BOM-CRIOULO
(Adolfo Caminho
) 1. CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL
Na segunda metade do século XIX, a Revolução Francesa já estava consolidada e a burguesia fortalecida enquanto classe social vitoriosa. Se no período de contestação ela se sentiu bem no ideário romântico, agora abandonará gradativamente os mitos revolucionários, idealistas, contestadores, em função de sua nova condição de classe dominante. Seus mitos serão a ciência e a razão, idéias do Estado governante, o Estado burguês, amparado na ordem, na produção industrial, na balança comercial positiva, enfim, na própria gestão da vida coletiva. O Romantismo, portanto, vai saindo da moda, cedendo lugar a uma concepção científica e materialista. A ciência assume importância cada vez maior, sendo vista na época como o único instrumento seguro para explicar a realidade e também gerar riquezas. O espírito científico era considerado como critério supremo na concepção e análise da realidade. Desse modo, será a ciência que determinará as novas maneiras de pensar e viver.
Em 1859, Darwin publica A Origem das Espécies. Nessa obra, a evolução das espécies é considerada como o resultado do mecanismo de seleção natural. A idéia básica de tal mecanismo é a de que o meio ambiente condiciona todos os seres, deixando sobreviver os mais fortes, eliminando os mais fracos. A natureza de todos os seres, o homem inclusive, seria determinada por circunstâncias externas. O meio ambiente passa a ter enorme importância pois condiciona matéria e espírito. Essa concepção biológica de vida, chamada darwinismo, seria responsável por grandes mudanças no campo científico, repercutindo na economia, na filosofia e na política.
O positivismo, corrente filosófica criada por Augusto Comte e baseada no método das ciências naturais, traduziu essa visão de mundo, pois se concentrava nos fatos, rejeitando qualquer explicação metafísica para a atuação do homem no mundo, além de propagar a idéia de que apenas o progresso material já seria suficiente para neutralizar os desequilíbrios sociais.
Baseado nas idéias de Comte, Taine expõe a teoria determinista da obra de arte, reduzindo a seu campo de interpretação à compreensão do meio, da raça e do momento histórico em que foi produzida.
A psicologia também apresenta mudanças, subordinando os fenômenos psíquicos aos fisiológicos, estes sim considerados de grande importância, por serem observáveis e analisáveis.
No plano econômico, nota-se acentuado interesse pelo liberalismo da época anterior. Politicamente, defendem-se idéias republicanas e socialistas. A Revolução Industrial, iniciada no séc. XVIII, entra numa fase caracterizada pela utilização do aço, do petróleo e da eletricidade. Como principal conseqüência, a massa operária avoluma-se, formando uma população marginalizada e que não partilha os benefícios gerados pelo progresso industrial, mas, pelo contrário, é explorada e sujeita a condições subumanas de trabalho. Nesse contexto, surge o socialismo científico de Marx e Engels, a partir da publicação, em 1848, do Manifesto Comunista, que define o materialismo histórico e a luta de classes.
Há, ainda, as idéias filosóficas de Schopenhauer, pensador alemão, que, sem negar a Ciência, considera de modo bastante pessimista que o homem, submetido a determinismos morais, é por natureza fadado à dor e ao sofrimento, de modo que o mundo constitui um imenso palco de mentirosas ilusões e que a pouca alegria conseguida resulta de um esforço doloroso que logo a destrói.
Ou seja, a ciência, que tinha conseguido revelar as leis naturais, extremamente objetivas, suplanta o idealismo do período romântico, formulando uma concepção predominantemente materialista da vida.
No Brasil, na segunda metade do século XIX, houve dois movimentos de idéias que sacudiram o país e tiveram grande efeito, tanto na vida mental quanto na social: a divulgação dessas novas correntes européias de pensamento e o Abolicionismo. A extinção do tráfico negreiro em 1850 acelera a decadência da economia cafeeira; o deslocamento do eixo de prestígio para o Sul e os anseios das classes médias urbanas compunham um quadro novo para a nação, propicio ao fermento de idéias liberais, abolicionistas e republicanas. Desse modo, durante esse período, assistimos à transição de uma sociedade tipicamente agrária, latifundiária, escravocrata e aristocrática para uma sociedade burguesa e urbana.
Esse quadro histórico-cultural, predominante sobretudo entre 1870 e 1890, favoreceu o surgimento de teses revolucionárias adotadas pela inteligência nacional, cada vez mais permeável ao pensamento europeu que na época se girava em torno da filosofia positivista e do evolucionismo. Dois foram os grandes centros irradiadores dessas idéias: as escolas, fundadas em 1827, de São Paulo e Olinda, sendo esta transferida para Recife em 1854. A Escola de Recife, da qual Adolfo Caminha fazia parte, foi um vigoroso centro de agitação intelectual.
Todo esse quadro cultural, aqui apenas esboçado, serviu de base para as doutrinas realista e naturalista e, portanto, para as obras que foram escritas com o intuito de experimentá-las e realizá-las em arte.
2. O NATURALISMO
O Realismo-Naturalismo, estilos predominantes nesse período da segunda metade do século XIX, participaram do mesmo espírito de precisão, objetividade científica, da exatidão na descrição, de apelo à minúcia, de culto ao fato, de rigor e economia na linguagem, de amor à forma. O artista desse momento histórico procura nivelar sua atitude à do cientista; daí decorre a objetividade que o escritor procura manter durante toda sua narrativa, não idealizando a realidade, mas limitando-se a registrá-la, o que nem sempre consegue. Por isso o artista não emite julgamentos a respeito dos fatos e personagens. Essa pretensa neutralidade não chega ao ponto de ocultar o fato de que o autor carrega sempre nos tons sombrios o destino de suas criaturas.
