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   DIRETÓRIO Principal -> Resumos de livros -> (documento)
Mar Absoluto
(Cecília Meireles )

      http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/cecilia/cecilia.htm

      http://www.secrel.com.br/jpoesia/ceci01.html

      Biografia

      "...Liberdade — essa palavra

      Que o sonho humano alimenta:

      Que não há ninguém que explique,

      E ninguém que não entenda."

      (Romanceiro da Inconfidência)

      Filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil S.A., e de D. Matilde Benevides Meireles, professora municipal, nasceu a 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro, Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi a única sobrevivente dos quatros filhos do casal. O pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e a mãe, quando Cecília ainda não tinha três anos. Criou-a, a partir de então, sua avó D. Jacinta Garcia Benevides. Escreveria mais tarde:

      Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas,

      ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

      (...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade (...)

      Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.

      Diplomando-se pela Escola Normal em 1917, passou a exercer o magistério primário em escolas oficiais do antigo Distrito Federal. De 1930 a 1934, manteve no Diário de Notícias uma página diária sobre problemas de educação. Nesse último ano, criou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, ao dirigir o Centro Infantil, que funcionou durante quatro anos. De 1936 a 1938, lecionou Literatura Luso-Brasileira e Técnica e Crítica Literária, na Universidade do Distrito Federal (hoje UFRJ). Realizou numerosas viagens aos Estados Unidos, à Europa, à Ásia e à África, fazendo conferências, em diferentes países, sobre Literatura, Educação e Folclore, em cujos estudos se especializou. Em Deli, o Presidente da República da Índia conferiu-lhe o diploma de doutor honoris causa da

      Universidade. Colaborou ainda, ativamente, no jornal A Manhã e na revista Observador Econômico.

      Aposentou-se em 1951 como diretora de escola, porém continuou a trabalhar, como produtora e redatora de programas culturais, na Rádio Ministério da Educação.

      A concessão do Prêmio de Poesia Olavo Bilac, pela Academia Brasileira de Letras, ao seu livro Viagem, em 1939, resultou de animados debates, que tornaram manifesta a alta qualidade de sua poesia.

      Casada em 1921 com o pintor português Correia Dias, teve três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda, esta última artista teatral consagrada. Enviuvando-se, casou-se em 1940 com o professor Heitor

      Grilo. Deixou cinco netos. Faleceu no Rio de Janeiro a 9 de novembro de 1964, sendo-lhe prestadas grandes homenagens públicas. O Governo do então Estado da Guanabara denominou Sala Cecília Meireles o grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa. Há uma rua com o seu nome, na cidade portuguesa de Benfica.

      Bibliografia (obras publicadas):

      Tendo feito aos 9 anos a primeira poesia, estreou em 1919 com o livro de poemas Espectros, escrito aos 16 e recebido com louvor por João Ribeiro.

      Publicou a seguir:

      Criança, meu amor, 1923

      Nunca mais..., 1923

      Poema dos Poemas, 1923

      Baladas para El-Rei, 1925

      O Espírito Vitorioso, 1935

      Viagem, 1939

      Vaga Música, 1942

      Poetas Novos de Portugal, 1944

      Mar Absoluto, 1945

      Rute e Alberto, 1945

      Rui -- Pequena História de uma Grande Vida, 1948

      Retrato Natural, 1949

      Problemas de Literatura Infantil, 1950

      Amor em Leonoreta, 1952

      12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952

      Romanceiro da Inconfidência, 1953

      Poemas Escritos na Índia, 1953

      Batuque, 1953

      Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955

      Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955

      Panorama Folclórico de Açores, 1955

      Canções, 1956

      Giroflê, Giroflá, 1956

      Romance de Santa Cecília, 1957

      A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957

      A Rosa, 1957

      Obra Poética,1958

      Metal Rosicler, 1960

      Antologia Poética, 1963

      Solombra, 1963

      Ou Isto ou Aquilo, 1964

      Escolha o Seu Sonho, 1964

      Livros póstumos:

      Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965

      O Menino Atrasado, 1966

      Poésie (versão francesa), 1967

      Traduziu peças teatrais, livros de poesia e prosa, e deixou numerosos

      textos inéditos, como trabalhadora intelectual incansável que foi durante

      toda a vida.

