FOGO MORTO
(José Lins do Rego
) Por
Onofre de Abreu
Do Colégio Marista Dom Silvério
e do CEFET
1. INTRODUÇÃO
NORDESTE
Jorge de Lima
NORDESTE, terra de São Sal!
Irmã enchente, vamos dar
graças a Nosso Senhor,
que a minha madrasta SECA
tomou seus anjinhos para os comer.
São Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor!
Pajeú! Pajeú!
Vamos lavar Pedra Bonita,
meus irmãos,
Com o sangue de mil meninos,
amém!
D. Sebastião ressuscitou!
S. Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor!
Terra de Deus! Terra de minha
bisavó
que dançou uma valsa com
D. Pedro II.
São Tomé passou por aqui?
Tranca a porta gente, gente,
Cabeleira aí vem!
Sertão! Pedra Bonita!
Tragam uma virgem para D.
Lampião!
FOGO MORTO
José Lins do Rego:
3/6/19O1 - 12/9/1957
A GERAÇÃO DE 30
O falecimento
de José Lins do Rego Cavalcanti, a 12 de setembro de 1957, e pouco
antes o falecimento de Graciliano Ramos, marcam, podemos dizer, o fim
do romance modernista ligado à paisagem do Nordeste. Inaugurada com A Bagaceira.
Em 1928, foi essa tendência consideravelmente enriquecida por esses três escritores
além da contribuição também importantíssima de Rachel de Queiroz e de Jorge
Amado.
Sem dúvida, de
todos os escritores que se firmaram como figuras representativas do grupo
de romancistas modernistas do Nordeste, foi José Lins do Rego quem mais se
preocupou com uma posição crítica cm face de atitudes freqüentemente postas
por ele em confronto com as atitudes e opiniões daqueles que, no sul, particularmente
em São Paulo, fizeram a Semana de Arte Moderna e orientaram um debate critico
que se prolongou até a afirmação plena do movimento. Foi por isso, como escritor,
e com a sua obra regionalista, que José Lins se tornou uma presença combativa
e ao mesmo tempo criticada do movimento modernista voltado para a paisagem
física e social do Nordeste.
É considerado
o mais característico de nossos regionalistas. Pertence ao “grupo nordestino”,
onde encontramos os maiores talentos de nossa literatura do “modernismo”:
Raquel de Queirós, cearense, é uma das personalidades centrais do grupo
— O Quinze. Herdeiro direto de Machado, o mais introspectivo e analítico,
com grande perspicácia psicológica em suas análises, é Graciliano Ramos (Vidas
Secas, elemento importante do “Grupo Nordestino”. Jorge Amado, o mais popular
e também o mais engajado politicamente. (Serra Vermelha, Capitães de Areia).
A literatura
desse momento é de tendências para a elaboração de romances sociais ou socializantes.
Neste momento
(1930-45), temos a retomada de um aspecto já existente na literatura brasileira
que é o Regionalismo. É um, no entanto, regionalismo novo, devido aos
novos aspectos é à nova visão apresentada. O lado exótico, através do qual
era retratado o Brasil por José de Alencar, Franklin Távora, desaparece por
completo. O falso e superficial dissipou-se para que se mostrasse um Brasil
doente, miserável, faminto que estava escondido sob a casca de um litoral
“civilizado”. Começamos a ver o caboclo do interior, abrimos os olhos para
uma série de problemas existentes, constatamos o baixíssimo padrão de vida,
a seca, o banditismo, a superstição, conseqüências do analfabetismo e da situação
totalmente marginalizada de nossa gente. Uma população dominada por uma minoria
poderosa.
É uma literatura
agressiva que mostra o real sem máscaras.
A literatura,
então, reflete a situação política, econômica e social do Brasil. As faces
do Brasil aí aparecem: o domínio da oligarquia cafeeira que sustenta o poder
e a defesa de seus interesses das propriedades oligárquicas açucareiras que
não resistem à dominação do café. A presença do sistema político sustentado
pelos acordos e interesses, mantido pelos Estados que se apóiam nos coronéis
dos municípios uma denúncia séria do romance regionalista nordestino.
É claro que cada escritor
manifesta tendências diferentes, dependendo da região de origem ou mesmo de
ideologia política, pois somos vários países em um, várias realidades dentro
de uma só nação.
AUTOR E OBRA
José Lins do Rego Cavalcanti
(Engenho Corredor, Paraíba,
1901 — Rio, 1957).
“José Lins, o
motor que só funciona bem queimando bagaço de cana.” (Manuel Bandeira).
Em 1947, José
Lins se apresenta:
“Tenho quarenta
e seis anos, moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos, um metro
e 74 centímetros, casado, com três filhos e um genro, 86 quilos bem pesados,
muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, não
durmo com muitos sonos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades
do sol, se faz calor tenho saudades da chuva. Sou homem de paixões violentas.
Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim,
literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem
nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho,
pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas,
sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue.”
E assim continuou
— felizmente para ele mesmo, para seus amigos e até para seus possíveis inimigos.
Extrovertido, exuberante, incapaz de rancores, apaixonado, amando a vida por
ela mesma, interessando-se por tudo, tornando-se enfim um verdadeiro cronista
do Rio, sobretudo nas suas conhecidas “Conversas de Lotação”, coluna que manteve
durante vários anos no vespertino carioca, O Globo.
LER A OBRA DE JOSÉ LINS
DO REGO É LÊ-LO.
JOSÉ LINS
DO REGO — O menino — O engenho — O escritor
A obra de José
Lins do Rego é a sua própria realidade, o seu eu. É profundamente triste.
E a tristeza de nossa gente, da sua gente, da sua terra. É a melancolia do
Brasil. Há a consciência em sua obra de tudo que está para morrer. A consciência
do pobre, do miserável.
Seu tema é o
Nordeste, a Paraíba, os engenhos de cana-de-açúcar; na verdade, a decadência
destes engenhos e dos coronéis que os dominam. Uma oligarquia que não resiste
á chegada do capital estranho, da industrialização. São engenhos de Fogo
Morto. Conta a decadência do patriarcalismo no Nordeste do Brasil, com
as inúmeras tragédias, apresentadas com profundidade, tristeza e, em alguns
momentos, com aspectos de humor. O humor que era constante no ser humano Lins
do Rego.
