Angústia
(Graciliano Ramos
) Estudo do professor José Hipólito de Moura Faria
Editora O Lutador
1. “FALSO MODERNISTA E FALSO NORDESTINO”?
Graciliano Ramos, que nasceu em Quebrângulo (Magoas) e morreu no Rio de Janeiro, dividiu a vida entre o comércio, o jornalismo, a burocracia, a atividade política e a literatura. A sua obra reflete expressivamente esses aspectos de sua existência.
Em 1933, aos quarenta e um anos, publica “CAETÉS”, no qual vinha trabalhando desde 1925. Nesse livro de estréia de um escritor maduro anunciam-se as qualidades que iriam predominar nas obras seguintes. A crítica percebeu nele um certo sabor naturalista, sendo visível a influência de Eça de Queirós. E, como diz o “Pequeno Dicionário da Literatura Brasileira”, da Cultrix, o volume já anuncia algumas das futuras constantes estilísticas de Graciliano Ramos, como os cuidados com a linguagem (sobriedade, correção, precisão de vocábulos...) e grande apuro da técnica romancística.
João Valério narra, em primeira pessoa, a sua existência solitária de comerciário e pensionista de Dona Maria José. Nas horas vagas, desenvolve um romance a propósito do primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, devorado pelos índios caetés. Ao lado disso, nasce um amor entre ele e Luísa, mulher do patrão, Adriano Teixeira, o qual se suicida após receber uma carta anônima — este fato motiva a separação dos dois. Simultaneamente, o livro sobre os caetés permanece inacabado, já que não passava de uma fuga aos problemas individuais do protagonista. João Valério seria o verdadeiro “caeté”, “ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora”, lutando por manter essa casca que lhe assegura uma adaptação ao meio; por outro lado, sendo emocionalmente muito instável, deixa em aberto a possibilidade de desvendar, a qualquer momento, o fundo rude e selvagem do homem. Essa obra já revela também a visão obsessiva de Graciliano Ramos: o homem tido como “animal absolutamente egoísta, cruelmente ávido de si mesmo”, como diria Olívio Montenegro.
Em 1934 é editado o segundo romance: “SÃO BERNARDO”, bem superior ao primeiro: uma obra-prima que confirma e aprimora os recursos estilísticos já mostrados na obra de estréia. A narração também é em primeira pessoa. Desta vez, o protagonista é Paulo Honório que, marcado por uma infância miserável, reage tentando com todas as forças realizar a ambição de “ser gente” através da posse de bens e riquezas. Como diz Bosi (HCLB), é o romance do desencontro entre o ter e o ser, simultaneamente psicológico e social; e o foco em primeira pessoa mostra toda a sua força ao revelar a consciência de um homem que absorveu toda a agressividade latente em um sistema de competição (o capitalismo).
Depois de realizar o seu intento alcançando a posse da fazenda São Bernardo, por meios inclusive pouco honestos, Paulo Honório “amanhece um dia pensando em casar”. Não se trata do resultado de um relacionamento interpessoal com alguma mulher, mas de uma simples decisão para assegurar-lhe um herdeiro que administrasse futuramente seus bens. A mulher, no caso, não seria senso uma posse a mais, simples meio para assegurar esse objetivo. Acontece que a escolhida, Madalena, professora primária, de constituição frágil e muito sensível, era o oposto de Paulo Honório. E, apesar de toda a sua fraqueza, resiste a ele que, não habituado a encontrar obstáculos à sua vontade, perturba-se profundamente, passando a cultivar um ciúme irracional e doentio. Madalena, desistindo de conseguir humanizar o marido e não suportando mais a sua perseguição, comete suicídio. Esse fato abala e transtorna Paulo Honório, que se entrega obsessivamente às suas memórias, como tentativa para aliviar a insuportável tensão emocional. Paralelamente, ocorre a revolução política, a fazenda perde trabalhadores, sobrevêm maus negócios e a sensação de inutilidade de todo o seu esforço de vida, com o conseqüente abandono a que São Bernardo é relegada. Paulo Honório, antes um homem brutal e dominador, termina aniquilado, tomando consciência de todos os erros que cometera, mas, ainda assim, reconhecendo que, se tivesse de recomeçar, não conseguiria ser diferente:
“Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros.” “Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê!! Comer e dormir como um porco! Como um porco!” “Estraguei a minha vida estupidamente. Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.”
