisamente porque o
sacerdote conhece que “a todos parece que o coração lhes adivinha desgraça...”,
enquanto Madalena ainda semelha inconsciente do mal que vai desabar sôbre suas
cabeças.
Mais ainda: Jorge, impossibilitado de desabafar todos os
seus maus presságios, vê-se obrigado a assumir perante Madalena uma atitude
serena e estóica, uma contensão que cada vez mais lhe custa manter. Observe-se sua
resposta à protagonista: “Não, hoje não tem perigo.” Para o leitor, ou o
espectador, que lhe acompanhou o solilóquio da cena IX, suas palavras ecoam
diverso sentido do que têm para Madalena. Ele parece falar a si próprio, para
convencer-se da inexistência de perigo, mas o advérbio de tempo, “hoje”,
prejudica-lhe a segurança conquistada ou afetada, pois parece dizer que “hoje
não tem perigo”, “mas amanhã...”.
Tanto é assim que a resposta de Madalena se concentra no
advérbio: “Hoje... hoje!”. De pronto, a serenidade traída desperta a angústia
que lhe corroía o coração, e numa explosão similar à da primeira fala, ela
confessa o significado do “hoje”: êle diligencia, com o “hoje”, incutir ânimo
no espírito da cunhada, e foi justamente o advérbio que lhe espicaçou o íntimo
tormento: dêsse modo, à tragédia que Jorge augurava e que ficava implícita na
oração negativa (serena apenas à primeira vista), sucede a tragédia interior de
Madalena, a confirmar as adivinhações de Jorge; nem o “hoje” se exime, e o clima
de tensão passa a ser total; sem conhecer um instante de paz, as personagens
estão à mercê da desgraça plena; o tempo da peça torna-se o tempo da tensão.
Contudo, pergunta-se: por que o “hoje”, que Jorge frisou para apaziguar os
agouros de Madalena, acabou tendo resultado antinômico, ou seja, determinando
tal inquietude na heroína? Madalena no-lo confidencia: "Ê um dia fatal
para mim: faz hoje anos que... que casei a primeira vez, faz anos que se perdeu
el-rei D. Sebastião, e faz anos também que... vi pela primeira vez a Manuel de
Sousa” (fala 3). Três, portanto, as causas de êsse dia ser fatal. Pode parecer
que, de relance, somente os motivos primeiro e terceiro estejam conectados, mas
é de crer que, visto estarem associados no espírito de Madalena, devem ligar-se
por um nexo qualquer. Aguardemos a prossecução da cena para interpretar melhor
o fato.
Note-se, apenas, que Jorge escolhe a última causa para
inquirir a Madalena: “Pois contais essa entre as infelicidades da vossa vida?”
(fala 4). Outra não poderia ser a indagação do sacerdote, porquanto as duas
razões aventadas se explicam por si próprias, e não causariam espécie a
ninguém, como Jorge, que houvesse privado com Madalena: é verossímil que a
lembrança do primeiro casamento, desfeito em África, juntamente com o sonho
dourado de D. Sebastião, ocasione a sensação de ser “um dia fatal aquêle”, não
assim a recordação de ter visto pela primeira vez a Manuel de Sousa Coutinho.
Os motivos, enfileirados em ordem ascendente, cronologicamente, denunciam uma
escala psicológica de importância, em que o último é mais relevante do que os
anteriores, decerto porque menos “concreto”. Jorge, profundo conhecedor das
paixões humanas e da existência de Madalena, apega-se ao derradeiro, por
ventura guiado instintivamente para a origem secreta da angústia da cunhada. E
esta, necessitada de amparo moral (não esquecer que fala a um sacerdote, de
quem se espera o sigilo absoluto das confidências), deixa vazar seu ego desesperado, sem entraves ou
pudores, pois o tormento ultrapassava as conveniências: “porque eu amei-o assim
que o vi... e quando o vi, hoje, hoje... foi em tal dia como hoje, D. João de
Portugal ainda era vivo” (fala 5).
Observe-se, na continuidade da fala, a menção do pecado,
palavra-chave do drama que empana os dias de Madalena: amando-o secretamente,
casou-se em pecado quando soube “que naquela funesta batalha de Alcácer, entre
tantos, [ficou] também D. João.” (fala 5). Consumava seu desejo, mas talvez o
inconsciente alívio ao saber do desaparecimento de seu espôso, ou a suspeita
de que ainda pudesse continuar vivo, a afligia. Não se perca de vista que a
heroína introduz o final de sua fala com uma expressão que a atraiçoa:
“Permitiu Deus... quem sabe se para me tentar?...”. Percebe-se o debate entre
os valôres da Honra e do Amor, numa equação típica do teatro clássico francês,
debate que recrudesce na razão direta de suas fundações católicas. A liberdade
de seu autêntico sentimento por Manuel de Sousa Coutinho digladiava com as
coerções religiosas, impostas pela crença e pelo meio ambiente.
O trágico já se configura nesse ponto, pois se trata de
uma situação fechada, insolúvel, ressalvada a hipótese de serem extirpadas as
coações sociais ou o sentimento. Como não parece que as coisas se encaminham
nesse rumo, impera o clima trágico, evidenciado no beco sem saída em que
Madalena se entalou, a contragôsto, empurrada pelo destino. O trágico reside no
inexorável e no irrecorrível da situação: não há remédio algum senão carregar
até o fim o dilema indestrinçável.
Terminada a cena X, que é que se poderia observar?
Primeiro: o texto está despojado de maiores marcações; na verdade, somente em
dois momentos o dramaturgo descreve os gestos da personagem, "falando ao
bastidor” e quando “vem para a cena”. Como explicar a parcimônia no emprêgo
desse recurso cênico? Responder à interrogação consiste em transitar para o
segundo aspecto: a predominância plena do diálogo, resultante de que a tensão
individual e social das duas personagens em cena se move apenas no terreno das
palavras, uma vez que a angústia de ambos decorre nada, ou quase nada, do
espaço (ao menos o texto, calando qualquer notação a respeito, induz a tal
idéia), e tudo, ou quase tudo, dos conflitos morais e afetivos.
