A Comissão, abaixo assinada, tem a honra de passar às mãos de V.Ex.a o Anteprojeto de Simplificação e Unificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira, já em redação final.
O presente Anteprojeto é resultante não só de um reexame, pela Comissão, do primitivo, mas ainda do estudo, minucioso e atento, das contribuições remetidas à CADES pela Academia Brasileira de Filologia do País, pela Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul e, individualmente, por numerosos e abalizados professores de Português.
Releva salientar que a Comissão, ao considerar as modificações propostas, teve sempre em mira a recomendação de V.Ex.a constante da Portaria Ministerial nº 152- “uma terminologia simples, adequada e uniforme”- bem como atender ao tríplice aspecto fixado nas Normas Preliminares de Trabalho:
a) a exatidão científica do termo;
b) a sua vulgarização internacional;
c) a sua tradição na vida escolar brasileira.
Agradecendo, mais uma vez, nesta oportunidade, a distinção e a confiança com, que contemplou V.Ex.a, a Comissão renova a V.Ex.a os protestos de alto apreço e distinta consideração.
as.)
Antenor Nascentes
Clóvis do Rêgo Monteiro
Cândido Jucá (filho)
Carlos Henrique da Rocha Lima
Celso Ferreira da Cunha
Assessores:
as.)
Antônio José Chediak
Serafim Silva Neto
Sílvio Edmundo Elia. 1
1 – São nomes muito conhecidos e de reconhecido valor: todos têm obras publicadas.
PORTARIA Nº 36, DE 28 DE JANEIRO DE 1959
O Ministro do Estado da Educação e Cultura, tendo em vista as razões que determinaram a expedição da Portaria nº 152, de 24 de abril de 1957, e considerando que o trabalho proposto pela Comissão resultou de minucioso exame das contribuições apresentadas por filólogos e lingüistas, de todo o País, ao Anteprojeto de Simplificação e Unificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira, resolve:
Art.1º - Recomendar a adoção da Nomenclatura Gramatical Brasileira, que segue anexa à presente Portaria, no ensino programático da Língua Portuguesa e nas atividades que visem à verificação do aprendizado, nos estabelecimentos de ensino.
Art.2º - Aconselhar que entre em vigor:
a) para o ensino programático e atividades dele decorrentes, a partir do início do primeiro período do ano letivo de 1959;
b) para os exames de admissão, adaptação, habilitação, seleção e do art. 91 a, partir dos que se realizarem em primeira época para o período letivo de 1960.
Clóvis Salgado
DIVISÃO DA GRAMÁTICA:1 Fonética, Morfologia e Sintaxe.
INTRODUÇÃO: - Tipos de Análise: Fonética, Morfológica e Sintática.
PRIMEIRA PARTE
Fonética
I – A FONÉTICA pode ser: Descritiva, Histórica e Sintática.
II – FONEMAS: vogais, consoantes e semivogais.
1. Classificação das vogais – Classificam-se as vogais:
a) quanto à zona de articulação, em: anteriores, médias e posteriores;
b) quanto ao timbre, em: abertas, fechadas e reduzidas;
c) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal, em: orais e nasais;
d) quanto à intensidade, em: átonas e tônicas.
2.Classificação de consoantes – classificam-se as consoantes:
a) quanto ao modo de articulação, em: oclusivas, constritivas: fricativas, laterais e vibrantes;
b) quanto ao ponto de articulação, em: bilabiais, labiodentais, linguodentais, alveolares, palatais e velares;
c) quanto ao papel das cordas vocais, em: surdas e sonoras;
d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal, em: orais e nasais.
III – 1. Ditongos – Classificam-se os ditongos em: crescentes e decrescentes; orais e nasais.