Mais ainda, o romance será um instrumento de denúncia e combate, uma vez que focaliza os desequilíbrios sociais. E o que se chama de “arte engajada”. Na França, país onde se originou o Realismo, a obra que dá início ao movimento é o romance de Gustave Flaubert Madame Bovary, publicado em 1857, que consiste em uma análise impiedosa da hipocrisia romântica e burguesa. Esse romance é uma obra que exemplifica claramente as intenções do romance realista: análise social, crítica a tudo que decorre ou assemelha-se ao Romantismo, focalizando a vida urbana contemporânea.
Dez anos depois, Émile Zola publica Thèrése Raquin, obra que dá início ao Naturalismo, espécie de seguimento do Realismo. No Brasil, como os escritores receberam influência dos franceses, os dois movimentos não surgiram tão espaçados, mas bem próximos. O Realismo tem como marco a publicação, em 1880, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; e o Naturalismo, a publicação, em 1881, apenas um anos depois, de O Mulato, de Aluísio de Azevedo.
O Naturalismo, na verdade, acentua as qualidades do Realismo, acrescentando uma concepção da vida compreendida como intercurso de forças mecânicas sobre os indivíduos, resultando os atos, o caráter, o destino destes da atuação da hereditariedade e do ambiente.
O autor naturalista, com sua preocupação científica, influenciado por Taine e mesmo por Claude Bernard que publicou em 1965 o livro Introdução ao Estudo da Medicina Experimental, declara-se de interesses amplos e universais, nada é desprovido de importância e significado como assunto: nada que esteja na natureza é indigno da literatura. Essa universalidade e fidelidade ao fato, a todos os fatos, conduz o naturalista a certo amoralismo, certa indiferença. Não importa a opinião sobre os fatos, mas os atos em si. Tal atitude propiciou a introdução de todos os assuntos e atividades do homem, inclusive os aspectos bestiais e repulsivos da vida, dando preferência às camadas mais baixas da sociedade.
Assim, há uma tendência, por parte do autor naturalista, em perscrutar o anormal, o excepcional, beirando o caso patológico. Dessa atitude decorre a tendência do naturalista para enfatizar atitudes instintivas das personagens: o homem é visto como um animal condicionado por forças que determinam o seu comportamento. Por isso, as personagens dos romances naturalistas têm um comportamento que resulta da liberação dos instintos, sob determinadas condições do meio ambiente. A hereditariedade física e psicológica das personagens conduz sua ação. A vida interior é reduzida a quase nada, uma vez que o escritor tenta utilizar métodos científicos de observação e análise.
Enquanto o drama das personagens realistas tem origem moral ou decorre de algum desequilíbrio social, as personagens naturalistas têm a origem de seus dramas em heranças de ordem biológica ou psicológica que, num determinado momento, em determinado ambiente, acabam por vir à tona. Por isso, uma personagem naturalista é muito parecida com outra personagem naturalista, uma vez que todas estão submetidas às mesmas leis.
Para os naturalistas, a ação no romance é importante, pois o drama vivido pelas personagens se exterioriza através dessa ação. Para o realista, a ação é secundária, já que ele se preocupa mais em sugerir o mundo interior das personagens.
Quanto à temática, observa-se nos naturalistas uma tendência para retratar temas de patologia sexual ou social, exatamente como estudaremos no romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha.
3. AUTOR: VIDA E OBRA
Aracati, Ceará — 1867
Rio de Janeiro — 1897
Adolfo Ferreira Caminha nasceu em Aracati, província do Ceará, em 29 de maio de 1867. Seus pais, Raimundo Ferreira dos Santos Caminha e D. Maria Firmina Caminha, eram primos e negociantes, e Caminha foi o primogênito de uma prole de cinco irmãos. Aos dez anos, perde a mãe, vítima da grande seca de 1877. Transferido para Fortaleza, estuda as primeiras letras em casa de parentes. Mais tarde, aos treze anos de idade, vai para o Rio de Janeiro, onde é acolhido por seu tio-avô, que se encarrega de sua educação, matriculando-o, afinal, na antiga Escola da Marinha.
Datam da época de estudante as primeiras composições em prosa e em verso, publicadas na Fênix Literária, que corria nas mãos de seus colegas. Logo que termina o curso na Escola de Marinha, publica, na Gazeta de Notícias, o conto “A Chibata”, denunciando publicamente o castigo físico em vigor entre os homens da Marinha. Estreava, assim, no jornalismo com um escrito que causava surpresa e indignação entre seus superiores. Em 1885, toma-se guarda-marinha, e, no ano seguinte, faz uma viagem de instrução a bordo do Almirante Barroso, conhecendo então as principais capitais das Antilhas e várias cidades dos Estados Unidos. Essa viagem inspira-lhe a obra no País dos Ianques, publicada inicialmente em folhetins no Diário do Ceará e depois em livro. Já em 1886 publica também o livro de poesia Vôos Incertos e em 1887 os contos Judith e Lágrimas de um Crente.
De volta, serve em diversos navios da Armada, na Guanabara, e em fins de 1888 vai servir no Ceará, junto à Escola de Aprendizes Marinheiros.
Por essa época, a Escola do Recife era um importante centro irradiador das principais idéias em vigor na segunda metade do século XIX: cientificismo, republicanismo, abolicionismo, anticlericalismo, materialismo, entre outras. Caminha, então com vinte e um anos, já em Fortaleza, participa ativamente da vida intelectual local, aderindo a esses novos ideais, sendo inclusive membro fundador do Centro Republicano Cearense. No entanto, envolve-se num caso passional, trazendo para si muitas complicações. A mulher era Isabel Jataí de Paula Barros, casada com um companheiro de farda de Caminha. Freqüentemente são vistos juntos lado a lado, trocando sorrisos e palavras nas ruas de Fortaleza. O ambiente toma-se tenso entre seus colegas de farda e entre os membros da sociedade cearense. Solicita, então, uma licença de suas atividades navais. É chamado ao Rio de Janeiro pelo ministro da Marinha que reprova sua conduta. Em junho de 1889, entra em gozo de licença e volta para o Ceará para viver com Isabel. Transfere-se com sua mulher para o Outeiro, lugar mais distante, nas cercanias de Fortaleza.
