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A música como meio do iletrado João do Vale ascender ao mundo de letrados (Ou seja, o modo como certo iletrado penetrou no universo dos "ilustrados")
(Francisco Antônio Ferreira Tito Damazo* )

      Resumo:

      O presente trabalho é um extrato da idéia mais geral da tese de doutorado que venho desenvolvendo. Nela, pretendo demonstrar o que considero um singular fenômeno cultural. Não único, certamente, mas raro, pois que revestido de uma peculiaridade distinta. Trata-se da qualidade literária dos textos das músicas do compositor/cantor João do Vale. A singularidade está em que João era um iletrado na concepção clássica da palavra. Mal sabia ler e escrever (Foi obrigado a deixar a escola, quando cursava o "terceiro ano primário"). Contudo, compôs letras (poemas) para os seus baiões dignas da altura das dos mais bem dotados do mundo das letras. E a consagração de seu trabalho, que o inseriu definitivamente no mundo dos expoentes da Música popular brasileira, foi a canção "Carcará", apresentada nos shows do Grupo Opinião e do Teatro de Arena de São Paulo em dezembro de 1964. A direção geral dos mesmos era de Augusto Boal e direção musical de Dorival Caymmi Filho. A música, inicialmente interpretada por Nara Leão, tornou-se "um grito de guerra" daquele movimento cultural a partir da marcante interpretação de Maria Bethania.

      A música como meio do iletrado João do Vale ascender ao mundo de letrados (ou seja, o modo como certo iletrado penetrou no universo dos "ilustrados").

      Este texto é um extrato da idéia mais geral da tese de doutorado que vimos desenvolvendo. Nela, pretendemos demonstrar o que consideramos um singular fenômeno cultural. Não único, certamente, mas raro, pois que revestido de uma peculiaridade distinta.

      João do Vale era um semi-analfabeto que, depois de muito perambular, menino ainda, pelo Norte e Nordeste do País, fixou-se no Rio de Janeiro trabalhando como servente de pedreiro e, por não ter onde ficar, "morava" nas construções. Isto se deu em 1950. O propósito primordial do trabalho é demonstrar a qualidade estética dos seus textos musicais. Um estilo de composição que permeia a modalidade poética de linguagem realizada em seus vários estratos: sintático, fonético e imagético. Tomando como base um conjunto de suas composições, sem exclusividade, dado e endossado pela crítica e expoentes compositores da denominada Música Popular Brasileira, procuramos demonstrar, por meio de uma análise literária que não prescinde do referente biográfico, o significativo valor estético dessa obra musical.

      O universo existencial de João do Vale é o substrato fundamental de suas composições. Fato natural quando se trata, como é o seu caso, especialmente de obra artística calcada na "doutrina" da cultura popular e de cunho fortemente regionalista nordestino. Logo, sua música, como acontece a rigor nesse tipo de arte, evidencia uma constante inflexão às questões humanas numa perspectiva da ética, da moral e da justiça sociais. Mas a dimensão universal conferida aos temas, em que as formas humanas de ser brasileiro estão postas, num tratamento poético de fatura emotivo-reflexiva, se configuram de maneira muito evidente, o que não é incomum, já o dissemos, na obra de arte em geral da cultura popular brasileira.

      Especialmente, a esse espaço, julgamos que seria interessante e de algum modo contributivo, ser dado a conhecer uma faceta do que entendemos uma peculiaridade muito singular da obra musical de João do Vale. Trata-se de sua original projeção no cenário da cultura nacional, especialmente no da Música Popular Brasileira. Aqui, abordamos, portanto, tão-somente um dos aspectos, ou, mais precisamente, um dos pontos daquele trabalho de pesquisa em que pretendemos demonstrar o poético da composição musical de João do Vale, um compositor/cantor maranhense, nascido em Pedreiras, município desse estado, no ano de 1933 e falecido em 1996, em São Luís.

      Alguns dos mais respeitados críticos de arte e da Música Popular Brasileira costumam apontar João do Vale formando com Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro a tríade maior dos

      construtores da música sertaneja nordestina. Tárik de Souza, respeitado crítico musical a esse respeito disse que "Ao lado de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, João do Vale forma a santíssima trindade da música nordestina de raiz. A que estabeleceu os alicerces para a geração seguinte de Alceu Valença, Fagner, Elba e Zé Ramalho, Ednardo, Belchior, Quinteto Violado e Geraldo Azevedo. A seiva inicial que inoculou até o mangue bit de Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S.A. e outros planetas arretados. Dos fundadores deste Nordeste primal que frutifica desde os Turunas da Mauricéia, Jararaca & Ratinho, Catulo da Paixão Cearense, Manezinho Araújo e Zé do Norte, João foi o que tocou mais fundo a questão social [...]. Retrato do povo, dos costumes e da ecologia (muito antes da inauguração do modismo) de sua terra, o disco-tributo João Batista do Vale celebra a obra viva de um maranhense universal." (2000, p.220)