2. Tritongos – Classificam-se os tritongos em: orais e nasais.
1. Divisão simples e satisfatórias para a gramática e a análise gramatical: Fonética, Morfologia e Sintaxe compreendem todo o material de que se ocupa uma dGramática Descritiva da Língua
3. Hiatos.
4. Encontros Consonantais.
Nota: Os encontros – ia, ie, io, ua, eu, uo finais, átonos, seguidos ou não de s, classificam-se quer como ditongos, quer como hiatos uma vez que ambas as emissões existem no domínio da Língua Portuguesa: histó-ri-a e histó-ria; sé-ri-e e sé-rie; pá-ti-o e pá-tio; ár-du-a e ár-dua; tê-nu-e e tê-nue; vá-cu-o e vá-cuo.2
IV – Sílaba – Classificam-se os vocábulos, quanto ao número de sílabas, em: monossílabos, dissílabos, trissílabos e polissílabos
V – Tonicidade:3
1. Acento: principal e secundário.
2. Sílabas: átonas: pretônicas e postônicas; subtônicas; tônicas.
________________
3. Quanto ao acento tônico, classificam-se os vocábulos em: oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas.
4. Classificam-se os monossílabos em: átonos e tônicos.
5. Rizotônico; arrizotônico.
Nota: São átonos os vocábulos sem acentuação própria, isto é, os que não têm autonomia fonética, apresentando-se como sílabas átonas do vocábulo seguinte ou do vocábulo anterior.
São tônicos os vocábulos com acentuação própria, isto é, os que têm autonomia fonética.
Pode ocorrer que, conforme mantenha, ou não, sua autonomia fonética, o mesmo vocábulo seja átono numa frase, porém, tônico em outra. Tal pode acontecer, também, com vocábulos de mais de uma sílaba: serem átonos numa frase, mas tônicos em outra.
6. Ortoepia.4
7. Prosódia.
2 – Acrescento ainda os grupos: ea, eo e ao. Exemplos áurea, núcleo, amêndoa. Com relação a divisão silábica, apesar da liberdade concedida pela N.G.B., creio que o melhor é não separar esses ditongos crescentes. Assim pensam gramáticos, fazem poetas na contagem das sílabas e nós também na pronúncia comum.
3 – Costumava-se incluir a tonacidade e o número de sílabas na análise morfológica (ex-léxica). Tudo isso pertence, evidentemente, à fonética.
4. Existem as duas pronúncias: ortoépia e ortoepia. No texto prefiraram a praoxítona com a tônica no i.
SEGUNDA PARTE
Morfologia
Trata a Morfologia das palavras:
1. Quanto a sua estruturação e formação.
2. Quanto a suas flexões e
3. Quanto a sua classificação.
I - Estrutura das palavras:
a) Raiz; Radical; Tema; Afixo; prefixo e sufixo; Desinência: nominal e verbal; Vogal temática; Vogal e Consoante de ligação.
b) Cognato.
II – Formação das palavras: 1 – Processo de formação de palavras: Derivação; Composição; 2 – Hibridismo.5
III – Flexão das palavras: quanto à sua flexão as palavras podem ser: variáveis ou invariáveis.
IV - Classificação das palavras: substantivos, artigo, adjetivo, numeral, pronome, verbo advérbio, preposição, conjunção e interjeição.
I – Substantivos
1. Classifica-se os substantivos em: comuns e próprios; concretos e abstratos.
2. Formação do substantivo: primitivo e derivado; simples e composto.
3. Flexão do substantivo:
a) em gênero: masculino; feminino, epiceno; comum de dois gêneros; sobrecomum.
b) em número: singular e plural;
c) em grau: aumentativo; diminutivo.
5 – Acrescento ainda: formam-se palavras por onomatopéia e por abreviaturas. (processo em voga, hoje, com a mania de cria siglas.)
II – Artigo
1. Classificação do artigo: definido, indefinido.6
2. Flexão do artigo:
a) gênero: masculino e feminino;
b) número: singular e plural.