No entanto, novamente é chamado pelo ministro da Marinha e, dessa vez, o caso se resolve pela maneira mais dramática: na iminência de ser mandado para a Europa, nega-se a partir e, em 15 de fevereiro de 1890, é oficialmente desligado da Armada, com a publicação do decreto que concedia sua demissão.
No Ceará, junto de sua mulher, Caminha consegue ainda modesto emprego de escriturário do Tesouro Nacional, permanecendo ai até fins de 1892, sempre cercado de hostilidade do meio social de sua terra, ao qual ele respondia com altivez, isolando-se e entregando-se a uma crescente misantropia. Esse tempo que morou no Ceará foi o mais produtivo. Resolve lutar contra a apatia reinante no meio literário e lança, em janeiro de 1891, a Revista Moderna, na qual mantém a seção “Notas e impressões”, fazendo crítica das obras recebidas e dos acontecimentos sociais locais. Com outros intelectuais, funda a Padaria Espiritual, cuja primeira sessão se realizou no Café Java, na praça do Ferreira. Numa das sessões, em maio de 1892, Adolfo Caminha leu o primeiro capítulo de A Normalista a seus companheiros. Passa a colaborar no jornal O Norte. Tuberculoso e com dificuldades financeiras, transfere-se para o Rio de Janeiro, intensificando sua atividade jornalística e levando consigo os originais de dois livros: A Normalista e No País dos Ianques.
No Rio de Janeiro, inicia a carreira de romancista com a publicação de A Normalista, aos vinte e cinco anos, filiando-se à estética naturalista, da qual nunca mais se separaria.
No dia 1º de janeiro de 1897, com trinta anos incompletos, morria Adolfo Ferre ira Caminha. Seu enterro foi simples e pobre, no cemitério São Francisco Xavier.
Obra
A obra de Adolfo Caminha está muito calcada em suas experiências pessoais, vividas. No País dos Ianques é um livro de viagens em que descreve a vida e o aspecto de algumas cidades que teve a oportunidade de conhecer durante sua viagem de instrução a bordo do “Almirante Barroso”.
Nesse livro, discorre mais longamente sobre Nova Orleans e a Exposição Internacional Americana que se realizou nessa cidade.
Adolfo Caminha escreveu, pela ordem, três romances: A Normalista, Bom-Crioulo e Tentação; e, sem dúvida, podemos dizer que foi como romancista que Adolfo Caminha mais se projetou na literatura brasileira. Os dois primeiros romances filiam-se à escola naturalista, sobretudo por evidenciarem a crença na fatalidade do meio e o gosto dos temas escabrosos.
A Normalista busca retratar a vida cearense, abrangendo todos os níveis sociais, desde o povo até a aristocracia. O romance foi escrito em uma época em que Caminha se sentia humilhado e deslocado devido à sua união com Isabel Jataí de Paula Barros. O livro é um grito de revolta do autor contra o meio que o degrada e critica. Esse apego às suas próprias experiências afrouxa sua obra, produzindo passagens inconsistentes.
O Bom-Crioulo não padece das inverosimilhanças de A Normalista. Mais denso e enxuto, apresenta um ótimo retrata da vida de marinheiros durante a 2ª metade do século XIX, no Rio de Janeiro. A personagem principal, o mulato Amaro, é bastante coerente em sua passionalidade. Vários episódios do romance também refletem a própria vivência do autor a bordo de navios, registrando a aspereza da vida no mar, da brutalidade dos castigos corporais, já denunciados por Caminha em seu tempo de estudante.
Por fim, Tentação, que pretende ser um romance sobre os costumes burgueses, é fraco pela falta de densidade. Como que pretendendo retratar-se do que fizera em A Normalista, Adolfo Caminha elogia no romance a província. Serve-se, para tanto, de um casal de cearenses, Adelaide e Evaristo, que vão ao Rio de Janeiro e só encontram falsidade e hipocrisia. Mais uma vez, busca em suas experiência de cearense que vai residir no Rio de Janeiro a matéria de sua história.
No campo da critica, produz Cartas Literárias, publicadas inicialmente na Gazeta de Noticias e, em 1895, em livro, que se vincula à critica de fundo taineano.
Alguns registros apontam para dois projetos de romances: Angelo (episódio colonial) e O Emigrado; ambos nunca publicados.
Romances:
Vôos Incertos (1886); Judite e Lágrimas de um Crente (1887); A Normalista (1893); Bom-Crioulo (1895); Tentação (18%).
Viagem:
No País dos Ianques (1894).
Crítica Literária:
Cartas Literárias (1895).
4. BOM-CRIOULO
UMA HISTÓRIA PASSIONAL
Romance singular nos quadros estéticos da época e mesmo da literatura brasileira, esse livro de Adolfo Caminha, Bom-Crioulo, realça pela originalidade da situação dramática: dois marinheiros - Amaro, apelidado o Bom-Crioulo, um “latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre... com um formidável Sistema de músculos” e Aleixo “um belo marinheiro de olhos azuis” - brutalizados e solitários pela vida a bordo de um navio, afeiçoam-se e entretêm relações homossexuais. Ao desembarcarem na cidade do Rio de Janeiro, vão viver em um cômodo alugado por uma portuguesa, ex-prostituta, D. Carolina. Mas o idílio amoroso entre Amaro e Aleixo é interrompido pelo dever de voltar ao mar:
“Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o Outro: completavam-se /.../ Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio”. Os encontros passam, então, a se espaçar no tempo e Aleixo, longe do domínio do negro, é conquistado pela portuguesa, amasiando-se com Carolina. Amaro, longe de seu amante, passa a perder o controle sobre a própria vida. Seu corpo antes forte e vigoroso, passa a se tomar débil: é o sofrimento de amor. Após uma briga, seguida de punição no navio, é hospitalizado. Lá, fica sabendo que Aleixo vive com uma mulher. Roído de ciúmes, sentindo-se abandonado, Bom-Crioulo foge do hospital e assassina Aleixo.