Ele é a expressão
literária da cultura da sua terra. Conhece a realidade da casa grande, de
onde veio, é da senzala que conheceu as misérias. Retrata-nos os senhores
de engenho, os bacharéis, meio-social que é o seu. Mas, também o mundo dos
pretos, recém-libertados e vistos com preconceitos como é comum em todas as
regiões do Brasil, onde predominou a mão-de-obra escrava. É a sua memória,
o seu mundo que passa a ser literatura.
Sua obra é mais que um documento
sociológico. Está viva, pois é a vida, a realidade do autor que nela está
contida. Em toda sua produção é constante a fidelidade ao material acolhido
para seu trabalho. Existe uma íntima integração entre o autor e Suas personagens,
ambientes e tragédias nelas contidos.
Embora retrate
o povo e analise seus problemas, não podemos dizer que sua literatura seja
“popular” ou de gosto do povo. É uma obra trabalhada intelectualmente e feita
para ser analisada. Não é um passatempo, mas um documento de análise.
A OBRA
O próprio Lins
do Rego divide sua obra em ciclos:
1. CICLO DA
CANA-DE-AÇÚCAR, com as obras: Menino de Engenho, Doidinho,
Bangüê e Usina e a última e mais importante que é Fogo Morto, da
qual trataremos com mais vagar.
Este é o ciclo
mais importante de sua obra. Principalmente as duas primeiras (Menino do Engenho
e Doidinho) são consideradas autobiográficas, pelo grande número de coincidências
entre o enredo e a própria vida. Por parte do autor, nunca tivemos confirmação
de tal consideração a que chegamos pela análise da vida e da obra.
José Lins do
Rego, homem ligado à terra, a legítima expressão da tradição rural, patriarcalista,
da região açucareira do Nordeste, exprimiu uma experiência e emotividade consideravelmente
enriquecidas, crítica e sociologicamente, por estímulo e sugestões de Gilberto
Freyre, José Américo de Almeida e Olívio Montenegro.
Seu mundo canavieiro
e escravocrata é cenário de diferenças e distorções brutais da vida, moduladas,
contudo, pela reminiscência, pela paisagem da zona da mata, contradições entre
o real e o afetivo, que a cada passo vão aflorando em sua obra.
2. CICLO DO CANGAÇO,
misticismo e seca: Pedra Bonita (1938), Cangaceiros (1953).
3. OBRAS INDEPENDENTES.
a) com implicação
nos dois ciclos indicados: O Moleque Ricardo (1934),
Pureza (1937), Riacho Doce (1939).
b) desligados
desses ciclos: Água-Mãe (1941), Eurídice (1947).
4. MEMÓRIAS:
Meus Verdes Anos (1956).
5. CONFERËNCIÀS
E JORNALISMO: Gordos e Magros (1942), Pedro Américo (1943),
Poesia e Vida (1945), Conferências no Prata (1946),
Homens, Seres e Coisas (1952), A Casa e o Homem (1954), Roteiro
de Israel (1954), Presença do Nordeste na Literatura Brasileira
(1958) e o Vulcão e a Fonte (1958).
6. LITERATURA
INFANTIL Histórias da Velha Totônia (1936).
SINTESE INTERPRETATIVA
Fogo Morto —. A OBRA-PRIMA — Ciclo da Cana-de-açúcar.
A obra está estruturada
em três partes que correspondem ao enfoque que se dá às três personagens mais
importantes da obra: sapateiro José Amaro, Coronel Lula de Holanda Chacon
e Capitão Vitorino Carneiro da Cunha.
Cada uma destas
personagens, na verdade, sintetiza certa classe da população. Todas as três
são envolvidas por um cenário de miséria, superstição e doença. Como a dirigir
o destino de seres inanimados, encontramos a politicagem, a prepotência policial
que defende as minorias fortes. A única possível para tal situação é o cangaço.
Fogo Morto
é um comovente drama político, em que figuram protagonistas maiores como Zé
Amaro, o seleiro, e seu compradre Vitorino Carneiro da Cunha.
A primeira parte
— O MESTRE JOSÉ AMARO — caracteriza dinâmica e necessária-mente o desenlace
trágico.
É o velho seleiro
frustrado, que mora com a mulher e filha nas terras de engenho de Santa Fé,
cujo dono é o Coronel Lula de Holanda Chacon. É um desiludido com a profissão,
com a vida familiar, com sua filha solteira sempre chorando pelos cantos e
sua mulher a resmungar.
Zé Amaro vive
na zona da mata, onde as pessoas são praticamente posse de outras pessoas,
enfim, onde o escravismo deixou seus vincos na atmosfera dos costumes. Zé
Amaro vive de fazer artefatos de couro, pequenos consertos. Isso é seu direito
à liberdade, especialmente a liberdade de afirmar-se livre, de contestar,
pelo discurso, a ordem opressiva instituída pelos hábitos patriarcais. Zé
Amaro é um desses tipos que fazem lembrar a frase de Camus, segundo a qual
a arte verdadeira deve ser “a expressão da mais elevada revolta”. Nem lhe
falta o lado íntimo da desgraça: sua filha é louca, vive chorando pelos cantos
da casa, sua mulher não o compreende, melhor diríamos, não está à altura de
seu registro existencial (e por isso o abandona). Zé Amaro está sozinho em
sua revolta: essa solidão — em meio a pessoas que o visitam e convocam — é
o que o faz voltar-se para o cangaceiro Antônio Silvino, perseguido pela volante
estadual. Mestre Zé Amaro torna-se um colaborador secreto do famoso cangaceiro,
e seu fim estará ligado a esse pacto.
José Amaro é
o trabalhador branco livre do Nordeste. Por ser branco, revela um forte orgulho,
o que nos demonstra a existência de preconceitos raciais, encontrados no Brasil
nas regiões onde predominou a escravidão. Valorizando-se por ser livre e principalmente
branco, José Amaro tem uma alta consciência de seu valor humano. Percebe que
é explorado e não quer aceitar, mas não tem alternativa a não ser sua coragem
pessoal ou o apoio ao Cangaço. Daí sua admiração pelo cangaceiro Antônio Silvino.