“ANGÚSTIA” é impresso em 1936. Dele falaremos depois.
Em 1938, Graciliano Ramos publica “VIDAS SECAS”, talvez sua obra mais popular. Inicialmente um conto sobre a morte da cachorra Baleia, o autor aos poucos o ampliou, montando uma novela de capítulos quase autônomos. A novidade, aqui, é o foco narrativo em terceira pessoa, embora no conto inicial a narrativa se faça a partir do “ponto de vista” da cadela.
Esta é, também, a obra mais “regionalista” do autor, por mostrar os estragos materiais e humanos decorrentes do drama das secas. Percebemos nela, porém, a mesma solidão, a mesma sensação de inutilidade e impotência que dominam a filosofia do autor nas demais obras. Como nota Nelly Novaes Coelho (em “O Ensino da Literatura”, FTD, 1966, págs. 276 e ss) “Aqui o ser humano não luta contra outro, mas se une, ou antes, se junta, com todas as energias mobilizadas contra a natureza hostil. O homem é reduzido a um ser primitivo, ao nível dos animais que, por seu lado, se “humanizam”. Apesar de reunidos, persiste em cada um o isolamento íntimo que separa”. Na verdade, como ainda observa a autora, nas poucas vezes em que Fabiano é obrigado a misturar-se com outros homens, o resultado é o aturdimento e a incompreensão. “Os limites de sua ambiência são tão estreitos que não lhe permitem um passo além dos impulsos naturais e instintivos.” E acrescenta: Afinal, toda a luta acabará inútil, “pois os homens terminarão como os retirantes: como a Baleia, tal como antevê Fabiano:
Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer?”
E Graciliano Ramos não nos dá a resposta...”
Já observamos que o autor se mescla muito às suas obras. Como a confirmar esse fato, ele deixa, aos poucos, a ficção, para se transformar no memorialista de INFÂNCIA (Rio, 1945), de “MEMÓRIAS DO CÁRCERE” (Rio, 1953 — publicação póstuma) e mesmo de “VIAGEM” (Rio, 1954, póstuma).
Além desses gêneros, Graciliano cultivou também o conto e a crônica: “INSÔNIA” (1947), “LINHAS TORTAS” (1962), “ALEXANDRE E OUTRQS HERÓIS” (1962), as duas últimas obras, como se vê, publicadas depois da morte.
Como situar esse autor dentro da história literária brasileira? Pela cronologia, seria um modernista. Pela origem, um regionalista do Nordeste. Esses lugares-comuns foram efetivamente usados para caracterizar Graciliano Ramos, embora todos observassem as suas peculiaridades. O “Dicionário Prático de Literatura Brasileira”, de Assis Brasil, define a sua obra como a “mais importante do ciclo nordestino.” É conhecida a citação de Astrojildo Pereira, para quem a obra de Graciliano mostra que regionalismo e universalismo não são incompatíveis: “o corpo é regional, mas a alma é universal”. E Adonias Filho vê nele o romancista de uma região, com duas posições bem definidas: o realizador de um documentário, ao modo dos neo-realistas, e o animador do psicologismo em certas linhas extremas. Apesar da contradição aparente, o crítico enxerga uma inter-relação perfeita entre esses dois aspectos.
Em posição diferente, Alfredo Bosi vê na ficção de Graciliano um exemplo dos romances de tensão crítica, ou seja, daqueles que se opõem vigorosamente ao seu meio. Mais ainda, esse autor representaria “o ponto mais alto da tensão entre o eu do escritor e a sociedade que o formou”
Ora, é sabido que o “romance regionalista do Nordeste” firmou-se a partir de 1926, com o binômio “região e tradição”. José Lins do Rego e Rachel de Queiroz seriam autores exemplares desse regionalismo que, antes de mais nada, se identifica com a região e a veicula na sua geografia, usos, costumes, folclore, fala, problemas — enfim, na sua cultura.
