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Gerúndio

      O Diário da Região de Rio Preto publicou matéria no último domingo, 6 de abril, sobre o emprego do gerúndio, da qual fiz parte graças à interferência de Cristina Lima, ex- repórter desta Folha. Fui procurado para falar a respeito pelo repórter Luciano Martins por conta de ser o coordenador do site Por Trás das Letras.

      Usar demais o gerúndio deixa o texto com péssima qualidade, como no exemplo a seguir: "Entendendo dessa maneira, o problema vai-se pondo numa perspectiva melhor, ficando mais claro..."

      Mas, ultimamente, o gerúndio é empregado na sintaxe portuguesa do Brasil por contaminação da sintaxe inglesa. E segundo o manifesto antigerundista, tudo começou nos serviços de telemarketing, como: "Eu vou estar mandando um fax" ou "Vou estar telefonando em breve". Traduziu-se: 'We'll be sending it tomorrow" por "Nós vamos estar mandando isso amanhã". O atendimento das moças do telemarketing contaminou a fala das pessoas. Trata-se de um estrangeirismo na sintaxe portuguesa.

      Ouros exemplos: "Vamos estar mandando isso amanhã" (uso impróprio do gerúndio) / "Vamos mandar isso amanhã"/ "Mandaremos isso amanhã" (usos próprios).

      Em Portugal, usa-se mais o infinitivo, em vez de gerúndo, mas ambas são formas nominais do verbo. O português teve trajetórias diferentes nos dois países, pois o Brasil recebeu negros, havia aqui os índios, depois vieram os imigrantes europeus, árabes e orientais, por isso ganhou várias contribuições. Em Portugal, o estrangeirismo é tratado com mais rigor, enquanto isso no Brasil é impossível, pois a população é plural, principalmente no Sudeste e Sul. Composta por muitas nacionalidades e raças.

      Usar o gerúndio indevidamente é tão grave quanto escrever marketing e show, sem aportuguesá-los. O estrangeirismo reflete outras situações, como a dependência econômica e cultural do país. Não se corrigem influências por decreto. Procurar culpados não é o caminho correto. Também falei na entrevista sobre pleonasmo vicioso.

      Pleonasmo vicioso -Existem os pleonasmos enfáticos, usados para dar mais expressividade. Como em Chico Buarque "Me sorri um sorriso pontual".

      Os gramáticos condenam os chamados pleonasmos viciosos, como: subir para cima /hemorragia de sangue/ entrar para dentro/ monopólio exclusivo/ repetir de novo/ breve alocução/ ouvir com os ouvidos/ principal protagonista.

      E o papo foi bom, eu e Luciano Martins conversamos também sobre muletas lingüísticas.

      Muletas - No idioma, surgem sempre expressões chamadas muletas, sem sentido. De repente, elas surgem nas falas, passam para a escrita. A mídia e ídolos populares são responsáveis por isso, mas, sem histerismo, pois é fato normal numa sociedade de consumo.

      Por exemplo, está na moda falar "com certeza", "tipo assim" ou "faz parte". Cada época tem sua onda. Falar tais expressões não é o problema. Não se pode usá-las em textos formais. Isso não tem responsável, é como incêndio, o fogo se alastra.

      E a conversa foi para dicionários.

      Os dicionários - Os dicionários não têm compromisso com a gramática, apesar de serem ótimas fontes de consultas gramaticais. Eles registram o uso, principalmente os regionalismos. Exemplo: a gramática diz que xérox, como sinônimo de fotocópia, é palavra paroxítona, com acento, pois deve ser aportuguesa. Apenas como marca, Xerox, deve ser respeitada a ortografia da língua original, por ser nome próprio. Mas os dicionários registram também "xerox", sem acento e oxítona, pois o povo está falando assim. Estou mais com os dicionários.



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