III – Adjetivo:
1. Formação do adjetivo: primitivo e derivado; simples e composto.
2. Flexão do adjetivo:
a) em gênero: masculino e feminino;
b) em número: singular e plural;
c) em grau: comparativo de igualdade; de superioridade (analítico e sintético); de inferioridade. Superlativo: relativo (de superioridade de inferioridade); absoluto (sintético e analítico).
3. Locução adjetiva.
IV – Numeral:
1. Classificação do numeral: cardinal, ordinal, multiplicativo e fracionário.
2. Flexão do numeral: em gênero: masculino e feminino; em número: singular e plural.
V – Pronome
1. Classificação do pronome: pessoal: reto, oblíquo (reflexivo, não reflexivo); de tratamento; possessivo; demonstrativo; indefinido; interrogativo; relativo.
Nota: Os que fazem as vezes de substantivos chama-se pronomes-substantivos; os que acompanham os substantivo, pronomes-adjetivos.7
2. Flexão do pronome:
a) em gênero: masculino e feminino.
b) em número: singular e plural.
c) em pessoa: primeira, segunda e terceira.
3. Locução pronominal.
6 – Por que não incluir aqui o artigo partitivo? Embora não tenha forma própria, o que ocorre também em francês, ele existe e é, muitas vezes, um excelente recurso expressional.
7 – Coloquei hifens em pronomes-substantivos e pronomes-adjetivos porque são palavras compostas: os primeiros são substitutos, os segundos acompanhantes do nome.
VI – Verbo
1. Classificação do verbo: regular, irregular, anômalo, defectivo, abundante, auxiliar.
2. Conjugações: três são as conjunções: a primeira com o tema terminado em “A”; a Segunda com o tema terminado em “E”; a terceira com o tema terminado em “I”.
Nota: O verbo “pôr” ( e os dele formados) constitui anomalia da 2ª conjugação.8
3. Formação do verbo: primitivo e derivado; simples e composto.
4. Flexão do verbo:
a) de modo: indicativo, subjuntivo e imperativo;
b) formas nominais do verbo: infinitivo: pessoal (flexionado e não flexionado), impessoal; gerúndio; particípio;9
c) de tempo: presente; pretérito: imperfeito (simples e composto); perfeito (simples e composto); mais que perfeito (simples e composto); futuro do presente (simples e composto) e do pretérito (simples e composto).
Nota: A denominação futuro do pretérito (simples e composto) substitui a de condicional (simples e composto);10
d) de número: singular e plural;
e) de pessoa: três são as pessoas do verbo: 1ª, 2ª e 3ª;
f) de voz: ativa; passiva (com auxiliar, com pronome apassivador); reflexiva.11
5. Locução verbal.12
8 – Ponere = poer = pôr: apesar de ser um argumento histórico julgo-o válido para classificar o verbo pôr e seus compostos como da 2ª conjugação já que a sua vogal temática é e.
9 – Formas nominais ou verbóides porque funcionam como nomes: substantivo, adjetivo ou advérbio.
10 – Apesar da generalização do nome condicional, acho justa a sua eliminação como modo independente: o que indica condição não é o verbo mas a oração condicional.
Iria, se pudesse.
A condição está em: se pudesse e não no iria. É verdade que iria está pedindo uma condição mas não indica, por si mesmo, a condição.
11 – Pronomes apassivadores: me, te, se, nos, vos. Sobretudo o se a que chamam de partícula apassivadora pessoal (Vendem-se livros) ou partícula apassivadora impessoal (Vive-se bem).
12 – Importante para a análise sintática: a locução verbal forma um único predicado. Portanto forma uma só oração.
VII – Advérbio:
1. Classificação do advérbio:
a) de lugar; de tempo; de modo; de negação; de dúvida; de intensidade; de afirmação;
b) advérbios interrogativos: de lugar, de tempo, de modo, de causa.
2. Flexão do advérbio: de grau: comparativo; de igualdade, de superioridade e de inferioridade; superlativo absoluto (sintético e analítico); diminutivo.
