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Em Liberdade
(Silviano Santiago )
Estudo do professor Delson Gonçalves Ferreira Autor

O mineiro Silviano Santiago nasceu em Formiga, 1936. É professor poeta e ensaísta. Defendeu tese sobre André Gide, na Sorbonne. Aí se doutorou. É um erudito. Ensina mestre Aurélio:

“Erudito: que tem erudição”.

“Erudição: instrução vasta e variada adquirida sobretudo pela leitura”.

Lecionou na Universidade de Rutgers (Nova Jersey – U.S.A) em 1965. É professor de Literatura Brasileira na PUC do Rio.

Obra

1.      4 Poetas – Caderno de Cultura – UMG – n.1 – 1960 – É uma antologia de estreantes: Affonso Romano de Sant’Anna, Teresinha Alves Pereira, Silviano Santiago e Domingos Mouchon. Há, no livro, sete poemas seus. O Prefaciador do volume (Fábio Lucas) tem razão quando afirma:

Silviano Santiago é marcado pela preocupação da arquitetura do poema. Todo o seu cuidado está em armar convencionalmente de seus trabalhos. Embora guarde certo parentesco com Affonso Romano, dele se distingue pelo objetivo: enquanto este procura, conforme dissemos, a coisificação da poesia, pode-se dizer que Silviano prefere a poetização das coisas. (IX).

2.      Crescendo durante a guerra numa província ultramarina – poesia.

3.      Uma literatura nos trópicos – ensaio

4.      Duas faces – contos – juntamente com Ivan Ângelo.

5.      O banquete – contos – “... se alinha entre os bons livros de contos brasileiros” (Fábio Lucas – Crítica sem Dogmas – pág. 152)

A Obra em Estudo

Em “Nota do Editor”, conta-se a história/estória dos originais do “Em Liberdade”. Os originais estiveram em mãos de um amigo de Graciliano. Apenas uma coisa pediu-me o legítimo dono dos originais: que seu nome não fosse revelado... Acatei o pedido... (13)

Neste “diário” tudo é real e tudo é fictício. Depois de longas pesquisas e vivências da obra de Graciliano Ramos, o ensaísta e poeta mineiro consegue escrever como o autor de “Vidas Secas”. Mete-se dentro dele e se torna um seu verdadeiro “alter-ego”. Não lhe basta vê-lo do exterior, penetra-o e se torna ele mesmo Graciliano Ramos, num ensaio de interpretação jamais tentado (Jacques de Prado Brandão – orelha do livro).

É um trabalho audacioso e original. Mas não deixa também de ser discutível. (E se a moda pega?) Vale, fundamentalmente, a epígrafe tomada de Otto Maria Carpeaux:

Vou construir o meu Graciliano Ramos (E construiu). Silviano construiu o seu e com perigosa perfeição.

O autor de “Angústia” foi preso em 3 de março de 1936, em Maceió: tempos já da ditadura getulista. Acusação: subversivo, comunista. Corria uma frase atribuída a Getúlio:

Nesse caso de comunismo, eu não mandei prender ninguém, mas também não mando soltar ninguém (87)

Tudo muito vago... Foi libertado no Rio, em 13 de janeiro de 1937. Dez meses e dez dias na prisão. (Ver “Memórias do Cárcere” que já virou também cinema, em filme de muito boa qualidade).

No dia 13 de janeiro de 1937, dez meses e dez dias após sua detenção, Graciliano Ramos é liberado. As primeiras sensações são de ansiedade: no portão do presídio, ele se preocupa em saber se a mulher trouxe dinheiro para o táxi. As impressões de liberdade são também de estranheza: aquele Rio de Janeiro, seu velho conhecido de 1914, desaparecera. Na cidade que rola devagar, Mestre Graça vai tentando reconhecer casas, ruas, monumentos, e é como se essas coisas também o observassem intrigadas, os dois lados a comprovar alteração recíproca.

Mestre Graciliano – Clara Ramos – Civilização Brasileira – Rio – 1979 – pág.115).