A segunda parte
é “O Engenho do Seu Lula”: prospecção que historia a fundação do engenho Santa
Fé, de que viria a apropriar-se o coronel Lula de Holanda Chacon, ao casar-se
com Amélia, filha do antigo proprietário e fundador, capitão Tomás Cabral
de Melo. Lula de Holanda Chacon é autoritário e prepotente. Incapaz, arruína
o Santa Fé, que se torna um “fogo-morto” (expressão com que se denominam os
engenhos decrépitos e paralisados). E contra ele (e contra tudo que ele representa)
que se revoltam mestre Zé Amaro e cangaceiros como Antônio Silvino.
Coronel Lula
de Holanda Chacon é representante da aristocracia arruinada dos engenhos.
Não perdeu o orgulho feudal e despótico, mas o poder econômico. Não aceitando
tais condições, refugia-se em Deus, no amor ao passado, não abandonando suas
ambições e vaidades. Humilhado diante da decadência e sofrendo as pressões
do cangaço, acaba se confinando em total isolamento.
Finalmente, “O
Capitão Vitorino” é a terceira parte. Compadre de Mestre Zé Amaro,
Vitorino Carneiro da Cunha encarna alguns traços de Dostoiéviski e Cervantes.
Nele há um irresistível pendor à bravata (ao contrário de seu compadre, tenso
e sóbrio, embora eloqüente). Vitorino é radical na ação momentânea, (e espalhafatosa,
embora bem intencionada), mas moderado no pensamento político (ao contrário
de Zé Amaro). Vitorino ainda acredita numa virada política para ares liberais,
ainda crê que o problema central da política é de ordem puramente moral, e
põe enorme fé nos poderes da justiça. Desconhece as ligações de seu compadre.com
o bando de Antônio Silvino, cuja ação também condena como condena aos desmandos
da polícia comandada pelo tenente Maurício, o mesmo que o manda para a prisão,
junto com seu compadre. As sevícias da prisão constituem o fundo trágico em
que se modulam os perfis definitivos de Zé Amaro e Vitorino Carneiro da Cunha.
Vitorino Carneiro
da Cunha é o eterno oposicionista, corajoso, simplório, aceita todas as
lutas, é um idealista sempre ao lado dos mais fracos.
É um misto de
plebeu e aristocrata. Seu parentesco distante com o Coronel José Paulino autorizaou
a que se outorgasse o título de capitão. Poderíamos considerá-lo como um representante
das camadas médias que começam a surgir. O próprio autor e muitos estudiosos
analisam Vitorino como sendo um misto de D. Quixote e Sancho Pança.
É o Quixote idealista, lutando ao lado dos fracos e dos oprimidos em busca
da justiça. Buscar a justiça no Nordeste é lutar contra moinhos de vento.
Montado em seu burro velho, o gordo, alegre, espirituoso Sancho Pança aceita
pacificamente as perseguições e amolação dos moleques.
Em relação a
esta estrutura, não se pode negar que é a presença de Vitorino que lhe assegura
a unidade e evita que a narrativa se enfraqueça, que por assim dizer recomeça
três vezes, e articula a mesma em três (3) seções.
Fogo Morto,
então, se desenvolve em três tempos, sendo José Amaro, o Coronel Lula de Holanda
e Vitorino Carneiro da Cunha a tônica de cada uma.
A estrutura
episódica do romance centra-se nos três protagonistas que se inter-relacionam
entre si e com os demais personagens, juntando-se no desfecho.
Os personagens
principais e secundários são apresentados na exposição do enredo para se desenharem
com mais perfeição no decorrer da trama. O enredo complica-se gradativamente,
em cada uma das três partes atingindo o clímax.
O enredo apresenta
três clímaxes correspondentes a cada personagem ou cada parte: o
primeiro, quando o mestre José Amaro se encontra sozinho, sua mulher vai
embora, sua filha já está no sanatório; o segundo: Amélia está na casa-grande,
com o marido epilético Antônio Silvino chega ao Santa Fé; o terceiro, quando
Vitorino é preso pelo tenente Mauricio. Cada clímax apresenta sua solução:
suicídio para José Amaro, O Fogo Morto para o engenho, a Libertação
para Vitorino.
1. “— Estava
morto, Capitão.
— Morto?
— gritou Vitorino. O meu compadre José Amaro morto?” (pág. 290).
2. “— E o Santa
Fé quando, Passarinho?
— Capitão,
não bota mais, está de fogo morto.” (pág. 290).
3. “Mas vitorino
mandava no que era seu, na sua vida. As feridas que lhe abriam no corpo não
queriam dizer nada. Não havia força que pudesse com ele.” (pág. 284).
RESUMO
Romance conta
uma história e nela reside a base para uma interpretação segura.
“O Santa Fé
é um pequeno engenho que prospera nas mãos do eficiente Capitão Tomás.”
“Capitão Tomás
Cabral de, Melo chegara do Ingá do Bacamarte para a Várzea de Paraíba, antes
da revolução de 1948, trazendo muito gado, escravos, família e aderentes.
Fora ele que fizera O Santa Fé. Ele mesmo dera ao engenho que montou o nome
de Santa Fé. Tudo se fizera a seu gosto. Depois compram aos índios algumas
quadras de catinga, e o Santa Fé pôde subir para os altos, ter a sua pequena
mata de angico, crescer um pouco junto ao mundo que era o Santa Rosa. O Capitão
vinha dos Cabrais do Ingá, gente de posses, de nome feito na Província.” (pág.
135).
Sua filha,
Emélia, que era moça de estudos, só consegue casar-se após longa e ansiosa
espera.
“A verdade que
uma filha fora para o colégio das freiras no Recife. Queria fazer sua família
gente de verdade. Não queria mulher dentro de casa fumando cachimbo, sem saber
assinar o nome, como tantas senhoras ricas que conhecia.” (pág. 137).
“A filha voltava
dos estudos, uma moça prendada, assombrando as outras com os seus dotes.”
(pág.137).
“O capitão dormia
com a filha na música, aos domingos, com os negros parados,
com a terra dando vida às
sementes.” (pág. 139).
“Foi quando apareceu,
em visita ao capitão, um rapaz de Pernambuco, um filho de António Chacon.”
(pág. 141)
“Era o parente
Luis César de Holanda Chacon.” Era um rapaz cerimonioso, de boa aparência,
trato fino. D. Amélia engraçou-se do primo.” (pág. 141) “Nunca o piano falara
com tanto sentimento”
Seu marido, Lula,
a princípio não se interessava pelo Engenho. Ao sofrer uma desfeita de um
simples camumbembe que lhe escondera um escravo, o capitão cai em depressão
e sua mulher é obrigada a tomar as rédeas dos negócios de Santa Fé.
