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Várias Histórias
(Machado de Assis )

Célia A. N. Passoni

Um arguto observador

             Machado de Assis é considerado o grande introdutor do conto na Literatura Brasileira. Foi ele que, de maneira sistemática, cultivou o gênero pela primeira vez entre nós.

             Costuma-se caracterizar o conto como um relato conciso, cuja precisão está assentada na sutileza de idéias, na sobriedade do estilo e na exposição resumida, com limites de tempo, espaço e personagens. Na verdade, pode-se dizer que é na condensação da narrativa e na rapidez da ação que estão os elementos primordiais do conto. São essas mesmas características que se enquadram perfeitamente na técnica da escritura de Machado de Assis.

             Em 1870, o escritor aglutinou sete contos que foram publicados sob o título de Contos Fluminenses. Três anos depois, em Histórias da Meia-Noite, reuniu outras seis produções. Nessas duas primeiras publicações, Machado deixou-se levar pelos modismos da época, influenciado pelas leituras de escritores lusitanos e brasileiros pertencentes ao Romantismo.

             Pouco a pouco, através do exercício contínuo da arte de escrever, o escritor chegou a um altíssimo e apurado nível estético. Coincidindo com a publicação do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, revisita e lapida com esmero e arte as produções na narrativa curta, dando maioridade ao gênero, bem como atestando a capacidade estilística desse que é considerado o maior escritor brasileiro do século XIX. Machado de Assis afasta-se dos princípios que o norteavam até então para se deixar conduzir, também no conto, pelas influências de um novo estilo, próximo do Realismo. Publica, em 1882, o volume Papéis Avulsos, já sob a influência de novas e profundas modificações estéticas, seguem-se Histórias sem Data (1984), Várias Histórias (1896), Relíquias de Casa Velha (1906) e Outras Relíquias (1910).

             Várias Histórias reúne dezesseis contos esmerados e bem escolhidos, vazados em linguagem clara, ágil e rápida como pede o gênero. São constantes nos contos do volume uma preocupação em datar e localizar o espaço em que as ações ocorrerão, geralmente tendo como cenário as ruas do Rio de Janeiro do presente do escritor ou de um passado recente. Com o aprimoramento das técnicas do diálogo, Machado de Assis muitas vezes utiliza o recurso como base ou o pretexto de seus relatos. Não raro utiliza a intertextualidade, travando diálogos com escritores clássicos como Shakespeare e Goethe, com filósofos como Spinoza, São Tomás de Aquino e, principalmente, com passagens da Bíblia. São constantes certas doses de ironia perpassadas de humor e de pessimismo.

             Para efeito de estudo, os contos de Várias Histórias serão agrupados em três grupos temáticos, a saber:

             Grupo I – contos que têm por base o estudo da alma feminina: “A Cartomante”, “A Desejada das Gentes”, “Mariana”, “D. Paula” e “Trio em Lá Menor”.

             Grupo II – contos em que o escritor ressalta estudos do caráter humano, reunindo contos de inquirição psicológica: “Uns Braços”, “Um Homem Célebre”, “A Causa Secreta”, “O Enfermeiro”, “O Diplomático”, “Conto de Escola”, “Entre Santos”.

             Grupo III – contos que buscam teorizar ou caracterizar genérica e filosoficamente os homens ou o próprio ato de escritura: “Um Apólogo”, “Adão e Eva”, “Viver!”, “O Cônego ou Metafísica do Estilo”.

 

Grupo I – Explorando a alma feminina

             Hábil observador da psicologia feminina, Machado aponta-lhes as graças, as incertezas, os desencantos, as aspirações, os amores... Tendo como cenários os salões em que conviviam os elementos das camadas mais privilegiadas, o escritor consegue reconstruir o modo de vida, os arranjos casamenteiros, os casos de adultério e o cotidiano dessa gente, com recursos das crônicas de costumes do século XIX. Entre os contos que compõem esse grupo têm-se: 

·        A Cartomante 

Narrado em terceira pessoa, traz o relato de um caso de adultério, envolvendo a bela Rita, seu marido Vilela e seu amante Camilo, um amigo de infância de seu marido. Camilo recebe uma carta anônima, informando-lhe que seu relacionamento com Rita já é conhecido de todos. Isto o leva a não mais freqüentar a casa do amigo, fato que faz Rita ficar temerosa de que Camilo não mais a amava. Consulta uma cartomante, que a tranqüiliza, afirmando serem infundados seus temores. Quando os dois voltam a se encontrar, Rita lhe conta a visita à cartomante; Camilo ri de sua ingenuidade, diz-lhe que seria melhor consultar a ele do que a cartomante. 