Tempo e espaço: o mar e a Rua da Misericórdia
O romance se passa em dois espaços: no mar, a bordo de uma corveta, e na Rua da Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos fins do século XIX. Os dois lugares são descritos em seus aspectos mais degradantes e negativos, ressaltando a miséria daqueles que aí vivem. A preferência pelos seres das camadas mais baixas da sociedade reside na possibilidade de se analisar o que há de mais instintivo e bestial nessas personagens, cujas vidas, sem perspectivas, limitam-se a atos mecânicos como comer, dormir e procriar.
A abertura do romance se faz com uma detalhada descrição da corveta, local inicial da ação:
A velha e gloriosa corveta — que pena! — já nem sequer lembrava o mesmo navio d’outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como uma galera de lenda, branca e leve no mar alto; grimpando serena o corcovo das ondas!...
Estava outra, multo outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de patescaria” Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas té à primitiva pintura do bojo.
No entanto ela ai vinha — esquife agourento — singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela ai vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar...
Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia-se muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho..., e no alto, lá cima, o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Por meio dessa descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que ajudam a compor o ambiente externo, notamos como o autor naturalista se debruça sobre o meio que terá uni papel decisivo no comportamento das personagens, estando de acordo com as teorias deterministas em vigor na época, que consideram as circunstâncias externas como determinantes do comportamento do homem.
O ambiente de bordo é marcado pelo trabalho duro e por uma vida sem privacidade, o que possibilita a eclosão das mais diversas perversões:
O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda. espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento. /.../ No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente,
O ajuntamento de homens favorece a promiscuidade entre seres que vivenciam a solidão da reclusão da vida no mar e que, sobretudo, sentiam a falta de liberdade, vítimas de um sistema duro e cruel - a vida na Marinha:
Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição, passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! Vida, vida!... Escravo na fazenda, escravo a bordo, escravo em toda parte... E chamava-se a isso servir á Pátria!
Por esse trecho, pode-se notar uma crítica implícita a Abolição dos Escravos que parece não passar de uma ilusão, já que os homens provenientes das camadas mais baixas da população continuam a ser explorados.
Num segundo momento, a história se desloca para a terra, mais precisamente para um quarto na Rua da Misericórdia, onde Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no navio, vivem o ápice e o declínio de seu relacionamento:
O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau-caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo o dinheiro era para a compra de móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras, enfeites, cousas sem valor, muita vez trazidas de bordo.., pouco a pouco o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, búzios, grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma cama de vento” já muito usada, sobre a qual o Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as nódoas”.
Ao retratar o espaço urbano, Adolfo Caminha fala a respeito de um tipo de moradia muito comum no Rio de Janeiro, durante o final do século XIX: as habitações coletivas. Os habitantes dessas moradias eram brancos, mulatos e mestiços, sempre pessoas exploradas. Ao redor dessas habitações, há a presença de negociantes portugueses em ascensão, como o açougueiro que sustenta D. Carolina, e que se aproveitam, de algum modo, da miséria dessas pessoas.
Desse modo, o comportamento das personagens está condicionado pela pobreza do ambiente que as circunda e que, por sua vez, é decorrente do momento histórico por que passava o Brasil, durante o Segundo Reinado.
Um narrador onisciente e objetivo
As inúmeras descrições que aparecem no romance, condizentes com a estética naturalista que privilegia a observação meticulosa dos fatos, são feitas por um narrador onisciente de terceira pessoa que busca não se confundir com a história, nem com as personagens. Ele exige mesmo uma certa “distância” como se fosse um homem de ciência a trabalhar com seu objeto de pesquisa. Preso aos ideais do escritor naturalista — exatidão na descrição, apelo à minúcia e culto ao fato — o narrador conta a história de modo linear, gradativo, utilizando-se de uma linguagem clara, direta, objetiva, com poucos objetivos. O que será importante são os fatos narrados e não a opinião que se pode ter sobre eles. Não há, portanto, da parte desse narrador, qualquer julgamento moral das personagens.
A história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que vão montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.
Amaro: fortaleza física x fraqueza moral
As personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de alguma profundidade psicológica. Muito próximas dos tipos, também chamados de personagens planas, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmam as poucas características que as definem.
Não poderia ser diferente com o tipo de Amaro, o Bom-Crioulo, que até apresenta certa profundidade psicológica, mas que é totalmente envolvido por sentimentos e instintos que o dominam, impedindo-o de perceber com clareza a situação conflituosa que vive. Algumas vezes, surgem percepções esparsas, mas nada suficientemente forte para modificar o destino do negro, movido pela paixão.
Por um lado, Amaro é extremamente forte fisicamente. Sua força provém do trabalho escravo e depois do trabalho na Armada, em que se engajara após ter fugido da fazenda. Os castigos físicos que lhe foram impingidos, tanto pelo feitor quanto a bordo, tornaram-lhe resistente e lhe deram a energia de um animal brioso. A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do romance, por meio da descrição de uma cena em que Amaro está sendo punido com a chibata:
— Uma! cantou a mesma voz. — Duas!.., três!...
Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura para cima, numa riquíssima exibição de músculos, os selos multo salientes, as espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso d’alto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.
Entretanto, já iam cinquenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre outras, entrecruzando-se como uma grande tela de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.
De repente, porém. Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu um braço: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma força extraordinária.
Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza do seu pulso. Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.
— Cento e cinquenta!
Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.
Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo de alcance, procurava reconhecer uma sombra quase invisível que parecia flutuar muito longe, nos confins do horizonte: era, talvez, a fumaça dalgum transatlântico...
— Basta! impôs o comandante.
Estava terminado o castigo. lá recomeçar a faina.
Anterior a essa cena, há a descrição do castigo infligido a um outro marinheiro e a diferença das reações também serve para ressaltar, mais uma vez, a força do negro, superior a dos demais e que o faz ser o protagonista dessa história:
— Uma!... e sucessivamente: duas!...três!... vinte e cinco!