“O Capitão vivia
como se tivesse sido atacado de doença grave.
A casa-grande
do Santa Fé ficara assim, muda, de repente.” (pág. 155).
“E além de tudo,
onde um filho para vingar o pai ofendido, onde um homem de sua gente que pudesse
desagravá-lo? Havia um genro, muito bom homem, um mole, um leseira” (pág.
156).
O Capitão
Lula começa, então, a mostrar sua personalidade, surrando escravos sem necessidade
e D. Mariquinha não suporta os investidos do genro que quer a todo custo o
comando do engenho, o que causa a morte de D. Mariquinha.
“Via-se seu Lula
gritando com os negros” (pág. 157).
“D. Mariquinha
do Santa Fé resolveu dar as ordens no engenho. Custara-lhe muito tomar aquela
decisão.” (pág. 157).
“D. Mariquinha
começara a perder todo aquele encanto que lhe dera o primo Lula.” (pág. 160).
“— Sinhá, Chiquinho
não fez nada. Seu Lula “gosta de dar em negro, Sinhá.” (pág. 160).
“Chegou a abolição
e os negros do Santa Fé se foram para os outros engenhos.” (pág. 168).
Sob o comando
de Lula o Santa Fé caminha para a extinção. “Seu Lula já estava velho. Da.
Amélia aquela criatura sumida, mas sempre com seu ar de dona, Neném uma moça
que não se casava. D. Olívia falando, falando as mesmas coisas. ESTA ERA A
CASA-GRANDE DO SANTA FE.” (pág.191).
O Mestre José
Amaro, seleiro que ocupava um pedaço de terra no Santa Fé desde os tempos
do Capitão Tomás, começa a se desentender com Lula e apóia com pequenos serviços
o cangaceiro Antônio Silvino que vinha humilhando a polícia e os coronéis
demonstrando mais e mais o seu poder. Isso provoca a vinda do Tenente Maurício
com a missão de acabar com o cangaceiro, servindo-se para isso, de maneira
abusiva, de sua autoridade, o que revoltava o povo e fazia crescer a autoridade
e popularidade de Antonio Silvino.
“— Bom dia, mestre
Zé — foi dizendo o pintor Laurentino a um velho, de aparência doentia, de
olhos amarelos, de barba crescida.
— Está de passagem,
seu Laurentino?
— Vou ao Santa
Rosa. O coronel mandou me chamar para um servicinho de pintura na casa-grande.
Vai casar filha.
(. . .)
— Vai trabalhar
para o velho José Paulino? É homem bom, mas eu lhe digo: estas mãos que o
sr. vê nunca cortaram sola para ele. Tem a sua riqueza, e fique com ela. Não
sou criado de ninguém. Gritou comigo, não vai. (pág. 3).
“Pedro Boleeiro
chegou na porta do mestre José Amaro com um recado do Coronel Lula. Era para
o mestre aparecer no engenho para conserto nos arreios do carro. O Mestre
ouviu o recado, deixou que o negro falasse à vontade. E depois, como não tivesse
gostado, foi se abrindo Com o outro.
— Todo o mundo
pensa que o mestre José Amaro é criado. Sou um oficial, seu Pedro, sou um
oficial que me prezo.” (pág. 13).
“Hein, mestre
José Amaro, o seu pai matou em Goiana, não é verdade, hein, mestre José Amaro?
Eu não quero assassino no meu engenho. Não é, Amélia? Pode procurar outro
engenho, ouviu? Procure outro engenho. (pág. 121).
O Capitão
Vitorino que era o palhaço do povo é contudo, o único a lutar, sem medo, por
seus interesses, contra o tenente que lhe valheu boas surras e noites e noites
na prisão.
“Numa noite de
escuro, Antônio Silvino atacou o Pilar. Não houve resistência humana.”
(pág. 205).
“— Papa-Rabo,
Papa-Rabo.
E no silêncio
da tarde a voz roupa do compadre, respondendo:
“— É a mãe,
é a mãe.” (pág. 218).
“— Não estou
pedindo sua opinião, velho.
— Sou o Capitão
Vitorino Carneiro da Cunha,” (pág. 226).
“A tropa saiu
com o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha todo amarrado de cordas montado na
burra velha que os soldados chicoteavam sem pena. (pág. 226)”.
José Amaro,
sem mulher e filha no sanatório, causando terror no povo, volta para casa
quando solto, casa de onde fora expulso por Lula de Holanda e mata-se.
“O mestre não
pensava em nada. Havia dentro dele um vazio esquisito. Teve medo de voltar
para dentro de casa. E ali mesmo, por debaixo da pitombeira, baixou a cabeça
e chorou como um menino.” (pág. 134).
“. . . e viu
a coisa mais triste deste mundo. O mestre estava caído perto da tenda, com
a faca de cortar sola enterrada no peito.
— Estava morto,
capitão.
— Morto? — gritou
Vitorino. — O meu compadre José Amaro morto?” (pág.290)
O Santa Fé
é agora nada mais que um pedaço de terra parado completamente sem produção.
“— E o Santa Fé quando bota, Passarinho?
— Capitão, não
bota mais, está de fogo morto”. (pág. 290).
ESTUDO DAS PERSONAGENS
Os personagens
são tipos, na medida em que representam uma determinada estrutura sócio-econômica.
A apresentação
dos personagens é feita ao leitor, diretamente, por meio de monólogos
e diálogos ou indiretamente, através das relações personagens-meio
ambiente.
“Estou velho,
estou acabado, não tive filho para ensinar o ofício, pouco me importa que
não me procurem mais. Que se danem. O mestre José Amaro não respeita lição
de ninguém. (pág. 5)
— Bom dia, Capitão.
Vitorino rosnou
um bom-dia de favor. E o negro sem dar pela coisa se dirigiu ao velho:
— Capitão, tem
aí um cigarro para o negro?
— Não tenho cigarro
para vagabundo.
— Um cigarrinho,
Capitão.
Então Vitorino
metendo a mão no bolso:
— Toma lá. Isto
me deu um filho de Anísio Borges que chegou dos estudos, e fumo de Bahia,
é muito fraco.
Embora os personagens
se cruzem para formar o todo do livro, podemos afirmar que o enredo se arma
em torno de três principais que se completam no decorrer da narrativa.