Sem projeto existencial e literário definido, hóspede, primeiro, de José Lins do Rego e, em seguida, de uma pensão do Catete, Graciliano escreveu este Diário  durante 2 meses e 13 dias... (“Invenção” de Silviano Santiago).

O diário começa em 14 de janeiro de 1937, um dia depois de sua libertação no Rio e termina em 26 de março do mesmo ano.

Até 14 de fevereiro ele está em casa do romancista de “Fogo Morto”.

Rio de Janeiro.

Residência do romancista José Lins do Rego.

Rua Alfredo Chaves – Largo dos  leões.

Em 15 de fevereiro muda-se para:

Rio de Janeiro.

Pensão de Dona Elvira

Rua Correia Dutra – Catete. (Ver Clara Ramos – ib. a partir da página 115

14 de janeiro de 1937

Graciliano se alonga no seu diário e fala do corpo envelhecido e cansado. (O cárcere o maltratara demais). Tem desejo de vida e passeia com Heloísa (sua mulher) pela praia de Ipanema. Sente os corpos jovens e sensuais de rapazes e moças. Tem sofreguidão,ânsia de viver. (40) Receita para a mulher alguns versos de Baudelaire, no original francês enquanto caminha à beira-mar.

Traduzo:

Vós, os dois, tenebrosos e discretos:

Homem, ninguém sondou o fundo dos teus abismos,

Ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas:

Tanto sois ciumentos em guardar vossos segredos.

E faz alguns comentários... E pensa em viver. É da morte que quero afastar-me, a tal ponto de não poder reconhecer mais os seus traços fisionômicos, o seu cheiro de miasmas e podridão (41,42)

Descobre o mar se compra a ele: o mar é a vida de seu corpo. O mar é. Eu sou. Não há adjetivos (42).

16 – janeiro – Relembra a saída do presídio e satisfeito ao encontrar Heloísa sozinha.

É acolhido por Zé Lins do Rego, um grande amigo. Sente-se preocupado com a vida: como sobreviver numa cidade como o Rio? Conta com o apoio e a direção de Heloísa. (Ela o chama por Gráci) (51)

De noite, de sono leve, os pesadelos vêm apavorá-lo. Comeu muito na véspera e acorda com cólicas e disenteria. (55) O corpo está fraco e doente. Lembra-se ainda da operação de 1932, da pena encrencada e coxa. (55)

18 – Janeiro –

Segunda-feira, de manhã. Fala de uma recepção de intelectuais que venha homenageá-lo. Não gosta que o  transformem numa inútil vítima, num mártir. Não quer saber da mística da dor. (60) Não queria ser cadáver ambulante, vítima e mártir, herói. (60)

Fica cansado e amolado de tantas visitas e curiosidades: ele agora é um bicho diferente... É um ex-preso que veio no Manaus para a Ilha Grande. Pensa na morte e na vida. O medo da morte é idêntico ao medo da vida (70)

Janeiro (Sem indicação do dia)

Reflete sobre o amor e o sexo. Tudo deve ser feito com paixão. (72) A paixão não conhece a fidelidade. Sente, porém, que o corpo está doente. Fala do vagabundo e sua marginalização dentro da sociedade... burguesa.(75)

21 – Janeiro

Zé Lins tem mania de comprar tudo que é jornal e revista. Ficam esparramados pela casa. (79) O diário fala da política: ascensão do integralismo de Plínio Salgado, a sucessão de Getúlio Vargas no governo, a propaganda às custas dos pobres. (O Natal para os pobres...)

Em conversa com Rubem Braga, este critica o “Mar Morto” de Jorge Amado. Considera-o “A poetização da vida miserável”. (87)

(Graciliano se queixa de cansaço, principalmente pelo esforço de escrever seu diário. Exagera, quando escreve, na aguardente e no cigarro: marca Selma). (88).

Pensa em sexo, nas moças de Ipanema e em  Heloísa. E sente e seu pobre corpo. (89).