Certo dia, Camilo recebe um recado de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”. Camilo fica temeroso e indeciso; porém, não ir apenas confirmaria as suspeitas de Vilela, caso este tivesse recebido alguma denúncia. Resolve ir; quando passa em frente à casa da cartomante, pára e faz uma consulta. A cartomante lhe assegura que nada aconteceria, nada devia temer, pois o marido ignorava tudo. 

Agora, mais tranqüilo e confiante, chega à casa de Vilela e pergunta-lhe qual o motivo do recado: “Vilela não lhe respondeu: tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: - ao fundo, sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão”. 

·        A Desejada das Gentes 

Partindo de uma conversa, o narrador-personagem, homem já de cabelos grisalhos, rememora um caso de amor com uma certa Quitília, mulher de cerca de trinta anos, que jamais abriu seu coração a qualquer um de seus inúmeros pretendentes, inclusive o narrador, porque tinha verdadeira aversão ao casamento. As excentricidades dessa mulher, no entanto, não deixam de revelar a existência de um verdadeiro amor pelo narrador, tanto que eles se casam no último momento da vida dela, sem que houvessem partilhado o leito nupcial. 

·        Trio em Lá Menor 

Narrado em terceira pessoa, o conto segue o andamento musical, dividido em quatro movimentos: adágio cantabile, allegro ma non troppo, allegro apassionato e minueto. Em busca do verdadeiro amor, Maria Regina não consegue decidir-se entre um e outro de seus dois pretendentes. Maciel, homem frívolo, conhecedor profundo do que a sociedade oferecia para as boas e más línguas e que, principalmente, não tardava a espalhar os fatos. Maciel era um moço de seus vinte e sete anos. Do outro lado está Miranda, entrando nos cinqüenta, de fisionomia dura, homem sério com seus encantos e enfados. A moça não conseguia decidir-se por nenhum deles, com a particularidade de, na presença de um, ter a imaginação constantemente voando para as qualidades do outro e vice-versa, e, assim, ambos se completavam. Na sua busca pela perfeição, Maria Regina é condenada a ficar sem nenhum deles. 

·        Mariana 

Tendo como motivo um caso de amor, o narrador em terceira pessoa relata a volta de Evaristo para o Rio de Janeiro, após dezoito anos na Europa, para onde partira depois do fim de seu caso amoroso com Mariana. Ao retornar, volta ao mesmo lugar onde anos atrás era correspondido em seu amor por essa mulher, casada com Xavier. Na mesma sala, sob um retrato em que ela estava representada com vinte anos, Evaristo sente reviver o amor, envolve-se no passado comovente, como se os tempos se irmanassem. No passado, ela casa, ele o amante que convivia com a dúvida de se saber amado ou não, Xavier o marido; no presente, Xavier à beira da morte, o retrato da sala revivendo o passado e a mulher, indiferente. Após a morte de Xavier, Evaristo tenta se encontrar com Mariana, mas ela não se deixa alcançar. Mariana é um caso de relacionamento: amou o marido sinceramente, amou Evaristo também sinceramente, a ponto de quase cometer suicídio por ele e, no final da vida, dedicou-se sinceramente ao marido morto. Evaristo retorna à Europa a tempo de assistir a um espetáculo teatral que, por sinal, foi um fracasso, na mesma medida que seu caso de amor. Só lhe restou a vida fútil. 

·        D. Paula 

D. Paula é um senhora viúva que mora no alto da Tijuca e raramente sai de casa. A razão de estar na casa da sobrinha no início do conto é para tentar salvar o casamento da moça. Venancinha, a sobrinha, brigou muito feio com o marido devido ao ciúme dele, porque o marido a julga apaixonada por outro homem. Realmente, Venancinha estava sendo cortejada por Vasco Maria Portela, filho de um mesmo Vasco que outrora havia cortejado a tia. Forçando uma confissão, D. Paula vai revivendo o passado. Na medida em que flui o relato da sobrinha, o leitor vai conhecendo a solidão amargurada da protagonista, que salvou sua sobrinha do mesmo tipo de vida. 

