Expressões interessantes II
(Deonisío da Silva*
)Estas expressões encabeçam cada página ímpar do livro De Onde Vêm As Palavras, Editora Mandarim. O autor apresenta a etimologia das palavras em ordem alfabética, sendo um verdadeiro dicionário. Clique sobre a figura e adquira o livro.
A bom entendedor, meia palavra basta
Esta frase, dando conta de que não são necessárias muitas palavras para um bom entendimento entre as pessoas, está coberta de sutilezas, pois sugere que os interlocutores compreendem o sentido exato do que se disse por meio das mais leves alusões. Às vezes, é pronunciada também como advertência ou ameaça disfarçada de boas intenções. Os franceses são ainda mais sintéticos: para bom entendedor, meia palavra. E os espanhóis dizem: a bom entendedor, meio falador. A frase consagrou-se no famoso livro Dom Quixote de la Mancha, do celebérrimo Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616).
A burrice é contagiosa; o talento, não.
Esta é uma das muitas frases célebres da autoria do crítico literário Agripino Grieco (1888-1973), famoso por tiradas cheias de verve e maledicência, proferidas contra pomposos escritores nacionais, até então convictos de que, dado o ofício que praticavam, muitas vezes confundido com sua posição social ou política, não poderiam ter suas obras criticadas, a não ser em comentários favoráveis. O corajoso paraibano, entretanto, culto e irônico, não poupava ninguém e levou à posteridade uma obra de crítica literária desassombrada, imune às tradicionais igrejinhas e confrarias tão presentes na cultura brasileira. Entre seus livros estão Vivos e mortos, Recordações de um mundo perdido e Gralhas e pavões.
Abre-te sésamo
Esta frase reúne as palavras mágicas e cabalísticas que, proferidas pelo herói do episódio "Ali-Babá e os quarenta ladrões", das Mil e uma noites, resultam na abertura da porta misteriosa da caverna onde eram guardados os tesouros. Aqui está presente também a etimologia para explicar o significado de sésamo, em latim sesamum, que é uma planta em cujas sementes, muito pequenas e amareladas, está contida numa cápsula que se abre sem muita pressão. O sésamo nada mais é do que o nosso popular gergelim, utilizado nas padarias para o fabrico de pães especiais e outras delicadezas de sabor muito raro.
A casa da mãe Joana
A expressão ‘casa da mãe Joana’ alude a lugar em que se pode fazer de tudo, onde ninguém manda, uma espécie de grau zero de poder. A mulher que deu nome a tal casa viveu no século XIV. Chamava-se, obviamente, Joana e era condessa de Provença e rainha de Nápoles. Teve vida cheia de muitas confusões. Em 1347, aos 21 anos, regulamentou os bordéis da cidade de Avignon, onde vivia refugiada. Uma das normas dizia: "o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar". ‘Casa da mãe Joana’ virou sinônimo de prostíbulo, de lugar onde impera a bagunça, mas a alcunha é injusta. Escritores como Jean Paul Sartre, em A prostituta respeitosa, e Josué Guimarães, em Dona Anja, mostraram como o poder, o respeito e outros quesitos de domínio conexo são nítidos nos bordéis.
A crítica não ensina a fazer obras de arte; ensina a compreendê-las
Frase do jornalista e romancista carioca Raul d’Ávila Pompéia (1863-1895), patrono da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras. Foi também diretor da Biblioteca Nacional, cargo atualmente ocupado pelo poeta, crítico e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna. Os críticos nem sempre foram bem entendidos, mas freqüentemente hostilizados. O autor do famoso romance O ateneu foi um dos poucos escritores que, com isenção, esforçaram-se por praticas ou entender a crítica. Seu contemporâneo francês, também romancista, Gustave Flaubert (1821-1880), tinha opinião radicalmente contrária. Segundo ele, era crítico quem não podia criar, assim como tornava-se delator quem não podia ser soldado.