Janeiro – (Sem indicação de dia)

Lê um artigo em Careta (oposição ao governo) sobre eleições e democracia. (91,92).

22 – Janeiro –

Longa descrição de um estado erótico diante de uma garota de seus 20 anos. (Ele tem 45 anos...) É uma excitação total. “Não me lembrava de ter tido semelhante reação sexual há muitos anos” (94)

A moça para, se identifica, é filha de um conhecido seu, a mãe é leitora e admiradora do romancista. Pede-lhe um exemplar de “Angústia”, autografado. E corre para os braços de um jovem que, mais adiante, a espera. (96)

25 – Janeiro –

“Heloísa embarcou hoje para Maceió”. (101) Graciliano vai ficar sozinho até o final do diário. Ela viajou para resolver problemas: a venda de um imóvel e o reencontro com os filhos (7) que ficaram espalhados quando da prisão do pai. (103) (Graciliano reflete sobre os filhos... (102) Gostaria de reuni-lo, todos, “dentro do mesmo curral”. (103) Vai ser impossível. (Nana, mulher de Zé Lins, toma a liberdade de comentar com ele o mau relacionamento dele com Heloísa...) Elogios às duas mulheres.(104)

(Belas páginas sobre as duas e, especialmente, sobre Heloísa. Belo diálogo com Nana. Aqui está mais um dos altos momentos do diário, inventado e tão real. Graciliano usa inteligência e sensibilidade para retratar a mulher, no seu ângulo).

29 – Janeiro –

Retrato elogioso, digno e sincero do amigo Zé Lins do rego. (113 Faz comparações de si mesmo (escritor, homem) com Zé Lins: são diferentes e como se estimam e respeitam. Idéias sobre o “fazer literário”, a “ars scribendi”. (155) O problema da língua, a sua mania de perfeccionismo... E uma paixão de Zé Lins: o futebol. E um fanático pelo Flamengo. Nana dizia: Leônidas é um ídolo maior do que Dostoiesvski nesta casa”. (121) “Perguntei um dia se ia trabalhar àquela hora: respondeu-me que ia assistir a um treino do Flamengo” (121)

Vira e mexe, Heloísa está presente. (124)

1º de fevereiro – Segunda-feira

Existe alguma lógica  na escolha dos sucessivos assuntos que trato neste diário? (125) (Não: os assuntos vão surgindo, ao acaso, e uns puxando os outros e alimentando as páginas do diário). Fala do seu diário e sobre “A terra dos Meninos Pelados” que vai concorrer a um prêmio do Mês. (128 – 135) No livro procurou evitar três armadilha:

nada de tom piegas ou sentimental; nenhuma referência concreta ao chamado mundo real (é um conto “maravilhoso”); nenhuma distinção precisa entre crianças e adultos. (136)

Ida ao Ministério da Educação onde encontra um auxiliar do Ministro Capanema de quem elogiam o caráter e a poesia. “Seu nome escapa-me. Magro, taciturno, tímido e falante ao mesmo tempo, trocamos muitas palavras dentro de uma sucessão de mal entendidos mútuos”. (130) (Lembro, a Graciliano -, o nome do tal mineiro: Carlos Drummond de Andrade...)

3 – fevereiro

Carnaval: as músicas, a barulheira, os rádios, as festas... E o comércio em tudo.

Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se comercializa. (137) Saindo à rua, alguém lhe surrupia...quase vazia. Compõe o episódio e conclui:

Tinha sobrevivido à sanha feroz dos maiores gatunos e marginais do Brasil na Ilha Grande e sucumbi-me diante da esperteza de três punguistas de merda...(139)

Sem data (Fevereiro)

Murilo Miranda lhe comunica que “Angústia” ganhou o prêmio “Lima Barreto”, e lhe pede a lista dos dez melhores contos brasileiros. Ei-la:

“A causa secreta – Machado de Assis

Trio em lá menor – Machado de Assis.

O macaco que se fez homem – Monteiro Lobato.