3. Locução adverbial.
Notas:
a) Podem alguns advérbios estar modificando toda a oração.
b) Certas palavras, por não se poderem enquadrar entre os advérbios terão classificação à parte. São palavras que denotam exclusão, inclusão, situação, designação retificação, afetividade, realce, etc.13
VIII – Preposição:
1. Classificação das preposições: essenciais, acidentais.
2. Combinação.
3. Contração.
4. Locução prepositiva.
IX – Conjunção:
1. Classificação das conjunções: coordenativas: aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas, explicativas; subordinativas: integrantes, causais, comparativas, concessivas, condicionais, consecutivas, finais, temporais, proporcionais e conformativas.14
Nota: As conjunções que, porque, porquanto, etc., ora têm valor coordenativo, ora subordinativo; no primeiro caso, chama-se explicativas, no segundo, causais.15
2. Locução conjuntiva
13 – Parece que a inclusão de partículas no meio de advérbios indica a sua parecença com eles. Sintaticamente se analisam como adjuntos adverbiais.
Até eu fui aprovado com distinção.
O até é uma partícula de inclusão, um adjunto adverbial de inclusão.
14 – Acrescentam-se ainda as modais: são algumas vezes indispensáveis e não se resolvem nem nas comparativas nem nas conformativas.
15 – Sobre causai coordenativas e subordinativas leia-se o que está na página 242 deste livro. Aí está exposta alguma coisa da questão.
X - Interjeição
Locução interjectiva.16
XI – 1. Palavra.
2. Vocábulo.
3.Sincretismo. Sincrético.
4. Forma variante.
5. Conetivo.
TERCEIRA PARTE
Sintaxe
A – Divisão da sintaxe:
a) Concordância: nominal e verbal.
b) Regência { Verbal
{Nominal
c) Colocação.
Nota: Na colocação dos pronomes oblíquos, adotem-se as denominações de próclise, mesóclise e ênclise.
B – Análise Sintática:17
I – Da Oração:
1. Termos essenciais da oração: sujeito e predicado.
a) Sujeito: simples, composto, indeterminado; oração sem sujeito.
b) Predicado: nominal, verbal, verbo-nominal.
c) Predicativo: do sujeito e do objeto.
a) verbo de ligação;
d) Predicação verbal: b) verbo transitivo (direto e indireto);
c) verbo intransitivo.
2. Termos integrantes da oração:
a) complemento nominal;
b) complemento verbal: objeto (direto e indireto);
c) agente da passiva.
3. Termo acessórios da oração:
16 – A rotina continua colocando as interjeições dentro das classes gramaticais. Elas são muito pouco gramaticais: deveriam ficar à parte como elementos psicológicos de grande valor, sem dúvida, mas não presos a uma classe de gramática.
17 – Este livro procura, na teoria, e na prática, fazer e ensinar a análise sintática. Não lógica.
a) adjunto adnominal;
b) adjunto adverbial;
c) aposto.
4. Vocativo
II – Do período: tipos de período:
1. Simples e composto.
2. Composição do período: coordenação e subordinação.
3. Classificação das orações:
a) absoluta;
b) principal;
c) coordenada: assindética; sindética: aditiva, adversativa, alternativa, conclusiva, explicativa;
d) subordinada; substantiva: subjetiva, objetiva (direta e indireta), completiva-nominal, apositiva, predicativa; consecutiva, concessiva, condicional, conformativa, final, proporcional e temporal.18
As orações subordinadas podem apresentar-se, também, com os verbos numa de suas FORMAS NOMINAIS; chamam-se, neste caso, reduzidas: de infinitivo, de gerúndio, de particípio, as quais se classificam como as desenvolvidas: substantivas (subjetiva etc.), adjetivas adverbiais (temporais etc.).
Notas: 1. Coordenadas entre si podem estar quer principais, quer independentes quer subordinadas (desenvolvidas ou reduzidas).
