AGOSTO
(Rubem Fonseca
) Análise do Prof. Teotônio Marques
Filho
Introdução
Embora o estudo que vamos
apresentar possa subsidiar a compreensão do livro de Rubem Fonseca, Agosto
é um romance que deve ser lido na íntegra. Este trabalho pretende ser tão-somente
um aperitivo (ou a sobremesa) do grande banquete, que é ler esse romance.
José Rubem Fonseca, mineiro
de Juiz de Fora (1925), é hoje um escritor consagrado, destacando-se como
contista, romancista e roteirista de cinema.
Entre seus livro de contos,
merecem referência Os primeiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia MacCartney
(1967), Feliz ano novo (1975) e O cobrador (1979) e, entre os romances, sobressaem
O caso Morel (1973), A grande arte (1983), Bufo e Spallanzani (1986) e Vastas
emoções e pensamentos imperfeitos (1988).
Publicado em 1990, Agosto,
pela segunda vez indicado para o vestibular, é um romance que funde ficção
e história real, tendo-se transformado também numa bem sucedida minissérie
de televisão.
Aliás, com esses mesmos
ingredientes, tem feito grande sucesso também Hilda Furacão, de Roberto Drummond.
O mesmo ocorreu com outro grande romance da literatura brasileira – Incidente
em Antares -, de Érico Veríssimo, também filmado, no qual igualmente se misturam
ficção e história.
Embora tenha sido recebido
com ressalvas por alguns escritores, Agosto apresenta uma trama bem urdida,
que prende o leitor do princípio ao fim, e constitui “uma das melhores obras
de nosso tempo” e “o melhor livro de Rubem Fonseca”, como reconhece o jornalista
e escritor Fernando Morais, na “orelha” do romance:
(...) Minuciosa pesquisa
história e um talento que consegue o prodígio de superar as obras anteriores
de Rubem Fonseca produziram um livro eletrizante. Como se tivesse diante dos
olhos os melhores momentos de Costa Gravas, o leitor é guiado pela mão do
autor a caminhar pela emoção de cada hora dos vinte e quatro dias de agosto
de 1954: a câmera vai mostrando sucessivamente um xadrez entupido de presos
comuns num distrito policial, uma melancólica reunião de Vargas com seu estado-maior
no Palácio do Catete, o general Castelo Branco e o Marechal Mascarenhas de
Morais tentando conter a fúria da UDN.
“Agosto” tece com brilho singular
a fusão entre ficção e história rela. Juntos, bicheiros, mães-de-santo, brigadeiros
golpistas, pistoleiros de aluguel e políticos corrompidos magnetizam de tal
maneira o leitor que às vezes fica difícil saber onde termina a História do
Brasil e onde começa o romance. “Agosto” será consagrado, sem a mais remota
sombra de dúvida, como uma das melhores obras de nosso tempo. E como o melhor
livro de Rubem Fonseca.
Contexto Histórico
Já no primeiro capítulo
do romance, o leitor depara com os fatos e as personagens que vão constituir
o núcleo do livro: o assassinato de um empresário, a ser desvendado pelo delegado
Alberto Mattos (no plano ficcional) e a trama urdida por Gregório Fortunato
para assassinar o jornalista Carlos Lacerda (no plano histórico).
Para que se tenha uma
idéia dos fatos históricos, que giram em torno do presidente Getúlio Vargas,
vamos relacionar abaixo os acontecimentos ocorridos no mês de agosto de 1957,
tendo como base a exposição de Thomas Skidmore apresentada em Brasil, de Getúlio
a Castelo.
1º de agosto: Gregório Fortunato articula com
Climério, membro da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, o atentado
contra o “Corvo”, o jornalista Carlos Lacerda, oposicionista ferrenho ao presidente
da República.
2 de agosto: O presidente vai ao jóquei assistir
ao grande prêmio e é vaiado por algumas pessoas das tribunas especiais. Das
galerias populares não vieram vaias assim como também não vieram aplausos.
Esse fato poderia já estar demonstrando o desgaste da imagem do presidente
junto à opinião pública.
5 de agosto: Ocorre o atentado contra Carlos
Lacerda na rua Tonelero. No fracasso atentado, morre o major da Aeronáutica
Rubem Vaz, que servia de guarda-costas ao jornalista.
O fato repercute como
uma bomba na imprensa, nos meios políticos e militares. Os ministros militares
perdem sua ascendência às tropas e ocorrem públicas manifestações de indisciplina.
Carlos Lacerda foi no pé e começa a usar sua conhecida habilidade oratória
e jornalística para jogar as forças Armadas contra o governo.
6 de agosto: Getúlio Vargas compreende a gravidade
do fato e se reconhece como a maior vítima. Determinou a seu Ministro da Justiça,
Tancredo Neves, que apurasse, com todo o rigor, as responsabilidades do atentado.
Numa tentativa de mostrar sua disposição, designa um promotor público ligado
à oposição para acompanhar, junto ao Ministro da Aeronáutica, o inquérito
policial-militar.
7 de agosto: è preso o motorista de táxi Nélson
Raimundo, que aponta Climério como mandante do atentado.
8 de agosto: O presidente dissolve a guarda pessoal.
9 de agosto: Instala-se o clima golpista; deputados
como Afonso Arinos e Aliomar Balieiro defendem a deposição de Vargas.
10 de agosto: As pressões da UDN fazem eco nas
Forças Armadas, e Eduardo Gomes e outros oficiais da Aeronáutica pregam a
deposição do presidente.
11 de agosto: O Ministro da Guerra, Zenóbio da
Costa, renuncia, pressionado por militares da oposição, liderados por Eduardo
Gomes.
12 de agosto: Getúlio viaja a Belo Horizonte para
inaugurar, com o governador Juscelino Kubtscheck a Siderúrgica Mannesmann.
Fez um discurso em que repudia a campanha sórdida e difamatória de que é o
alvo e evoca os princípios as legalidade que seus opositores estariam atropelando.
Oficiais da Aeronáutica
fazem da base do Galeão a sede do IPM que tentava apurar o atentado da rua
Tonelero. Parte da imprensa lançou a alcunha de “República do Galeão” para
o grupo militar do IMP, militares golpistas e politiqueiros, que escondiam
da imprensa e da opinião pública as verdadeiras conclusões do inquérito.
13 de agosto: Alcino, jagunço de Tenório Cavalcanti,
foi preso depois de espetacular operação de busca na zona rural na baixada
fluminense, uma autêntica operação de guerra. No Galeão, ele confessa que
fora o autor do atentado a mando de Climério.
Afonso Arinos volta a
discursar na Câmara exigindo a deposição de Vargas. No discurso, lança a patética
expressão “mar de lama”, que estaria sob o palácio do Catete.
15 de agosto: É preso o chefe da guarda pessoal
do presidente, Gregório Fortunato. Chefes militares se pronunciam pela renúncia
de Getúlio Vargas.