Nisso, percebe-se um ingrediente da tragédia: o drama
localiza-se no interior das personagens, lançadas numa situação-limite, e não
na ação. Em terceiro lugar, note-se que o teatrólogo logra plasmar a atmosfera
trágica com um reduzido aparelhamento vocabular, o que ainda atende às
necessidades precípuas da tragédia tocante à concentração de efeitos. É que “a
economia de meios com que tôda a peça é feita, principalmente os dois primeiros
atos, cria uma austera sobriedade que vai das palavras às paixões” (André e
Crabbé Rocha, O Teatro de Garrett, Coimbra,
s. c. p.,
1944, p. 166). Atente-se para o fato de que a “economia
de meios” se refere não só ao despojamento das falas e da situação dramática da
peça, como do cenário e das marcações. Se o leitor teve oportunidade de correr
os olhos pelas cenas posteriores, há de ter observado que essa mesma qualidade
perdura; efetivamente, apenas no ato III se verifica um declínio, mas
analisá-lo seria ampliar demasiado o exemplo da tragédia que vimos dando.
5. Cena XI: A cena XI passa-se entre Madalena,
Jorge e Miranda, criado da Casa. As falas 1 a 5, entre a primeira
e a terceira personagens, contêm a aflição de Madalena, num sobressalto em que
se adivinha a loucura à espreita: de qualquer modo, a desesperação que a
domina, vai avultando a olhos vistos, rumo de um ápice que não tardará muito a
chegar. Tanto é assim que não dá fé que a presença do criado era motivada por
outra causa que não comunicar o têrmo feliz da travessia de Manuel de Sousa
Coutinho e sua filha até o outro lado do Tejo. No entanto, ainda lhe responde à
dúvida: “Não, minha Senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é
isso...”. E sua resposta impõe uma explicação, para o leitor brasileiro da
tragédia: as cenas transcorrem na vila de Almada, situada num promontório
fronteiro a Lisboa, de que dista cinco quilômetros; do alto do palácio de
Manuel de Sousa Coutinho, decerto Miranda podia avistar a embarcação que
conduzia seu senhor à outra margem do Tejo.
A fala 5, de
Miranda, introduz o motivo que o levava a sua Senhora: “um estranho recado”.
Note-se, nas falas de Madalena (6 e 8),
o progressivo adensamento de sua angústia, que nem a réplica mansa e
respeitosa de Miranda (fala 7) consegue aplacar: a tragédia está dentro dela
agora e o diálogo manifesta como entre ela e Miranda se opõem distintamente
dois níveis psicológicos ou morais, antes que sociais; seja como fôr, o
confronto com Miranda sulca ainda mais a sensação de desespêro que nos
transmite Madalena; por outro lado, vê-se que a tragédia
elege as pessoas de superior categoria social, como se, na verdade, a um criado
fôsse defeso protagonizar uma situação em que seu destino é jogado
dilemàticamente; a tragédia, por conter sentimentos levados a extremo, pede
personagens de certo calibre moral e social; a classe social da tragédia é sempre
elevada, seja a nobreza, seja a burguesia. Miranda não seria jamais pôsto numa
equação de tragédia pois sua vida decorre num ritmo e numa atmosfera que
repulsam as grandes paixões ou sentimentos, e sem êstes inexiste tragédia.
Assim se compreendem os dois planos psicológicos e
dramáticos entre Madalena e Miranda. E se fôsse caso de sondar cada um dêles
para corroborar a discrepância dramática, o resultado seria idêntico. Miranda
tende a falar prolongando maciamente as palavras e os pensamentos, tudo dentro
de uma perspectiva risonha ou tranqüila, de quem não teme nada, ou conhece de
sobra a vida em seus sofrimentos diários (fala 7: “Para tanto não é, nem coisa
séria, antes quase para rir. É um pobre velho peregrino, um dêstes romeiros que
aqui estão sempre a passar, que vêm das bandas de Espanha...”). Inversamente,
Madalena emprega orações curtas, contundentes, plenas de aflição, malgrado
dotadas de altivez e sobrançaria, que lhe ditam seu estado social. A
disparidade na esfera vocabular corresponde a um distanciamento de ordem
social como de ordem psicológica e ética. Por isso, seria plausível divisar em
Miranda uma apologia velada de Garrett aos humildes, conforme a revolução
romântica entrou a preconizar? Somente a análise da peça em tôda a sua extensão
é que poderia contestar a interrogação.
Resta ainda registrar, na fala 9, de Miranda, a menção ao
fato de o Romeiro não portar a cruz. A explicação no-la fornece o próprio
Garrett, em nota ao texto: “Os remidos traziam um escapulário branco com a cruz
da ordem das Mercês ou da Redenção, que entre nós se chamou da Trindade. São
freqüentes nos nossos escritores as descrições da solene procissão em que davam
como a sua entrada pública no seio da cristandade a que eram restituídos os
cativos. Com aquêle sinal, que a todos inspirava respeito e simpatia, esmolavam
depois pelas terras e muitos ajuntaram quantias avultadas”
Passando às falas seguintes, observe-se que Madalena,
sabendo ser o recém-chegado um romeiro, varia de tom, embora suas interrogações
e exclamação (falas 12 e 14) denotem que seu apaziguamento é extremamente
relativo: acalmia prenunciando tempestade. A verdade é que ao indagar da idade
do peregrino (“É velho?”), Madalena certamente obedecia a um apêlo do
subconsciente, como se a remota dúvida acêrca da sobrevivência de seu primeiro
marido em África viesse à tona em forma de pergunta, e atualizado seu conteúdo.
Seu pavor se estampa na indagação, por temer em seu íntimo que, sendo idoso o
remido, poderia ser D. João. Note o estudante que a hipótese
se fundamenta na circunstância de que ela tinha pleno direito de formular uma
questão contrária, isto é, indagar se o romeiro era môço. Ou então, procurar
saber sua idade sem mais. Como dentro dela palpitava latente o enigma em tôrno
da morte de D. João, bastou saber que o peregrino chegava da Terra Santa para
que o recalque emergisse, de modo simbólico ou indireto. Quer dizer: ao
interrogar “é velho?”, Madalena como que perguntava, sem querer: "É D.
