De volta à Casa Verde
(Walter Rossignoli *
)
Através de O Mistério da Casa Verde, que tem a assinatura de
Moacyr Scliar, a série Descobrindo os Clássicos, da editora Ática,
oferece ao jovem leitor brasileiro a oportunidade de um primeiro contato com
o célebre conto O Alienista, do genial Machado de Assis.
O autor gaúcho, em linguagem adequada à juventude, mostra, em
pleno final do século XX, um grupo de jovens à procura de um local
para se divertir, na ainda pacata Itaguaí, a mesma cidade que foi palco
do famoso conto machadiano.
Arturzinho, o líder, entende que deviam fazer seu clube exatamente na
Casa Verde, aquela em que morreu Simão Bacamarte, estudando a própria
loucura. A casa tinha fama de mal-assombrada não faltando “quem
garantisse ter ouvido ali, à noite, gritos e gemidos”.
Os jovens perfuram a parede e se defrontam com o alienista, em carne e osso.
Começa o mistério. Quem seria aquele homem assustador, trajado
à antiga, na sala igualmente antiga do “director”?
O narrador de O Mistério da Casa Verde, valendo-se de vacabulário
e estruturas sintáticas captáveis facilmente pelo público-alvo,
vai atraindo seu leitor para uma história que os mais antigos entendiam
concluída e eternizada na pena de Machado de Assis. Privilegiando o discurso
direto, a obra flagra os jovens falando um português simples,com leves
marcas de oralidade, como nessa passagem em que se emprega o verbo ter em sentido
existencial: “- (...) Tem uma multidão na frente da Casa Verde.“
Arturzinho, em contrapartida, chega a usar “virem”, futuro de subjuntivo
de ver, e Lúcia, referindo-se ao pai, diz que Ana “cuidava dele,
alimentava-o, vestia-o”. Trata-se de registros incomuns na fala dos jovens.
Mas é sempre uma oportunidade para que os educadores se valham do texto
literário em discussões sobre os usos da língua.
Léo, o intelectual da turma, dirige o grupo à professora Isaura,
que resume a obra machadiana e a interpreta, muito habilmente, também
como uma sátira política, haja vista a figura do revolucionário
Porfírio, que, assumindo o governo de Itaguaí, procura uma conciliação
com o poder científico representado por Bacamarte.
Coerente com a proposta editorial de descoberta dos clássicos, o personagem
André, que nem gostava muito de leitura, fica interessado em se embrenhar
no mundo machadiano.
Assim, também os leitores da obra vamos querer conhecer mais a respeito
de Simão Bacamarte, o bisavô daquele personagem misterioso, que
assustou tanto nossos heróis juvenis.
E, do possível confronto entre as obras, talvez aflore uma dúvida
no jovem leitor: os personagens de O Alienista viveram em que século?
A narrativa denuncia que a história dos “loucos” de Itaguaí
se passou no século XVIII. As referências ao rei D. João
V e ao marquês de Pombal são provas incontestes disso. Martim Brito,
por exemplo, um rapaz de vinte de cinco anos, que foi trancafiado na Casa Verde
durante o terror, compôs certa feita uma ode à queda do marquês
de Pombal, ministro português de 1750 a 1777.
Na obra de Scliar, entretanto, refere-se a Simão como alguém do
século XIX: “- Foi um choque, Arturzinho. Um choque. Nos guardados
da família ele tinha arranjado aquela roupa do século passado,
e estava lá, sentado numa cadeira velha, à luz de uma vela, naquele
lugar imundo...”
O narrador de O Alienista, ancorado em antigas crônicas, não fixa
datas da “epopéia” cientificista de Bacamarte, mas, como
se disse, deixa valiosas pistas. Assim, Porfírio, no comando dos revoltosos,
refere-se à Casa Verde como “Bastilha da razão humana”,
numa referência à Revolução Francesa de 1789. Porfírio
assume, é deposto, chegam as tropas do vice-rei e se restabelece a ordem
em Itaguaí. Uma torrente de loucos é então confinada na
Casa Verde, não ficando muito bem delimitado o espaço de tempo
em que isso ocorreu. Um dia a população se assombra com a soltura
dos loucos e a mudança da teoria científica. Daí para frente,
até a morte do alienista, o leitor atento vai perceber um intervalo de
aproximadamente três anos. Poder-se-ia conjeturar que os fatos narrados
por Machado de Assis cheguem mesmo ao início do século XIX, tendo
em vista a referência aos vice-reis. Como se sabe, o último deles
governou o Brasil em 1808.
Mesmo assim considerando, o parentesco entre Simão e Jorge (o alienista
de O Mistério da Casa Verde) parece próximo demais. Jorge, personagem
do final do século XX,de um tempo em que os jovens já ouvem CD,
seria bisneto de alguém nascido no final do século XVIII ou na
primeira década do século XIX?
Esse pequeno senão, salvo melhor juízo, compromete levemente a
verossimilhança de O Mistério, mas não invalida, por certo,
seu grande mérito de fomentar o diálogo com um clássico
de nossas letras. E isso o autor o faz com brilhantismo, levando os jovens a
se interessaram pelo inesgotável universo machadiano.
* Walter Rossignoli é licenciado em Letras; é autor de “Português;
teoria e prática”, pela editora Ática.