Acentos que a lei esqueceu
(Eduardo Martins*
)
Leis mal escritas não provocam confusões apenas na vida das empresas
ou das pessoas , mas também no campo da linguagem, como aconteceu com
uma norma de 1971 a respeito da acentuação de alguns vocábulos
.
A reforma ortográfica de 1943 criou um mecanismo destinado a distinguir
palavras de grafia igual . Chamado, por isso, de acento diferencial, ele introduzia,
por exemplo, um circunflexo em êle, pronome , por causa de ele (éle),
letra; almôço, refeição, carregava o sinal por causa
de almoço (almóço), do verbo almoçar .
Dualidades como essas dispensavam maior conhecimento do vocabulário
da língua portuguesa. Não era, porém, o que ocorria em
outros casos . Assim, tôda ( inteira) tinha acento para diferenciar-se
de toda (tóda), um passarinho ou língua e povo da Índia.
Estêve, do verbo estar, levava circunflexo porque existe esteve (estéve),
do verbo estevar ( dirigir o arado ).
Como o uso correto da regra impunha o conhecimento da quase totalidade das
palavras do idioma, o governo decidiu simplificar a situação .
Uma lei de 18/12/1971 abolia "o acento circunflexo diferencial na letra
e e na letra o da sílaba tônica das palavras homógrafas
de outras em que são abertas a letra e e a letra o, exceção
feita da forma pôde, que se acentuará por oposição
a pode".
A instrução deixava claro que caía o acento de timbre
fechado (circunflexo) de palavras que tinham a mesma grafia de outras de som
aberto . Com a exceção, já mencionada, de pôde.
O autor do texto , porém, não levou em conta a existência
do acento diferencial em palavras da mesma grafia e do mesmo som , como, por
exemplo , pôr, verbo, acentuado para se distinguir de por, preposição
. A omissão deixou o verbo pôr fora da regra. Por isso, ele mantém
o circunflexo , que não existe, ressalte-se, nos seus derivados: pôr
, mas repor, dispor , compor, etc.
Pela mesma razão, pára, do verbo parar, conservou o sinal que
o diferenciava de para, preposição. Como ambas as formas têm
som aberto, ainda hoje é preciso escrever : Ele sempre pára no
sinal fechado. O acento permanece nas palavras compostas iniciadas por essa
flexão: pára-quedas , pára-lama, pára-brisa.
Por omissão idêntica, o sinal persistiu em côa e côas
( verbo coar ou coação), por causa das contrações
coa e coas (de som fechado também); em péla, pélas, pélo,
pêlo e pêlos ( verbo pelar , ou sinônimo de bola e jogo, ou
ainda cabelo), por causa das contrações pela, pelas, pelo e pelos;
pêra, mas não peras ( fruta, barba ou interruptor), por causa de
pera ( forma antiga de para); Pêro ( nome próprio ou fruta), por
causa de pero (o mas arcaico ); pólo e pólos, por causa das contrações
polo e polos.
Fôrma poderia ter mantido o acento em razão de forma (fórma),
evitando confusões como esta citada pelo dicionário Houaiss: A
forma (ó) das formas (ô) de sapato alterou-se com o tempo. Exigir
lógica desse tipo de lei , no entanto, seria pedir demais .
*Eduardo Martins e autor do Manual de Redação e Estilo do jornal
O Estado de São Paulo