1. O MESTRE JOSE AMARO
Representa
o povo ordeiro, trabalhador e esquecido do Nordeste. Branco orgulhoso. Valorizando-se por ser livre e branco,
o mestre tem consciência de seu valor humano. Percebe-se explorado e não há
solução a não ser o cangaço. Daí sua admiração pelo cangaceiro Antônio Silvino.
Vive o presente de maneira emocional. Símbolo da decadência do artesanato
rural, do respeito ao cangaço, enquanto proteção aos pobres e castigo aos
maus.
“Ele queria mandar
em tudo como mandava no couro que trabalhava, quer bater em tudo, como batia
naquela sola.” (pág. 8).
“Era pobre, atrasado,
um lambe-sola, mas grito não leva.” (pág. 9)
“A bondade dele
não me enche a barriga. Trabalho para homem que me respeite. Não sou um traste
qualquer.”
“Ele não queria
ouvir voz de ninguém. Queria ser só neste mundo que não lhe dava alegria.
Aqueles diabos tinham corrido com medo dele. Por que tinha medo dele? A sua
teria também medo dele? Estaria assim tão monstruoso que espantasse o povo?
2. O CORONEL LULA DE HOLANDA
Representa
a aristocracia arruinada dos engenhos. Vive o passado, os tempos de abundância.
Simboliza a recusa ao progresso. Sublima seu orgulho em um misticismo supersticioso.
Não perdeu o orgulho feudal e despótico, mas o poder econômico. Confina-se
em total isolamento diante da opressão do cangaço.
Lula de Holanda
e José Amaro conseguiram algo em comum: os dois se degradam, individual e
socialmente.
“O Lula sabia
manter uma palestra com qualquer doutor que lhe aparecesse em casa. (. . .)
O diabo era ele não tomar gosto.”
“A figura de
Seu Lula continuava, para a crendice do povo, como de homem, marcado pelo
demônio. Viam a piedade, a cara de tristeza, a cabeça baixa do senhor de engenho,
quando se levantava para a mesa da comunhão, tudo não passava de artimanha.
De solércia, de hipocrisia. Lá dentro de seu coração estava à peçonha venenosa,
o ódio contra todos os homens.”
“Havia um genro,
muito bom homem, um mole, uma leseira.”
3. V1TORINO CARNEIRO DA CUNHA
Representa
o herói pícaro, aquele que, por seu humor e lirismo, desperta a simpatia
do leitor. Idealista, sonhador, o que enfrenta os moinhos. Vitorino lembra
os cavaleiros andantes da Idade Média, em sua errância pelos sertões,
sem uma ocupação definida, em luta quixotesca contra as injustiças sociais.
E o eterno oposicionista,
simplório, aceita todas as lutas, é um idealista sempre ao lado dos mais fracos.
E uni misto de
plebeu e aristocrata. Seu parentesco distante com o Coronel José
Paulino autorizou a que se
outorgasse o título de Capitão.
Poderíamos considerá-lo
como um representante das camadas médias que começam a surgir.
Buscar a justiça
no Nordeste é lutar contra os moinhos de vento.
Montado em seu
burro velho, o gordo, alegre, espirituoso Sancho Pança aceita perfeitamente
as perseguições e amo1açõe dos moleques.
“Vitorino falou
para o homem num tom agressivo:
— Tenente, por
aqui é que o senhor não encontra o bandido. Era por aqui que andava o major
Jesuíno, atrás dos cangaceiros, e nunca disparou um tiro.
— Não estou pedindo
sua opinião, velho.
— Sou o Capitão
Vitorino Carneiro da Cunha.
(. . .) Cala
a boca, velho besta.
— Só quando a
terra comer, tenente. Vitorino Carneiro da Cunha diz o que sente
— Pois não diz
agora.
— Quem me empata?
O Senhor? Ainda não nasceu este.”
“O Capitão Vitorino
Carneiro da Cunha (Papa-Rabo) é homem para o que der e vier.” (pág. 19).
DEMAIS PERSONAGENS
Os personagens
secundários estão intrinsecamente ligados aos personagens principais. Desta
ligação, temos como resultado uma narrativa da tristeza do nordestino, das
suas dificuldades durante o período de transição engenho-usina.
Sinhá, Amélia
e Adriana, são, respectivamente, mulheres de Amaro, Lula e Vitorino. Sinha
e Adriana são pobres, humildes, sofredoras com o procedimento dos maridos
e a distância dos filhos. Amélia é a senhora de engenho, moça prendada e educada
na cidade, porém tal educação resulta inútil no contexto da casa-grande.
Marta, Neném
e Luís são os filhos de Amaro, Lula e Vitorino. Marta enlouqueceu Neném
fica solteira e Luís vai para a Marinha. Todos estão condicionados pelo
meio. As mulheres esperam um casamento, frustrado, em conseqüente espera de
solução individual. A opção de Luís revela-se como possibilidade de ascensão
social, mas permanece, ainda, o condicionamento do meio ambiente.
De uma forma
geral, todos os outros personagens secundários: os negros Floripes e Passarinho,
os senhores de engenho José Paulino e capitão Tomás, o cego Torquato, o cabra
Alípio, o mascate Pascoal Italiano, juiz, prefeito, tenente Maurício constituem
o universo simbólico dos engenhos de açúcar. Cabe lembrar António Silvino,
mito dos pobres, defensor dos oprimidos, uma hipótese de redenção para
o povo nordestino.
TENENTE MAURÍCIO
Opressor, comanda
uma tropa de facínoras mais temíveis que os próprios cangaceiros.
“— Tenente de
Merda.
Uma bofetada
na cara do capitão fez correr sangue da testa larga.
— Amarre este
velho, e vamos com ele para a cadeia do Pilar.” (pág. 226)
NEGRO PASSARINHO
Cantor ingênuo,
escravo recém-libertado corroído pelo vício da bebida.
“— Este capitão
veio do céu.
E saiu cantando
baixo:
Encontrei
com Santo Antônio
Na
ladeira do Pilar
Gritando
para todo mundo
— Este copo é
de virar. (pág. 215)
“— Tem bom coração.
E é prestativo que só ele.”
CORONEL JOSÉ PAULINO
Senhor de engenho,
poderoso, que se acomoda e alia a todos os governos.