17 de agosto: O deputado mineiro Gustavo Capanema
faz discurso em defesa do presidente e de sua família. Denúncia a instigação
ao golpe feita pela UDN, que tentava jogar com as forças Armadas.
18 de agosto: Alcino, o matador de aluguel, reitera
sua confissão anterior Gregório Fortunato.
19 de agosto: Manuel Vargas, filho do presidente
é acusado de corrupção.
21 de agosto: O vice-presidente Café Filho, que
era alvo especial da tentativa da UDN de fomentar uma cisão dentro do governo,
sugeriu a Getúlio que ambos renunciassem, deixando que o Congresso elegesse
um sucessor inteiro para o restante do mandato presidencial. Getúlio recusou-se
dizendo a Café Filho que só deixaria o palácio no final do mandato ou, antes,
morto.
22 de agosto: O Marechal Mascarenhas de Morais
é convencido pelo Brigadeiro Eduardo Gomes a levar para o presidente uma exigência
de renúncia feita pelos brigadeiros. Ao receber o documento, Getúlio o repete
prontamente.
23 de agosto: Vinte e sete generais que se autodenominavam
nacionalistas lançam o “Manifesto à Nação”, exigindo a renúncia de Getúlio
Vargas. Nesse documento, declaravam que a “corrupção criminosa” que envolvia
o presidente havia comprometido “a autoridade moral” indispensável ao seu
governo. Almirantes e brigadeiros aderem ao Manifesto.
O ministro Zenóbio da
Costa tenta ainda organizar uma resistência dentro do Exército ao clima golpista,
mas, depois de uma reunião com os militares, convence-se que a deposição de
Vargas era inevitável e definida.
Getúlio não se rende ao
ultimato dos militares e emite uma nota desafiadora: “Se vêm para me depor,
encontrarão meu cadáver.”
O presidente manteve a
palavra. Não hesitando um só momento acerca de sua defesa final contra seus
inimigos, apontou cuidadosamente a arma contra o coração e apertou o gatilho.
Sua família e seus ajudantes precipitaram-se para o aposento, mas já encontraram
o presidente morto. Oswaldo Aranha, companheiro de tantas batalhas no passado,
prorrompeu em lágrimas.
Uma inflamada carta-suicídio,
supostamente deixada por Getúlio, foi imediatamente entregue os jornais. Denunciava
que “uma campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se às dos grupos
nacionais”, tentando bloquear o “regime de proteção ao trabalho”, as limitações
dos lucros excessivos e as propostas de criar a Petrobrás e a Eletrobrás.
Transcrevemos a seguir a carta-testamento:
Mais uma vez, as forças e os interesses
contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam, insultam, não me combatem,
caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e
impedir a minha ação, para que eu não continue a defender como sempre defendi,
o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois
de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais,
fiz-me chefe de uma revolução e venci, iniciei o trabalho de libertação e
instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo
nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se
à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho.
A lei der lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça
da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade
nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal
começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada
até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o
povo seja independente.
Assumi o governo dentro da espiral
inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas
estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que
importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares
por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos
defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia,
a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia-a-dia,
hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando
em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo,
que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue.
Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o
povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio
de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis a minha alma sofrendo
ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito
a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis
no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu
nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama
imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência.
Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com
a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna.
Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício
ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil.
Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio,
as infâncias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora
vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no
caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.
Carta-testamento
De Getúlio Vargas
24 de agosto de 1954
Como se vê, participaram
do romance algumas figuras da história do Brasil, em que sobressaem o presidente
Getúlio Vargas, Carlos Lacerda e Gregório Fortunato.
A seguir, relacionamos
essas e outras figuras históricas que se destacam no livro:
1)
Getúlio Vargas: conhecido como “o pai dos pobres”,
o velho caudilho aparece na obra com o mesmo caráter ambíguo que tem na história:
ora é visto como vítima, ora é acusado de ser o responsável por toda a crise
e pelo caos político que se instalou no país.
2)
Gregório Fortunato: chefe da guarda pessoal de Getúlio
Vargas, o “Anjo Negro”, estava disposto até à morte para defender o presidente.
Foi mandante do fracassado atentado a Carlos Lacerda, em que acabou morrendo
o oficial da Aeronáutica, fato que desestabilizou completamente o governo
e acirrou a oposição e as Forças Armadas, dando origem ao clima de golpe.
3)
Carlos Lacerda: jornalista, grande orador e radical
opositor ao governo Vargas e ao bloco governista. Conseguiu transformar o
golpe contra ele em trunfo político, o que lhe possibilitou jogar as Forças
Armadas contra o velho presidente.
4)
Climério: membro da guarda pessoal do presidente,
incumbido por Gregório Fortunato a contratar o assassino que atentaria contra
Lacerda, o matador Alcino, que acaba fracassando.
5)
Nélson: motorista de táxi que participa
da tentativa de assassinato de Carlos Lacerda. Foi quem revelou toda a trama
aos oficiais da Aeronáutica que comandavam o inquérito policial-militar.
6)
Alcino: Contratado para matar Lacerda,
erra o alvo, o que acaba provocando as complicações políticas que culminaram
com o suicídio de Getúlio.
7)
Alzira e Lutero Vargas: filhos de Getúlio Vargas. Ela é
muito ligada ao pai, a quem tem muito carinho; ele, deputado, é acusado de
ser o mandante do atentado contra Lacerda.
Nesta relação de personagens históricas, podem entrar alguns
tipos que aparecem com o nome ligeiramente modificado, como é o caso de Vitor
Freitas, senador corrupto e homossexual, Eusébio de Andrade, Ilídio e Moscoso,
contraventores do jogo do bicho.
Organização Estrutural
do Romance
1)
Ação – Paralela aos fatos históricos
e entrelaçada com eles, corre, no plano da ficção, a trama policialesca, que
tem como protagonista o comissário Alberto Mattos.
Tudo gira em torno do assassinato do industrial Gomes Aguiar,
sócio de Pedro Lomagno na Cemtex.
Para investigar o crime, ocorrido em circunstâncias misteriosas,
é indicado o delegado Mattos, que tem como única pista um anel que traz “F”
gravado no seu interior.
Perpassada de suspense, a ação ficcional do romance é constantemente
entrecortada pela trama para assassinar o jornalista Carlos Lacerda., o que
acontece nos últimos dias do governo do presidente Getúlio Vargas.
Na “orelha” do romance (edição de 1990 de Companhia das Letras),
Fernando Morais resume assim a ação central de Agosto:
Na madrugada de 1º
de agosto de 1954, um empresário é brutalmente assassinato no quarto de seu
luxuoso duplex no Rio de Janeiro.
Aos poucos quilômetros
dali, o tenente Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente
Getúlio Vargas, começa a arquitetar outro crime: o atentado contra jornalista
Carlos Lacerda, que terminaria vinte dias depois, na maior tragédia política
do Brasil. Depressivo e incorruptível, atormentado por uma úlcera gástrica
e por duas namoradas, um delegado de polícia sai obsessivamente atrás de uma
pista: a mão negra que armou os pistoleiros do atentado da rua Tonelero pode
ser a mesma que matou o milionário na cama.