Acta Est Fabula
O cuidado com dois momentos decisivos das narrativas, o começo e o desfecho, resultou na criação de formas fixas como "era uma vez" para a abertura das fábulas, e "foram felizes para sempre", para a conclusão. No teatro romano, o fim dos espetáculos era anunciado aos espectadores com a frase acima, que significa "a peça foi representada". O imperador romano Caio Júlio César Otaviano Augusto escolheu esta frase como última a ser pronunciada por ele antes de morrer. Tinha feito uma administração tão primorosa que o século em que viveu foi chamado pelos historiadores de o século de Augusto.
Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura
Utilizada para designar a pertinácia como virtude que vence qualquer dificuldade, por maior que seja, esta frase perde-se nas brumas do tempo, mas um de seus primeiros registros literário foi feito pelo escritor latino Ovídio (43 a.C.-18 d.C), autor de célebres livros como A arte de amar e Metamorfoses, que foi exilado sem que soubesse o motivo. Escreveu o poeta: "A água mole cava a pedra dura". É tradição das culturas dos países em que a escrita não é muito difundida formar rimas nesse tipo de frase para que sua memorização seja facilitada. Foi o que fizeram com o provérbio portugueses e brasileiros.
Alea Jacta Est
O general e estadista romano Júlio César (101-44 a.C.) pronunciou esta frase, que significa ‘a sorte está lançada’, em 49 a.C., durante a campanha da Gália. Ele decidira atravessar o rio Rubicão, transgredindo a lei do Senado romano que determinava o licenciamento das tropas toda vez que um general de Roma entrasse na Itália pelo norte. A tradição consagrou-a como sinônimo de decisão importante, tomada após reflexão e seguida de risco. É lembrada quando se quer ressaltar ou não há mais possibilidade de voltar atrás, nem que se queira. Célebre em razão de quem a pronunciou em situação tão dramática, tem sido com freqüência para ilustrar decisões irrevogáveis.
A imprensa é o quarto poder
Esta frase, que expressa em boa síntese a importância que tem a imprensa, deve sua criação ao escritor e grande orador britânico Edmund Burke (1729-1797). Ao lado dos três poderes clássicos de uma sociedade democrática, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, a imprensa seria o quarto poder pela influência exercida sobre as votações do primeiro, as ações do segundo e as decisões do terceiro. Quem mais divulgou a frase em seus escritos, defendendo a mesma concepção, foi o famoso historiador e crítico inglês Thomas Carlyle (1795-1881). A imprensa foi sempre importante também para nossas letras. Os primeiros romances brasileiros foram publicados em jornais e revistas.
A mulher é a porta do diabo
Esta famosa frase foi originalmente dita e escrita em latim – mulier janua Diaboli – por Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, na África, doutor da Igreja e um dos pilares da teologia cristã e da filosofia ocidental. Antes de proferi-la, entretanto, levou vida amorosa das mais conturbadas, entregando-se a prazeres que depois condenou. Sua conversão é atribuída às orações de sua mãe, sobre quem escreveu um texto famoso, o Panegírico de Santa Mônica. Para um dialético como Agostinho, nada mais sintomático: sua salvação e perdição foram obras femininas. "A mulher é a porta de Deus" também poderia ser uma frase agostiniana.
A política não é uma ciência, mas uma arte.
Frase pronunciada pelo lendário príncipe, chefe militar e estadista prussiano, Otto von Bismarck (1815-1898), que fez da Alemanha uma grande potência, garantindo-lhe unidade não apenas territorial, pois com ele o povo alemão conquistou sua autonomia. Para tanto, Bismarck enfrentou sérias dificuldades e ousou sustentar uma de suas guerras até mesmo contra o partido católico. Além disso, deu especial atenção às classes trabalhadoras, protegendo-se numa espécie de socialismo de Estado. A frase acima foi dita pela primeira vez num discurso pronunciado em alemão no dia 18 de dezembro de 1863 e desde então insistentemente repetida em muitas outras línguas.