João de Portugal?”.
A personagem expõe o fundo trágico de sua vida, como se
tivesse ficado anos à espera do diálogo com Miranda, movida pela intuição de
que seu destino lhe reservava ainda males maiores quando conduziu a
Alcácer-Quibir seu primeiro marido. Tal consciência instintiva ou latente,
fruto da alta tensão em que a personagem se agita, é típica da tragédia: a
personagem trágica se comporta como se cumprisse ordens de um fado inexorável,
encaixada que está num quadrilátero em que joga definitivamente seu destino,
pré-traçado pelos deuses (como na tragédia grega), ou pelo mecanismo das
circunstâncias (como na tragédia clássica moderna). A mercê dos desígnios
divinos, ou da conjuntura social, o protagonista trágico desconhece os meios de
alterar por suas mãos o futuro que lhe foi escolhido. Assim, é, como se vê,
Madalena.
As falas derradeiras da cena XI ratificam as observações
precedentes. Miranda, em seu papel de fâmulo de qualidade, responde ao pé da
letra à sua patroa, apenas acrescentando o dado que constitui o estopim do
sofrimento para ela: “diz êle que vem da Palestina e que vos traz recado...”
(fala 13). Jorge também procura pacificar-lhe a mente com explicação que lhe dá
na fala 18, lembrando ser comum passarem peregrinos em busca de esmolas. Entre
a placidez férrea e impessoal de Miranda e o tom conselheiral de Jorge,
Madalena navega sua angústia, à beira de estalar: suas palavras agora acusam
uma ânsia quase masoquista, de quem deseja logo expiar sua culpa ou abandonar
seu inferno de aflições e dúvidas; sua voz de império trai a tensão levada ao
máximo, em vez de apontar uma qualquer calma provinda das palavras de Jorge:
“Pois venha embora o romeiro! E trazei-mo aqui, trazei” (fala 19). Percebe-se,
neste ponto, que a angústia de Madalena se adensa progressivamente, rumo de seu
climax (em Grego: “gradação”,
“escala”), que pressagia uma tremenda calamidade, capaz de mudar totalmente a
direção das coisas (é a catástrofe, do
teatro grego antigo).
6. Cena
XII: A cena XII, constituída
de uma fala de Jorge a Madalena, contem mais um pensamento de moderação do
sacerdote para a fidalga convulsa: ao mesmo tempo que corrobora sua posição
anterior, já configurada, suas palavras dilatam por um breve momento a
circunstância que Madalena e os leitores esperam ansiosamente, qual seja, a
aparição do misterioso romeiro. Por outro lado, a intervenção serena de Jorge
provém de seu estado, mas parece que Garrett acentua as côres, alias em
consonância com o próprio caráter da tragédia, em que tudo é levado às últimas
conseqüências. Sua função ao lado de Madalena, função do ângulo dramático ou
teatral, consiste em oferecer uma superfície de contraste à agitação da
heroína: estabelecendo-se na tranqüilidade do sacerdote, — conseguida a duras
penas é certo, pois sua consciência permanece vigilante quando todos se deixam
enganar, — a aflição de Madalena ganha acentos e relevos novos. Sem a imagem da
calma à sua frente, Madalena não personificaria a angústia com tanta fôrça e
altitude. Vendo de outra perspectiva, Jorge semelha funcionar como o côro da
tragédia grega (ou parte do côro, juntamente com Telmo Pais, que, porém, não
comparece nas cenas transcritas), na medida em que encarna a consciência moral
de Madalena.
A cena XII nos permite, ainda, atentar para o fato de que
o acontecimento em marcha vai passar-se longe de Manuel de Sousa Coutinho e de
sua filha: astuciosamente, Garrett afasta as duas personagens para que Madalena
enfrente sozinha (como cada um de nós, individualmente) seu destino, o fatum dos latinos
7. Cena XIII: A cena XIII passa-se entre Madalena, Jorge, Miranda e o
Romeiro: espécie de apresentação das personagens entre si, decorre num
andamento pausado, solene, hierático, como se de súbito as figuras se
tornassem esculturas. Dir-se-ia que, num abrir e fechar de olhos, o tempo
parou: um hiato breve, mas profundo, a anunciar vértices, delongando ainda mais
o momento que vem sendo preparado desde há muito. Note-se que tudo colabora
para o clima de suspense aterrador, inclusive o fato de estar presente o
criado, obrigando Madalena à contensão já assinalada, e que apenas adia a
explosão iminente.
8. Cena XIV: A cena XIV passa-se entre Madalena,
Jorge e o Romeiro: dir-se-ia que se defrontam os protagonistas centrais da
tragédia e o côro, sozinhos no palco, a travar um embate decisivo, que os
acontecimentos anteriores tão-somente preludiavam. Note-se que desde as
primeiras falas vai avultando o clima de tensão, por breves instantes suspenso:
a explicação residiria nos antecedentes apontados, sobretudo a inquietude de
Madalena, mas também na circunstância de que as personagens se desconhecem.
Vale dizer: ao procurar saber quem era o Romeiro, as perguntas de Jorge vão
penetrando num labirinto, e a tensão aumenta vertiginosamente, repondo a
atmosfera trágica que visitamos nas cenas precedentes. Observe-se que o diálogo
entre os dois homens se organiza em tôrno de sentenças breves e cortantes,
especialmente por parte do Romeiro, que se limita a contestar as indagações de
Jorge, sem acrescentar qualquer pormenor ou informação. Sente-se que cada
resposta surge impregnada dum alto e profundo sentido, que nesta altura apenas
podemos adivinhar.