Herculano já não suportava mais. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, té pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes, A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no desespero de sua dor.
A fortaleza de Amaro pode ser estendida para além de sua força física e sua capacidade de sobrevivência, englobando até seu caráter, e manifesta sobretudo pela fidelidade de seu sentimento por Aleixo. Até o final do romance, quando finalmente descobre ter sido traído pelo grumete, Amaro entrega-se inteiramente à sua paixão, nunca pensando em abandonar o amante:
Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até as profundezas de seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude.
Por outro lado, se essa fidelidade é um traço positivo em seu caráter, a entrega cega à paixão pode ser encarada como sua fraqueza e que está condicionada ao seu vício, ou seja, aos apelos da carne, do instinto. Por todo o romance, o homossexualismo de Amaro é retratado como uma anomalia e por isso se tomou tema do livro, já que os escritores naturalistas possuem uma tendência a abordar o que consideram um caso “patológico”.
Amaro, ao entrar para a Armada, é descrito como um homem bom: “seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratá-lo por Bom-Crioulo”. No entanto, corrompe-se pela vida de bordo, que o escraviza, tanto quanto a vida que levava antes da Abolição:
Aquele caráter dócil e tolerante, deixara-o ele no alto-mar ou nas terras por onde andara. Agora tratava com desdém os superiores, abusando se esses lhe faziam concessões, maldizendo-os na ausência, achando-os maus e injustos.
A mudança de caráter ocorre por influência do meio, traço fundamental da teoria determinista apregoada pelo Naturalismo. Há alguns críticos que, inclusive, aproximaram a figura de Amaro á do “bom selvagem”, cuja animalidade escapa ao controle da razão ou da vontade: movido por puro instinto, pode amar ou matar, ignorante do Bem e do Mal.
Aleixo, talvez por seu jeito indefeso, foi a primeira pessoa a conseguir penetrar na solidão em que Amaro sempre vivera. Assim é possível perceber que não era somente um ímpeto sexual, carnal que os unia, era a paixão embriagante, plena:
Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetizinho. Nunca experimentara semelhante impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã.
No entanto, o encantamento amoroso por parte de Aleixo se esfria tão logo Amaro tem que voltar ao trabalho de bordo. Cada vez mais distantes, os encontros entre eles se escasseiam. Com a iminência da perda de Aleixo, Amaro torna-se obsessivo, deixando-se tomar por um sentimento de ciúmes doentio:
Era-lhe impossível abandonar o grumete; e agora, principalmente, agora é que esse amor, essa obsessão doentia redobrava com uma força prodigiosa, impelindo-o para outro, acordando zelos que pareciam estagnados, comovendo fibras que já tinham perdido antigas energias.
Tomado por essa obsessão, Amaro declina-se fisicamente e isso é evidenciado em nova descrição de um castigo aplicado ao negro:
E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os golpes da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor imensa que o cortava d’alto a baixo, como se todo ele fosse uma grande chaga aberta, viva e cruenta... Morria-lhe na garganta um grunhido estertoso e imperceptível, cheio de angústia, comprimido e seco; dilatavam-se-lhe os músculos da face em contrações galvânicas; o sangue, convulsionado, rugia dentro, nas artérias, no coração, no intimo da sua natureza física, palpitante, caudaloso, numa pletora descomunal!
Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se não pode vingar porque está preso, e que morre sem um gemido, com o olhar aceso em cólera impotente!
(...)
Á última chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o convés, porejando sangue. Ah! Mas não havia em seu dorso uma nesga de pele que não fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente, quando já lhe não restava a menor energia no organismo, quando se tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a vontade.
Essa cena anuncia o fim de Amaro, pois sua força estava no físico, agora abatido, e a partir desse momento nada mais lhe restará a não ser o ressentimento que culminará no assassinato de seu amante.
Aleixo: fraqueza e feminilidade
Aleixo surge desde o princípio como o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte— será assim com Amaro e com Carolina:
Aleixo só fazia responder timidamente: - sim senhor - com um arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos.
No entanto, o ar de submissão de Aleixo vai transfigurando-se, ao longo da narrativa, numa espécie de esperteza camaleônica. Nada sabemos sobre seu passado, a não ser que era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diferente daquele de sua origem, e que lhe propicia, acima de tudo, favores e proteção:
Mas dai em diante Aleixo foi-se acostumando, sem o sentir, àqueles carinhos, àquele generosa solicitude, que não enxergava sacrifícios, nem poupava dinheiro, e, por fim, já havia nele uma tendência acentuada para Bom-Crioulo.
(...)
Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho na Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...
Assumindo o relacionamento com o negro, Aleixo ostenta uma postura feminina que se manifesta em todas as suas atitudes, sempre cedendo, mesmo a contragosto, aos desejos de Amaro:
Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em plena e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento. (...) Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...
No entanto, a relação esfria-se e, aos poucos, com a rotina e a falta de novidades, Aleixo chega a conclusão de que não valia mais a pena ficar com Amaro:
Sim, que podia esperar ele de Bom-Crioulo? Nada, e no entanto, estava sacrificando a saúde, o corpo, a mocidade... Ora, não valia a pena! (...) precisava mudar de vida!
A partir daí, Aleixo vai se revelando por inteiro: à sua fraqueza física, soma-se sua fraqueza moral evidenciada, sobretudo, pela volubilidade de caráter. Essa volubilidade presentifica-se inclusive pela indefinição do objeto sexual: Amaro, Carolina — não importa qual seja o sexo de seus amantes, desde que as relações lhe ofereçam vantagens. Demonstrando certa falta de gratidão, e mesmo nenhuma fidelidade a Amaro, Aleixo deixa-se envolver por D. Carolina, que também lhe proporciona mais privilégios:
Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele pobre sobradinho da Rua da Misericórdia. Tudo era guardado para o seu formoso marinheirito: eram frutas, doces, comidas especiais, quitutes à portuguesa, isso, aquilo, aquilo outro...