A pressa é inimiga da perfeição
Esta frase antológica passou ao acervo de ditos célebres pela pena do famoso jurisconsulto brasileiro Rui Barbosa de Oliveira ao comentar a rapidez com que se redigia o Código Civil Brasileiro, que trouxe em sua versão final preciosas anotações do mestre. Os detalhes sempre foram importantes, nas redações das leis como nas obras artísticas. Ao longo dos carnavais, várias foram as escolas de samba que perderam pontos importantes pelo desleixo com pormenores. O águia de Haia, como era chamado por sua atenção em famosa conferência que pronunciou na Holanda, acrescentou que a pressa é também "mãe do tumulto e do erro".
Assim é, se lhe parece
Frase de autoria do célebre escritor italiano, Prêmio Nobel da Literatura em 1934, Luigi Pirandello (1967-1936), autor de contos, romances e peças de teatro. Algumas de suas obras foram transpostas para o cinema. Seus livros mais conhecidos são O falecido Matias Pascal, Seis personagens à procura de um autor e Assim é, se lhe parece, comédia em três atos que discute a busca da verdade. Dois dos principais personagens, o senhor e a senhora Ponza, por meio de diálogos, apresentam um espelho da vida provinciana, no estilo habitual do autor, marcado por fina ironia, grande dose de sarcasmo, mas também grande compaixão humana. A frase passou a ser usada para encerrar uma discussão.
As mulheres perdidas são as mais procuradas
Cantores e cantoras, como Roberto Carlos e Sula Miranda, muso e musa de caminhoneiros, a quem dedicaram várias de suas canções, souberam inspirar-se num imaginário rico em metáforas, presente em frases como esta, extraída do pára-choques de um caminhão. Tendo abandonado os projetos de ferrovias, o desenvolvimento brasileiro dos anos de pós-guerra deu preferência ao transporte rodoviário. Formou-se, então, um tipo de profissional que está presente desde então na cultura brasileira, não apenas com o trabalho importantíssimo que realiza, inclusive carregando este livro até você, leitor, mas também em frases picantes, aludindo a amores passageiros que podem durara penas por um trecho de suas longas viagens.
À sombra de um grande nome
Esta frase tem sua origem na expressão latina Magni nombris umbra, encontrável em vários escritores antigos que escreviam em latim, entre os quais Lucano (39-65) e seu tio Sêneca (4 ªC.-65 d.C.), o primeiro lamentando a rápida transformação do seu caráter do grande general romano Pompeu (106-48 a.C.) que abandonou suas virtudes guerreiras ao tornar-se paisano, ainda que sob os eflúvios solenes da toga. A frase é citada quando um grande homem, por seus atos, faz com que se apaguem antigas lembranças de feitos memoráveis que o credenciaram à admiração, mas que vão para a vala comum dos esquecimentos em virtude de seus desvios. As boas recordações são apagadas e o povo passa a relembrar apenas os malefícios da grande figura. É também utilizada para identificar quem faz o mal à sombra de um bom nome, como ocorre a auxiliares de vários governantes.
A Terra é Azul
Esta frase foi a declaração do cosmonauta soviético Yuri Alekseyevich Gagarin (1934-1968), o primeiro a fazer um vôo espacial, a bordo da nave Vostok 1, em 12 de abril de 1961. Antes dele, a cadelinha Laika, também soviética, se é que se pode dar nacionalidades a cachorros, foi o primeiro ser vivo a ir ao espaço, no Sputnik 2 (um dos dez satélites soviéticos lançados a partir de 1957), mas morreu ao entrar em órbita. Gagarin disse a famosa frase quando contemplou a Terra de um lugar onde homem nenhum estivera. Não foi apenas um pioneiro, mas alguém que, a bordo de sofisticada tecnologia da época, lançou um olhar humano sobre o planeta e soube expressá-lo com simplicidade e poesia.
