Emprego do “zê”: uma lição para crianças
(Walter Rossignoli
)
Estou escrevendo esta coluna imaginando que meu leitor esteja cursando aí
pela sétima série do ensino fundamental e tenha lá suas
dificuldades na hora de grafar muitas palavras de nossa língua portuguesa.
Saibam que isso é normal. Nós, professores, e (acreditem!) até
mesmo os autores de dicionários consultam esses livros fantásticos,
que eles produziram ou coordenaram. Sim, porque o dicionário costuma
ser obra de muita gente. Portanto, nada de acanhamento quando errarem e nem
desistam de escrever seus textos só porque o professor assinalou alguns
erros de grafia. Isso acontece com todos nós.
Gentilmente, o professor Consolaro publicou neste “site” o nosso
“No mundo dos ditongos”, também endereçado às
crianças. Acabou motivando-me a desengavetar a presente coluna, que pretende
desembaraçar um pouquinho o uso da letra “zê”. Vamos
estudar apenas uma situação. Certo?
Creio que vocês já ouviram falar de substantivos e adjetivos. Até
aqui nosso texto está repleto de substantivos. Empregamos, entre outros,
“coluna”, “leitor”, “série”, “dificuldades”,
“hora”, “palavras” etc. Os gramáticos ensinam
que os substantivos nomeiam os seres em geral. É bem possível
que essa ferramenta não resolva totalmente o seu problema de identificar
os substantivos, sobretudo quando eles vêm no texto. Os mesmos gramáticos
dizem, também, que os adjetivos expressam uma qualidade ou propriedade
dos seres. Vocês poderiam, então, no meu entendimento, trabalhar
com a dupla substantivo/adjetivo e procurar encaixar o segundo em função
do primeiro. Acho que é um artifício que tem alguma utilidade.
Assim, uma prova de que “coluna” é substantivo é
que essa palavra aceita um adjetivo para modificá-la. Poderíamos
dizer “pequena coluna” (adj. + subst.). No caso de “leitor”,
segundo substantivo de nosso texto, poderíamos ter “pequeno leitor”;
ao substantivo “dificuldades” poderíamos agregar o adjetivo
“grandes”, e assim por diante. Vocês me perguntariam: mas
no caso de “série”? Eu diria que a situação
fica um pouco mais complexa. Ocorre, entretanto, que “sétima”
faz uma referência ao substantivo, e é essa palavra – um
numeral segundo as gramáticas – que está ocupando no grupo
“sétima série” um valor aproximado do que cabe ao
adjetivo. Se isolarmos “série”, veremos que a palavra admite,
por exemplo, “fácil” ou “difícil”, que
são adjetivos; uma prova de que estamos diante de um substantivo. Assim,
pelo menos, conseguimos a classificação que o dicionário
registra.
Seria, possível, por exemplo, uma palavra como “claro” ser
empregada como substantivo? Claro que sim. Imagine que você apagou grande
parte de sua redação e não teve tempo de reescrever o que
apagou. O professor poderá dizer assim: “Ficou um claro em seu
texto, menino”. Veja que “claro” está empregado como
substantivo. Uma prova disso é que admite um adjetivo que o modifique,
como em “Ficou um enorme claro em seu texto, menino”.
Vocês devem estar se perguntando o que essa conversa toda tem a ver com
o uso do “zê”. Calma, que chegamos lá!.
A rigor, nem precisávamos de todo esse papo, pois para o nosso propósito
bastaria a classificação da palavra em estado de dicionário,
fora do texto.
Se forem ao minidicionário do Aurélio, certamente vão
encontrar que “claro”, “belo”, “estranho”,
“escasso”, “rico”, “certo”, “tímido”
e “sensato”, entre tantas outras palavras, são adjetivos.
Concordam? Se duvidarem, confiram... Saibam, então, que os substantivos
que fizermos a partir desses adjetivos serão todos grafados com a letra
“zê”. Assim, observem:
Um discurso claro (subst. + adj.) revela clareza (subst.) de seu autor.
Uma pessoa bela (subst. + adj.) pode não ter beleza (subst.) interior.
Aquele homem estranho (subst. + adj.) provocou enorme estranheza (subst.).
O petróleo é um combustível escasso (subst. + adj.), e
a escassez (subst.) preocupa.
Era um homem rico (subst. + adj.) mas de uma riqueza (subst.) egoísta.
Continuaríamos, fazendo de “certo”, “certeza”;
de “tímido”, “timidez” e de “sensato”,
“sensatez”.
Ainda não dissemos que os substantivos que retiramos dos adjetivos são
classificados como abstratos, pois expressam nomes dependentes de outros. Assim,
“clareza” não existe sozinha, mas apenas em algo que é
“claro”. O mesmo raciocínio se aplica aos demais exemplos
anteriores. A lição que fica é a seguinte: grafam-se com
“zê” os substantivos abstratos que se formam a partir de adjetivos.
Vale lembrar que a terminação “ez” em palavras como
“escassez”, “timidez” e “sensatez” não
é acentuada.
Para terminar, uma pequena quadrinha que resume a lição de hoje:
Já que tenho um adjetivo
e um substantivo a fazer,
cumpro bem meu objetivo
se grafar com a letra “zê”.
* Walter Rossignoli é licenciado e pós-graduado em Letras; publicou
“Português; teoria e prática” pela Ática e é
professor no Colégio Técnico Universitário da Universidade
Federal de Juiz de Fora.
Walter Rossignoli é licenciado e pós-graduado em Letras; é
autor de “Português; teoria e prática”, pela Ática.
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