Observe-se, ainda, que as questões de Frei Jorge ferem
aspectos essenciais da vida do recém-vindo: naturalidade, procedência, etc. E
tanto em seu interrogatório como nas respostas que obtém, vemos que se
defrontam dois homens impulsionados pela mesma crença religiosa, praticamente
em pé de igualdade. A religião entraria aqui como a mitologia na tragédia
clássica da Antigüidade: focalizando Frei
Luís de Sousa um tema moderno, era como que inevitável a presença do
Catolicismo; na verdade, já se vai percebendo que a tragédia em que está
mergulhada Madalena e os demais resulta de um litígio entre as razões da Honra
e as do Amor, tendo por cenário a religião católica. O drama de Madalena vem de
sua condição de católica, ou antes, de sua ética ter sido plasmada à luz de sua
fé religiosa e não de outros valôres. Em vista disso, compreende-se o tom
oracular assumido pelo Romeiro e por Jorge (“espero em Deus”, “Santo Sepulcro
de Jesus Cristo”, “Santos Lugares”), Não acha o estudante que parece estarmos
contemplando a transposição de mitos gregos, de forma que a referência à
Palestina como que corresponderia a Delfos? Não parece que o Romeiro vem
comunicar o oráculo pronunciado longinquamente, nos “Santos Lugares”, com a
determinação de mitos imutáveis e indesvendáveis? O peregrino não dá a
impressão de um arauto? A resposta a tais questões nos elucidaria desde logo
acêrca do classicismo de Frei Luís de
Sousa, um classicismo menos procurado ou intencional que fruto da elevação
e austeridade com que os problemas são discutidos. Semelha que vemos figuras de
pedra, hieráticas, a trocar um diálogo superior e decisivo, no silêncio de uma
catedral gótica.
As sentenças oraculares e emblemáticas do Romeiro
cedem lugar a uma tirada mais extensa na fala 8, na verdade a maior de quantas
proferiu, pois no transcorrer da cena, ou regressa ao laconismo do comêço, ou
rompe-o com breves palavras. Como interpretar a efusão da fala 8? Note-se que
contém a síntese de seus vinte anos de cativeiro, equivalentes àqueles que
Madalena viveu com Manuel de Sousa Coutinho e gerou sua filha, Portanto, suas
palavras servem de contraste violento à existência pregressa de sua espôsa,
tanto mais eloqüente quanto mais sabemos que suas palavras soam ainda
sibilinamente, como uma sentença por ora indecifrável. Ao menos, comportam um
enigma para seus interlocutores, porquanto para os leitores parece harmonizar
com sua condição de romeiro. Entretanto, na hipótese de o leitor ignorar o
resto da cena, as palavras do peregrino preservam um sentido oculto,
inaccessível no momento. É uma situação tipicamente trágica, pois o círculo de
ferro ao redor das personagens se vai apertando aos poucos, manejado agora pela
mão do Romeiro.
Observe-se que, finalizada a súmula existencial do
peregrino durante seu cativeiro no Oriente, o diálogo varia de rumo, como se,
revelados os antecedentes da personagem, restasse conhecer-lhe o presente. Com
o mesmo talento cênico já manifestado, o dramaturgo muda no instante exato, e
transita para outro tópico do assunto, enquanto deixa no ar o significado das
palavras do Romeiro: dêsse modo, sem comprometer o conteúdo das falas
anteriores, o escritor desloca-se para outra matéria, fazendo avolumar ainda mais
o ar trágico que se respira. Observe-se que até êste ponto (fala 10), Madalena
se mantém calada: uma vez mais, o dramaturgo dá mostras de sua especial
intuição dos problemas cênicos e da verossimilhança da peça, pois a uma Senhora
da estirpe de Madalena era vedado argüir a um viandante maltrapilho.
Simultâneamente, vai dando ao leitor a impressão de que o silêncio da heroína
se povoa gradativamente das sombras que projetam as frases do Romeiro. Sente-se
que sua angústia cresce a despeito de não lhe escutarmos a voz. Por certo que,
no curso da representação da tragédia, a atriz que lhe fizesse o papel acabaria
manifestando no rosto os sinais de inquietude adveniente da presença do
remido, mas o texto não exibe nenhuma marcação a propósito, deixando ao leitor
(e ao eventual diretor da peça) o direito de suspeitar o que se passa no íntimo
de Madalena. Êsse ar de angústia, por contágio oral, é típico da tragédia, como
temos assinalado.
Pois bem: o assunto do diálogo altera-se na fala 10, pois
Jorge entra a indagar da família do peregrino. Essa passagem de um tópico a
outro denota que o dramaturgo constrói as falas do geral para o particular,
numa verdadeira reação em cadeia, segundo uma lógica moral ou psicológica de
efeito preciso: êle sabe até onde quer ir, e monta sua peça minúcia a minúcia,
até fechá-la com uma abóbada firme, à semelhança da edificação de uma catedral.
Lembra-se o estudante que associamos as personagens a figuras escultóricas de
igrejas medievais? Será que se poderia aventar a hipótese de Frei Luis de Sousa estar concebido como
uma catedral de três naves paralelas, amarradas numa das extremidades? Somente
a análise de sua macroestrutura no-lo diria. O certo é que o diálogo evolui de
acôrdo com um cerrado andamento lógico, no encalço do pormenor que se deseja
revelar.
Com efeito, as falas 10 a 15, centrando-se na família presuntiva
do Romeiro, repõem seu mutismo, agora a outros propósitos. Note-se que nega
possuir família ou filhos, mas quando Madalena lhe pergunta por parentes, êle
enerva-se soberanamente:
“Parentes!... Os mais chegados, os que eu me importava
achar... contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ela: hão de
jurar que me não conhecem” (fala 14). E porque seu enervamento? Decerto porque
foi Madalena quem lhe perguntou por “parentes, amigos...” (fala 13): a Jorge,
respondeu calmo e grave, mas com Madalena, que centraliza tôda a indignação
existente nas raízes da fala 8, não é capaz de guardar a mesma impassibilidade,
muito embora o respeito o iniba, e seu objetivo lhe proíba um gesto descortez
ou uma indiscrição. Observe-se, ainda, que o Romeiro desdobra, na resposta a
Madalena, o pensamento oculto na fala 8, e ajunta-lhe dados novos, tudo
conforme o tom oracular e enigmático já apontado.