2.Devem ser abandonadas as classificações:
a) de lógico e gramatical, ampliado e inampliado, completo e incompleto, total, parcial, para qualquer elemento oracional;
b) de oração quanto à forma (plena, elítica etc.), quanto ao conetivo (conjuncional, não conjuncional, relativa).
3. Na classificação da oração subordinada bastará dizer-se: oração subordinada substantiva (subjetiva etc.); oração subordinada adjetiva (restritiva, explicativa); oração subordinada adverbial (causal etc.).
18 – A N.G.B. eliminou, sem razão, a modal. Ela existe e, muitas vezes, é a única análise razoável. (Ver pág. 76).
APÊNDICE19
I – Figuras de Sintaxe – Anacoluto, elipse, pleonasmo e silepse.
II – Gramática Histórica – Aférese, altura (som), analogia, apócope, assimilação (total, parcial, progressiva, regressiva), consonantismo, dissimilação (total, parcial, progressiva, regressiva), ditongação, divergente, elisão, empréstimo, epêntese, etimologia, haplologia, hiperbibasmo, intensidade (som), metáfase, mesalização, neologismo, palatalização, paragoge, patronímico, prótese, síncope, sonorização, substrato, superstato, vocalismo, vocalização.
III – Ortografia20 – Abreviatura, alfabeto, dígrafo (grupo de letras que representam um só fonema. Ex.: ch (chave), gu (guerra), qu (quero), rr (carro), lh (palha), ss (passo), nh (manhã);21 homógrafo, homônimo, letra (maiúscula e minúscula). Notações léxicas: acento agudo, grave, circunflexo, apóstrofo, cedilha, hífen, til e trema, sigla.
IV – Pontuação22 – Aspas, asteriscos, colchete, dois-pontos, parágrafo(§), parênteses, ponto-de-exclamação, ponto-de interrogação, ponto-e-vírgula, ponto-final, reticências, cedilha, travessão, vírgula.
V – Significação das palavras – Antônimo, homônimo, sentido figurado.
VI – Vícios de linguagem23 – Barbarismo, cacofonia, preciosismo, solecismo.
19 – Considero muito simplista este apêndice, mas relevo o defeito por julgá-lo apenas um pequeno índice exemplificativo que o professor tem obrigação de interpretar e desenvolver.
20 – Não sei se tenho razão, mas incluiria a ortografia na Fonética. Convém notar que existe, no Brasil, uma Ortografia Oficial, diferente da adotada em Portugal: é a do “Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” organizado em 1943 pela Academia Brasileira de Letras. Sua oficialização se fez pela Lei nº 2.623, de 21 de outubro de 1955.
21 – Acrescentem-se mais estes dígrafos: sc (nascer); sç (cresço) e xc (exceção).
22 – Não é demais encarecer a importância dos sinais gráficos de pontuação: para a clareza, a racionalidade, a ênfase, a facilidade de leitura... Fora alguns princípios grais, é um recurso muito pessoal que cada estilista tem ,mais ou menos diferente. Vá lá a paráfrase de conhecido provérbio: Dize-me como pontuas e dirte-ei que és...
23 – Como se fala de alguns recursos especiais de sintaxe (Figuras de Sintaxe), fala-se também de alguns erros, de vícios de linguagem. Sem avançar muito para não sair da Gramática e cair na Estilística.
Leitura
ALGUMAS OBSERVAÇÕES GERAIS SOBRE A NOMENCLATURA GRAMATICAL BRASILEIRA
1. Notem bem o adjunto adnominal Brasileira. Esta Nomenclatura só se refere ao Brasil, não é usada em Portugal. Já era tempo de se escrever uma Gramática Brasileira da Língua Portuguesa.1
2. Os professores que trabalharam nela têm, inegavelmente, gabarito (para usar uma palavra em moda). Trabalharam em equipe e apresentaram um Anteprojeto2 que foi enviado a todas as Secretaria de Educação do Brasil, para críticas, correções, sugestões...