O caráter de Aleixo é explicitado de vez no episódio em que, numa cena de ciúmes, ele proíbe D. Carolina de ver o Manuel do açougue, que ainda pagava pelos favores da portuguesa. A portuguesa promete romper com o amante, mas a conclusão do narrador é clara:
Mas a verdade é que, se o açougueiro não continuasse a fornecer carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele (Aleixo) quanto a portuguesa teriam renunciado àquele amor.
É claro, portanto, que a relação entre o grumete e a portuguesa é marcada por mútuos interesses. Mais uma vez, Aleixo incorpora-se a essa nova relação, de tal modo que suas atitudes passam, dessa vez, a ser enfocadas por um viés masculino:
Estava gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os músculos desenvolvidos como os de um acrobata, um olhar azul e penetrante, o rosto largo e queimado.
A experiência com Amaro e a observação da vida de D. Carolina fazem com que Aleixo se deixe levar pelos costumes locais, fazendo parte de um jogo em que todos podem lucrar uns com os outros, mesmo que para isso tenham que negociar o próprio corpo.
Imerso em seu egoísmo, pensando somente em si mesmo, Aleixo é incapaz de perceber o que sua atitude de descaso para com Amaro pode causar:
Mais tranqüilo agora, sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse para uma vingança, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo de certas coisas que o faziam tímido e medroso, Aleixo ia passando uma vida regalada, ora em terra, ora a bordo da corveta.
A autoconfiança de Aleixo e sua ignorância da força da paixão que movia Amaro só poderiam conduzí-lo a ser uma vítima de um ato passional.
Carolina: ex-prostituta e mulher de negócios
D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito, Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros.
Vivia de sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês ou por hora. Tinha o seu homem, lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens não há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo.
Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na Rua da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de jóias, de ouro e brilhante! Já era gorducha, então: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da rua...
Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pôde reerguer-se, chegando, por desgraça, ao ponto de empenhar jóias e tudo, porque ninguém a procurava, porque ninguém a queria — pobre cadela sem dono... Passou misérias! até quis entrar para um teatro como qualquer causa, como criada mesmo. Foi nessa época, num dia de carnaval (lembrava-se bem!), que começou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe alguns mil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carro triunfal. Foi um escândalo, um “sucesso”: atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita palma, presentes — o diabo. Durante quase um ano só se falou na Carola, nas pernas da Carola, — na portuguesa da Rua do Núncio.
D. Carolina revela-se, desde o inicio, uma mulher de negócios, cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também lucravam com ela. No entanto, vive só. Nesse contexto, Aleixo - assim como o foi para Amaro - é alguém capaz de preencher seu lado mais carente. Por um lado, o grumete representa o filho que ela nunca teve; por Outro, o amante jovem e inocente, duas características que ela não mais possui.
Entretanto, de modo bastante diferente de Amaro, D. Carolina encara sua relação com o grumete de modo mais claro e racional: goza as delícias da carne, mas sabe bem o que representa para o grumete: algumas vantagens para seu bem-estar.
Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar o Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele, secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçado, almoço e jantar nos dias de folga — dando-lhe tudo enfim. /.../ Aleixo remoçava-a como um elixir estranho, milagrosamente afrodisíaco. Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho: retesavam-se-lhe os nervos, abria-se-lhe o apetite, entrava n’alma uma extraordinária alegria de noiva em plena lua-de-mel, toda ela vibrava numa festiva exuberância de vida.
Ao conquistar Aleixo, D. Carolina assume uma atitude masculina: ela o seduz e o possui, sem lhe dar chance de escapar. A cena da conquista é descrita bem à maneira naturalista, comparando as personagens a animais, evidenciando o que há de mais instintivo no que as move:
D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe num grande ímpeto de fúria lúbrica, de mulher gasta que acorda a uma sensação nova...
- Tu não podes comigo, disse trançando a perna sobre o joelho de Aleixo.
E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude:
- Dize lá: ficas ou não ficas?
O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se à cadeira com as mãos ambas, todo trêmulo agora, sem sangue no rosto:
Fico!
Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depolo na cama:
Prai, meu jasmim de estufa, prai! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, multo admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar ali assim, torpemente, como um animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tu velha... Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar idéias. D. Carolina absorvia, transfigurando-se a seus olhos.
Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar! E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
A descrição dessa cena evidencia uma sensualidade quase brutal dos ritmos e dos movimentos das personagens, fazendo com que suas reações sejam guiadas pelo que neles há de mais instintivo. Muitas dessas cenas aparecem ao longo do romance, sendo muito peculiares ao Naturalismo.
No episódio final, o foco das atenções será a luta e a morte e jamais os sentimentos que motivaram as pessoas. Quando os fatos se tornam conhecidos e são observados, a vida volta à sua normalidade, sem se importar com o destino das vítimas de um inevitável ato de violência:
Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.
Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os olhos tinham grandes nódoas vermelhas. (...)
A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas calçadas. Era uma curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um desejo irresistível de ver, uma irresistível atração, uma ânsia!
Ninguém se importava com o “outro,” com o negro que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas à luz quente da manhã: todos, porém, todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um caro rodou, todo lúgubre, todo fechado e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando té cair tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.
O romance gira em torno dessas três personagens. Ao longo da narrativa, alguns marinheiros aparecem, um ou outro oficial emite uma fala, mas todos são figurantes nessa história passional. A pobreza material e a estreiteza do meio servem de cenário a esse estudo de caso. Caminha, influenciado por Zola e Eça de Queiroz, produziu em excelente romance de tese.
Homossexualismo como tema: um inusitado triângulo amoroso
A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do “vício”. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. O triângulo altera substancialmente a função dos participantes, mas respeitando as leis de verossimilhança. Ou seja, o insólito reside na novidade do triângulo e não em sua falta de veracidade: mais uma vez, Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material do romance.