Grupo II – Os labirintos da mente 

            Os contos selecionados para ilustrar esse aspecto ressaltam estudos do caráter humano. O escritor penetra analiticamente nos meandros da mente humana, procurando ressaltar-lhes o inusitado da personalidade, casos com a avareza, o sadismo, a busca pela perfeição, o aprendizado do vício, a revisão de valores. Com a fluidez daqueles que conseguem conhecer os mais profundos labirintos da alma humana, Machado conduz em linguagem clara e precisa alguns de seus melhores contos de captação de atmosfera. Nesse grupo estão: 

·        Uns Braços 

Por meio de um episódio doméstico, é revolvido o insólito de uma situação, misto de mistério, sensualidade e insinuação. Ressalta do adolescente Inácio o desejo voltado para o sensual, quando esse aprendiz de quinze anos iniciava-se no ofício de agente ou de escrevente do solicitador Borges, na casa do qual vive. Ao querer escapar à sedução da mulher de Borges, atraído principalmente pelos braços roliços da moça, refugia-se na volúpia de um sonho e sente-se envolvido pelos braços da mulher, D. Severina, elemento de sua obsessão. Ao deslocar o eixo da narrativa de Inácio para D. Severina, o narrador faz coincidir devaneio e realidade. A mulher contempla o rapaz adormecido e, talvez por se ter pressentido nos sonhos do rapaz, aproxima-se dele e o envolve. O sonho coincide com a realidade e o sonhado e a realidade coexistem no beijo selado: real (de D. Severina em Inácio) e sonhado (de Inácio em D. Severina). O beijo constitui-se concomitantemente em um devaneio e um tempo real e se torna a lembrança mais concreta do episódio, no entanto, insólita porque o tempo transcorreu e as lembranças confundem-se. 

·        Um Homem Célebre 

Pestana é um compositor de polcas, famoso e popular. Assim que acaba de compor uma melodia, todos começam a cantá-la ou entoá-la. Era um verdadeiro gênio, a inspiração caía-lhe solta, sentava-se ao piano, depois de algumas poucas notas, mais uma polca era composta e era só levá-la ao editor, colocar algumas rimas e o sucesso estava garantido. Nos primeiros anos gostava deveras de suas composições, mas com o passar do tempo seu esmerado senso crítico vinha à tona, ficava vexado, enfastiado, tinha náuseas, verdadeira aversão por polcas. Sua intenção era compor uma música que tivesse o veio clássico, inspirada em Beethoven, Gluck, Bach, Shumann e outros, mas as notas vinham uma a uma e sempre saíam polcas. Casou-se com uma viúva tísica que ia tossindo e morrendo, até que expirou nos braços do marido. Pestana achou aí a verdadeira dor e tentou compor um réquiem que lhe traduzisse os sentimentos, música que seria tocada em uma das missas comemorativas da morte. Passam-se os dias e os meses e as mãos do compositor não conseguem extrair a seqüência musical do requiem, sempre lhe saem polcas. Frustrado, esse homem que buscou a vida toda a melodia que julgava corresponder à perfeição, morreu sem compor nada semelhante aos grandes clássicos, morreu compondo polcas. 

·        A Causa Secreta 

Em terceira pessoa, o narrador onisciente constrói uma notável caracterização psicológica em que revela, ao fazer o estudo da personagem Fortunato, o ápice do prazer que é conseguido na contemplação da desgraça alheia. O motivo do conto é explicar o verdadeiro sentido do termo sadismo. Fortunato, caracterizado como “figura esquisita”, sempre é encontrado em ocasiões “estranhas” como em um acidente, à saída de um hospital, assistindo a um dramalhão “cosido de facadas”, ou procurando estudar anatomia e fisiologia, envenenando e dissecando animais. A amizade entre Fortunato – solteiro e capitalista – e Garcia – estudante e depois médico – começou em um acidente e evoluiu para sociedade em uma clínica, o primeiro tomaria conta da parte financeira, o segundo, da médica. Nesse intervalo, Fortunato casa-se com Maria Luísa, a mulher adoece e morre e à medida que Garcia vai se tornando íntimo da família, só observa as excentricidades de Fortunato como também se apaixona por Maria Luísa, mas trata-se de um amor recolhido, apenas mostrado na explosão de lágrimas que Garcia teve diante do caixão de Maria Luísa. 