2)
Personagens
– Complementando essa teia ficcional, a seguir apresentamos as principais
personagens que participaram dessa trama policialesca:
a)
Alberto Mattos: íntegro, esse delegado é um solitário
defensor da honestidade e da justiça, valores que defende e pratica contra
interesses e ações de seus colegas na delegada. Na narrativa, esse comissário
de policia intrépido é um importante elo entre a narrativa ficcional e a narrativa
histórica.
Relativamente culto, amante da ópera, sofre de uma terrível
úlcera estomacal e está dividido entre duas mulheres: Alice, uma namorada
antiga com problemas psiquiátricos que retorna à sua vida depois de muitos
anos; e Salete, a linda parceira que divide seu amor com Mattos e com um milionário,
Luiz Magalhães.
b)
Pedro Lomagno: homem rico e inescrupuloso, casado
com Alice, e sócio da Cemtex, juntamente com o industrial assassinado, Gomes
Aguiar. É amante da mulher do sócio, Luciana, mulher fútil da alta sociedade,
e amigo do treinador de boxe Chicão, assassino do industrial, do porteiro
do edifício e do comissário Mattos e sua companheira Salete. Todos esses crimes
foram a mando de Lomagno.
c)
Pádua: colega de Mattos na delegacia de
polícia. Não tem qualquer escrúpulo quanto a recorrer a métodos extremos para
defender seus próprios interesses. Apesar de ter diferenças profundas com
Mattos, respeita-o como o único policial honesto da delegacia.
d)
Além desses,
poderíamos citar o Turco Velho, matador de aluguel, contratado para
assassinar Mattos e acaba sendo morto por Pádua, e Ramos, o delegado corrupto,
que recebe propinas dos contraventores do jogo do bicho.
3)
Tempo e lugar
O cenário da ação do romance, como já ficou explícito, é
o Rio de Janeiro, então capital da República e foco das tensões políticas,
onde imperam a violência, a corrupção, o luxo e a miséria.
Longe de ser o cartão postal do Brasil, o Rio de Janeiro
do romance transita entre o sombrio de uma delegacia abarrotada de presos,
os apartamentos e palacetes luxuosos onde se tramam os grandes crimes e o
clima de agonia e tensão do palácio do Catete. O espaço está em consonância
plena com a atmosfera de tensão e casos que vive a sociedade brasileira.
O tempo focalizado é o mês de agosto de 1954.
É interessante observar que, ao montar o romance em 26 capítulos,
em que cada um corresponde a um dia do mês retratado, o tempo flui cronologicamente,
como se fosse um diário.
4) Foco
narrativo
Como convém a um romance dessa natureza, a narrativa é feita
na terceira pessoa por um narrador que se revela frio e impessoal, o que combina
bem com o caráter policialesco do romance.
Tal como num filme, a narrativa é freqüentemente interrompida
através de cortes típicos de uma produção cinematográfica.
Estilo/Linguagem
Agosto é um livro que se insere na pós-modernidade, sobressaindo
nele alguns aspectos de linguagem que merecem destaque.
1)
Com o objetivo
de adequar a linguagem às personagens, o autor usa, sobretudo nos diálogos,
modismos próprios da língua coloquial falada no Brasil. É freqüente o uso
de próclise inicial, emprego de “ter” por “haver quando impessoal, falta de
uniformidade no uso do imperativo, etc:
“Chefe, não se preocupe. Deixa comigo.”
“Me prepara um chimarrão bem quente.”
“Pra você não ver meu retrato, está muito feio”.
“Tem mais alguém doente aí?”
2)
Entretanto,
além desses coloquialismos, percebem-se, no romance, vários níveis de linguagem,
que combinam com as diversas situações e tipos focalizados. Assim é que, na
narrativa, são freqüentes gírias, palavrões, e mesmo linguagem técnica dos
laudos policiais e a erudita dos barrocos discursos políticos.
3)
Com freqüência,
recriando textos históricos como pronunciamentos, discursos, documentos e
registros da época de Getúlio, o autor usa o recurso da intertextualidade,
que consiste, como se sabe, na inserção de trechos, citações ou referências
no texto que o autor está construindo.
4)
O clima
de suspense perpassa o livro do começo ao fim. O autor sabe criar esse clima,
que é uma técnica para segurar o leitor. Aliado aos freqüentes cortes, esse
recurso confere ao romance uma feição cinematográfica.
5)
Destaque
igualmente merece a erudição revelada pelo autor sobretudo quando faz referência
ao mundo do cinema, da pintura e da música.
6)
Os diálogos
no livro não vêm indicados pelo tradicional travessão, como é de praxe no
discurso direto. O autor prefere usar aspas para indicar as falas de suas
personagens, o que não deixa de ser um traço da literatura comtenporânea:
inovar, fazer diferente.
Aspectos Temáticos
Marcantes
Ao término da leitura de um livro como Agosto, além do prazer
estético que se degusta em suas páginas, algumas questões de ordem temática
expostas pelo romance podem ser apresentadas.
1)
Em primeiro
lugar, ao focalizar um período expressivo da história do Brasil, a obra mostra
um momento de transição de nossa frágil democracia, em que avulta a figura
de Carlos Lacerda, representante maior da ideologia udenista e das classes
abastadas.
2)
Ao retratar
um momento agônico da trajetória política de Getúlio Vargas, o ex-ditador
do Estado Novo nos é apresentado com uma imagem simpática e carismática. Seu
suicídio, um gesto altaneiro e abnegado como se vê na carta-testamento , é
bem uma resposta heróica a seus inimigos e faz crescer a sua imagem de figura
carismática perante os pobres e humildes que ele defende.
3)
A morte
de Getúlio é muito semelhante à do comissário Mattos, pois ambos fariam grandes
interesses, colocando em risco acordos, negócios e negociatas. Nesse sentido,
o romance expõe, de forma contundente, de um lado, o submundo da política
e da polícia, às voltas com subornos e corrupção; e, de outro, as mazelas
que configuram os integrantes da alta sociedade marcada por traições e futilidades.
4)
Nesse contexto,
insere-se o papel um tanto quanto bisbilhoteiro da imprensa, servindo ora
a uns, ora a outros, que divide e mobiliza a opinião pública. Por certo, com
notícias sencionalistas, que carecem de consistência, a imprensa está longe
do seu objetivo maior; que é o de informar de modo isento.
5)
Apresentado
como palco de tantas patifarias, o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa de tantos
encantos, revela-se como lugar marcado pela violência, pela miséria e por
conflitos de toda ordem.
6)
Nesse cenário
de caos que envolve a narrativa em suas duas faces, a história e a ficcional,
a morte parece ser a solução inevitável. Assim como a de Getúlio consternou
a nação, a morte de Mattos consternou a todos os seus colegas, que se sentiram
sempre ameaçados pela inflexibilidade de seu caráter.