“—Vai trabalhar
para o velho José Paulino? E bom homem, mas eu lhe digo: estas mãos que o
sr. vê nunca cortaram sola para ele.” (pág. 3)
O CEGO TORQUATO
Agente de ligação
do cangaceiro Antônio Silvino.
“O cego Torquato
se encontrara com ele na várzea do Oitero e lhe contara tudo. (pág. 216)
CABRA ALÍPIO
Devotado de Corpo
e alma ao cangaço.
ADRIANA
Mulher de Vitorino.
SINHÁ
Mulher de José
Amaro.
(Duas mulheres
nascidas para a dor e paciência).
Estas personagens
são figuras vivas, seres reais repletos de problemas e angústias. Não são
caricaturados de forma convencional. São, isto sim, sínteses fortes e bem
realizados de um dos maiores romancistas de costumes de nossa literatura.
É importante
constatar como a linguagem encontra-se em adequação com os personagens,
reveladora do ser de cada um: em José Amaro é interiorizada,
mais recordações do que diálogos, em Vitorino, o vocabulário apresenta
vulgaridades, caracterizando a extrospecção e o cômico do personagem.
FOCO NARRATIVO
Fogo Morto
é narrado em 3ª pessoa. É externo o ponto de vista do narrador, pois este
não participa dos acontecimentos narrados. Ele conta a sua história,
retrato de uma época.
O narrador é
onisciente, mostra o pensamento dos personagens, suas dúvidas, problemas e
devaneios do povo dos engenhos nordestinos.
“O assalto ao
Santa Fé encheu o noticiário dos jornais. A finura de Vitorino, ferido, espancado,
apareceu como homem de coragem que não temia perigo de espécie alguma. (pág.
202)
“O mestre ia
calado, pisando rio chão como se estivesse com o corpo quebrado.” (pág. 289)
“Chegou a abolição
e os negros do Santa Fé se foram para outros engenhos.” (pág.169).
Os fatos, dentro
de cada uma das três partes, ocorrem em ordem cronológica, normal,
a do andar do relógio. As rememorações, em fluxos de consciência, fluem do
pensamento dos personagens. Estas referências ao passado — flash-backs contribuem
para retardamento do tempo narrativo e ajudam ao leitor na caracterização
dos personagens e de suas relações com o meio ambiente e assim se torna evidente
o momento histórico em que se situam.
“O capitão vinha
dos Cabrais do Ingá, gente de posses, de nome feito na Província. Os roçados
de algodão destes homens tinham fama. Falava-se que o velho Cabral tinha mais
de quinhentos escravos nos eitos de seus roçados. Mas o Capitão Tomás descera
para a Várzea. Tinha filhos e pensava dar ao seu povo uma criação melhor.
E assim liquidaria a herança na partilha e chegara ao Pilar, para ser senhor
de engenho.” (pág. 135)
“Teve medo de
voltar para dentro de cada. E ali mesmo por debaixo da pitombeira. baixou
a cabeça e chorou como um menino.” (pág. 134)
CRITÉRIO DE VEROSSIMILHANÇA
A narração é
espontânea à semelhança da vida que o enredo retrata. Os fatos apresentados
são de dentro de uma realidade em extinção: o feudalismo do senhor de engenho.
A situação sócio-econômica é apresentada de modo bem claro. Conclui-se, com
a leitura do macro-texto,, que o critério é realista, a verossimilhança é
realista. A linguagem retrata igualmente a verossimilhança.
“Pedro Baleeiro
chegou na porta do mestre José Amaro com um recado do Coronel Lula. Era para
o mestre aparecer para o conserto nos arreios do carro.” (pág.13)
“— Como eu ia.lhe
dizendo, compadre, para se tratar com mulher, só com chicote. No mais é perder
tempo. Quinca do Engenho Novo pegou a dele, amarrou num carro de boi e mandou
largar a bicha na bagaceira do sogro.” (pág. 215).
— Muito boa tarde para todos.
Estou chegando do Pilar, minha gente. Não estou bebo, não. Até vi lá o capitão.
Está brabo.”(José Passarinho). (pág. 247)
A repercussão
da obra quando da sua publicação e até os dias de hoje é muito grande, pois
temos aí apresentada a vivência de nosso povo, um documento de uma época.
O autor conta o que viu e viveu. É literatura que parte do real concreto,
vida, para realizar o real simbólico. Literatura, realidade analógica.
MEIO AMBIENTE
Pilar e seus
arredores é a ambiência que o romance mostra — é o sertão nordestino. É o
tempo do Engenho: casa-grande, casa-de-taipa, roçados de algodão, sombra de
pitambeira, carne-do-ceará, toicinho no braseiro, cabriolé, cavalos.
Hábitos pré-estabelecidos,
ações prédeterminadas, crenças modelando hábitos e ações. Fugir ao comum é
ser elemento estranho.
O homem vai-se
fazendo. A degradação do engenho favorece o condicionamento. A opressão se
dá através de fatores físicos e mentais.
Dentro de tal situação aparecem
as situações líricas resultantes de situações individuais e do ponto
de vista de determinada situação.
“É triste, Sinhá.
Mas Deus dá jeito a tudo.” (pág. 247).
“O mestre Amaro
já estava acostumado com aquele cantor de um pássaro livre. Que cantasse à
vontade. Batia forte na sola, batia para doer na sua perna que era torta.”
(pág. 13).
“O mestre José
Amaro, arrastando a perna torna, foi chegando para a mesa posta, uma pobre
mesa de pinho sem toalha. E comeram o feijão com a carne-de-ceará e toicinho
torrado.” (pág. 5).
“E no passo largo,
de chapéu novo espelhando ao sol, desapareceu por trás das cabreiras.” (plantas
leguminosas) (pág. 216).
ESTILO
José Lins do Rego criou um
estilo só dele: sintaxe pessoal, períodos curtos, ordem direta, adjetivação
enxuta e essencial, modismos e idiotismos, substância medular da fala do povo.
Em Fogo Morto,
a narração descritiva cede lugar à dialogação constante, que tem vivacidade
e a concretitude de linguagem coloquial. Este uso combinado da dialogação
com a linguagem coloquial é fator decisivo de classificação de individualidade
do autor, José Lins do Rego.
“— Compadre,
eu não estou pensando nestas coisas. Vivo aqui nesta tenda, e quero sair para
o cemitério.”
— Besteira, O
compradre tem o seu voto.
— O que é um
voto, meu compadre?