·        O Enfermeiro 

Em flashback, o narrador-personagem, à beira da morte, pede segredo a seu interlocutor e passa a relatar o que se deu com ele anos atrás. Inicialmente contratado para ser enfermeiro de um coronel rico, mas duro, ranzinza e velho despótico, que padecia de “aneurisma, de reumatismo e de três ou quatro afecções menores”. Sendo o narrador um homem educado segundo as tradições cristãs, tendo seus quarenta e dois anos, sem família e vivendo de favor, sente-se disposto a mudar de vida e aceita o encargo. O convívio entre paciente e enfermeiro passou por estágios de degradação sucessiva: de uma aparente lua-de-mel, as relações foram se deteriorando até que, em um acesso de fúria, o enfermeiro comete um assassinato. A não ser por um pequeno e passageiro remorso/medo sentido pelo narrador, o crime passa despercebido. A convivência com o crime poderia se tornar insuportável no momento em que o criminoso é nomeado herdeiro universal dos bens do coronel, mas o tempo e o dinheiro são ótimos remédios, o que permite ao narrador ironicamente fazer uma emenda aos dizeres do “Sermão da Montanha”, para corrigí-lo: “Bem-aventurados os que possuem...”. 

·        O Diplomático 

O invejoso despeito, a indecisão e a imaginação sem freios são motivos para este conto. Narrado em terceira pessoa, tem como protagonista um senhor, já entrado nos anos, o solteiro Rangel. Trabalhava no escritório de um advogado, para quem copiava papéis e, como invejava os homens, copiava-os também. Na imaginação, executava mil proezas, mas na realidade era indeciso, não se dava a audácias. Falava bem, escolhia as palavras e era um bom orador. O caso é que aos quarenta e um anos, o homem andava enamorado e trazia nos bolsos uma carta de amor, endereçada à jovem Joaninha. Duas ou três vezes tivera a oportunidade de declarar-se, mas, por um ou outro motivo recolhia-se. A cena se passa em uma festa de São João na casa de João Viegas, pai de Joaninha. Um dos convidados da família veio acompanhado de um bonito rapaz de vinte e sete anos, o Queirós, empregado da Santa Casa, que arrebatou a atenção de todos na festa com seus gestos naturais e sua facilidade de conquistar as pessoas. Quem não gostou foi Rangel e se mordeu de inveja, ao ver que todas as atenções do outro estavam voltadas para Joaninha. Não houve forma de voltar atrás, uma só noite bastou para que Rangel perdesse as esperanças porque Joaninha e Queirós já estavam de namorico e se casaram depois de seis meses. Ao finalizar o conto, Machado resume as principais características de seu protagonista escrevendo “Nem os acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a índole. Quando rompeu a guerra do Paraguai, teve idéia muitas vezes de alistar-se como oficial de voluntários; não o fez nunca; mas é certo que ganhou algumas batalhas e acabou brigadeiro.” 

·        Conto de Escola 

O narrador, em primeira pessoa, conta que preferia cabular aulas a estar na escola e aproveita para referir-se a um certo Raimundo, colega de sala, pequeno e mole, de inteligência tarda, que tinha grande medo do pai, o professor Policarpo. Este, por sua vez, era mais exigente com o filho que com os demais alunos e, à falta de lições, era o pequeno quem recebia castigos maiores. O episódio que o narrador se propõe a contar situa-se historicamente no final da Regência, um período de grande agitação política. Raimundo chamou o narrador, ofereceu-lhe uma moeda de prata para que ele lhe fizesse as lições e evitasse, portanto, o castigo. No entanto, o comportamento de Pilar, o narrador, e de Raimundo foi denunciado por um colega, o Curvelo. Houve palmatória para ambos e a moedinha foi jogada na rua. Pilar, no dia seguinte, procura reaver a moeda, mas a caminho da escola, desviou-se para seguir o tambor da companhia do batalhão de fuzileiros, depois vagabundeou por outros lugares e não foi à aula. No dia anterior, Raimundo e Curvelo lhe deram o “primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação”. 

