Sugerimento?!
(Walter Rossignoli
)
Quando Collor assumiu a presidência, ele bombardeou a população com um só tiro,
um plano de estabilização que bloqueou saldos bancários.
Rogério Magri, seu ministro do Trabalho, disse que o plano era imexível.
A sacada neológica de Magri até que ofuscou um pouco a iniciativa
governamental, e muita gente dedicou tempo a comentar a palavra criada pelo ministro,
havendo até quem atribuísse o “equívoco” à
falta de formação acadêmica do autor da palavra, um trabalhador!...
Na verdade, o ex-ministro poderia ter usado um termo existente no idioma, algo
como “intocável” ou “irreparável”, mas,
ao inventar, infringiu uma espécie de restrição lingüística,
segundo a qual uma forma preexistente bloqueia outras, seguramente um dos critérios
para o teste da aceitabilidade de uma palavra. Assim, por exemplo, de trabalhar
fazemos trabalhador, mas de praticar não formamos praticador; de provocar
tiramos provocação, mas de jurar não formamos juração.
Vale dizer que as formas praticante e juramento – preexistentes –
bloqueiam as formações neológicas, que, quando usadas, geram
aquela estranheza...
Na quebra desse bloqueio estava uma das chaves do sucesso do impagável
Odorico Paraguaçu, vivido na tevê pelo genial Paulo Gracindo. O autor
Dias Gomes explorava exatamente essa ruptura com o lingüisticamente institucionalizado
e criava o efeito cômico. Quanto nos deliciava ouvir Odorico dizer valentosa,
excomunguenta, comprovamento e tantas outras expressões!
Mário de Andrade, em poema que reflete o clima da Semana de Arte Moderna
de 1922, dizia-se um “ (...) escritor difícil / Que a muita gente
enquizila,/ Porém essa culpa é fácil / De se acabar de uma
vez: / É só tirar a cortina / Que entra luz nessa escurez.”
Escurez? Sim, a escuridão do poeta ou do poético... Em Carlos Drummond,
no poema “Caso pluvioso”, colhemos “chuvadeira maria, chuvadonha,/
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!”.
O dicionário de Antônio Houaiss registra a data em que o vocábulo
aparece na língua. Nele não se encontram as citadas inovações
de Odorico, nem escurez (há escureza), nem a inventiva de Carlos Drummond,
mas há o registro imexível, datado de 1990, o ano em que o ministro
cunhou a palavra, e os jornais certamente reproduziram o neologismo à exaustão.
A língua tem seus filtros, seus caprichos. Há palavras que pegam
e ganham cidadania, como dizia Machado de Assis; outras, ainda que inegáveis
achados literários, ficam restritas à genialidade de seus criadores.
Mais recentemente, o nosso Dunga deu uma inovada (ou inovação?)
na indumentária, por influência, segundo ele, de um sugerimento da
filha... O assunto rendeu matéria na tevê, com especialista mostrando
o dicionário... Como imexível, a inovação léxica
do técnico poderá estar dicionarizada daqui a alguns anos. Depende
muito do curso que a mídia dará à formação.
O código lingüístico está aberto a inventamentos. Como?
Inventamentos?! (novembro de 2006)