Até que a morte os separe
A história desta frase prende-se às cerimônias de casamentos, principalmente dos ritos cristãos, que concebem os laços do matrimônio como indissolúveis. Está presente em numerosas narrativas, sejam contos, novelas, romances ou poesias. Integra também a ensaística que trata das relações entre marido e mulher na estrutura familiar. Um de seus mais antigos registros foi feito pelo apóstolo São Paulo (10-67) em sua Primeira Epístola aos Coríntios, em que se esforça para demonstrar aos leitores e ouvintes daquela famosa carta que os laços que unem homem e mulher no casamento foram instituídos, não pelos homens, mas por Deus, ainda no paraíso.
Até tu, Brutus?
A história desta frase famosa, comumente aplicada a situações de traição, remonta ao episódio que resultou no assassinato do grande imperador, estadista e general romano Caio Júlio César (101-44 a.C.), vítima de conspiração organizada por senadores e aristocratas e liderada, entre outros, por Marco Júnio Bruto (85-42 a.C.), nos idos de março de 44 a.C. A vítima defendeu-se quanto e como pôde de punhais e espadas, até que reconheceu entre os que o atacavam e feriam o próprio filho adotivo. Ao vê-lo, teria pronunciado esta frase que o historiador Suetônio celebrizou em A vida de César. O enteado pagou caro por tramar a morte do pai e, derrotado, suicidou-se dois anos depois.
Ave, Maria!
Uma das mais célebres frases de todas as religiões cristãs, significando salve, Maria! Foi transcrita do Evangelho de Lucas 2, 28, constituindo-se na saudação com que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria que ela estava grávida do Espírito Santo e iria ganhar um menino a quem deveria pôr o nome de Jesus. Tão famosa ficou a expressão que tornou-se tema e título de diversas obras artísticas, como pinturas, esculturas e até músicas. É também o nome de uma das mais notórias orações, que tem uma segunda parte acrescentada às palavras proferidas pelo anjo Gabriel no momento da anunciação. Ave já era forma de saudação na antiga Roma, como o clássico Ave, Caesar.
A vida é breve
Esta frase constitui o primeiro dos célebres aforismos de Hipócrates (460-377 a.C.), que o escreveu originalmente em grego, precedido de outra frase: a arte é longa. Tem sido muito citada ao longo dos séculos, e o cantor e o compositor Tom Jobim foi um dos que a aproveitaram, inserindo-a nos versos de uma de suas famosas músicas, porém em ordem inversa para fazer a rima: "breve é a vida". O pai da medicina, ainda que praticando uma ciência, reconheceu ser a arte mais duradoura do que a vida, inaugurando assim uma linhagem de médicos escritores, presentes em todas as literaturas do mundo, incluindo a brasileira, em que se destacam autores que exerceram a medicina como ofício principal.
A voz do dono
Tornou-se célebre a figura de um cão ouvindo um fonógrafo, acompanhada desta expressão que foi utilizada por um fabricante de discos e de um aparelho destinado a reproduzir os sons gravados. A frase teria sido pronunciada pela primeira vez por Thomas More (1478-1535), depois transformado em santo, quando atuava como juiz de uma causa entre sua esposa e um mendigo. Lady More trouxera para casa um cachorrinho extraviado e um dia um mendigo apresentou-se como dono do animal. Querendo ser justo, o famoso humanista inglês pôs sua esposa num dos cantos da sala e o mendigo no outro, ordenando que cada qual chamasse ao mesmo tempo o cachorrinho, que estava no meio dos dois. Sem vacilar, o animal correu para o mendigo, reconhecendo a voz do dono. Para não deixar muito triste sua esposa, o marido pagou uma moeda de ouro pelo cãozinho.