·        Entre Santos 

Escrito em primeira pessoa, narra a experiência de um capelão que ouviu a conversa de santos da igreja que assumiram a forma humana. Entre eles estavam S. Francisco de Paula, S. João Batista e S. Francisco de Sales. A conversa girava em torno das observações que os santos faziam dos fiéis, quando estes confessavam os pecados ou vinham pedir favores. S. Francisco de Sales tomou a palavra e relatou o caso de um homem avaro que estava perdendo a mulher, acometida de uma doença fatal. Mas a avareza, sua própria e humana essência, não lhe permitiu prometer mais do que rezas em profusão: ele não conseguiu superar seu maior pecado, mesmo amando verdadeiramente a mulher. O homem perde-se nos meandros de sua auto-defesa, contorna seus vícios com os mais ousados artifícios.

 

Grupo III – Contos teoria 

            Contos que buscam teorizar ou caracterizar genérica e filosoficamente os homens em suas buscas ou em seus desafetos: “Um Apólogo”, “Adão e Eva”, “Viver!”, “O Cônego ou Metafísica do Estilo”, que será transcrito na íntegra no final deste bloco, são os contos desse grupo. 

·        Um Apólogo 

Apólogo é o nome dado a uma narrativa curta, em prosa ou verso, que visa passar uma lição de moral. Geralmente, tem como personagens seres inanimados que são dotados da “fala” pelo escritor. No caso de Machado de Assis, seu famoso “Apólogo” tem por personagens a agulha, a linha e um alfinete. A agulha é orgulhosa, porque cose, abre caminho, é dirigida pelas mãos da costureira. Mas a linha lhe responde que é ela quem vai ao baile, é ela quem dança, enquanto a agulha no final de seu trabalho volta para a caixinha da costureira. Diante da conversa agressiva entre agulha e linha, um alfinete resolve interferir e toma apalavra, dizendo à pobre agulha: “Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho pra ninguém. Onde me espetam, fico.” Para finalizar, o narrador interfere e diz ter contado a história para um professor de melancolia que lhe disse: “- também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária.” 

·        Adão e Eva 

O conto tem o pretexto inicial de revelar a um grande lambareiro certa iguaria especial. Como o guloso demonstrasse grande curiosidade para saber qual doce seria servido, os convivas puseram-se a refletir sobre qual doce seria servido, os convivas puseram-se a refletir sobre a curiosidade, recaindo a conversa sobre quem seria mais curioso, o homem ou a mulher. Veloso, um juiz de fora, tomou a palavra e contou sua versão sobre o episódio de Adão e Eva, invertendo o episódio bíblico e o próprio ato da criação. Não fora, segundo ele, Deus quem criara o mundo, o homem e a mulher, mas o diabo. Coubera a Deus somente dar-lhes “a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo (...) Vivereis aqui, disse-lhes o Senhor, e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é da ciência do bem e do mal”. O diabo revoltou-se e cuidou de devolver o insulto divino, mandando ao paraíso uma serpente que deveria tentar Adão e Eva e fazê-los saborear o fruto proibido. Mas tanto Eva quanto Adão acharam inúteis as tentações do Tinhoso e concordaram que não havia poder, ciência ou qualquer outra coisa que lhes valesse o paraíso. Deus ouviu e por intermédio do arcanjo Gabriel premiou a obediência elevando-os à estância eterna, enquanto a terra ficava entregue às obras do diabo. “Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam  uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente...” 

·        Viver! 

O conto é construído sob a forma de um diálogo, à maneira do teatro. Passa-se no final dos tempos e tem como personagens Ahasverus, Prometeu e duas águias. Inicialmente, o judeu errante medita e depois sonha. A conversa acontece no sonho de Ahasverus. Ao constatar que ele é o último dos homens, e então pode morrer, já que as profecias dizem que ele está condenado a vagar até enterrar o último homem. Ahasverus constata a presença de Prometeu e os dois personagens mitológicos travam um diálogo em que a vida é necessária e fundamental e que pela sua experiência, o errante será o eleito para ser não o derradeiro homem sobre a terra, mas para ser o primeiro entre os de uma nova raça que se anuncia, invertendo-se, portanto, as predições. 