Breves
Reflexões acerca de Agosto
(livro de Rubem Fonseca)
Elaborado
pela Profa. Maria Barjute S. A. Bacha
1. Um Perfil para Rubem Fonseca
Ao
noticiar o lançamento de Agosto, em outubro de 1990, o jornal Folha de São
Paulo publicou um interessante artigo sobre o autor desse romance.
Leia,
com atenção, o texto.
“(Tudo
o que eu tenho a dizer está nos meus livros), costuma dizer José Rubem Fonseca.
Esquivo a repórteres, não dá entrevistas e faz questão de que sua biografia
permaneça sob a cortina de fumaça do anedotário. Nasceu em Juiz de Fora (MG),
em 11 de maio 1925. É casado há 36 anos com Théa e tem três filhos: José Henrique,
26, José Alberto, 33, e Maria Bia, 35.
Antes
de se dedicar à literatura, Zé Rubem (como é tratado pelos íntimos) teve vários
trabalhos. Vendeu gravatas como camelô nas ruas do centro do Rio de Janeiro.
Foi delegado de polícia, o que lhe permitiu conhecer o submundo do crime do
Rio nos anos 50 e 60. Estudou administração de Empresas e Direito nos Estados
Unidos. Foi funcionário da Light e professor da Escola Brasileira de Administração
Pública da Fundação Getúlio no Rio. Em 1967, foi o primeiro a escrever críticas
de cinema na revista “Veja”.
Escreve
desde 1953, mas só publicou o primeiro livro dez anos depois: “Os Prisioneiros,
um volume de contos. Outros dez livros – cinco romances e cinco volumes de
contos – foram escritos por ele entre 1965 e 1989.
Entre
seus hábitos estão ouvir rock, ler sobre todos os assuntos o tempo todo dormir
pouco. É torcedor do Vasco da Gama. Adora forma física. Faz Cooper diário
na praia do Leblon”.
2.
A Trajetória Literária do Autor
Apontado
como um dos escritores que mais vende livros, no Brasil, Rubem Fonseca distingue-se
no panorama da nossa atual produção literária como um grande prosador.
Voltado,
basicamente, para a exploração do universo urbano, ele traz para as suas obras
problemas que dizem respeito a violência social, a cultura de massas, o saber
popular, o papel da arte no mundo contemporâneo etc.
Fazendo
uso de uma linguagem que passa pelo tom da denúncia e da ironia, ele oferece
contos e romances que perseguem um estilo fácil, conciso que agrada um número
significativo de leitores.
Premiado
pela crítica, censurado pela ditadura militar dos anos 70, consagrado pelo
público e com obras traduzidas para diferentes países, Rubem Fonseca é, sem
dúvida, um escritor de sucesso.
Veja,
a seguir, os títulos dos seus livros.
Os
Prisioneiros – contos (1963);
Lúcia
MacCartney – contos (1969);
A
Coleira do Cão – contos (1965/1969);
O
Caso Morel – romance (1973);
O
Homem de Fevereiro ou Março – contos (1974);
Feliz
Ano Novo – contos (1975);
O
Cobrador – contos (1979);
A
Grande Arte – romance (1983);
Bufo
e Spallanzani – romance (1985);
Vastas
Emoções e Pensamentos Imperfeitos – romance (1988);
Agosto
– romance (1990).
3.
Agosto: Entre os Leitores e a Crítica
Quando
a imprensa brasileira noticiou o lançamento do romance Agosto, de Rubem Fonseca,
ela criou grandes expectativas em torno da publicação.
Ao
divulgar que o livro aborda a “era Vargas”, focaliza o suicídio de Getúlio
e volta-se especificamente, para o ano de 1954, a imprensa despertou a curiosidade
de muitos leitores. Estudiosos de História, de Literatura, pesquisadores de
Ciências Políticas, intelectuais, remanescentes do Getulismo, saudosistas
e especuladores do nosso passado recente do romance às livrarias.
Os
editores, por sua vez, apostaram no sucesso absoluto de Agosto. Na época,
a Folha de São Paulo noticiou que os responsáveis pela edição do texto de
Fonseca esperavam vender setecentos volumes por dia, em cada livraria do País.
Por tal motivo, gastavam, na época, milhões em campanhas de divulgação da
obra.
Depois
de chegar às mãos dos leitores e da crítica, o romance ganha uma posição ambígua
e, hoje, tem sido objeto de constantes polêmicas e freqüentes discussões.
Referindo-se
à obra de Rubem Fonseca, o jornalista e escritor Fernando Morais, em tom elogioso,
afirma:
(...)
“Minuciosa pesquisa histórica em um talento que consegue o prodígio de superar
as obras anteriores de Rubem Fonseca produziram um livro eletrizante. Como
se tivesse diante dos olhos os melhores momentos de Costa Gravas, o leitor
é guiado pela mão do autor a caminhar pela emoção de cada hora dos vinte
e quatro dias de agosto de 1954: a câmara vai mostrando sucessivamente um
xadrez entupido de presos comuns num distrito policial, uma melancólica reunião
de Vargas com seu estado-maior no Palácio co Catete, o general Castelo Branco
e o Marechal Mascarenhas de Morais tentando conter a fúria da UDN.
“Agosto”
tece com brilho singular a fusão entre ficção e história real. Juntos, bicheiros,
mães-de-santo, brigadeiros golpistas, pistoleiros de aluguel e políticos corrompidos
magnetizam de tal maneira o leitor que às vezes fica difícil saber onde termina
a História do Brasil e onde começa o romance. “Agosto” será consagrado, sem
a mais remota de dúvida, como uma das melhores obras de nosso tempo.
E
como o melhor livro de Rubem Fonseca.”
Assumindo
posição contrária, Rinaldo Gama, na revista Veja, evidencia a “repetição de
truques” como uma “fórmula desgastada” mas usada pelo autor de Agosto.
“A
exemplo do último, do penúltima e do antepenúltimo livro do escritor, Agosto
mistura suspense com erudição para tratar, desta vez, das agruras de um comissário
de polícia e do terremoto político que se abateu sobre o Brasil no ano de
1954, mais exatamente naquele que foi o último mês de vida do presidente Getúlio
Vargas. Isso pode deslumbrar os incautos – os que nunca leram os romances
de Rubem Fonseca ou jamais folhearam, Poe exemplo, O Nome da Rosa ou O Pêndulo
de Foucault, do italiano Umberto Eco. Para os aficcionados pela obra de Fonseca,
porém, Agosto soará como a repetição de uma fórmula, com seus evidentes sinais
de desgaste. O que não quer dizer que será abominado. O mesmo desejo que move
os telespectadores a assistir regularmente à mesma história, contada da mesma
maneira, nas telenovelas, pode levar um leitor a adquirir o novo Rubem Fonseca
– sem que isso signifique perda de tempo. Ninguém pode ser condenado por querer
distrair-se, afinal, nem só de obras geniais vive a literatura – embora só
com elas avance.”