As falas 15 a 20 mantêm o ritmo que se vinha observando
nas anteriores. Note-se, apenas, como fator de adensamento da ambiência trágica
que o sentido hermético ou ambíguo das declarações do Romeiro, qual o da fala
14, desencadeia respostas de Madalena (agora a dialogar com êle em vez de
Jorge), que constituem acusações involuntárias ou confissões indiretas de
culpa. Efetivamente, quando o Romeiro lhe diz que seus parentes “hão de jurar
que [o] não conhecem”, Madalena lhe pergunta, segura de que se tratava de
qualquer pessoa que não ela:
“Haverá tão má gente... e tão vil que tal faça?” (fala
15). O estudante poderá perfeitamente argüir do seguinte: como saber que o
Romeiro se dirigia à sua interlocutora? Não estaremos adiantando aspectos da
peça que só virão a esclarecer-se mais adiante, na seqüência da cena?
Independentemente de o estudante já ter feito mais de uma leitura do texto,
valia a pena lembrar que, na suposição de o peregrino se referir a outras
pessoas, a peça teria falhado.
Explico-me: a tragédia (bem como a comédia) exige
absoluta concentração de efeitos, o que significa abolir tudo quanto possa
assumir feição de supérfluo ou marginal. Mais ainda: a tragédia surpreende a
situação dramática próxima de seu desenlace, ou seja, na altura em que é maior
a condensação do conflito que a determina. Daí que as palavras do Romeiro não
poderiam dirigir-se a terceiras personagens, sob pena de introduzir um núcleo
dramático nôvo e perturbar a unidade da tragédia com uma situação que lhe é
estranha. Portanto, é forçoso que em alguma coisa as palavras graves do
peregrino tenham que ver com seus interlocutores. De qualquer modo, o leitor,
ou o espectador, que ainda não tiver corrido os olhos pelo resto da cena e da
peça, há de sentir um sobressalto, fruto de uma tensão que avulta imperceptivelmente
para o desfecho, mais adiante. Ora, tal sensação de contemplar uma cena tensa
somente poderia advir de a intuição do leitor captar na ondulação do diálogo um
combate entre os sentimentos secretos das personagens: é só perante uma
situação trágica que o leitor experimenta aquela espécie de emoção que
Aristóteles, em sua Poética, catalogava
de terror e piedade.
Observe-se, ainda, que o Romeiro profere suas respostas
ou declarações sem esconder uma ironia amarga (“Necessidade pode muito. Deus lho
perdoará, se puder!”, fala 16), como um espectro que se comunicasse com sêres
vivos numa linguagem absurda ou demasiado ambígua para ostentar alguma lógica
aparente. Cortados os elos de transmissão, as personagens falam em registros
diferentes, movidas por específicos vetores: o Romeiro, do fundo de vinte anos
de amargura e sofrimento, fala esotericamente; Madalena, do âmago de sua
desesperação mal contida, fala num tom de bom senso. Note-se que a disparidade
entre as duas posturas cria uma atmosfera sufocante, que parece,
enganadoramente, amainar na fala 18, quando o peregrino afirma que conta com um
só amigo (Telmo Pais), seu velho servidor, e que lhe permaneceu fiel. Ainda
sibilino o tom, mas o diálogo sugere um epílogo corriqueiro, como se nota nas falas
19 e 20, cuja solenidade sintática apenas mascara o desejo de liquidar de vez
com a situação embaraçosa criada pelo Romeiro. Ao mesmo tempo, o andamento
dramático decai sensivelmente para um ponto morto. A fala imediatamente
seguinte, que se encadeia com naturalidade nas precedentes, recoloca a situação
ao nível mais alto: “Eu já vos pedi alguma coisa, Senhora?” (fala 21). De nôvo,
o fel assoma nas palavras do peregrino, já agora na direção de Madalena. O
estudante recorda-se de havermos dito que a cena progride dramaticamente do
geral para o particular? Não acha, pois, que a atenção converge para o diálogo
entre o Romeiro e Madalena, como se as falas precedentes a anunciassem, tal e
qual riscos de luz no espaço a pressagiar tempestade? E então que se nota nas
falas 20 a 25? Afora o que se acaba de lembrar, nota-se que o diálogo continua
a desenvolver-se em dois planos paralelos, com a voz do peregrino referta de
ameaças e significações latentes (“Pedi-lhe vós perdão a ele, que não vos
faltará de quê”, fala 23), e com Madalena a responder segundo o bom senso de
uma fidalga e católica: “E êle terá compaixão de mim” (fala 24). A isto
redargúi oblíqua e soturnamente o peregrino: “Terá...” (fala 25). Note-se o
sinal de reticências, impregnado de intenções e subentendidos.
Por outro lado, vê-se que o Romeiro a pouco e pouco se
assenhoreia do diálogo, invertendo completamente a relação que de início se
estabelecera: de ameaçado, ou de peregrino recebido como tantos outros, êle
passa a ameaçador. Como explicar? Mediante os dados acumulados desde a cena IX
até a fala 25 desta cena, podia-se erguer a seguinte hipótese, a confirmar nas
passagens posteriores e, quiçá, no ato III: o peregrino é o portador da
fatalidade, do fatum implacável, ou
seja, do destino, que vinha sendo traçado desde que D. João fôra considerado
desaparecido em Alcácer-Quibir e Madalena contraiu novas núpcias com Manuel de
Sousa Coutinho. Mais um espectro, ou uma fôrça do destino, que personagem, o
Romeiro encarna uma espécie de sacerdote délfico a comunicar a Madalena os
resultados do oráculo que os deuses houveram por bem emitir a seu respeito.