AHASVERUS – Eia, fala, fala mais. Conta-me tudo. Deixa-me desatar-te estas cadeias...

PROMETEU – Desata-as, Hércules novo, homem derradeiro de um mundo, que vais ser o primeiro de outro. É o teu destino; nem tu nem eu, ninguém poderá mudá-lo. És mais ainda que o teu Moisés. Do alto do Nebo, viu ele, prestes a morrer, toda a terra de Jericó, que ia pertencer à sua posteridade; e o Senhor lhe disse: ‘Tu a viste com teus olhos, e não passarás a ela.’ Tudo passarás a ela, Ahasverus; tu habitarás Jericó.

AHASVERUS – Põe a mão sobre a minha cabeça, olha bem para mim; incute-me a tua realidade e a tua predição; deixa-me sentir um pouco da vida nova e plena... Rei disseste?

PROMETEU – Rei eleito de uma raça eleita.

AHASVERUS – Não é demais para resgatar o profundo desprezo em que vivi. Onde uma vida cuspiu lama, outra vida porá uma auréola. Anda, fala mais... fala mais... (Continua sonhando. As duas águias aproximam-se.)

ÁGUIA – Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.

A OUTRA – Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito. 

·        O Cônego ou Metafísica do Estilo (texto integral) 

— "VEM DO LÍBANO, esposa minha, vem do Líbano, vem... As mandrágoras, deram o seu cheiro. Temos às nossas portas toda casta de pombos..." 

— "Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor..." 

Era assim, com essa melodia do velho drama de Judá, que procuravam um ao outro na cabeça do Cônego Matias um substantivo e um adjetivo... Não me interrompas, leitor precipitado; sei que não acreditas em nada do que vou dizer. Di-lo-ei, contudo, a despeito da tua pouca fé, porque o dia da conversão pública há de chegar. 

Nesse dia, — cuido que por volta de 2222, — o paradoxo despirá as asas para vestir a japona de uma verdade comum. Então esta página merecerá, mais que favor, apoteose. Hão de traduzi-la em todas as línguas. As academias e institutos farão dela um pequeno livro, para uso dos séculos, papel de bronze, corte-dourado, letras de opala embutidas, e capa de prata fosca. Os governos decretarão que ela seja ensinada nos ginásios e liceus. As filosofias queimarão todas as doutrinas anteriores, ainda as mais definitivas, e abraçarão esta psicologia nova, única verdadeira, e tudo estará acabado. Até lá passarei por tonto, como se vai ver. 

Matias, cônego honorário e pregador efetivo, estava compondo um sermão quando começou o idílio psíquico. Tem quarenta anos de idade, e vive entre livros e livros para os lados da Gamboa. Vieram encomendar-lhe o sermão para certa festa próxima; ele que se regalava então com uma grande obra espiritual, chegada no último paquete, recusou o encargo; mas instaram tanto, que aceitou. 

— Vossa Reverendíssima faz isto brincando, disse o principal dos festeiros. 

Matias sorriu manso e discreto, como devem sorrir os eclesiásticos e os diplomatas. Os festeiros despediram-se com grandes gestos de veneração, e foram anunciar a festa nos jornais, com a declaração de que pregava ao Evangelho o Cônego Matias, "um dos ornamentos do clero brasileiro". Este "ornamento do clero" tirou ao cônego a vontade de almoçar, quando ele o leu agora de manhã; e só por estar ajustado, é que se meteu a escrever o sermão. 

Começou de má vontade, mas no fim de alguns minutos já trabalhava com amor. A inspiração, com os olhos no céu, e a meditação, com os olhos no chão, ficam a um e outro lado do espaldar da cadeira, dizendo ao ouvido do cônego mil cousas místicas e graves. Matias vai escrevendo, ora devagar, ora depressa. As tiras saem-lhe das mãos, animadas e polidas. Algumas trazem poucas emendas ou nenhumas. De repente, indo escrever um adjetivo, suspende-se; escreve outro e risca-o; mais outro, que não tem melhor fortuna. Aqui é o centro do idílio. Subamos à cabeça do cônego. 