Wilson Martins (em “O Modernismo”, Cultrix, 3ª edição, p. 286 ss) tem ponto de vista mais radical. Graciliano não foi o regionalista que alguns afirmam: “... praticará até o fim um tipo de romance que poucas relações substanciais terá com a ficção nordestina.” “No “romance sociológico” dos anos 30, Graciliano Ramos escreve o “romance psicológico”: é tão forte o prestígio das idéias feitas e das vistas simplificadoras que, naquele momento, ninguém reparou nesse escândalo.” Para Martins, se “Vidas Secas” demonstra um desejo de integração no grupo nordestino, é que a carreira de Graciliano sofreu um desvio ao penetrar no mundo do profissionalismo literário. Ele acabou por sufocar suas verdadeiras tendências “para tomar lugar num quadro literário que as contrariava. Tudo se resolveu, afinal, pelo melhor, já que ele foi calorosa e sinceramente aplaudido pelo que não era”, etc.
Aliás, o autor nem seria, propriamente, um modernista. Não aceitava as “incorreções” nem a liberdade de pontuação ou a sintaxe anticonvencional do modernismo paulista de 1922, como o mostra uma passagem interessante de “Angústia”: “Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços?”
Além disso, Carpeaux (prefácio à edição da Livraria Martins) assinala que a obra de Graciliano não forma um ciclo, mas cada livro é um tipo diferente de romance: “Com efeito: “Caetés” é dum Eça brasileiro; “São Bernardo” tem algo de um Balzac rural; “Angústia” antecipa o “nouveau roman” e “Vidas Secas” lembra certos contistas russos.” Depois de tudo, Carpeaux o caracteriza como um clássico, mas um clássico experimentador.
Na mesma linha, e tirando todas as conclusões, Wilson Martins sentencia: “Sem esperar, ele se vê jogado a uma carreira de escritor profissional; sem esperar e sem querer, torna-se um escritor “modernista”, já que, nos anos 30, tratava-se de ser modernista ou morrer. Se o velho Alcântara Machado falou no “romântico arrependido”, caberia, a propósito de Graciliano Ramos, falar no “modernista malgré lui”, o modernista de má vontade.” E noutro lugar: “... a leitura desprevenida da sua obra e, notadamente, das páginas espontâneas e improvisadas, demonstra que ele foi, acima de tudo, um marginal da literatura em moda, assim como foi um marginal dos grupos sociais em que viveu.” (op. cit., p. 287).
O que concluir disso tudo? Na minha opinião, que Graciliano, apesar de muitos pontos de natural contacto com o seu meio e o seu tempo, possui um mundo ficcional próprio que, na sua natureza mais profunda, distingue-se fundamentalmente da literatura sua contemporânea, modernista e regionalista. Uma obra à parte, que só tem crescido em importância à medida que vem sendo estudada: “Como romancista e, principalmente, como escritor, Graciliano Ramos é hoje um clássico da língua” e “coloca-se no primeiro plano da literatura brasileira.” (PDLB, Cultrix).
Resumo do enredo
Vamos tenta resumir o enredo de “Angústia”, o que não é nada fácil. O romance psicológico constrói-se exatamente pelo registro do fluxo de consciência dos personagens, e é impossível resumir esse movimento de vaivém incessante, com seus saltos e suas lacunas...
O protagonista é Luís da Silva, trinta e cinco anos, lotado na Diretoria do Tesouro, em Maceió, Alagoas. Ele revela profundos sentimentos de autodepreciação, de insatisfação com a vida que leva, “monótona e estúpida”. Ganha $500.000 réis de salário (aproximadamente uns cinco salários mínimos da época) e é submisso aos chefes. De origem rural, é um deslocado na cidade. Lembra com alguma admiração o avô Trajano, forte, decidido, possuidor de mulheres em seus tempos de esplendor e, com muitas reservas, o pai, Camilo, filho fraco, o único que escapou do casamento de Trajano e Sinhá Germana.
Luís sente-se fortemente atraído por uma vizinha nova, Marina, filha de D. Adélia e do eletricista Seu Ramalho. A atração é predominantemente sexual, já que os dois são diferentes demais para se entenderem: “Gosto da pequena, amarrou uma pedra no pescoço e mergulho”.