Dêsse modo, êle parece o próprio destino a falar enigmaticamente pela bôca de
um mortal anônimo e transfigurado à custa de padecimentos físicos e morais. Ao
deparar-se com êle, Madalena enfrentava seu próprio destino, num tabuleiro de
xadrez cujo xeque-mate era previamente conhecido, pois assim o quiseram as
inabaláveis circunstâncias, como noutros tempos pedia a vontade dos deuses.
Como se Garrett pensasse a cena de cinco em cinco falas,
quando o peregrino responde irônica e hermeticamente a Madalena (“Terá...”,
fala 25), Jorge, que até o momento se limitara a escutar o diálogo, intervém "cortando a conversação" (fala
26). que as reticências do Romeiro pareciam conduzir de nôvo o diálogo a um
ponto morto, por todos os títulos comprometedor do calibre trágico da cena. Com
a intervenção de Jorge, lembrando o peregrino do recado que trazia para
Madalena, reergue-se uma vez mais o tonus
dramático. Ao mesmo tempo, a progressão no sentido do assunto capital da
cena se mantém: dêsse modo, a unidade dramática, fundamental em assuntos de
teatro, se preserva através de “momentos” da ação em que a “temperatura” varia
desde o môrno ao refervente, e vice-versa. Note-se que só um dramaturgo
traquejado alcançaria tal resultado, isto é, mesclar a variedade na unidade,
sem decair de nível nem derivar para atalhos ínvios.
Aqui, tudo está fortemente amarrado a um motivo-condutor,
que é o recado trazido pelo Romeiro da Palestina. Jorge lembra-o (fala 26), e
tem como resposta um movimento de dignidade e melancolia, estampado no sorriso
amargo e nas palavras que se lhe aderem perfazendo um corpo só: “Quereis
lembrar-me que estou abusando da paciência com que me têm ouvido?” (fala 27).
A isto, que diz Madalena? Como que reposta em sua natural tranqüilidade, ei-la
a buscar a pacificação do peregrino (e, quem sabe, de si própria): “Deixai,
deixai, não importa, eu folgo de vos ouvir: dir-me-eis vosso recado quando
quiserdes... logo, amanhã...”(fala 28). Pela seqüência das falas, percebe-se
que a serenidade de Madalena durou pouco, seja porque superficial, seja porque
o Romeiro trazia novas de estarrecer (fala 29). Perante elas, retornam as
aflições de Madalena, expressas em interrogações ansiosas (falas 30 e 34: “Pois
éreis cativo em Jerusalém?”; “E quem vos mandou, homem?”), e pelas reticências,
próprias de quem faz uma pausa para pensar (fala 32: “Sim, mas...”). Todavia,
na fala 34 ela já está aterrada. Regressa
o clima de tensão dramática, já agora ao redor do próprio fulcro da cena, e num
crescendo que se tornará cada vez mais excitante até o fim.
Note-se que o núcleo dramático se organiza em volta do
“honrado homem” (fala 35), que enviou mensagem pelo Romeiro, e Madalena, não entre
ela e o peregrino. Dir-se-ia que o Romeiro e o “honrado homem” constituem duas
pessoas, o primeiro, reduzido a um mensageiro espectral, e o segundo, cada vez
mais vivo à medida que a vida de cativeiro do peregrino nos é relatada. Êsse
diálogo entre uma personagem presente e uma ausente, apenas visível na fala de
um dos interlocutores, é um dos aspectos a observar, como fatôres da ambiência
trágica de Frei Luís de Sousa. que
nem por estar ausente, o “outro” é menos atuante: porventura, sua enorme influência
sôbre o ânimo combalido de Madalena venha de estar vivo e distante, quer dizer,
de o “remetente” da mensagem poder ser seu marido. Concomitantemente, lança luz
sôbre a profunda tragédia do peregrino.
Assim, as falas 35 a 40 situam o diálogo às vésperas da
grande revelação, inclusive com um ingrediente nôvo, raiando no melodramático,
como se vê na fala 39: “As suas palavras, trago-as escritas no coração com as
lágrimas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vêzes me caíram nestas mãos,
que me correram por estas faces. Ninguém o consolava senão eu... e Deus! Vêde
se me esqueceriam as suas palavras.” Com a interferência de Jorge (fala 40:
“Homem, acabai!”), vai-se dar a comunicação da mensagem que conduzia o remido
até Madalena. Já nas palavras do Romeiro (fala 41), ou melhor, do “outro”, se
percebe que os pressentimentos de Madalena tinham razão de ser. Tanto é assim que imerge “na maior ansiedade”, e põe-se a perguntar balbuciante a respeito
dêste homem, que “tinha sido... levaram-no aí de donde?... de África?” (fala
42). Registre-se que ela própria encaminha o diálogo para o ponto nevrálgico da
questão, que consistia em saber se o cativo era D. João de Portugal. Estamos no
momento crucial da cena: note-se o tom cortante e lacônico das respostas do Romeiro
às indagações aflitas de Madalena: “Levaram” (fala 43); “Sim” (fala 45); “De
Alcácer-Quibir” (fala 47). O peregrino responde como se proferisse uma sentença
de tribunal: na voz dêle, ecoava a própria fôrça do destino, inexorável e
definitivo.
Como que encarcerado no círculo de ferro que a presença
do Romeiro representava, eis que Madalena se entrega à desesperação, falta de
qualquer saída: neste ponto, sua consciência moral parece readquirir vitalidade
e voltar ao seu lugar próprio: antes, alienara-a para Jorge, para viver uma
espécie de narcose que soterrava o mau pressentimento a lhe roer as entranhas;
agora, envolvida pela malha de notícias, recupera sua consciência, e conhece a
tragédia de seu destino. Não acha o leitor que sua fala "espavorida” (48), parece denunciar alguém à beira da loucura?