O bebê de tarlatana rosa – João do Rio.

O homem que sabia javanês – Lima Barreto.

O Plebiscito – Arthur Azevedo.

Demônios – Aluísio Azevedo.

G.C.P.ª - Gatão Cruls.

O enterro de seu Ernesto – Rodrigo de Melo Franco.

Galinha Cega – João Alphonsus.”(141)

O diário comenta o assunto das mulheres na Academia Brasileira de Letras. O Malho ainda tinha feito um plebiscito sobre isso. (143)

10 – fevereiro – Quarta-feira de cinzas.

Lembrança: Sai da cadeia doente e pessimista.(145)

Dois espetáculos: o carnaval e a morte. (147) Escreve uma página interessante sobre a paixão. Carnaval e futebol, falsidades da democracia”... Os gordos e bem alimentados políticos só se aproximam do povo no dia de feriado. Ou no carnaval e no campo de futebol”.(149) As alegorias carnavalescas referentes ao tempo, à política.

12 – fevereiro

O bloco de papel acabou. Graciliano escreve semanalmente para Heloísa. (Ver Cartas e.c.) O escritor arranja lugar para morar: a pensão de D.Elvira, vizinha das irmãs Linda e Dircinha Batista, no Catete.(153)

14 – Domingo

Acabou o carnaval. As notícias, agora, mais em voga, falam do processo sucessório. Os candidatos são muitos. Getúlio manobra. Os jornais falam do livro de Gide: “Lê retour de 1’URSS”. O escritor francês critica a Rússia.(159)...

Muitos candidatos à sucessão de Getúlio: o mais certo: Getúlio. Vejam a propaganda destruída, nas ruas, naquela época.

Rio de Janeiro

Pensão de D. Elvira

Rua Correia Dutra – Catete.

15 – fevereiro

Já está (sozinho) na Pensão de D. Elvira. Deixou a hospedagem amiga de Zé Lins. É uma espelunca. (167) Descrição do quarto apertado.

Reflexões.

16 – fevereiro

Companhia de Vanderlino (?) um novo intelectual. (177) Escreve G.R. sobre o pintor Santa Rosa.(178 Os artistas atuais são profissionais: executam bem as tarefas contratadas. E vivem para ganhar os seus salários. Tem que ser assim. Silenciam a consciência, mas realizam um trabalho rendoso para o seu sustento e da família. É assim o tal profissionalismo.(181)

(9º aniversário de casamento. Escreve longa carta a Heloísa ausente. Ver Cartas – e.c.)

18 – fevereiro

Começa a receber trabalhos para sobreviver. (187) D. Elvira o chama de Brasiliano(188)

19 – fevereiro – Sexta-feira.

Reflexões em torno de uma caixa de fósforo e um maço de cigarros.(189)

26 – fevereiro

Convite de Zé Lins para uma visita a S.Paulo. A polícia continua acesa: sucessão. Getúlio fica de tocaia. Qual é o mais certo sucessor dele? Ele mesmo. (192)

Encontra-se com Manuel Bandeira e João Alphonsus.(194)

(Ás 10 da noite vai pegar a Central do Brasil, para S.Paulo).(195)

3 – março

Anotações sobre a viagem a S.Paulo: um fracasso “comercial”.(197) Importante: o sonho que teve em S.Paulo com Cláudio Manuel da Costa. Vila Rica de 1789. Inconfidência. Graciliano é Cláudio, faz o se papel. (200) A partir do sonho começa a estudar e a escrever sobre o personagem. Tanto ele como Cláudio estiveram presos. Identificam-se.

Discute a Inconfidência, dá-lhe sua interpretação, não aceita o suicídio de Cláudio.(203) Questiona a atitude de Tiradentes, assumindo sozinho, a culpa do movimento, virando bode expiratório. Cláudio conhecia bem todos os segredos dos moradores do Palácio. Era perigoso. Sabia demais. Por isso foi asfixiado.(205)

O que deseja Graciliano? “Escrever a sua vida como se fosse a minha...”(209) Muito interessante, embora discutível, essa leitura dos acontecimentos e dos personagens principalmente Cláudio e o Visconde de Barbacena. E de muitos outros... “por que Barbacena não assume a liderança do movimento de rebelião?”