Upa! Cá estamos. Custou-te, não, leitor amigo? É para que não acredites nas pessoas que vão ao Corcovado, e dizem que ali a impressão da altura é tal, que o homem fica sendo cousa nenhuma. Opinião pânica e falsa, falsa como Judas e outros diamantes. Não creias tu nisso, leitor amado. Nem Corcovados, nem Himalaias valem muita cousa ao pé da tua cabeça, que os mede. Cá estamos. Olha bem que é a cabeça do cônego. Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que ainda assim não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual... 

— Sexual? 

Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo. 

— Mas, então, amam-se umas às outras? 

Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo. Senhora minha, confesse que não entendeu nada. 

— Confesso que não. 

Pois entre aqui também na cabeça do cônego. Estão justamente a suspirar deste lado. Sabe quem é que suspira? É o substantivo de há pouco, o tal que o cônego escreveu no papel, quando suspendeu a pena. Chama por certo adjetivo, que lhe não aparece: "Vem do Líbano, vem..." E fala assim, pois está em cabeça de padre; se fosse de qualquer pessoa do século, a linguagem seria a de Romeu: "Julieta é o sol... ergue-te, lindo sol." Mas em cérebro eclesiástico, a linguagem é a das Escrituras. Ao cabo, que importam fórmulas? Namorados de Verona ou de Judá falam todos o mesmo idioma, como acontece com o thaler ou o dólar, o florim ou a libra que é tudo o mesmo dinheiro. 

Portanto, vamos lá por essas circunvoluções do cérebro eclesiástico, atrás do substantivo que procura o adjetivo. Sílvio chama por Sílvia. Escutai; ao longe parece que suspira também alguma pessoa; é Sílvia que chama por Sílvio. 

Ouvem-se agora e procuram-se. Caminho difícil e intrincado que é este de um cérebro tão cheio de cousas velhas e novas! Há aqui um burburinho de idéias, que mal deixa ouvir os chamados de ambos; não percamos de vista o ardente Sílvio, que lá vai, que desce e sobe, escorrega e salta; aqui, para não cair, agarra-se a umas raízes latinas, ali abordoa-se a um salmo, acolá monta num pentâmetro, e vai sempre andando, levado de uma força íntima, a que não pode resistir. 

De quando em quando, aparece-lhe alguma dama — adjetivo também — e oferece-lhe as suas graças antigas ou novas; mas, por Deus, não é a mesma, não é a única, a destinada ao eterno para este consórcio. E Sílvio vai andando, à procura da única. Passai, olhos de toda cor, forma de toda casta, cabelos cortados à cabeça do Sol ou da Noite; morrei sem eco, meigas cantilenas suspiradas no eterno violino; Sílvio não pede um amor qualquer, adventício ou anônimo; pede um certo amor nomeado e predestinado. 

Agora não te assustes, leitor, não é nada; é o cônego que se levanta, vai à janela, e encosta-se a espairecer do esforço. Lá olha, lá esquece o sermão e o resto. O papagaio em cima do poleiro, ao pé da janela, repete-lhe as palavras do costume e, no terreiro, o pavão enfuna-se todo ao sol da manhã; o próprio sol, reconhecendo o cônego, manda-lhe um dos seus fiéis raios, a cumprimentá-lo. E o raio vem, e pára diante da janela: "Cônego ilustre, aqui venho trazer os recados do sol, meu senhor e pai." Toda a natureza parece assim bater palmas ao regresso daquele galé do espírito. Ele próprio alegra-se, entorna os olhos por esse ar puro, deixa-os ir fartarem-se de verdura e fresquidão, ao som de um passarinho e de um piano; depois fala ao papagaio, chama o jardineiro, assoa-se, esfrega as mãos, encosta-se. Não lhe lembra mais nem Sílvio nem Sílvia. 