Vejamos-lhe as palavras: “Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo
dos meus pés?... Que não caem estas paredes, que me não sepultam já
aqui?...". Não acha o estudante que o tom grandiloqüente, também propenso
a abrigar condimentos melodramáticos, evidencia alguém no limite de sua
resistência psíquica e moral? Não atesta que, ao final de contas, o Amor por
Manuel de Sousa Coutinho cedia aos imperativos da Honra? Que seu sentimento
brotara maldito da nascente, pois fôra ainda em vida de D. João de Portugal que
seu coração pulsara forte, embora secretamente, por Manuel de Sousa Coutinho? E
suas palavras não deixam transparecer uma desesperação suicida, que, sendo
feminina, parece contradizer o aticismo clássico que caracteriza a peça? Para
uma fidalga, conhecedora dos padrões vigentes e crente de sua religião, o
desespêro não semelha um tanto desproporcionado? Talvez não, se levarmos em
conta que dentro da placidez aristocrática de seu porte, ela abrigou durante
certo tempo um sentimento fervoroso por Manuel de Sousa Coutinho, e depois
arrostou o pressentimento mortal para realizar com êle o casamento sonhado, ou
seja, enfrentou o próprio destino trágico para tentar uma evasão. É que, ao amar recônditamente a Manuel de
Sousa Coutinho, seu destino estava selado para sempre, sobretudo porque a
conjuntura coeva, com seus valôres e agitações político-militares, inerentes ao
domínio espanhol em Portugal, ensejava mal-entendidos e restringia a livre
expansão dos sentimentos. Tudo se passa como se, amando aquêle que depois se
tornou seu marido, Madalena tivesse desobedecido aos deuses; e êsses, em
concílio, indignados, resolvessem puni-la por intermédio do peregrino, seu
mensageiro e sua encarnação humana. Madalena está irremediavelmente condenada.
A intervenção de Jorge (fala 49) é dinâmica, incisiva, de
alguém que pôs de lado a blandícia que o hábito condicionava, e resolve agir
com energia. Na verdade, ao perceber a situação de Madalena, compreende que seu
papel de consciência moral já não tinha mais razão de ser; apenas lhe restava
servir-lhe de arrimo em masculino, na ausência de Manuel de Sousa Coutinho. Seu
diapasão imperioso, quase desrespeitoso (“Calai-vos, D. Madalena!”, fala 49),
guarda uma insegurança profunda, encoberta pelo afã de manifestar apoio à
heroína. E é na continuidade de sua reação varonil, pôsto atenuada por sua
condição religioso (“Oh! inspiração divina...”, ibidem), que vai tomar por momentos o lugar de Madalena e dirigir a
cena para o seu desenlace, já previsível nas falas anteriores. No subdiálogo
entre Madalena e o Romeiro estava patente o nome de D. João de Portugal: sem
proferi-lo, nêle pensavam.
Ora, Jorge vai procurar tirar a limpo a dúvida atroz:
“Conheceis bem êsse homem, romeiro, não é assim?”, ibidem). E ao fazê-lo, dá condições para que o Romeiro se retrate
sem proferir uma palavra direta: "Como a mim mesmo” (fala 50). Note-se o
tom ainda cortante, indiscutível, de tribunal: na verdade, o Romeiro julgava a
Madalena e, indiretamente, a Jorge, cúmplice involuntário da bigamia da
protagonista. E como lhe perguntasse se reconheceria o “outro” num velho
retrato, responde: “Como se me visse a mim mesmo num espelho (fala 52), e “sem procurar, e apontando logo para o
retrato de D. João: É aquele.” (fala 54). Evidência total, insofismável, que
Madalena e Jorge temiam; a contestação da heroína (fala 55) acusa uma alienação progressiva do
juízo, cume necessário da batalha moral que vinha travando com o peregrino,
agora identificado com D. João, conquanto de um modo oblíquo, pois êle é e não
é, a um só tempo, o fidalgo que seguiu D. Sebastião à África. E a cena muda, no
ápice, quando Madalena “foge espavorida e
neste gritar” (fala 55), deixando sozinhos Jorge e o peregrino.
Antes de passar para a cena final, creio oportuno tecer
algumas considerações acêrca da estrutura da cena XIV, Vimos que, com a chegada
do Romeiro, contemporânea do afastamento de Manuel de Sousa Coutinho e sua
filha para Lisboa, temos a mutação dos acontecimentos e o reconhecimento das
personagens, ou, pelo menos, do Romeiro. Por outro lado, já havíamos observado
que tudo progredia numa gradação acelerada (climax),
em busca do desfecho final, inesperado. Tal quadro acompanha de perto os
modelos clássicos da tragédia, consoante os velhos ensinamentos de Aristóteles
em sua Poética. “A súbita mutação
dos sucessos, no contrário”, chama-se peripécia
(Poética, ed. preparada por Eudoro de Sousa, Lisboa, Guimarães Ed. [1951],
p. 85). Por seu turno, “o reconhecimento, como indica o próprio significado da
palavra, é a passagem do ignorar ao conhecer” (ibidem, p. 86). Portanto, na cena XIV, dão-se a peripécia e o
reconhecimento (ou agnórise, em
Grego). Importa assinalar, ainda segundo as lições de Aristóteles, que a
peripécia e o reconhecimento podem ocorrer separada ou conjuntamente, sendo que
“a mais bela de tôdas as formas de reconhecimento é a que se dá juntamente com
a peripécia, como, por exemplo, no Rei
Edipo” (ibidem, p. 86), e no Frei
Luís de Sousa, como acabamos de ver.
E a peripécia, mais o reconhecimento, podem conduzir à catástrofe, assim definida: “uma ação
perniciosa e dolorosa, como são as mortes em cena, as dores veementes, os
ferimentos e mais casos semelhantes” (ibidem,
p. 87). A fala derradeira de Madalena (55), "com um grito espantoso”, dá bem idéia de catástrofe, depois
da qual se altera a orientação da peça, ou seja, da vida da heroína. Tendo
injuriado os deuses (hybris, em
Grego), sômente lhe resta aceitar o decreto do fatum (anankê, em Grego), e purgar até o fim o ultraje cometido.
9. Cena XV: A última
cena do ato II passa-se entre Jorge e o
Romeiro, “que seguiu Madalena com os olhos, e está alçado no meio da
casa com um aspecto severo e tremendo”. Cena brevíssima, composta apenas de
duas falas, mas duma densidade imprevista, elevada a uma potência máxima,
encerrando o momento capital na vida dos protagonistas. Doravante, o tom
somente poderia baixar, até alcançar o melodramático na cena final do ato III.