8 – março

Continua a pensar na história de Cláudio.

12 – março

Cláudio. Sua morte, a Inconfidência.

13 – março

Missa pela alma de Cláudio: logo, ele não se suicidou. D contrário como é que a Igreja celebraria Missa por ele?

Graciliano chega ao fim de sua ficção, nascida de um sonho. Agora ele se encarna em Cláudio ou Cláudio nele. Luta pela liberdade. “Cláudio será Graciliano”.(234) (Este final é o momento mais alto de todo o diário).

26 – março

Fui buscar Heloísa hoje no cais. Veio com as nossas duas filhas menores. Não sei como vamos todos no exíguo quarto de pensão.(235)

Técnicas

1.      Como é próprio de um diário, o personagem-narrador usa a primeira pessoa em forma de autobiografia. No caso, para dar toda a historicidade desejada, há indicações de ano, mês e dias.

Tudo e todos giram em torno do eu: dele recebem a iluminação. O personagem-narrador é um sol ao redor do qual giram numerosos satélites. O que se tem é a visão através do autor. E ele não vê o mundo como o mundo é, mas como ele o sente.

2.      O autor da ficção (“Em liberdade, uma ficção...) conhece muito bem a obra e a vida de Graciliano. Imita o seu estilo com perfeição, “iludindo”, com facilidade, um leitor distraído e acostumado à leitura de Mestre Graciliano. A frase curta, seca um vocabulário poupado, certamente escolhido na própria obra “ausência” do escritor,o jogo das palavras, o talhe... tudo confere ao texto uma admirável parecença com o original, isto é, o estilo de o autor de “S. Bernardo”. (Seria curioso um teste de computador com o vocabulário de Silviano Santiago no “Em Liberdade” e o de Graciliano).

3.      Várias vezes, o sonho é um recurso não só para “engordar” o diário, mas para enriquece-lo. São montados com riqueza de conteúdo: carregam idéias e informações que constituem o grande patrimônio do escritor de Alagoas. O sonho final é o mais importante de todos: a personagem central é o inconfidente Cláudio Manuel da Costa.(199 até o final). Como se verá, ele constitui a parte mais importante de todo o diário.

4.      No diário, Graciliano Ramos expõe e discute algumas de suas idéias fundamentais: uma delas é a renegação das estruturas injustas e de sociedade burguesa. Por é que ele se sente, dentro desta sociedade, como um  desajustado, um  gauche. (E assim, na realidade, a vida inteira: um bicho de mato, em todo o seu sentido).

Através de suas reflexões, o leitor vai descobrindo a grandeza humana do personagem, o seu alto gabarito. Ele não se considera nem herói, nem mártir, mas um homem dentro da vida. Um homem com suas grandezas e fraquezas, um homem tout court como aparece no excelente livro de sua filha: “Mestre Graciliano” e.c. Com incomum dignidade, Clara Ramos, no seu livro, não faz a apologia do pai, mas a biografia do homem e do escritor. Seu livro vira um documento indispensável.

Linguagem

1.      A linguagem densa, enxuta e até mesmo seca do texto imita, bem, o  estilo de Graciliano. E ainda o gosto pela frase curta, cortada e cortante. Sendo assim, o texto do diário é primoroso pela sua correção, estrutura clássica e talhe estilístico, à  Graciliano Ramos.

“Certo é necessário o renovar a língua culta, não deixa-la parecer e mumificar-se nos alfarrábios, fixar nela os subsídios que a multidão lhe oferece. Não se conclui daí que devemos tartamudear em livros uma infeliz algaravia indigente, apenas compreensível quando percebemos a entoação e o gosto”. (Clara Ramos – ib.pág.208)

2.      Não há, no texto, recorrência de vocabulário regionalista. O que acontece mais na obra autêntica do escritor alagoano.

