DECLINAÇÃO DOS PRONOMES PESSOAIS
(Explicação retirada de apostila do ensino médio do sistema POSITIVO
)
Além das flexões de pessoa, número e gênero, os
pronomes pessoais são das poucas palavras em português que sofrem
declinação. Compreender o significado desse conceito é
básico para compreender o funcionamento dos pronomes pessoais em nossa
língua. Isso, porém, não é simples e requer, antes,
que falemos um pouco sobre a língua latiana.
Como sabemos, o português é uma das línguas neolatinas,
isto é, uma das línguas que se originaram a partir da desintegração
do Império Romano e que foram formadas com base no latim. Por esse motivo,
o português guarda natural semelhança com alguns aspectos da gramática
latina.Num ponto, entretanto, nossa língua é bem diferente da
língua mãe. Esse ponto é a declinação.
Em latim havia conjugação de verbos e declinação
de nomes. Vejamos, como exemplo, duas frases simples em latim:
(a) Puella nautam amt.
(b) Nauta puellam amat.
A tradução é:
(a) A menina ama o marinheiro.
(b) O marinheiro ama a menina.
Podemos inicialmente notar que em latim não havia artigos e que a ordem
direta em latim não era a mesma do português. Mas além disso
podermos perceber que as palavras puella (=”menina”) e nauta (=marinheiro)são
escritas de modo diferente em cada frase. Na frase (a), temos puella e nautam,
enquanto na frase (b) temos puellam e nauta. Como vemos, as palavras podem aparecer
seguidas ou não de –m.
Essa variação decorre da função sintática
das palavras na frase. Quando a palavra ocorre na posição de sujeito,
ela não recebe a terminação – m. Mas se ela aparece
como objeto direto da frase, então ela recebe essa terminação.
Confira.
(1) A menina ama o marinheiro.
Sujeito Objeto Direto
(a) Puella mat nautam.
Sujeito Objeto Direto
(2) O marinheiro ama a menina.
Sujeito Objeto Direto
(b) Nauta amat puellam
Sujeito Objeto Direto
Generalizando esse exemplo, precisamos entender que, em latim, as palavras
mudavam de forma conforme variasse a sua função sintática
na frase. A essa variação se dava o nome de declinação.
Portanto, declinação é um tipo de flexão em que
a palavra muda de forma para expressar sua função sintática
na frase.
Como dissemos, esse conceito não é realmente simples. Para absorvê-lo,
temos de ter noções da análise sintática.
Mas, afinal, por que devemos estudar este conceito da gramática latina
para compreender o funcionamento dos pronomes pessoais em português?
Como percebemos, sem muita dificuldade, a língua portuguesa não
apresenta o fenômeno da declinação de nomes. Assim os substantivos
menina e marinheiro, por exemplo, não mudam de forma conforme sejam o
sujeito ou o objeto direto do verbo amar. Um ponto da gramática portuguesa,
todavia, ainda apresenta resquícios da declinação latina.
Observe o pronome pessoal eu. Mesmo se observarmos esta palavra isoladamente,
podemos afirmar que se trata de um pronome da 1ª pessoa do singular. Mas
além disso, é correto dizer que, não importa a frase em
que apareça, de acordo com a gramática normativa, esse pronome
deve figurar como o sujeito da sua oração.
De fato, só é gramaticalmente correto, para a norma padrão,
empregar o pronome eu na posição de sujeito.
(3) Eu convidei meu primo para a festa.
Sujeito
Seria inadequado à norma-padrão usar o pronome eu em outra função,
diferente da função de sujeito, como, por exemplo, objeto direto
de um verbo.
(4) *Meu primo convidou eu para a festa.
Objeto Direto
Nesse caso, o pronome eu ganha a forma me .
(5) Meu primo convidou-me para a festa (frase correta)
Objeto direto
Do mesmo modo, o pronome eu muda de forma quando vem relacionado a uma preposição.
Assim, não dizemos:
(6) *Ela gosta de eu.
Preposição
Dizemos:
(7) Ela gosta de mim.
Preposição
Esses exemplos apontam para um fenômeno interessante. O pronome eu ,
dependendo de sua função na frase, varia de forma e poder tornar-se
me ou mim. Pelos enunciados anteriores, chegamos a seguinte relação
entre forma e função do pronome:
Eu..............Sujeito da oração
Me..............Objeto da oração
Mim............Modificado por preposição
Se olharmos esse caso com atenção, notaremos que ele é
muito semelhante à declinação das palavras latinas. De
fato, a forma do pronome (eu, me ou mim) é determinada por sua função
dentro da frase. Assim, ele muda de forma conforme varie sua função.
Percebemos, portanto, que os pronomes pessoais do português ainda sofrem
declinação, o que é herança do latim, língua
que deu origem ao português.