      Sua poesia, traduzida para o espanhol, francês, italiano, inglês, alemão,

      húngaro, hindu e urdu, e musicada por Alceu Bocchino, Luis Cosme, Letícia Figueiredo, Ênio Freitas, Camargo Guarnieri, Francisco Mingnone, Lamartine Babo, Bacharat, Norman Frazer, Ernest Widma e Fagner, foi assim julgada pelo crítico Paulo Rónai:

      Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo... A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.

      MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS

      (Relação de poemas)

      Mar Absoluto

      Noturno

      Contemplação,

      Prazo de Vida

      Auto-Retrato

      Vigilância

      Madrugada no Campo

      Compromisso

      Sugestão

      Museu

      Minha Sombra

      Irrealidade

      Romantismo

      Pastorzinho

      Mexicano

      1º Motivo da Rosa

      Convite Melancó1ico

      Desejo de Regresso

      Distância

      Este é o Lenço

      Canção

      Caramujo do Mar

      Mulher Adormecida

      Suspiro

      Prelúdio

      Lamento da Noiva do Soldado

      Instrumento,

      Epigrama

      Por Baixo dos Largos Ficus...,

      Os Presentes dos Mortos

      2º Motivo da Rosa

      Suave Morta

      O Tempo no Jardim

      Diana

      Beira-Mar

      Evelyn

      Xadrez

      Doce Cantar

      Poema. a Antônio Machado

      Realização da Vida

      Desapego

      Baile Vertical, 248;

      Balada do Soldado Batista

      Vimos a Lua

      Cavalgada, 250; Retrato

      Obscuro

      Pássaro Azul

      3º Motivo da Rosa

      Romantismo

      Saudade

      Interpretação

      O convalescente

      Surpresa

      Lamento da Mãe Órfã

      Transformações

      Caronte

      Madrugada na Aldeia

      Leveza

      Futuro

      Noturno Inibição

      Blasfêmia

      Carta

      Desenho

      4º Motivo da Rosa

      Obsessão de Diana

      Estátua

      Amor-Perfeito

      Os Mortos

      Pedido

      Noite no Rio

      Enterro de Isolina

      Cantar Saudoso

      Mulher ao Espelho

      Sensitiva

      Sobriedade

      Simbad, o Poeta

      Transeunte

      Domingo na Praça

      Aparecimento

      Lamento do Oficial por seu Cavalo Morto

      Guerra

      5º Motivo da Rosa

      Inscrição

      Viola

      Natureza Morta

      Os Homens Gloriosos

      Noite

      Constância do Deserto

      Cantar Guaiado

      Canção

      Evidência

      Turismo

      Trânsito

      Miraclara Desposada

      Acalanto

      Canção

      Mudo-me Breve

      Nós e as Sombras

      Anjo da Guarda

      Dia de Chuva Campo

      A Voz do Profeta Exilado

      Périplo

      OS DIAS FELIZES:

      Os Dias Felizes

      O Jardim

      O Vento

      Visita da Chuva

      Chuva na Montanha

      Surdina

      Noite

      Madrugada

      As Formigas

      A Menina e a Estátua

      Tapete

      Pardal Travesso

      Joguinho na Varanda

      O Aquário

      Edite

      Alvura

      Jornal, Lonze, 301.

      ELEGIA (1933-1937): Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos

      Neste mês, as cigarras cantam

      Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo

      Um jardineiro desconhecido se ocupara da simetria

      Tudo cabe aqui dentro

      O crepúsculo é este sossego do céu

      Hoje! Hoje de sol de sol e bruma..

      A encruzilhada participante

      Eliane Zagury

      O livro Mar Absoluto (1945) anexa duas partes que estão visivelmente fora do contexto: Os dias felizes (sem data de composição) e Elegia (1933-1937). Entretanto, a sua colocação no final do volume, em separado, vem formar o que a ponte que permite um entendimento melhor do que virá a significar Retrato Natural (1949).

      Depois de tanta poesia marinha, afinal Cecília Meireles pousa em terra, em terra ensolarada, claro e tépido fermento de vida:

      O jardim é verde, encarnado e amarelo.

      Nas alamedas de cimento,

      movem-se os arabescos do sol

      que a folhagem recorta

      e o vento abana.

      («O Jardim» v. 1-5)

      Agora a paisagem límpida, planada no chão, é que comanda a sua natureza, já tão distante dos esfumaçados dos primeiros livros e da fluidez dos seguintes. É, coisa aparentemente estranha, senão mesmo contrária a toda a poesia inicial, a “Elegia à memória de Jacinta Garcia Benevides, minha avó”, é absolutamente solar:

      2

      Neste mês, os cigarras cantam

      e os trovões caminham por cima da terra,

      agarrados ao sol.

      Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,

      e depois a noite e mais clara,

      e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

      Mas tudo e inútil,

      porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,

      e a tua narina imóvel

      não recebe mais notícia

      do mundo que circula no vento.

      Neste mês, sobre as frutas maduras mi o beijo áspero das vespas...

      - e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,

      como água que borbulha.

      Neste mês, abrem-se os cravos de perfume profundo e obscuro;

      a areia queima, branca e seco, –

      junto ao mar lampejante;

      de cada fronte desce uma lágrima de calor.

      Mas tudo e inútil,

      porque estas encostada à terra fresca,

      e os teus olhos não buscam mais lugares

      nesta paisagem luminosa,

      e as tuas mãos não se arredondam já

      para a colheita nem para o carícia.

      Neste mês, começa o ono, de novo,

      e eu queria abraçar-te.

      Mas tudo é inútil:

      eu e tu sabemos que e inutil que o ano comece.

      4

      Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.

      Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.

      E as cigarros sobre as resinas continuam cantando.

      Tu percorrerias o céu com teus olhos nevoentos,

      e calcularias o sol de amanhã,

      e a sorte oculta de cada planta.

      E amanhã descerias toda coberta de branco,

      brilharias à luz como o sal e a cânfora,

      tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,

      e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.

      E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo.

      Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.

      Em teu rosto, como no chão,

      haveria flores vermelhas abertas.

      Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas, sussurrando.

      E os canteiros viam-te passar

      como a nuvem mais bronca do dia.

      Em Os dias felizes, a claridade atinge o clímax na parelha de poemas Edite e Alvura, que representam também uma anexação do mundo dos objetos caseiros, afetivizados pelo contato diário, numa espécie de segunda ordem da natureza ceciliana, preludiana anteriormente por alguns motivos e imagens esporádicos, freqüentemente na área semântica de bordado e roupa lavada (Miradora desposada, Este é o lenço etc...) – o que, muitas vezes aliado a reminiscências de cantigas d’amigo agora em voz real de mulher, vinha trazer para a poesia de Cecília Meireles um tom tradicionalmente feminino.

      EDITE

      Cantemos Edite, a muito loura, branca e azul,

      cujo avental de linho e a alegre vela de um barco

      num domingo de sol, e cuja coifa e uma gaivota

      planando baixa, pelo quarto.

      Cantemos Edite, a anunciadora da madrugada,

      que passa carregando os lençóis e as bandejas,

      deixando pelos longos corredores

      frescuras de jardim e ar de nuvem caseira.

      Cantemos Edite, a de mãos rosadas, que caminha

      mm sorriso tão calmo e palavras tao puroa

      sua testa e um canteiro de lírios

      e seus olhos, miosótis cobertos de chuva.

      Cantemos Edite, a muito loura, branca e azul,

      que a Iuz ultravioleta se converte em ser abstrato,

      em anjo roxo e verde, com pestanas incolores,

      que sorri sem nos ver e nos fala calado.

      Cantemos Edite, a que trobalha silenciosa

      preparando todas as coisas desta vida,

      porque a qualquer momento a porta deste mundo se abre

      e chega de repente o esperado Messias.

      ALVURA

      Contemos também os frescos lençóis e as colchas brancas,

      estes campos de malmequeres engomados

      onde o sono nem sonha.

      Cantemos os flocos das cortinas,

      as nuvens que adornam o céu de nácar,

      as dálias com seus colores de orvalho,

      e os mármores da porta, onde um raio de sol inscreve o dia.

      Cantemos, cantemos estes ladrilhos cintilantes,

      e a claro esmalte por onde escorrem, tumultuosos,

      matinais jorros de água, de precipitada espuma.

      Cantemos a faiança lisa, os guardanapos ofuscantes,

      e o perfumado arroz-doce, e o leite, e a nota, e o sal e o açúcar,

      e os punhos de Edite, lustrosos e duros como a louça,

      e seus dez dedos paralelos com umas belas unhas nítidas,

      que encrustam de cada lado da espelhante bandeja cromada

      cinco finas, tênues, alvas luas crescentes.

      (Poetas Modernos do Brasil - Cecília Meireles, Eliane Zagury, Edtiora Vozes, 1973)



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