Conclusões

1.      “Este diário, inventado por Silviano Santiago, com um rigor do ponto-de-vista e fundado em pesquisa e na realidade factual, constitui uma das mais audaciosas aventuras intelectuais de nossa literatura” (Jacques do Prado Brandão – orelha do livro).

È inegável que Silviano Santiago criou, com perfeição e exatidão, uma obra de Graciliano Ramos: o conteúdo (os assuntos, o tema, as idéias, a ideologia...) e a forma (palavras, frases, estilo, talhe...) repetem, com extraordinária semelhança o grande autor de “Memórias do Cárcere”. Por fora e por dentro, a gente tem a impressão de ler Graciliano. O livro tem principalmente pelo final em que se discute a grande figura de Cláudio Manuel da Costa, seus ideais, sua morte...enorme força de empolgação: marca o leitor, fere sua sensibilidade, sacode, torna-se lição e até, quem sabe, modelo.

Mas agora fica uma pergunta: “mas além dos livros memorialísticos de Graciliano Ramos (Infância, Viagem, Memórias do Cárcere) haveria necessidade de alguém inventar outras memórias?” Não seria melhor outras técnicas e outros caminhos para  aprofundar o estudo e o conhecimento desse grande escritor? O que acrescenta ao pensamento de Graciliano a “invenção” (tão talentosa e por isso mesmo, perigosa) de Silviano Santiago?

(O truque do manuscrito perdido e achado é velho: só para exemplificar: Machado faz o mesmo no seu excelente conto “A Igreja do Diabo”. E recentemente, em âmbito internacional, no grande e cansativo, “O nome da Rosa”, de Umberto Eco...)

2.      O título corresponde ao livro: “Em Liberdade”: é a volta de Graciliano Ramos à convivência, libertado do pesadelo do Manaus e da Ilha Grande. (Muitos não ficaram para a vida toda marcados como ficou o grande escritor... Pode-se dizer que a prisão e os sofrimentos físicos e psicológicos e destruíram.) A liberdade cobra caro. Depois: ficção. Está aí, numa palavra, o que quis e fez o autor.

3.      É admirável a erudição, a sensibilidade e o talento de Silviano Santiago para ser capaz de criar o estilo, o vocabulário, a frase do autor de “Vidas Secas”. Sem desmerecer a força, a contenção, a beleza seca do original. (Chico Xavier, tão simpático e bom, psicografa prosadores e poetas. Mas, em geral, as obras psicografadas são muito inferiores às dos autores, escritas quando ainda vivos. Tive cuidado de comparar os poemas psicografados com os de Bilac em carne e osso; os psicografados são e bom, psicografa prosadores e poetas. Mas, em geral , as obras psicografadas são muito inferiores às dos autores, escritas quando vivos. Tive cuidado de comparar os poemas psicografados com os de Bilac em carne e osso; os psicografados são bem  inferiores. (Ver Parnaso de Além-Túmulo – Federação Espírita Brasileira – Rio – S.d.)

4.      O diário é um pouco cansativo. Graciliano não se interessa tanto em contar fatos, registrar impressões, dar notícias, mas discutir idéias, suas idéias. Escreveu um diário muito ideológico... Agradaria mais se o autor comentasse acontecimentos, retratasse pessoas, revelasse segredos, contasse casos...ás vezes (machadianamente)filosofia em torno de uma caixa de fósforos ou um maço de cigarros... o que causa monotonia.

5.      Há duas epígrafes fundamentais para o atendimento do diário: a primeira de Silviano Santiago, tirada de Carpeaux. Vale a pena repeti-la:

“Vou construir o meu Graciliano Ramos”. E construiu.

A segunda de Graciliano Ramos tirada de “Angústia”.

“Não sou um rato. Não quero ser um rato”.