      Os três, como a grande maioria dos artistas populares nordestinos de origem pobre e negra, tinham enorme dificuldade com a escrita e a leitura. Jackson foi alfabetizar-se aos trinta e cinco anos, quando o seu sucesso como compositor e músico já se havia consumado. Luiz Gonzaga não freqüentou escola e João conseguia ler, mas não escrever. João do Vale era, pois, um semi-analfabeto. Um iletrado, portanto. E essa condição nordestina que a ele marcou sobremaneira também vinca, por conseguinte, o universo de sua obra musical. Algumas de suas mais significativas músicas referem-se à generalizada falta de estudo do povo de seu lugar. Talvez a mais expressiva delas sobre esse aspecto e que induz o episódio que decisivamente o atirou para essa condição seja a música "Minha história". Menino ainda, morando em Pedreiras, sua terra natal, viu-se obrigado a deixar a escola, para que seu lugar fosse concedido ao filho do coletor que lá havia chegado. Era um tempo em que o dirigente da Coletoria, órgão público estadual arrecadador de impostos, figurava entre os que ocupavam posição social de grande prestígio. Depoimentos dele próprio permitem afirmar que esse fato não só revoltou o menino excluído, como marcou muito o adulto compositor:

      "Só estudei até o terceiro ano primário. Aprendi a ler; escrever é que eu sempre me atrapalho um pouco, porque tem uns pingozinhos que me confundem. Mas ler eu leio tudo. Parei de estudar não foi pra trabalhar, não sabe? Fui tirado mesmo. Mas não gosto de falar disso. (...) Teve uma época que foi designado um coletor novo lá pra Pedreiras. Coisa da política. E ele levou um filho em idade escolar. Na escola tinha uns trezentos alunos, mas escolheram logo eu pra dar lugar ao filho do homem. E eu senti, é claro. Resolvi nunca mais ir estudar. (...) Hoje eles botaram rua com meu nome, me homenageiam, só pra desmanchar o que fizeram... Mas nem Deus querendo eu esqueço! Bom, eu pelo menos me tornei um compositor popular; uma comissão de alunos da USP me deu o título de Poeta do Povo, do qual me orgulho muito. Mas o negócio não é bem eu./É Mane, Zeca e Romão/Que também foi meus colegas/E continuam no sertão./Não puderam estudar e nem sabem faze baião". (1977, p. 10)

      Os versos citados acima são de "Minha história":

      Seu moço quer saber

      Eu vou cantar num baião

      Minha história pro senhor

      Seu moço preste atenção

      Eu vendia pirulito

      Arroz doce, mungunzá

      Enquanto eu ia vender doce

      Meus colegas iam estudar

      A minha mãe tão pobrezinha

      Não podia me educar

      E quando era noitinha

      A meninada ia brincar

      Vige como eu tinha inveja

      De ver Zezinho contar

      -- O professor ralhou comigo

      Porque eu não quis estudar

      Hoje todos são doutor

      E eu continuo um João Ninguém

      Mas quem nasce pra pataca

      Nunca pode ser vintém

      Ver meus amigos doutor

      Basta pra me sentir bem

      Mas todos eles quando ouvem

      Um baiãozinho que eu fiz

      Ficam tudo satisfeito

      Batem palma, pedem bis

      E dizem: João foi meu colega

      Como eu me sinto feliz

      Mas o negócio não é bem eu

      É Mané, Pedro e Romão

      Que também foi meus colegas

      E ficaram no sertão

      Não puderam estudar

      E nem sabem fazer baião.