Elogiado
ou criticado, Agosto é um título da literatura brasileira que tem, hoje, uma
posição de destaque nas listas de vendagem. Competindo com obras de pouco
ou nenhum valor estético, é um livro que está em evidência. Embora não agrade
a todos, ele desperta a curiosidade de muitos, em um só país que não tem o
hábito da literatura. E esse motivo é suficientemente grande para que o romance
de Fonseca ganhe maior atenção.
4.
Algumas Reflexões Acerca da História
Tecendo
algumas ligeiras considerações sobre Agosto, Darcy Ribeiro, renomado cientista
político, antropólogo e escritor, afirma:
“O
romance Agosto é o último gesto de servidão de Rubem Fonseca a seu amo Gallotti,
o testa-de-fero da Light. Não esclarece o único ponto decisivo do drama sobre
o qual devia e podia depor que seria nos dizer a quem interessava a deposição
de Getúlio Vargas. Não há dúvida que a grande interessada era Light para impedir
que Getúlio consumasse a criação da Eletrobrás. Jango achava que foi a Light
que patrocinou a campanha de difamação e armou a trama que resultou no suicídio.
Seria apenas ridícula se não fosse afrontosa sua atribuição da autoria da
Carta Testamento a um oficial da Aeronáutica. A Carta que é o mais alto documento
da história brasileira é também magistralmente escrita.”
Disposto
a questionar a imprecisão histórica da obra de Rubem Fonseca, é ainda Darcy
Ribeiro quem nos lembra de alguns episódios históricos do ano de 1954.
Nas
páginas do livro Aos Trancos e Barrancos, ele registra:
“Abril.
Getúlio envia mensagem ao Congresso propondo a criação da Eletrobrás.
.
Lacerda passa a andar custodiado por oficiais da Aeronáutica, como o major
Vaz – que morreu – e Veloso, Burnier, Lameirão e outros, que se ofereceram
espontaneamente para protegê-lo, dizendo: “Se lhe acontecer alguma coisa,
vai ser apenas mais um jornalista morto no Brasil, e isto continua como está,
daí para pior. Se o senhor andar sempre com um de nós e nos acontecer alguma
coisa, será um acontecimento de maior gravidade.”
Maio.
Em discurso no Dia do Trabalhador, Getúlio anuncia o aumento de 100% no salário
mínimo e elogia Jango como incansável amigo e defensor dos trabalhadores.
Entusiasmado, o velho Getúlio cai na subversão, dizendo aos trabalhadores:
“Há um direito de que ninguém vos pode privar: o direito de voto. E pelo voto
podeis não só defender os vossos interesses, como influir no próprio destino
da nação. Como cidadãos, a vossa vontade pesará nas urnas. Como classe, podeis
imprimir ao vosso sufrágio a força decisória do número. Constituís a maioria.
Hoje, estais com o governo. Amanhã, sereis governo.”
Era
a guerra. A reação interna e a internacional se juntam contra esse ex-ditador
fascista que adere à democracia e chama o povo a passar as instituições a
limpo, através do voto.
Agosto – 5. Carlos Lacerda é vítima de um atentado
em que morre o Major Rubens Vaz, da Aeronáutica, que lhe servia de guarda-costas.
Ele é ferido num pé. Segue-se enorme exaltação militar, expressa, primeiro,
em manifestações públicas indisciplina e, depois, na criação de uma Comissão
Militar de Inquérito entregue à Aeronáutica que, naqueles dias, espumava
de ódio.
Agosto – 6. Getúlio compreende que o atentado,
de fato, era contra ele e comenta: o tiro que matou o major Vaz me acertou
pelas costas. Determina, a seguir, a Tancredo Neves, Ministro da Justiça,
que apure as responsabilidades pela deplorável ocorrência e designa um promotor
público da oposição para, junto do Ministro da Aeronáutica, acompanhar o inquérito.
Manda, ainda, dar todas as facilidades para a comissão, a fim de apurar culpas
seja de quem fosse, inclusive de membros de sua família.
Agosto – 7. Nelson Raimundo incrimina na política
militar Climério, membro da guarda presidencial, como responsável pelo atentado.
Agosto – 8. Getúlio dissolve a sua guarda presidencial
de oitenta e três homens.
Agosto – 9. Aliomar Baleeiro e Afonso defendem,
na Câmara dos Deputados, a deposição de Getúlio Vargas.
Agosto – 10. Eduardo Gomes e vários oficiais
da FAB exigem a deposição de Getúlio.
Agosto – 11. Zenóbio da Costa, Ministro da Guerra,
recebe quatro chefes militares de oposição – Eduardo Gomes, Juarez Távora,
Renato Guilhobel e Caiado de Castro – que o pressionam para retirar o apoio
do Exército a Getúlio, forçando-o à renúncia.
Agosto - 12.
Getúlio inaugura em Belo Horizonte, com Juscelino Kubitschek, a Usina da Manesmann.
No discurso, refere-se à campanha de mentiras e calúnias de que é vítima e
reitera que representa no governo o princípio da legalidade constitucional,
que lhe cabe preservar e defender.
.
Oficiais da Aeronáutica fazem da Base Aérea do Galeão a sede do IOM que investiga
o atentado. Era uma força Armada – aliás, a mais politiqueira e subversiva
delas – contra o Governo. A República do Galeão contra a República Brasileira.
Agosto – 13. Alcino, jagunço de Tenório Cavalcanti
– deputado da UDN -, confessa na base do Galeão que matou o major Vaz e feriu
Lacerda a mando de Climério.
.
Afonso Arinos, em discurso patético na Câmara, declara que, frente ao mar
de lama e de sangue que saía dos porões do Catete, Getúlio teria de renunciar.
Quase toda a imprensa, liderada pelo jornal de Lacerda, entra na campanha
de ataque ao Governo, exigindo a renúncia de Getúlio. Até os comunistas engrossam
o vozerio da direita exaltada.
Agosto – 15. Gregório Fortunato, ex-chefe da
guarda presidencial, é preso na República do Galeão. Sucedem-se os pronunciamentos
de oficiais das três Forças Armadas, exigindo a renúncia de Getúlio.
Agosto – 16. O Ministro da Aeronáutica renúncia.
Agosto – 17. Gustavo Capanema levanta a voz
na Câmara dos Deputados para defender a família Vargas. Declara que a exigência
de renúncia não é do povo brasileiro, mas sim de um partido político, cujos
líderes instigam as Forças Armadas ao golpismo.
Agosto – 18. Alcino, o assassino do major, preso
na base do Galeão, retifica sua comissão anterior, admitindo que foi contratado
por Gregório, no único encontro que teve com ele, para assassinar Lacerda.
Agosto – 19. Manuel Vargas, filho de Getúlio,
é acusado de realizar transações irregulares com Gregório.
Agosto – 20. Café Filho, vice-presidente, sugere
ao Ministro da guerra e, depois, ao próprio Getúlio, como solução para a crise,
que ambos, presidente e vice-presidente, renunciem, entregando o governo a
Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados.É a solução sonhada por Lacerda.