Visando ao casamento, o enxoval é preparado. Ela só pensa em roupas finas, jóias e tapetes, e Luís termina por esgotar suas parcas economias de três contos de réis, além de se endividar. Chegando com o presente de casamento, um anel e um relógio, supreende-a a trocar olhares suspeitos com Julião Tavares, um tipo que se tinha introduzido forçadamente na vida de Luís, e por quem ele sempre nutrira uma aversão especial: era um homem rico, sócio da firma “Tavares & Cia”, negociantes de secos e molhados, e conquistador de mulheres.
Com o passar do tempo, fica bem caracterizada a preferências de Marina por Julião: “ Se eu não tivesse cataratas no entendimento, teria percebido logo que ela estava com a cabeça virada”.
Amargurado, Luís de distancia de Marina; é-lhe inaceitável o que considera como prostituição da noiva: “Escolher marido por dinheiro. Que miséria!”
O golpe veio romper o precário equilíbrio psicológico do protagonista, que não consegue desligar-se mentalmente de Marina e entra num furioso processo de fantasias, com predominância inicial daquelas de natureza sexual. Ora se entrega ao despeito e ao ciúme, ora imagina tudo esquecer e reaver Marina que, por seu turno, está cada vez mais firme com Julião Tavares, de quem recebe tudo aquilo de que gosta: roupas caras, jóias, passeios, idas à ópera, ao cinema, etc.
As fantasias de Luís da Silva tornam-se progressivamente mais obsessivas e gradualmente se vão fixando em alguns aspectos especiais: os arames (fios) da Cia. Nordeste, cordas, canos, cenas de assassinatos e prisões que em criança havia presenciado, casos de vingança de honra, etc.
O seu comportamento se deteriora; falta às vezes ao serviço, na repartição; vive bebendo e fumando, perambula à toa pela cidade, de bodega em bodega, atola-se em dívidas, enquanto entra num processo mental francamente delirante. Poucos momentos de lucidez não conseguem, deter tal decadência: com um pouco de método, pensava ocasionalmente, poderia recolocar a sua vida nos trilhos...
Marina aparece grávida e Julião Tavares vai-se afastando dela aos poucos. Em vez de recriminá-lo, a moça e D. Adélia entregaram tudo a Deus, “numa resignação estúpida e fatalista”.
Luís sente a imperiosa necessidade de fazer Julião Tavares morrer, e morrer enforcado, os olhos esbugalhados, a língua de fora. Seu Ivo, um mendigo que eventualmente passava por lá para pedir comida, presenteia-o com uma peça de corda. Ele se sobressalta desproporcionalmente, rejeitando, horrorizado, o presente que materializava, por assim dizer, as suas fantasias. Mas acaba guardando no bolso a peça e, doravante, não mais a largará. E as fantasias se fixam mais nas laçadas certeiras de Amaro, o vaqueiro; no enforcamento do velho e digno seu Evaristo, quando recebeu a desconsideração do padeiro; na cascavel que, certa vez, se enrolara no pescoço do avô Trajano...
A decadência psicológica e humana continua inexorável; Luís emagrece, quase não come, bebe demais; vigia e segue, como um autômato, Julião Tavares ou Marina. Nessa “tarefa”, vê-a entrar, certo dia, em casa de uma D. Albertina de tal, parteira diplomada. Imagina que ela foi abortar e, na saída, aborda-a e a insulta pesada e repetidamente: “Puta!” Num indício de dissociação de personalidade, “dizia-lhe o insulto, mas estava cheio de piedade”.
Descobre, também, que Julião estava de amante nova, residente no bairro de Bebedouro. Rastreando o “inimigo”, segue-o certa noite até à casa da amante. Depois que Tavares entra na residência, Luís continua andando, robotizado, até o fim da linha do bonde. Quando volta, de madrugada, sempre a pé, há uma espessa neblina dificultando a visão. Julião sai, bem à sua frente, da casa de Bebedouro. Valendo-se da névoa, acompanha-o sem ser notado, até que as circunstâncias lhe permitem atirar-se sobre ele e enforcá-lo, conseguindo ainda, após várias tentativas, alçá-lo ao galho de uma árvore próxima para simular suicídio. No instante do assassinato, Luís tem uma sensação de deslumbramento: “ O homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Esta convicção afastou qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me”.