      Não obstante seu semi-analfabetismo, João do Vale vem a ser o grande compositor dentre eles. Era um criador inato. Todas as suas músicas são de sua autoria, tendo ou não parcerias. E nesse ponto sobrelevou-se aos outros dois. Uma das músicas de maior sucesso do repertório de Jackson do Padeiro, "O canto da ema" é de autoria de João do Vale. Há depoimentos vários a respeito das vendas de parcerias que João realizou de grande parte de suas músicas com o fim de obter dinheiro. José Cândido, um dos mais importantes parceiros dele (co-autor de "Carcará", a mais famosa e conhecida das composições de João), com quem vimos mantendo contato e estabelecemos uma cordial relação de amizade, tem relatado episódios muito curiosos a esse respeito. João, sempre em dificuldade financeira, não titubeava em oferecer a parceria a quem se dispusesse a isso, conta José Cândido, que também era compadre de João. Afirma que acompanhou o "nascimento" de algumas composições que vieram a ser grande sucesso de audiência, sendo regravadas por vários nomes de destaque da Música Popular Brasileira e que se o quisesse (o que não fizera por uma questão de princípios) figuraria como parceiro. Dentre algumas dessas músicas citadas por José Cândido constam "Peba na pimenta"e "Pisa na fulô" que foi grande sucesso na voz de Ivon Cury e, depois, com Alceu Valença, entre outros. E, ainda, segundo José Cândido, Luís Vieira, outro importante parceiro de João e quem primeiro lhe deu atenção e importância, num dos seus maiores sucessos, a música "O menino de Braçanã", tinha como parceiro real o próprio João do Vale e não quem consta, ao qual esse vendeu a parceria. "Cheiro da Carolina", sucesso de Luiz Gonzaga no Nordeste consta como composição de Zé Gonzaga e Amorim Roxo. No entanto, é amplamente sabido que se trata de mais uma das músicas vendidas por de João do Vale.

      A singularidade está mesmo, pois, no fato de João do Vale, não obstante seu analfabetismo formal, ser capaz de ler o contexto social com o qual se relacionava e o interpretar e o recriar esteticamente em composições musicais que lhe conferiram um lugar dentre os grandes expoentes da "erudita" Música Popular Brasileira, letradíssimos todos eles. Sua arguta leitura de mundo, seu inconformismo ante sua própria existência e a situação social com que convivia, sua propensão à composição musical e sua intuição poética certamente foram decisivos na formação desse denominado "poeta do povo" (título também de seu primeiro disco). A arte musical de João do Vale é um típico e singular exemplo de que "A leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade." (1983, p. 8)

      A consagradora projeção dele no cenário da cultura nacional, sem dúvida, foi sua atuação no show Opinião realizado a partir de dezembro do ano de 1964, no Rio de Janeiro, ao lado de Nara Leão e Zé Kéti. Organizado e dirigido por Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), com a participação dos demais integrante do Grupo Opinião, como Augusto Boal, Paulo Pontes, Ferreira Gullar e outros. O Show Opinião fez grande sucesso. Arte musical de protesto em que a música de Zé Kéti traduzia a representação do povo marginalizado da zona urbana; a de João do Vale, a do povo sofrido do sertão. Somando-se a eles a representação da classe média também descontente e em oposição ao recém-regime militar instalado pelo canto de Nara Leão. Tinha-se então a síntese sócio-econômica explorada pela elite repressora representada pela sua manifestação artístico-cultural musical: o samba de morro, a canção sertaneja e a bossa-nova. É o próprio João quem nos confirma isso:

      "Voltar ao Teatro Opinião [para o Opinião 75, estrelado também por Zé Kéti e Marília Medalha, sob a direção de Bibi Ferreira] foi muito importante pra mim. Foi de lá que o "Carcará" voou até pro exterior. E é de lá que eu guardo minhas lembranças mais queridas. Porque foi lá que eu nasci pro mundo, ou pelo menos aqui pro Sul, em 1964. Todo o mundo ficou sabendo quem é João do Vale. E passou a cantar as minhas coisas."( 1977, p.7)

      E foi substituindo Nara, que ficara doente, que surgiria, de forma consagradora, no cenário da Música Popular Brasileira, uma de suas maiores estrelas, Maria Bethânia, interpretando de maneira dramaticamente sensacional "Carcará" de João do Vale, feita em parceria com José Cândido:

      Carcará

      Lá no sertão

      É um bicho que avoa que nem avião

      É um pássaro malvado

      Tem o bico volteado que nem gavião

      Carcará

      Quando vê roça queimada

      Sai voando e cantando

      Carcará

      Vai fazer sua caçada

      Carcará come até cobra queimada

      Quando chega o tempo da invernada

      O sertão não tem mais roça queimada

      Carcará mesmo assim não passa fome

      Os borregos que nascem na baixada

      Carcará pega mata e come

      Carcará não vai morrer de fome

      Carcará mais coragem do que homem

      Carcará pega mata e come

      Carcará é malvado é valentão

      É a águia de lá do meu sertão

      O burrego novinho não pode andar

      Ele puxa no umbigo até matar

      Carcará pega mata e come

      Carcará não vai morrer de fome

      Carcará mais coragem do que homem

      Carcará pega mata e come

      O ritmo da canção marca-se pela contundência acentual de seu verso nuclear: "Carcará pega mata e come", uma espécie de refrão disseminado, não se apresentando simetricamente, conforme acontece em seu uso tradicional. O signo que representa a ave, onomatopeicamente, remete ao seu grito desafiador. E é reiterado na seqüência gradativa dos três verbos, simetricamente paroxítonos, em que as ações combativas da ave são descritas. A aliteração do fonema /k/ e a assonância em /a/ enfeixam essa alta ritmicidade reveladora da agressividade devastadora da ave. Ave cuja garra e tenacidade de luta contra a adversidade ("Carcará não vai morrer de fome") imprimida pela seca é reiterada em todo o texto numa construção anafórica de sua (d)enunciação: "Carcará..." Sugestivamente contrapondo-se a uma não correspondente determinação humana. O que parece ficar evidenciado com a reiteração do par de versos que demarcam esse contraste: "Carcará não vai morrer de fome"/ "Carcará mais coragem do que homem".

      Podemos ver, por este brevíssimo comentário-analítico a qualidade poética do texto cujo efeito estético resulta desse trabalho literário de linguagem buscando espelhar o universo que a conforma. É certo que isso se consuma e ressalta na sua realização musical.

      Foi realmente a partir do Show Opinião que se passou a prestar mais atenção em João, e suas composições. E o reconhecimento se consolidou. As músicas desse João passaram a incorporar o repertório dos grandes nomes da Música Popular Brasileira. Caetano Veloso fez excelente arranjo e interpretação para "Na asa do vento." Gilberto Gil com "O canto da ema ". Alceu Valença com "Pisa na fulô", "Trem de Teresina". Fagner com "Bom vaqueiro". Tim Maia com "Coronel Antônio Bento". Zé Ramalho, mais recentemente, "Amar quem eu já amei".

      O talento artístico-musical do "iletrado" João do Vale estendeu-se ao cinema. Amigo de Roberto e de Riva Farias, compôs "Forró do Tinaguá" para o filme Rio fantasia, 1956. No ano seguinte, em Rico ri à toa, ele atuou como assistente de direção e indicou e arranjou os cantores para o filme ( Zé Gonzaga, Jorge Veiga, Dolores Duran). No mundo da lua, também de Roberto Farias, participa como figurante. E, por fim, compôs ainda a trilha sonora de outro filme de Roberto Farias Meu nome é Lampião, 1969.

      Nos primeiros anos da década de 80, do século passado, o Brasil estabelece um intercâmbio cultural com a África, iniciando-se por Angola. Um grupo de artistas brasileiros, a convite do presidente angolano, Agostinho Neto, passaria doze dias percorrendo o país apresentando a música popular brasileira. Chico Buarque figurava como uma espécie de coordenador dessa excursão político-cultural. Entre os artistas escolhidos estava João do Vale. Mais tarde, também sob a coordenação de Chico Buarque, um grupo de artistas brasileiros apresentou-se durante duas semanas em Cuba e João do Vale era um de seus integrantes.

      É ainda digna de nota, a atuação de João do Vale no "Forró Forrado", denominação dada por ele para uma espécie de show apresentado às terças-feiras, a partir de 1978/79, organizado por ele e dois amigos. O espetáculo ganhou notoriedade, pois havia sempre convidados ilustres e famosos que lá iam, atendendo a pedido e convite de João do Vale. Mercedes Sosa, numa de suas turnês pelo Brasil, em 1983, lá esteve dando sua "canja". Forró Forrado, que durou por volta de dez anos também contribuiu decisivamente na projeção de João do Vale, figura central das apresentações.

      Recentemente, no final do ano 2000, o jornalista Marcio Paschoal, pela editora Lumiar, publicou um livro biográfico de João do Vale: Pisa na fulo mas não maltrata o carcará, justa homenagem a esse compositor fenomenal que, superando seu "analfabetismo" formal, produziu textos de aguda percepção, compreensão e interpretação crítica de nossa sociedade, numa leitura poética digna de igualar-se às dos grandes cânones letrados de nossa Música Popular Brasileira.

      Referência bibliográfica

      FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 3a. ed. São Paulo: Cortez, 1983.

      Nova história da música popular brasileira. João do Vale. 2a. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1977.

      PASCHOAL, Marcio. Pisa na fulo, mas não maltrata o carcará. Rio de Janeiro: Lumiar, 2000.

      *Francisco Antônio Ferreira Tito Dmazo é professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira das Faculdades Toledo, Araçatuba-SP

      Artigo publicado na revista Plural, 2001, da Academia Araçatubense de Letras.



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