Note-se que a cena XV é vivida por dois homens, ambos devotados a uma
existência que se diria mística, o primeiro (Jorge), porque sacerdote, o outro
(Romeiro D. João), porque pagara seus pecados em demorada servidão. Bem por
isso, o clima entre os dois é de extrema tensão, como se apenas um homem
sofrido e bom fôsse capaz de suportar a revelação sinistra que o peregrino
estava em vias de fazer. Coincidentemente, opera-se o afastamento de Madalena,
como se o dramaturgo pretendesse insinuar que ela era inapta para ouvir a
aterradora confirmação do peregrino, já que no seu espírito não restava dúvida
alguma. Ou talvez quisesse dizer que era proibido a uma Senhora presenciar a
sentença final do Destino, na boca do Romeiro. Ou, ainda, Garrett desejaria
defender Madalena de uma dor maior, quem sabe por um impulso de fineza ou de
respeito à sensibilidade feminina.
Seja como fôr, à pergunta de Jorge (“Quem és tu?”),
o Romeiro responde “apontando com o bordão para o retrato de D. João de
Portugal: Ninguém!”. Que dizer da palavra única do peregrino? Andrée Crabbé
Rocha sintetizou de modo brilhante a sensação que se experimenta ante o fato.
Declara ela: “Quando o Romeiro diz: ‘Ninguém!’, o autor não necessita de
amarrar a um parênteses o complexo de sentimentos que está na base do desalento
que o consome. A cena é tão magistralmente preparada, a tensão tão autêntica,
que será difícil dizer a palavra fora do seu tom justo” (op. cit. p. 166). A grandeza da peça atinge o auge nessa
concentração de efeitos dramáticos em escassíssimas palavras.
10. Que se pode inferir dos elementos sugeridos pela análise?
Primeiro, que se trata de uma autêntica tragédia, e tragédia clássica, malgrado
Garrett tenha personificado a psicose romântica em Portugal. Em segundo lugar:
o fato histórico de que partiu (a vida de Frei Luís de Sousa antes de ingressar
no convento), tão-somente lhe serviu de inspiração inicial, sôbre a qual ergueu
seu edifício trágico de magna categoria. Bem por isso, não parece existir
contradição entre o motivo histórico e a transfusão que sofreu na fantasia do
dramaturgo. A rigor, “o Frei Luís de
Sousa tem pouco drama histórico, — ou não seria a tragédia pura que é”
(Wolfgang Kayser, Fundamentos da Interpretação
e da Análise Literária, Coimbra, Armênio Amado Ed., 1948, 2 vols., vol. II,
p. 259). Em terceiro lugar: nota-se que a tensão dramática alcança, nas cenas
analisadas, altitude raríssimas vêzes atingida em vernáculo; de onde a tragédia
ser justamente considerada a obra-prima da dramaturgia portuguêsa. Em quarto
lugar: a peça pode ser classificada de tragédia
de destino (idem, ibidem, p. 262), pois o destino, encarnado no Romeiro,
conduziu à desgraça a família de Madalena, erguida em tôrno de um “êrro” de
amor, que a sociedade não tolera e pune impiedosamente.
E se procurássemos localizar a mundividência de Garrett
estampada na peça? Muitos críticos e historiadores (como Teófilo Braga, Álvaro
Júlio da Costa Pimpão, Antônio José Saraiva) têm forcejado por interpretar Frei Luís de Sousa à luz da Psicologia,
no encalço de identificar a tragédia com a vida passional do dramaturgo. Não é
esta a resposta à indagação que devemos buscar, embora tais teorias
psicológicas, e outras de ordem sociológica, possam ser plausíveis. Importa
situar sua visão do mundo, expressa nos meios simbólicos da tragédia. Que
divisamos? O reencontro fatal entre a Honra e o Amor, com a vitória da primeira,
como se para Garrett apenas a conjunção de ambos pudesse gerar felicidade. Por
outro lado, êle vê o Universo como um beco sem saída, pois que a infâmia que se
abate sôbre Madalena e os seus também acomete o Romeiro e, por tabela, Frei
Jorge e Telmo Pais: ninguém se salva nesse quadro apocalíptico, como se não
existisse redenção possível para o Homem. Mundividência cética ou pessimista,
que não julga mas verifica a inviabilidade de qualquer meio de libertar a
condição humana de seu abismo insondável. Dêsse modo, para êle, as personagens
tipificam muito mais que figuras da História ou da sociedade portuguêsa de
Seiscentos, tipificam o próprio Homem, sufocado em seu cárcere vital. Visão
universalista de um caso que poderia rotular-se de corriqueiro, mas que a
faculdade criadora do teatrólogo transformou em paradigma de qualquer situação
humana, sobretudo aquela em que mais se revela a fôrça incoercível do Destino.
Visão desalentada, para quem as verdades do Coração acabam provocando mágoa e
desgraça, e a Honra constitui uma asfixiante couraça de ferro. Visão olímpica
do Homem, por compreender que êle vive perenemente sob o mêdo da Morte,
conduzido pelo fatum: para o Garrett
de Frei Luís de Sousa, tôdas as
canseiras resultam inúteis, porque tocadas pelas asas da Morte. Viver, para
éle, consiste em expiar uma culpa involuntária ou inconsciente, como se no ato
de padecer tormentos da alma a criatura recuperasse a paz perdida com o
próprio nascimento. Mundividência de um escritor ultra-talentoso que no mais
fundo de si nutria quimeras de um Homem nôvo e puro, e viveu seus dias imerso
no relativo e no corruptível. Em síntese: mundividência de um romântico,
nostálgico do paraíso clássico, com sua fatalidade, ordem e tudo.
In GUIA PRÁTICO DE
ANÁLISE LITERÁRIA, MASSAUD MOISÉS, EDITORA CULTRIX, 4.ª ED., 1974