Agosto – 21. Unidades das três Forças Armadas
entram em prontidão. A tensão se eleva.
Agosto
– 22. Eduardo Gomes convence o marechal Mascarenhas de Morais a levar a Getúlio
uma exigência de renúncia feita pelos brigadeiros. Getúlio repele, dizendo:
“Não pratiquei nenhum crime, portanto não aceito essa imposição. Daqui só
saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões
para temer a morte”.
.
Getúlio recebe Jesus Soares Pereira, que foi comunicar o início, pela Petrobrás,
das perfurações da plataforma submarina na Baía de Todos os Santos.
Agosto – 23. Almirantes aderem à exigência dos
brigadeiros. Começa a circular um Manifesto de Generais do Exército, solidarizando-se,
eles também, com os almirantes e brigadeiros.
11
horas da noite. Zenóbio, Ministro da Guerra, em face do manifesto, adere à
conspiração e pronome pressionar o presidente a licenciar-se.
12
horas da noite. Zenóbio leva a Getúlio o manifesto e sugere o seu licenciamento.
Agosto – 24 – 1 hora da madrugada. Getúlio entrega
a Jango sua Carta-testamento, recomendado: “Toma, Jango. Guarda contigo para
ler em casa. Vai hoje mesmo para o Rio Grande. Depois de mim, eles vão cair
sobre ti”.
3
horas da madrugada. Reunião ministerial com a presença da filha de Getúlio,
Alzira, do irmão, Lutero, e outros familiares. Zenóbio declara que poderia
resistir, mas que isso “custaria sangue, muito sangue”. Guilhobel informa
que os almirantes estão solidários com os brigadeiros. Epaminondas adianta
que a situação na Aeronáutica é incontrolável. Todos os ministros civis falam
no mesmo tom, recomendando a licença. Só Tancredo Neves se insurge, exigindo
que os chefes militares garantam o governo e defendam a legalidade. Alzira
Vargas interrompe a reunião e desmente o Ministro da Guerra, dizendo que seus
trinta e três generais eram treze, todos sem comando. Seu marido, Amaral Peixoto,
intervém para ponderar, com apoio de José Américo e Oswaldo Aranha, que, para
ele, a saída conciliatória é a licença. Só Tancredo, uma vez mais, se insurge.
Getúlio encera a reunião declarando que apresentará seu pedido de licença
se os ministros militares garantirem a ordem pública. Caso contrário, diz
Getúlio, “os revoltosos encontrarão aqui no palácio o meu cadáver.”
6 horas – Chegam ao palácio, notícias de
que o IPM do Galeão exige a presença de Benjamim Vargas, o “Beijo”, para depor.
Getúlio ordena que o irmão só faça declarações em palácio.
6:30
horas. Zenóbio confabula com os oficiais sublevados, propondo licenciamento
em lugar da renúncia. Eles exigem a renúncia definitiva.
7 horas. Chega ao Catete o ultimato dos
generais.
4:45 horas Getúlio pede a Beijo que verifique
em suas fontes de informações se o ultimato é verdadeiro.
8 horas. Getúlio, no quarto, de pijama,
ordena ao camareiro que o deixe sozinho. Quer descansar.
8:30 horas. Getúlio arrebenta o coração com
uma bala.
9 horas. É lida na Rádio Nacional a Carta-testamento,
que passa a constituir, desde então, o manifesto político do Brasil. Você
precisa ter essa carta. Ler e meditar sobre ela, para agir. Com esse fim é
que eu o produzo a seguir:
‘Mais
uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenariam-se e novamente
se desencadeiam sobre mim.
Não
me acusam, insultam, não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de
defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não
continue a defender como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação
dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução
e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade
social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha
subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados
contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários
foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se
desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização
das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a
onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero.
Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.
Assumi
o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho.
Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações
de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100
milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal
produto. Tentávamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão
sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho
lutado mês a mês, dia-a-dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante,
incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim
mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos
posso dar, a não ser meu sangue.
Se
as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo
brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho
este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha
alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis
em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem,
sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá
unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será
uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada pra a
resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotaram
respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para
ávida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém.
Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do
seu resgate.
Lutei
contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado
de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu
vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente
dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na
história.
Carta-testamento
De
Getúlio Vargas
24
de agosto de 1954”
Para
além das paixões e dos partidarismos, Darcy Ribeiro se esquece de dois importantes
aspectos ao criticar, negativamente, a obra de Fonseca.
O
primeiro relaciona-se com a própria concepção moderna de História que admite
para um mesmo episódio a pluralidade de versões.
Já
o segundo aspecto diz respeito ao próprio compromisso ficção com a verdade.
O texto literário – esse é o caso de Agosto – não precisa de prender-se aos
documentos, aos registros, a precisão de dados.
Explorando
a História como suporte, o romance transforma a exatidão em sugestão; a verdade
perde terreno para a verossimilhança; a certeza dos fatos é ficcionalizada,
fingida, representada; é criação e ilusão.
5. A
Trama e as Idéias
Ao
entrelaçar episódios da História do Brasil com a morte de um industrial, Rubem
Fonseca faz a composição do romance Agosto.
De
início, sabemos que Gomes Aguiar, um bem sucedido industrial, sócio da CEMTEX,
fora assassinado em sua residência em circunstâncias misteriosas.
Eleito
para investigar esse crime, Alberto Mattos, comissário de polícia, tem apenas
um única pista: um anel com a letra “F” gravada.
Promovendo
cortes e alternando cenas, o narrador focaliza aqueles que articulam o atentado
contra o jornalista Carlos Lacerda, responsável pela “Tribuna da Imprensa”.
Porta-voz dos ideais da UDN, Lacerda é alvo de desafetos daqueles que apoiam
Getúlio.
Disposto
a levar em frente as suas investigações, Mattos percorre um labirinto de
enganos sucessivos e acaba associando a letra “F”, gravada no interior do
anel, ao nome de Gregório Fortunato, o Anjo Negro, chefe da guarda presidencial.
“No
Palácio da Guerra, o general Zenóbio, herói da FEB e Ministro da Guerra, declarou
estar plenamente satisfeito com a conduta das tropas da Vila Militar, que
permaneciam de prontidão para garantia do regime e da Constituição, a rádio
Globo notícia idêntica, também chamando Zenóbio de herói da FEB, fora publicada
naquele dia pela Última Hora. O governo decidira impedir a divulgação de notícias
alarmistas. As emissoras de rádio noticiavam os acontecimentos controlados
pela polícia.” (p312)
Um
clima de tensão, de angústia atinge todos os níveis. No âmbito particular,
por exemplo, Mattos sente fortes dores de estômago, Alice quase ateia fogo
no apartamento do Comissário ao sofrer uma crise de nervos enquanto o Chefe
das forças Armadas sugere, a renúncia de Getúlio.