Mas Sílvio e Sílvia é que se lembram de si. Enquanto o cônego cuida em cousas estranhas, eles prosseguem em busca um do outro, sem que ele saiba nem suspeite nada. Agora, porém, o caminho é escuro. Passamos da consciência para a inconsciência onde se faz a elaboração confusa das idéias, onde as reminiscências dormem ou cochilam. Aqui pulula a vida sem formas, os germens e os detritos, os rudimentos e os sedimentos; é o desvão imenso do espírito. Aqui caíram eles, à procura um do outro, chamando e suspirando. Dê-me a leitora a mão, agarre-se o leitor a mim, e escorreguemos também. 

Vasto mundo incógnito. Sílvio e Sílvia rompem por entre embriões e ruínas. Grupos de idéias, deduzindo-se à maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscências da infância e do seminário. Outras idéias, grávidas de idéias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras idéias virgens. Cousas e homens amalgamam-se; Platão traz os óculos de um escrivão da câmara eclesiástica; mandarins de todas as classes distribuem moedas etruscas e chilenas, livros ingleses e rosas pálidas; tão pálidas, que não parecem as mesmas que a mãe do cônego plantou quando ele era criança. Memórias pias e familiares cruzam-se e confundem-se. Cá estão as vozes remotas da primeira missa; cá estão as cantigas da roça que ele ouvia cantar às pretas, em casa; farrapos de sensações esvaídas, aqui um medo, ali um gosto, acolá um fastio de cousas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpável e obscura. 

— Vem do Líbano, esposa minha... 

— Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém... 

Ouvem-se cada vez mais perto. Eis aí chegam eles às profundas camadas de teologia, de filosofia, de liturgia, de geografia e de história, lições antigas, noções modernas, tudo à mistura, dogma e sintaxe. Aqui passou a mão panteísta de Spinoza, às escondidas; ali ficou a unhada do Doutor Angélico; mas nada disso é Sílvio nem Sílvia. E eles vão rasgando, levados de uma força íntima, afinidade secreta, através de todos os obstáculos e por cima de todos os abismos. Também os desgostos hão de vir. Pesares sombrios, que não ficaram no coração do cônego, cá estão, à laia de manchas morais, e ao pé deles o reflexo amarelo ou roxo, ou o que quer que seja da dor alheia e universal. Tudo isso vão eles cortando, com a rapidez do amor e do desejo. 

Cambaleias, leitor? Não é o mundo que desaba; é o cônego que se sentou agora mesmo. Espaireceu à vontade, tornou à mesa do trabalho, e relê o que escreveu, para continuar; pega da pena, molha-a, desce-a ao papel, a ver que adjetivo há de anexar ao substantivo. 

Justamente agora é que os dous cobiçosos estão mais perto um do outro. As vozes crescem, o entusiasmo cresce, todo o Cântico passa pelos lábios deles, tocados de febre. Frases alegres, anedotas de sacristia, caricaturas, facécias, disparates, aspectos estúrdios, nada os retém, menos ainda os faz sorrir. Vão, vão, o espaço estreita-se. Ficai aí, perfis meio apagados de paspalhões que fizeram rir ao cônego, e que ele inteiramente esqueceu; ficai, rugas extintas, velhas charadas, regras de voltarete, e vós também, células de idéias novas, debuxos de concepções, pó que tens de ser pirâmide, ficai, abalroai, esperai, desesperai, que eles não têm nada convosco. Amam-se e procuram-se. 

Procuram-se e acham-se. Enfim, Sílvio achou Sílvia. Viram-se, caíram nos braços um do outro, ofegantes de canseira, mas remidos com a paga. Unem-se, entrelaçam os braços, e regressam palpitando da inconsciência para a consciência. "Quem é esta que sobe do deserto, firmada sobre o seu amado?", pergunta Sílvio, como no Cântico; e ela, com a mesma lábia erudita, responde-lhe que "é o selo do seu coração", e que "o amor é tão valente como a própria morte". 

Nisto, o cônego estremece. O rosto ilumina-se-lhe. A pena cheia de comoção e respeito completa o substantivo com o adjetivo. Sílvia caminhará agora ao pé de Sílvio, no sermão que o cônego vai pregar um dia destes, e irão juntinhos ao prelo, se ele coligir os seus escritos, o que não se sabe. 





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