Dele nasceu a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Para exemplificar a seriedade de sua elaboração, basta recordar as severas restrições que lhe fez um dos seus mais operosos e inteligentes colabores: Cândido Jucá (filho).3
E do seu espírito cite-se a liberdade com que Rocha Lima – da comissão – edita e reedita, discordando muitas vezes, a sua valiosa Gramática Normativa da Língua Portuguesa.4
3. De modo geral foi aceita e entrou em uso, com bons resultado, sobretudo para a simplificação e uniformização da nossa babélica terminologia gramatical. Mesmo os que discordam de uma terminologia única e advogam uma pretensa liberdade, adaptaram seus livros à nova nomenclatura. Sentiram que ela se impôs, não por causa de uma Portaria ministerial, mas por persuasão. EM 1959 publiquei a 1ª edição do meu livrinho “Análise Sintática”, de acordo com a N.G.B.5 e o fiz com vontade de propagar as oportunas tentativas de simplificação e uniformização da nossa confusa e variadíssima terminologia de gramática. E me sinto satisfeito pela sua adoção.
4. A N.G.B. tem defeitos e alguns certamente, seriam corrigidos se tivesse havido maior colaboração (não houve quase nenhuma) quando as Secretarias de Educação e muitos professores receberam o Anteprojeto. Ao pé das páginas fiz algumas observações, às vezes de crítica.
Considero a Nomenclatura um roteiro e não um decálogo, um imperativo inflexível, um índice da matéria gramatical, não evidentemente seu desenvolvimento. É por isso que, na página de rosto deste meu livro está o título:
ANÁLISE SINTÁTICA BASEADA NA NOMENCLATURA GRAMATICAL BRASILEIRA
Lamento que a comissão não tenha publicado um texto comentado, crítico, histórico com uma bibliografia fundamental – nacional e estrangeira – que servisse de manual para os professores que, nem sempre, têm tempo e dinheiro para uma séria biblioteca do assunto ou para pesquisas nesse campo. A adoção da N.G.B. não implica na sua aprovação incondicional: ela é apenas um roteiro que se deve seguir inteligentemente. Dá bons resultados sua aplicação também às línguas estrangeiras. Ao latim, por exemplo. Apesar de algumas dificuldades, com achegas, a N.G.B pode ajudar também no ensino, tão descurado, da gramática latina. Como não existe, nem sei se é desejável e possível, uma nomenclatura internacional de gramática, não se lamentem as discordâncias entre anosa nomenclatura e as outras, inclusive a de Portugal.
5. Com relação à análise sintática qualquer um pode notar a simplificação total já alcançada pela N.G.B. E a tão desejada e quase alcançada uniformização.
Tudo foi simplificado: período, oração, termos, não só pela poda geral de muitas inutilidades, como pela racionalização de muitos contra-sensos. Não quero dizer que o velho não presta: primeiro porque nem tudo é novo na N.G.B.; segundo por que na maior parte não é nova; terceiro nem tudo que é novo é melhor... Parece-me, porém, que, no gera, a N.G.B. é melhor pela simplicidade, pela exatidão, pela coerência, pela uniformidade.
*Delson Gonçalves Ferreira, autor do livro Análise Sintática, Editora Bernardo Álvares S.ª, 1967, de onde foi tirado esse ensaio.
______________________
1 – Exemplo: “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”- supervisão de Aurelio Buarque de Hollanda – Edit. Civilização Brasileira S.A. – 11ª ed. – 1964.
2. – Anteprojeto de Simplificação e Unificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira – M.E.C. – Rio de Janeiro – 1957. Sirvo-me do original que me foi dado na época.
3 – 132 Restrições ao Anteprojeto de Simplificação e Unificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira – Rio – 1958 – Distribuição da Edit. Civilização Brasileira S.A.
4 – Gramática Normativa da Língua Portuguesa – F. Briguiet e Cia. Edit. – Rio.
5 – Análise Sintática – Delson Gonçalves Ferreira – Editora Bernardo Álvares S.A. – Belo Horizonte – 1965 – 4ª ed.