Nesse
contexto, a morte surge como uma saída inevitável. Ela parece ser a solução
para o caos instaurado no país. No plano político, Getúlio suicida-se e provoca
a comoção nacional. Logo depois, o assassinato de Mattos é motivo de consternação
de seus companheiros.
Assim
, o fio condutor da trama policialesca é o mesmo que reconstrói a história
dos últimos dias de Vargas.
O
desfilar incessante de episódios desenha o perfil de um país que vive sob
o signo do caos. Enquanto o suborno é prática constante no cotidiano da sociedade
civil, a corrupção e o protecionismo econômico se fazem presentes nas esferas
do poder.
“Toda
delegacia tinha um tira que recebia dinheiro dos bicheiros da jurisdição para
distribuir com os colegas. Esse policial era conhecido como “apanhador”. O
dinheiro dos bicheiros – o levado- variava de acordo com o movimento dos pontos
e a ganância dos delegados.” (p.11)
“Nenhum
deles queria sacrificar a vidinha confortável que levavam à custa do presidente,
bebendo uísque nas boates e andando com putas” (...) “Todos haviam enriquecido
no governo” (...) (p.13)
A
imprensa, ora a serviço de uns, ora a serviço de outros, divide e mobiliza
a opinião pública, de forma sensacionalista. Pouco crítica e sem nenhum distanciamento
dos fatos, ela é a via de denúncia ou alvo de censura.
Sugerindo
o fim do caos, a volta ao equilíbrio, o narrador nos informa que a cidade
tivera um dia tranqüilo, o comércio e o cinema funcionaram normalmente.
Cidade
maravilhosa para os estrangeiros, lugar de violência, miséria e instabilidade
política para os brasileiros, o Rio é o núcleo dos conflitos nacionais.
Nesse
sentido, a obra de Fonseca nos oferece uma oportunidade de reflexão. Reduzidos
a objetos do poder, peças no jogo de disputas, indagamos qual é a lição que
nos deixa essa experiência histórica.
6.
As Personagens
Depois
de fazer uma extensa pesquisa bibliográfica, Rubem Fonseca constrói as personagens
do romance Agosto.
A
literatura da obra permite afirmar que algumas dessas personagens foram recortadas
das páginas da nossa História e inseridas no texto de ficção. Outras, também
extraídas da nossa historiografia, sofreram algumas alterações; ao longo do
livro tiveram o seu nome ou os seus dados biográficos modificados. Já o terceiro
grupo, reúne personagens que são resultantes da criação do autor.
Com
o objetivo de facilitar o estudo de um número significativo de figurantes,
optamos por organizar as personagens em grupos distintos.
O Primeiro Grupo:
Construído
por dez personagens, aproximadamente, esse grupo está envolvido, de uma forma
direta ou indireta, com a morte do industrial.
Vejamos,
a seguir, as características ou funções básicas de cada um de seus integrantes.
.Alberto Mattos: comissário de polícia, ele trabalha
em uma delegacia do Rio de Janeiro e procura, a todo custo, manter fidelidade
aos seus princípios de honestidade e justiça. Além disso, cultiva o gosto
pela música erudita e dá provas de ter um grau de informação elevado.
Encarregado
de investigar o assassinato do industrial, ele, no plano narrativo, funde
os episódios de caráter histórico com os de caráter ficcional.
É
portador de uma úlcera e, antes de trata-la, acaba sendo assassinado. De início,
apresenta-se dividido entre duas namoradas e, com o tempo, opta por Salete.
.Salete:
mulher de corpo muito bem feito, ela é vaidosa e está presa aos modismos.
Inicialmente, mantém uma relação amorosa com Mattos, o sujeito que Lea admira,
e outra com Luiz Magalhães – um homem rico. No final do romance, é assassinada
no apartamento do comissário.
.Alice:
amiga namorada de Mattos, é insegura e sofre de problemas psiquiátricos. Movida
pelo interesse financeiro, casa-se com Pedro Lomagno mas não é feliz.
.Pedro
Lomagno: amigo de Gomes Aguiar e sócio de Cemtex.
É
amante de Luciana, apesar de ser casado com Alice. Mantém, ainda, uma relação
de amizade com Chicão – o assassino do industrial.
.Luciana:
casada com Gomes Aguiar, ela é amante de Pedro Lomagno. Presa aos valores
da alta sociedade, é uma mulher que preenche a sua vida com atividades de
menor importância.
.Gomes
Aguiar: industrial e um dos sócios da Cemtex, morre assassinado. Das circunstâncias
que envolvem a sua morte, a polícia encontra um anel que funciona como pista
para a investigação.
.Pádua:
colega de Mattos na delegacia, encarna a figura de um malandro e faz um tipo
bastante vulgar.
.Ramos:
delegado corrupto, recebe dinheiro dos bicheiros.
.Turco
Velho: contratado para assassinar Mattos, acaba sendo morto por Pádua.
.O Segundo Grupo:
Constituído,
basicamente, por políticos e gente do governo, esse grupo está envolvido com
as questões referentes ao poder da época.
.Senador Freitas: político nordestino e homossexual
inescrupuloso. Procura obter benefícios fazendo uso do cargo que ocupa.
.Clemente:
amigo do senador, é bisbilhoteiro e se ocupa de ouvir as conversas dos outros.
.Gregório
Fortunato: chefe da guarda presidencial, ele é chamado de “Anjo Negro”.
Sua posição ao lado de Vargas é de vigilância e sempre dá provas de disposição
para defender o presidente. É o responsável pelo atentado contra Lacerda.
.Climério:
membro da guarda presidencial, ele contrata “alguém” para matar Lacerda: seus
planos fracassam, ele foge mas é capturado.
.Alcino:
matador contratado para atirar em Lacerda. Por ter errado o alvo, acaba provocando
complicações políticas que levaram Getúlio ao suicídio.
.Nelson:
motorista de táxi que ajuda Climério e Alcino no atentado da rua Toneleiros.
Conta, posteriormente, tudo o que sabe para os membros da República do Galeão.
.Alzira
Vargas: filha de Getúlio, é carinhosa e atenciosa para com o pai.
.Lutero
Vargas: filho de Getúlio, é deputado e acusado de ser o mandante do atentado
contra Lacerda.
.Getúlio
Vargas: focalizado durante os últimos dias de seu segundo mandato na
presidência da república; ele é tido como o “pai dos trabalhadores e dos pobres”.
Ideológico do paternalismo nacional, é alvo de tramas, intrigas, ora é visto
como vítima, ora é acusado de responsável por toda a crise brasileira.
Notamos
ainda, a presença de muitos outros figurantes que atuam não só na história
do poder como também estão envolvidos com a trama policialesca. A título de
informação, lembramos os nomes de:
.Idélio:
o bicheiro que pretendia matar Mattos;
.Mãe
Ingrácia: a macumbeira procurava por Salete;
.Sebastiana,
mãe de Salete; Tancredo Neves, Castelo Branco, Filinto Mulher
etc. e tantos outros que formam um grande painel da sociedade brasileira da
época.