Sempre a pé, sujo e esfarrapado, devido à luta e às circunstâncias do enforcamento, atordoado por fantasias e alucinações, consegue chegar até sua casa. Aí, a muito custo e de maneira desconexa, procura apagar os indícios do que ocorrera. Pelo resto da madrugada, na manhã e nos dias seguintes, experimenta aquilo que em psicopatologia chamamos de “delírios oniróides”, acompanhados de pensamentos obsessivos. Não conseguia entender o que lhe falavam, nem distinguia bem os visitantes.
“Sem memória, um idiota.” As coisas e pessoas conhecidas, as visões habituais do passado e do presente vinham, confundiam-se umas com as outras, numa cirando sem fim. “O tempo passava, mas no tempo não havia horas.” Predominam o sentimento de solidão e abandono, o cego da loteria gritando o nº 16.384. Um colchão de paina. “Milhares de figurinhas insignificantes. E era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado para não molestar as outras. 16.384. Íamos descansar. Um colchão de paina.”
A continuação do enredo está no início da obra!
Tema: “Inútil, tudo inútil”
Tendo em vista o resumo, poderíamos perguntar: qual o tema, a idéia central ou nuclear que organiza, que explica?
Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira aponta o sentimento de rejeição como o roteiro, a categoria unificante que permitira entender todos os romances de Graciliano Ramos. E não podemos negar que, realmente, eles apresentam essa dimensão, proveniente, segundo o mesmo autor, do contacto com a natureza e o próximo.
Nelly Novaes Coelho vê no drama da solidão a constante da obra de Graciliano. As duas forças obsessivas que explicam essa obra seriam a solidão interior do homem e a sua luta para a afirmação da própria personalidade. Tal solidão brota da rejeição afetiva, da infância sem amor e leva à luta pela própria afirmação dentro do meio. Esse é o traço comum aos protagonistas desses romances: lutam sempre contra algo e o fazem solitariamente, sem entrar em comunhão com alguém. A descoberta do outro no sentido negativo – asfixiante certeza de que não há possibilidade de comunhão – vencemos ou somos vencidos pelos outros.
Otto Maria Carpeaux, no estudo já mencionado, diz que “a realidade, nos romances de GR, não é deste mundo. É uma realidade diferente”. E qual seria ela? Citando Álvaro Lins, que observa: “As outras personagens são projeções da personagem principal. Julião Tavares e Marina só existem para que Luís Silva cometa o seu crime. Tudo vem ao encontro da personagem principal – inclusive o instrumento do crime”, Carpeaux vê aí a chave da obra do romancista, porque elas descrevem a nossa situação no sonho, onde o mundo é criação do nosso espírito. “Explica-se assim o extremo egoísmo dos heróis de Ramos: é o egoísmo daquele que sonha e para o qual prisioneiro dum mundo irreal, só ele mesmo existe realmente.” E conclui: “ Os romances de Graciliano Ramos são experimentos para acabar com o sonho de angústia que é esta vida”.
Podemos observar que há óbvias coincidências e relações entre as posições dos três críticos. No caso especial de Angústia, vemos que Luís, um homem desenraizado na cidade, reduzido à insignificância, reage rejeitando violentamente a vida estúpida que leva. Observamos que ele faz isso de um modo solitário e, mais do que na solidão, termina no solipsismo; e não é difícil aceitar que o mundo em que se move o protagonista afasta-se cada vez mais da realidade para se constituir num mundo de sonho.
No entanto, o que mais chama a atenção foi a impotência do protagonista em sair dos seus delírios, em ligar-se a alguém, em aceitar. Significativo é o fato, já observado por Carpeaux, de que a seqüência das últimas páginas do romance está nas primeiras! Isso caracteriza uma circularidade, um universo fechado do qual o gesto tresloucado de Luís não conseguiu liberta-lo! Eu diria, portanto, que o tema da obra está nessa impotência do protagonista em superar a insignificância da vida e a solidão. A inutilidade de todos os esforços.