Representa a dignidade, a coragem, a essência da própria mensagem humana do escritor, desse bicho do mato, que lutou até morrer para ser  e se manter Homem. Não se dobrou diante da ditadura, das perseguições, das injustiças, do forte. Até morrer não ficou sabendo por que foi preso nem por que foi solto. Cabe aqui um pequeno auto retrato de Graciliano, quando nos seus 56 anos.

“Nasceu em 1892, em Quebrangulho, Alagoas. Casado duas vezes, tem sete filhos.

Altura:1,75. Sapato. N. 41. Colarinho. 39. Prefere não andar. Não gosta de vizinhos. Detesta rádio, telefone e campainhas. Tem horror às pessoas que falam alto. Usa óculos. Meio calvo. Não tem preferência por nenhuma comida. Indiferente à musica. Não gosta de frutas nem de doces. Sua leitura predileta: a Bíblia. Escreveu Caetés com 34 anos de idade. Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados. Gosta de beber aguardente. É ateu. Indiferente à Academia. Odeia a burguesia. Adora crianças. Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queirós. Costa de palavrões escritos e falados. Deseja a morte do capitalismo. Escreveu seus livros pela manhã. Fuma cigarros “Selma” (três maços por dia). É inspetor de ensino, trabalha no “Correio da Manhã”. Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo. Só tem cinco ternos de roupa, estragados. Refaz seus romances várias vezes. Esteve preso duas vezes. É-lhe indiferente estar preso ou solto. Escreve à mão. Seus maiores amigos: Capitão Lobo. (Oficial comandante do quartel em que esteve preso, em 1936, no Recife). Cubano (Ladrão que o escritor conheceu na prisão). José Lins do Rego e José Olympio. Tem poucas dívidas. Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas. Espera morrer com 57 anos”. (Cartas – MPM – Comunicações – Rio – 1980 – Orelha do livro).

6.      O livro vai terminando... A partir do sonho que teve com Cláudio Manuel da Costa, Silviano Santiago cria a parte mais fascinante do diário. Aí se discute com sensibilidade poética, inteligência e paixão a figura do grande inconfidente, morto na prisão. Graciliano faz uma outra leitura dos relatos documentos, oficiais ou não, sobre a inconfidência. É claro que  a leitura é discutível. Mas é sedutora. (A erudição desse texto, parece-me não condiz com a limitações de Graciliano Ramos no assunto: o que ele sabia sobre Minas e sua Inconfidência de 1789?)

7.      Nesse final, perde-se até a secura do estilo do grande escritor e domina o linguagem poética, a visão poética (isto é, recriadora) de Silviano. É o que há de melhor e mais grandioso em todo o diário.

Crítica

Trabalho feito com inteligência e sensibilidade; com largo e profundo conhecimento da vida, obra e estilo de Graciliano Ramos. Impressiona o leitor que conhece Graciliano, a admirável imitação de Silviano. Terá sido intenção do criador do diário discutir idéias e revelar pontos-de-vista de Graciliano? Sobre o homem, a sociedade, a vida, o amor, a morte, o estar-no-mundo?

O risco do trabalho foi muito grande: Silviano saiu vitorioso.

Escapou das ridículas imitações que andaram por aí (estavam na moda) do estilo do grande Guimarães Rosa.

Recomenda-se a leitura desse texto, principalmente, a quem conhece bem a obra e a vida do alagoano.

Ficha

I.                   Em Liberdade – Ficção de Silviano Santiago. Nas introduções se conta a estória desse diário (inventado). É um truque velho. Engana o leitor...distraído.

II.                 Gênero Literário

Épico. Diário ( inventado) é como as memórias. Relatos dos acontecimentos, dia a dia. Predomina a narração no meio de reflexões e discussão de idéias. Autobiografia: 1ª pessoa: personagem-narrador.

III.              Estilo de época

(Pós) modernismo. A língua, a visão, os problemas do nosso tempo. Estilo correto, clássico, trabalhado com esmero. Limita bem Graciliano Ramos.

In Estudo das Obras – Vestibulares 86 – UFMG – Editora O Lutador – Belo Horizonte - MG




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