— Um voto é uma
opinião. E uma ordem que o sr. dá aos que estão em cima, O sr. está na sua
tenda e está mandando num deputado, num governador.
— Compadre Vitorino,
eu só quero mandar na minha família.” (pág. 82)
A forma escrita
apresenta em plena adequação com o conteúdo transmitido, isto é, a linguagem
regional, cheia de brasileirismos, reiteira a temática da obra.
E importante
notar como a linguagem encontra-se em adequação com os personagens,
revelando o ser de cada um: em José Amaro é interiorizado, mais recordações
do que diálogos:
“Muito trabalho,
mestre Zé?
— Está vasqueiro.
Tenho uma encomenda de Gurinhém. Um tangerino passou por aqui e me encomendou
esta sola e uns arreios. Estou perdendo o gosto pelo ofício. Já se foi tempo
em que dava gosto trabalhar numa sola. Hoje estão comprando tudo feito. E
que porcarias se vendem por aí! Não é para me gabar. Não troco uma peça minha
por muita preciosidade que vejo.” (pág. 4)
Zé Amaro é sério,
pessimista, contido.
Em Vitorino,
o vocabulário apresenta vulgaridade, configurando a extrospecção e o cômico
do personagem e porque não a veia boateira e alarmista:
“— Não estou
pedindo sua opinião, velho.
— Sou o Capitão
Vitorino Carneiro da Cunha.
— Não estou perguntando
o seu nome.
— Mas eu lhe
digo.
— Então passe
de largo e siga o seu caminho.
— Não me faz
favor, tenente.
— Cala a boca,
velho besta.
— Só quando a
terra comer, tenente. Vitório Carneiro da Cunha diz o que sente.” (. . .)
Vitorino saltou
da burra e se fez no punhal. Mas já estava dominado pelos soldados. E gritava:
— Tenente de
merda.” (pág. 227)
“— Papa-Rabo!
— Papa-Rabo é
a mãe.”
O estilo de época
é o Modernismo. A utilização de uma linguagem coloquial e predomínio
da ordem direta:
“Bom dia, seu
Laurentino. O senhor vai desculpar. O Zeca tem cada uma! É almoço de pobre.
— Nada, D. Sinhá,
só fiquei porque não sou homem de cerimônia. Pobre não repara. (pág. 5).
OS REGIONALISMOS
“Viam aquele
homem de fora, com jeito de Comumbembe, trabalhando para ele mesmo (pág. 137).
“E comeram feijão
com carne-de-cerá e toicinho torrado.” (pág. 5).
“... as folhas
da pitombeira que sombreava a sua casa de taipa, de telheiro sujo. Lá dentro
estava a família. Sentia-se cheiro de panela no fogo, chiado de toucinho no
braseiro que enchia a casa de fumaça” (pág. 3).
A EXPLORAÇÃO DO FOLCLORE
BRASILEIRO
“Filho que faz
isto ao pai / Bem merece ser queimado /
Por sete couros
de lenha / e por mim bem atiçados.
Filho que faz
isto ao pai / Bem merece ser degolado.
Por sete folhas
de navalhas / E por mim bem afiadas. (pág. 67)
Linguagem
coloquial, predomínio de ordem direta, regionalismos, exploração do folclore
brasileiro determinam a apreensão da realidade de modo profundo, deixam
o autor apreender o problema do homem de engenho, penetrar no seu ambiente,
no seu modo de viver. Esta descoberta do Brasil é fator do Modernismo marcante.
O estilo de
José Lins é funcional, pleno de vocábulos e expressões regionalistas,
próprios das gentes do nordeste. Existe uma profunda integração de forma e
fundo.
Fogo Morto
destaca-se pela vivacidade e pelo tom coloquial repetitivo dos diálogos.
Vamos destacar um trecho, onde conversam o capitão Vitorino e seu compadre
José Amaro:
“Pela tarde apareceu
o capitão Vitorino. Vinha numa burra velha, de chapéu palha muito alvo, com
a fita verde-amarela na lapela do paletó. O mestre José Amaro, estava sentado
na tenda, sem trabalhar. E quando viu o compadre alegrou-se. Agora as visitas
de Vitorino faziam-lhe bem. Desde aquele dia em que vira o compadre sair com
a filha para o Recife, fazendo tudo com tão boa vontade, que Vitorino não
lhe era mais o homem infeliz, o pobre bobo, o sem-vergonha, o vagabundo que
tanto lhe desagradava. Vitorino apeou.se para falar do ataque ao Pilar. Não
era amigo de Quinca Napoleão. Achava que aquele bicho vivia de roubar o povo,
mas não aprovava o que o Capitão fizera com a Dona Inês.
— Meu compadre,
uma mulher como a Dona Inês é para ser respeitada.
— E o Capitão
desrespeitou a velha, compadre?
— Eu não estava
lá. Mas me disseram que botou o rifle em cima dela para fazer medo, para ver
se Dona Inês lhe dava a chave do cofre. Ela não deu. José Medeiros, que é
homem, borrou-se todo quando lhe entrou um cangaceiro no estabelecimento.
Me disseram que o safado chorava como bezerro desmamado. Este cachorro anda
agora com o fogo da força da polícia fazendo o diabo com o povo.
Ouviu-se a voz
de Passarinho cantando na cozinha.
— Este negro
está aqui?
— E, está me
fazendo companhia.
— Como é que
se tem um negro deste dentro de casa, meu compadre? E o mesmo que morar com
um porco.
— O pobre tem
me ajudado muito. Sinhá me abandonou aqui sozinho e se não fosse ele nem sei
como me aguentava.
— Compadre, eu
não lhe quero dizer coisa nenhuma. Mas mulher só anda mesmo no chicote. Isto
de tratar mulher a vela de libra não é comigo. A minha me adivinha os pensamentos.
— E preciso paciência,
é preciso ter calma.
Que calma. Comigo é no duro.
Apareceu José Passarinho,
que vendo o capitão Vitorino se chegou todo cheio de mesuras.
— Bom dia, Capitão.
Vitorino rosnou um bom dia
de favor. E o negro, sem dar pela coisa, se dirigiu ao velho:
— Capitão, tem
aí um cigarro para o negro?
— Não tenho cigarro
para vagabundo.
— Um cigarrinho.
Capitão.