7.
O tempo e o Espaço
Para
situar a sua ação romanesca, Rubem Fonseca divide a narrativa em vinte e seis
capítulos. Cada um desses capítulos corresponde a um dia do mês de agosto
de 1954.
O
cenário eleito é o Rio de Janeiro. Destruída dos atributos que lhe conferem
o título de “cidade maravilhosa” ou “cartão postal do Brasil”, a capital da
república é um ponto de tensão.
Por
ali circulam autoridades políticas, militares, jornalistas, policiais, criminosas,
bicheiros, prostitutas e os mais diversos tipos sociais.
Nessa
perspectiva, a cidade é o espaço ideal para as tramas, a corrupção, a violência,
o luxo e a miséria de uma sociedade em crise.
Deslizando
por diferentes situações, o narrador acompanha os movimentos de suas personagens
e, atento, descreve o Palácio do Catete. Minucioso, visita o local onde Lacerda
sofrera o atentado e não deixa de apontar a sede do jornal “Tribuna da Imprensa”.
Focalizando
o espaço da marginalidade, retrata a delegacia onde trabalha Mattos, o comissário
que quer fazer cumprir a ordem, a justiça e a lei. Não se esquiva de retratar,
também, o apartamento do policial, com seu móveis simples mas confortáveis.
Lugar de descanso, aconchego, intimidade e música, o apartamento do comissário
transforma-se em palco de violência quando ele, ali, é assassinado na companhia
da namorada.
8.
O Foco Narrativo
Centrado
na terceira pessoa do singular, o narrador do romance Agosto distingue-se
pela impessoalidade.
Funcionando
como uma câmara cinematográfica, pode ser associado com a imagem de um olho.
E como tal, articula a trama, instaura o impacto, promove cortes, com o objetivo
de provocar suspense no leitor.
Atenta,
focaliza com precisão alguns detalhes. Com apuro, registra a reação das personagens
diante dos problemas por elas vivenciados.
Lembrando
o procedimento policialesco, o narrador da obra de Fonseca colocar-se frio,
neutro e distante da matéria investigada.
9.A Linguagem
A
Linguagem do romance Agosto pode ser identificada como aquela que traz a marca
da modernidade.
Distanciada
das regras que orientaram os nossos escritores tradicionais, ela distancia-se
do preceitos apregoados pelos nossos primeiros modernistas e distingue-se
pela liberdade de expressão.
Fácil,
claro e conciso, o vocabulário não se orienta pelo uso abundante de adjetivos;
explora-se o vigor dos substantivos, sem que apresentar dificuldades para
o leitor.
Conferindo
maior grau de verossimilhança para as personagens, Fonseca busca, em diferentes
recursos lingüísticos, uma forma adequada de expressão. Assim, encontraremos
nas falas dos que pertencem ao universo policialesco, o emprego de expressões
técnicas entrecortadas por gírias e coloquialismos.
A
título de ilustração, veja os exemplos:
“A
cafetina deu o serviço?”
“Não.”
“Não
disse nada?”
“Nada.
Vai em frente” – (p.80)
“O
sangue do lençol não é o mesmo da vítima. O da vítima é AB, RH negativo. O
do lençol é A, RH positivo. Provavelmente do criminoso. A vítima tinha sangue
na boca, que não era dela” (...) (p.80)
“Havia
dois fios de cabelo no sabonete que recolhemos no Box.
Pelo
exame da medula e da pigmentação do córtex, concluímos não serem do morto.”
(p.80.81)
“Agora
enfia esses lenços na boca desse puto”.(p.348)
As
figuras políticas, por sua vez, também ganham uma dicção própria. Veja os
trechos abaixo representados:
“E
o senhor, general Caiado? Quero a sua opinião’, disse Vargas.
‘Presidente.
Não aceite nenhuma imposição. Sou favorável à resistência armada. O Exército,
mesmo dividido, como alega o senhor ministro, impedirá qualquer sublevação’.
‘Se
o senhor me disser o nome do regimento que vai resistir, eu, com a devida
permissão do senhor presidente, lhe darei o seu comando’, disse Zenóbio”.
(p.318-319)
Não
podemos deixar se salientar, na obra de Fonseca, a presença do recurso intertxtual.
A recriação de textos históricos como pronunciamentos, discursos, documentos
e registros da época de Vargas é, sem dúvida alguma, um dos traços principais
de Agosto.
Além
disso, o autor reproveita ditos populares, insere, no romance, criações de
obras literárias, faz referências ao universo do cinema, da pintura e do teatro.
Veja,
logo abaixo, alguns fragmentos que exemplificacaram a intertextualidade.
“O
corcunda é que sabe como se deita”. (p.32)
“Não
foi ao chá no Monte Líbano, em benefício da Sociedade dos Maronistas, com
desfile de modelos de Elza Haouche, a modista cujos vestidos ela mais apreciava,
mesmo sabendo que Mário Mascarenhas, seu músico favorito, acompanhado de mais
quinze acordeonistas, tocaria, no desfile, músicas clássicas e folclóricas.
Deixou de ir assistir ao filme ‘Mogambo’, com Clark Gable e Ava Gardner”,
(...) (p.279)
9.
Bibliografia
1.
Benjamin,
Walter. Magia e Tácnica, Arte e Plítica. Tradução de Sérgio Paulo Rauanet.
São Paulo, Brasiliense, 1986.
2.
Cançado,
José Maria. “O tiro de Getúlio Vargas ecoa no romance de Fonseca” in: Estado
de Minas, 2 de dezembro de 1990 (s.n).
3.
Carvalho,
Mário César. “Rubem Fonseca joga morte de Vargas em pesadelo histórico” in:
Letras. Folha de São Paulo, 10 de novembro de 1990 (p.1).
4.
“Rubem Fonseca
põe o suicídio de Getúlio em seu novo livro” in: ilustrada. Folha de São Paulo,
25 de outubro de 1990 (p.1).
5.
Fonseca,
Rubem. Agosto. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
6.
Gama, Rinaldo.
“Fórmula Requentada” in: Veja, 14 de novembro de 1990 (p.88.89)
7.
Glaeser,
Flud Célia. “Uma leitura de agosto, de Rubem Fonseca”. Belo Horizonte, Sistema
Pitágoras de Ensino. 1991.
8.
Holanda,
Sérgio Buarque de . Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, (s.d)
9.
Morais,
Fernando. “Agosto tece a ficção e a história real” in: Ilustrada. Folha de
São Paulo, 25 de outubro de 1990 (p.1).
10.
Ribeiro,
Darcy. Aos Trancos e Barrancos. Rio de Janeiro, Guanabara, 1985.
11.
Testemunho.
São Paulo, Siliciano, 1990.
12.
Toledo,
Caio Navarro. O Governo Goulart e o golpe de 64. São Paulo, Brasiliense, 1982.
13.
Trota, Antonio
Pedro. O Estado Novo. São Paulo, Brasiliense, 1987.