Manifesta na macroestrutura do triângulo amoroso, bem como nos ingredientes, a lei da verossimilhança ainda se impõe na construção do romance. O Bom-Crioulo se fragmenta em três partes: a preparação, que ocupa os nove capítulos iniciais, o anticlímax, nos episódios subseqüentes e o desenlace ou clímax no último. Escrita em câmera-lenta, comum aos romances naturalistas, visto que a tese adotada reclamava a disposição silogística da narrativa, figurando os primeiros capítulos como premissas da conclusão que deflagra no episódio final.
O tema do romance, o homossexualismo, manifesto na construção do triângulo amoroso, é tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido:
Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria! O fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe para mal de seus pecados... Não havia jeito senão ter paciência, uma vez que a natureza” impunha-lhe esse castigo.
Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem té os trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de que se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...
O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, conseqüentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário.
Por tratar de um tema tão forte como o homossexualismo, sobretudo em sua época, alguns críticos consideraram esse livro de Adolfo Caminha uma defesa da causa homossexual; outros viram o contrário. No entanto, o narrador se mantém na posição de observador: não defende, nem condena. Mais do que isso, o livro também possui um forte caráter de denúncia sobre um ambiente cruel e brutal que homens enfrentavam na Marinha - ambiente que Caminha conheceu bem. Também há uma forte denúncia social, pois retrata um trecho da vida urbana do Rio de Janeiro e a vida miserável de seus habitantes excluídos por uma estrutura social perversa. Em suma, o livro discute, acima de tudo, a questão da liberdade de homens presos por correntes invisíveis, fruto do meio em que vivem, de seu momento histórico e de suas tendências físicas e morais. A falta de liberdade não será só social, mas também biológica, conforme diziam as correntes deterministas em vigor nessa época. Daí o tom de pessimismo que há no livro: não há saída possível das mazelas humanas.
5. TRECHOS PARA LEITURA
Esse trecho, início do segundo capítulo do romance, é um flash-back, que interrompe a narrativa linear, cronológica do livro a fim de introduzir o passado da personagem principal, Amaro, e seus primeiros sonhos: a possibilidade de usufruir da liberdade, o que mais tarde se revelará um engodo.
Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo. quando Bom-Crioulo, então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em roupas d’algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades por que passa todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente superficial como era a Corte - ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas conseqüências da fuga.
Nesse tempo o “negro fugido” aterrava as populações de um modo fantástico. Dava-se caça ao escravo como aos animais, de espora e garrucha, mato a dentro, saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgando montanhas... Logo que o fato era denunciado - aqui-del-rei! - enchiam-se as florestas de tropel, saiam estafetas pelo sertão num clamor estranho, medindo pegadas, açulando cães, rompendo cafezais. Até fechavam-se as portas, com medo... Jornais traziam na terceira página a figura de um “moleque” em fuga, trouxa ao ombro, e, por baixo, o anúncio, quase sempre em tipo cheio, minucioso, explícito, com todos os detalhes, indicando estatura, idade, lesões, vícios, e outros característicos do fugitivo. Além disso, o “proprietário” gratificava generosamente a quem prendesse o escravo.
Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro, Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio da escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá cima, beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto...
Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (até ficou envergonhado..), examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul de marinheiro.
No mesmo dia foi para a fortaleza, e, assim que a embarcação largou do cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira vez toda a alma vibrar de uma maneira extraordinária, como se lhe houvessem injetado no sangue de africano a frescura deliciosa de um fluido misterioso. A liberdade entrava-lhe pelos olhos, pelos ouvidos, pelas narinas, por todos os poros, enfim, como a própria alma da luz, do som, do odor e de todas as cousas etéreas... Tudo que o cercava: a planura da água cantando na proa do escaler, o imaculado azul do céu, o perfil longínquo das montanhas, navios balouçando entre ilhas, e a casaria imóvel da cidade que ficava atrás - os companheiros mesmo, que iam remando igual, como se fossem um só braço - e sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente largo e iluminado da baia: enfim, todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas de chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo... Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a existência; nunca mais o havia de esquecer, ó, nunca mais!
Ele, a escravo, “o negro fugido” sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugadinha té... sabe Deus!
No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaia-se como a fumaça longínqua e ténue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo-os olhos, num gozo infinito, para o mar crivado de embarcações...
A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”... Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”.
Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais. Não podiam eles, a princípio, conter o riso diante daquela figura de recruta alheio às praxes militares, rude como um selvagem, provocando a cada passo gargalhadas irresistíveis com seus modos ingênuos de tabaréu; mas, no fim de alguns meios, todos eram de parecer que “o negro dava para gente”. Amaro já sabia manejar uma espingarda segundo as regras do oficio, e não era lá nenhum botocudo em artilheria; criara fama de “patesca”.
Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecerá a pena de um castigo disciplinar: seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratá-lo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo, porém, sua grande preocupação era embarcar fosse em que navio fosse, acostumar-se a viver no mar, conhecer, enquanto estava moço, os costumes de bordo, saber praticamente “amichelar uma verga, rizar uma vela, fazer um quarto na agulha”. Podia muito bem ser promovido logo... Invejava os que andavam no alto-mar, longe de terra, bordeiando à solta por esses mundos de Deus. Como devia de ser bom para a alma e para o corpo o ar livre que se respira lá fora, sobre as águas!...
Divertia-se a construir pequenas embarcações de madeira imitando navios de guerra com flâmula no tope do mastro e portinholas. cruzadores em miniatura, iatezinhos, tudo à ponta de canivete e com a paciência tenaz de um arquiteto.
Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamente! la para bordo, às vezes, em exercício, remando no escaler, mas voltava logo com a turma dos outros aprendizes, triste por não ter ficado, sonhando histórias de viagens, causas que havia de ver, quando pela primeira vez saísse barra fora...
Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava nomeado para embarcar num velho transporte que seguia para o sul.
Esse pequeno trecho narra a primeira relação sexual entre Aleixo e Amaro. Notamos que o narrador se limita à descrição da cena, apesar de a conclusão deixar claro que o ato é considerado uma anomalia, assemelhando-se a um caso “patológico”, e, por isso, é tema do livro.
As nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente...
Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contatos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer à meia distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores.
Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer causa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse - uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.
Essa passagem final do romance conta o momento em que Bom-Crioulo, após ter fugido do hospital, vai até o sobradinho em busca de Aleixo e descobre que este o traí com D. Carolina. É o ápice da trama, quando os dois finalmente se encontram e se atracam, compondo um ato de violência que terminará com a morte de Aleixo. Vale notar um traço típico do Naturalismo: as comparações das personagens com animais, sobretudo em momentos de ódio.
Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando a distância, lento e lento, rumo do sobradinho. Já o avistava: era o mesmo de outrora, o mesmíssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e lá, no alto, lá cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase...
Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como cousa que lhe entrasse n’alma, a dor de uma ingratidão muito velha, quase apagada. Sim, a dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha aprendido a amar, a “querer bem...
E murmurava entre dentes, banhado no eflúvio das suas reminiscências, levado pelo fio inquebrantável das doces recordações: - “Aquele sobradinho, aquele sobradinho!...”
Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram do cruzeiro e lá foram juntinhos, para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o português, de febre amarela, Oh! tinha tudo na cabeça; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ingênuos de Aleixo, a cena da vela... — tudo estava gravado em sua imaginação, tudo!
Enchiam-se-lhe os olhos d’água, turvava-se-lhe a vista, nem era bom pensar...
Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital, voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente.
Ah! era assim, hein? Pois havia de lhe pagar hoje ou amanhã. A gente é como um copo d’água: vai-se enchendo, vai-se enchendo, até não poder mais!”
Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por trás da névoa úmida das lágrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia, como um epiléptico: vinham-lhe cóleras, ímpetos, aflições... Quase não se podia conter diante daquela casa, que era como o túmulo mesmo das suas ilusões. Transfigurava-se, enlouquecia de ódio, espumava de cólera, de raiva, de ciúme! O aspecto das causas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus olhos viam naquela hora de amargura, o próprio sol, a própria luz torrencial do dia causava-lhe um tédio imenso; arrancando-lhe blasfêmias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. Não tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os logo gelado: — “Era ali mesmo, tal e qual!”
Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de instintos, uma cousa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue... Passou a mão nos olhos, trêmulo, encostando-se à coluna de um gás; quase não podia ter-se em pé: estava sem forças, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosamente, o “maldito hospital”. - “Nunca mais havia de lá pôr os pés, nunca mais!”
A porta do sobrado estava fechada; em cima, a meia vidraça de uma janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral, desoladora!
Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atônito, sem consciência do meio em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar por ali acima.
De repente: “Ah! a padaria!” Já se não lembrava; era a mesma também, a mesmíssima, com o seu grande letreiro na fachada - Padaria Lusitana, com as suas três portas, debaixo de um sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha lá dos fundos um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de pão quente. Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar dirigiu-se ao empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de além-mar.
- O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma portuguesa?
- D. Carolina?
- Essa mesma: uma gorda, bonitona...
- Mora, pois não! disse o outro com um quê de malícia nos olhos.
- E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis
- Também. Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam sair juntos à noite...
- Saem juntos?
- Pois não! A mim me parece que o menino é bem espertinho...
Bom-Crioulo estremeceu. la saber tudo; agora, pela boca do caixeiro: a ocasião era a melhor, porque o dono do estabelecimento andava fora.
O senhor não estará enganado? tornou ele, muito curioso, precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.
E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: - Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d’olhos grandes, que alugava quartos...
- Essa mesma, homem!
- O outro não tinha barba, era meio criança ainda, olhos azuis, muito alvo, bonitinho...
- Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, à Tomada da Bastilha. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...
Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma história de mulher! Bom-Crioulo ficou imóvel, calado, perdido nas suas idéias. — Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era inacreditável, era um desaforo sem nome; um desrespeito, uma falta de vergonha, um escândalo!
Está admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora uma dolorosa, uma extraordinária, uma indizível expressão de melancolia e surpresa. Não se admire, não, que é o que todos dizem...
E logo, interrompendo-se, com o braço estendido:
Olhe, nem de propósito: ai vem ele, o pequeno...
Aleixo ia saindo porta fora, tranqüilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a calça justa.
O negro teve um daqueles ímpetos medonhos, que o acometiam às vezes; garganteou um - oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de cólera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. Não via nada, não enxergava nada, tresvairado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a razão do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço.
Tremia numa crise formidável de desespero, os olhos congestionados, um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente.
O pequeno estacou surpreendido:
- Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro, como estou acabado... Olha, olha!
E apertava bruscamente o outro, sacudindo-o como se o quisesse atirar ao chão.
- Vê lá se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!
O efebo debatia-se, pálido, aterrado:
- Me largue! Não me provoque, senão eu grito!
- Anda pr’aí, grita, se és capaz! Grita, safado, sem vergonha... mal-agradecido!
Sua voz tomava uma inflexão voluptuosa e terrível ao mesmo tempo; a palavra saía-lhe gaguejada, estuporada e trêmula.
— Grita, anda!
O outro mudava de cores, recuava trôpego, a língua presa, quase a chorar, numa aflição de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:
Me largue, repetiu. Eu lhe peço: me largue!
Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela posição, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo não falava alto, que todos ouvissem, não dava escândalo, não fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e histérico, um regougo abafado, longínquo e profundo.
— Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!
- Me solte! continuou o efebo trêmulo, acovardado. Me largue!
- Não te largo, não, cousinha ruim, não te largo, não! Bom-Crioulo, este que aqui está, não é o que tu pensas..
- Mas eu não fiz nada! Me solte, que é tarde!
Os olhos do negro tinham uma expressão feroz e amargurada muito rubros, cruzando-se, às vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.
BIBLIOGRAFIA
Caminha, Adolfo. Bom-Crioulo, São Paulo,.. Ática, 1983.