Então Vitorino,
metendo a mão no bolso:
— Toma lá, isto
me deu um filho de filho de Anísio Borges que chegou dos estudos; é fumo da
Bahia, é muito fraco. E passou para Passarinho um maço quase cheio de cigarros.
— Este Capitão
veio do céu.”
Destaca-se a
habilidade do autor em estruturar as seqüências narrativas, entrelaçando
as ações dos personagens em todas as partes e fixando a decadência econômica
do Engenho de Santa Fé juntamente com a decadência da própria vida das famílias,
que lá moram.
E como critério
de aproximação das falas do narrador e da personagem, o autor serve-se muitas
vezes do DISCURSO INDIRETO LIVRE.
“A filha continuava
chorando como se fosse uma menina. O que era que tinha aquela moça de trinta
anos? Por que chorava sem que lhe batessem? (. . .) Por que chorava
daquele jeito? (. . .) Sinhá tinha culpa de tudo” (pág. 8/9)
Fogo Morto
é dominado pelos diálogos, embora sua narração seja de 3ª pessoa. Isso faz
com que, em vez de uma história, o livre pareça antes um drama, em que os
personagens parecem agir e falar por conta própria. Através de Vitorino o
autor mostra, serve-se do destemor dos loucos.
“— E preciso
paciência, é preciso ter calma.
— Que calma.
Comigo é no duro.
Vitorino rosnou
um bom-dia de favor.”
De modo semelhante,
as mudanças de posição, entrada e saída de personagens, não alteram substancialmente
o cenário. Daí a vocação teatral desse romance, que poderia ser encenado com
poucas alterações de palco. Depois, é um drama enxuto: tudo converge para
o núcleo do enredo — oposição entre autoritarismo e Liberdade Individual.
Em inúmeras situações o narrador intervém muito pouco. (Sirva-se como exemplo
de 214-219).
Não poucas vezes
nota-se uma como que fuga, desvio, da narrativa, no entanto, é o clima poético
e romanesco integrantes do livro.
José Passarinho,
lá para dentro, cantava:
“Vá embora, dona/
Que eu não solto não; / Pois seu filho é ruim!
Matou muita gente
/ Lá no meu sertão, / Da minha justiça, / Não fez caso não.”
Era a história
de um cangaceiro por quem a mãe fora pedir clemência ao Presidente. Ela dava
tudo ao homem para soltar o filho, terra, dinheiro, uma mulata bonita. Tudo
ela dava pelo filho que ia morrer na forca. E tudo o homem recusou. As lágrimas
da mãe correram de escada abaixo e o Presidente, muito duro, tinha a sua justiça,
tinha a forca para o cangaceiro terrível. O MESTRE JOSE AMARO PAROU UM INSTANTE
PARA OUVIR O FIM DA HISTÓRIA.” (pág. 218).
CRITICA
1 — “Conta a
história da sua terra, ele nos põe diante dos olhos como documento autêntico,
toda a vida do Nordeste: o mandonismo do coronéis, o conflito dos patriarcas
rurais com os jovens bacharéis fracassados, a luta do progresso da industrialização
contra-o atraso feudal (a usina devorando o bangüê); o espetáculo dramático
do fanatismo popular, e as tropelias dos bandoleiros soltos a fazer justiça
corri as próprias mãos, truculentos e brutais; as intrigas miúdas da política
municipal, e por cima, e mais que tudo isso, o dom de uma infinita poesia
na paisagem, nas coisas, nas criaturas em tudo. (Peregrino Júnior).
2 — “A obra de
José Lias do Rego é ele mesmo. E profundamente triste. E uma epopéia da tristeza,
da tristeza da sua terra e da sua gente, da tristeza do Brasil. Há na sua
obra a consciência de que tudo está condenado a adoecer, a morrer e apodrecer.
Há certeza da decadência dos seus engenhos e dos seus avós, de toda essa gente
que produziu como último produto, o homem engraçado e triste que lhe erigiu
o momento. É grande literatura. É a consciência literária da casa-grande e
da senzala, dos senhores de engenho e dos pretos, dos bacharéis e dos moleques,
de todo um mundo agonizante.” (Otto Maria Carpeaux).
3 — Fogo Morto — Peça
teatral — Apreciada pelo próprio romancista
Em setembro
de 1955, figuras de teatro, dentre as quais se destacava José Carlos Cavalcanti
Borges, converteram em peça teatral o romance Fogo Morto, de José Lins do
Rego. O próprio autor, em registro de sua seção “Homens, coisas e letras”
em O Jornal, edição de 16 de setembro daquele ano, confessa curiosamente a
impressão que lhe causou a encenação de Fogo Morto:
Fui ver em São
Paulo, levada por um grupo de amadores, a adaptação que fêz, para o teatro,
José Carlos Cavalcanti Borges, de meu romance Fogo Morto. E a impressão que
me deixou o esforço e a coragem dos jovens amadores paulistas foi a melhor.
Para uma sala cheia o drama de Luís de Holanda Chacon, o Seu Lula, chegou
a me empolgar. A doença e o orgulho se encontraram na obsessão pela grandeza
defunta. José Carlos conseguiu exprimir em diálogos e monólogos a decadência
da família rural destruída pela soberba de um homem no fim de raça. A doença
deu a Seu Lula um tom lúgubre de raciocínio. Tudo para ele se resumia na filha
que ia se consumindo na esterilidade de uma vida reclusa. O mundo lá fora
não existia para o pai que sonhava com um príncipe para entregar a sua filha.
Tudo que não fôsse a medida de seu sonho era uma vergonha. assim o drama cresce
em poesia pungente. A figura da mãe sacrificada é uma imagem da dor concentrada
nas humilhações da pobreza. A presença de Vitorino Carneiro da Cunha dá à
adaptação de José Carlos um triste cômico de teatro espanhol. Vitorino se
espalha com a sua loucura como um verdadeiro pé-de-vento. O trágico e o cômico
se cruzam na sua personalidade em atitudes e gestos que nos emocionam. Vitorino
faz rir e chorar como um chapliniano autêntico. Dou parabéns a José Carlos
Cavalcanti Borges. O que ele sentiu de meu livro é bem o comentário doloroso
de um fim de época. Há muito de Pernambuco dos últimos senhores arrebatados
na vigorosa interpretação de seu drama. Eu mesmo que imaginei os personagens
me deixei surpreender pelos achados do escritor que soube arrancar das minhas
pobres almas as suas terríveis particularidades.