As dificuldades da conjugação verbal
(Hélio Consolaro*
)
Ao chegar na lição das conjugações verbais, professor
de Português e alunos se divertem, porque há cada forma verbal
muito esquisita. Outras que existem apenas para azucrinar o aluno e deixar o
professor estressado, caso este não conduza a lição para
o campo do humor.
A primeira dificuldade é a existência da segunda pessoa “tu”
e “vós”. Logo gritam: “Ninguém usa isso, professor,
a não ser os gaúchos”. E acrescento que os gaúchos
o usam erroneamente, pois colocam o verbo na terceira pessoa do singular: ‘tu
foi” (em vez de “tu foste”)
“Eu cri”, “ele creu” – pretérito perfeito
do indicativo. Se alguém usar essas duas formas verbais numa conversa
será questionado. A primeira pessoa do presente do indicativo verbo rir:
rio, também é muito engraçada, todos os falantes fogem
dela.
Ao conjugar o verbo “pôr”, o aluno fica indignado com a forma
“pus”, primeira pessoa do pretérito perfeito do indicativo.
“Pus não é aquele negócio de ferida, professor”.
Explico que sim, mas também é uma forma verbal. E a saída
vem imediatamente: “É melhor usar ‘coloquei!’”
Explico que os verbos derivados são conjugados de acordo com os primitivos:
refazer (de acordo com fazer), repor (de acordo com pôr), reaver (de acordo
com haver). O livro ou apostila põe um exercício com o verbo “requerer”.
O aluno quer conjugá-lo de acordo com o “querer”, mas não
pode, porque “re” não é prefixo indicativo de repetição
nesse verbo. Em vez de “requis” é “ requereu”.
A primeira pessoa do verbo “haver” do pretérito perfeito
“reouve” é questionada, porque só usamos o verbo “haver”
como impessoal.
Raramente, um verbo é irregular nos futuros do indicativo: do presente
e do pretérito, porque é um tempo derivado do infinitivo impessoal,
em que o radical permanece inalterado, mas os verbos “fazer” e “dizer”
conseguem ser irregulares neles, pois perdem a sílaba “ze”;
por isso, alunos conjugam: fazerei, dizerei, quando é “farei”
e “direi”.
Nesses mesmos tempos, futuros do indicativo, conjugar o verbo “querer”
com os alunos é uma lástima. Não aceitam as duas sílabas
“re”: quererei, quereres, quererá, quereremos, querereis,
quererão.
Dar a formação do imperativo exige malabarismo do professor, principalmente
o afirmativo: uma parte vem do presente do indicativo menos a letra “s”
(tu/vós) e a outra do presente do subjuntivo.
O pretérito mais-que-perfeito (tempo simples) é uma loucura no
ensino da conjugação verbal. Ninguém o usa na linguagem
cotidiana, preferem o tempo composto: comprara (tinha comprado). Nem as pessoas
de bom nível intelectual têm a paciência de usá-lo.
Mas existem os textos mais antigos, além disso, na língua portuguesa,
os gramáticos demoram para enterrar um defunto, ficam curtindo o mau
cheiro, gostam de ver o professor de Português se descabelar.
Problema maior é ensinar o verbo “ver” no futuro do subjuntivo:
vir, vires, vir, virmos, virdes, virem. “Esse não é o verbo
‘vir’, professor”. Explico que o verbo “vir” faz
o futuro do subjuntivo assim: vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem.
Na conjugação dos verbos nos futuros do indicativo, aproveita-se
para dar a colocação pronominal: mesóclise. Exercício:
conjugue o verbo conduzir nos tempos futuro do presente e futuro do pretérito,
ambos do indicativo, aplicando a mesóclise com o pronome pessoal, oblíquo
e átono “o”: conduzi-lo-ei, conduzi-lo-ás, conduzi-lo-á,
conduzi-lo-emos, conduzi-lo-eis, conduzi-lo-ão/ conduzi-lo-ia, conduzi-lo-ias,
conduzi-lo-ia, conduzi-lo-íamos, conduzi-lo-íeis, conduzi-lo-iam.
Os verbos “ir” e “ser” são iguais nos tempos
derivados do pretérito perfeito do indicativo: fui, foste, foi, fomos,
fostes, foram. Pretérito mais-que-perfeito: fora, foras, fora, fôramos,
fôreis, foram. Futuro do subjuntivo: for, fores, for, formos, fordes,
forem. Pretérito imperfeito do subjuntivo: fosse, fosses, fosse, fôssemos,
fôsseis, fossem.
Tenho conscientizado meus alunos de que os dicionários, como Aurélio
e Houaiss, principalmente as versões eletrônicas, são ótimos
como fontes de pesquisa gramatical, pois, dentre outras coisas, apresentam a
conjugação de todos os verbos.
* Hélio Consolaro é professor de Português, jornalista,
escritor, membro da Academia Araçatubense de Letras e coordenador do
site Por Trás das Letras.