A voz do povo é a voz de Deus
A expressão veio do latim vox populi, vox Dei, traduzida quase literalmente. Há milênios o povo simples considera que o julgamento popular é a voz de Deus. Tal crença tem raízes na cultura das mais diversas procedências. Tudo começou em Acaia, no Peloponeso, onde o deus Hermes se manifestava em seu templo do seguinte modo: o consulente entrava, fazia a pergunta ao oráculo, depois do que tapava as orelhas com as mãos e saía do recinto. As palavras errantes ditas pelos primeiros transeuntes seriam as respostas divinas. Perguntava-se a um deus, mas era o povo quem respondia. No Brasil, um instituto de pesquisa de opinião pública chama-se Vox Populi e foi um dos primeiros a prever a vitória de Fernando Collor nas eleições presidenciais de 1989 por larga margem. Curiosamente, não previu seu afastamento. Teria faltado a vox Dei?
Beija-me com os beijos da tua boca
Esta frase, inserida em diversos textos literários por escritores de muitos países, está num dos mais belos livros da Bíblia, o Cântico dos cânticos, esplêndido poema sobre o amor, da autoria de Salomão (970-931 a.C.), que, além de construir o famosos templo de Jerusalém, escreveu livros cheios de sabedoria, apaixonou-se, namorou e casou com cerca de mil mulheres, incluídas esposas e concubinas. Não apenas suas proclamada sabedoria, mas também seus amores tornaram-se lendários, como foi o caso daquele que viveu com a Rainha de Sabá. Salomão, fruto do amor arrebatado e dramático vivido pelo rei Davi (1015-975 a.C.) com uma mulher casada, Betsabéia, foi o terceiro rei de Israel.
Cada povo tem o governo que merece
Esta frase é proferida quando se quer falar mal do governo, atribuindo-se ao povo a má escolha. É de autoria do filósofo francês Joseph De Maistre (1753-1821), crítico da Revolução Francesa, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa. Apesar de a frase ter servido sempre para vituperar todos os governos, os alvos preferidos são aqueles escolhidos por voto popular. Porém, nada se diz quando os eleitores mostram sabedoria nas votações. Assim, contrariando a máxima popular, o filho feio sempre tem por pai o próprio povo. No fundo, a crítica não é aos maus governantes, mas aos responsáveis por sua elevação aos cargos.
Chegar de mãos abanando
Os primeiros imigrantes deviam trazer as ferramentas indispensáveis ao cultivo da terra, entre as quais eram importantes a foice e o machado, para a derrubada de matas. Dos colonos europeus esperava-se que trouxessem também galinhas, porcos e vacas, bases de uma economia auto-sustentável. Quem chegasse, pois, de mãos abanando, não vinha disposto a trabalhar. Manter, pois as mãos ocupadas era sinal de disposição para o trabalho e ajuda mútua. O imigrante, que no dizer de Ambrose Bierce (1842-1914), é um indivíduo mal-informado, que pensa que um país é melhor que outro, não poderia chegar de mãos abanando.
Cobra que perdeu o veneno
Aplica-se esta frase a pessoas iradas que, entretanto, nada podem fazer em situações de desespero. Nasceu da crendice popular de que as cobras, para não sucumbirem ao próprio veneno, depositam-no em folhas quando precisam tomar água. Ao voltarem dos riachos, algumas acabam esquecendo-se de onde o puseram, mantendo-se como loucas à procura da peçonha temporariamente dispensada. O escritor maranhense Henrique Maximiano Coelho Neto (1864-1934), autor de mais de cem livros e um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, registrou o adágio em sua peça A muralha, numa fala da personagem Ana que, incapaz de resistir ao jogo do bicho, comporta-se como cobra que perdeu o veneno.
Com uma mão se lava a outra
Esta frase resume preceitos de solidariedade, dando conta de que as ajudas devem ser mútuas. Foi originalmente registrada no parágrafo 45 do romance Satyricon, do escritor latino Tito Petrônio Arbiter (século primeiro a.C.), transposto para o cinema pelo famoso cineasta italiano Federico Fellini (1920-1994). Em síntese, o romance narra a história de um triângulo amoroso, envolvendo dois rapazes apaixonados por um terceiro, mas livro e filme põem em relevo a decadência dos costumes políticos. Tanto o romancista como o diretor criticam duramente a civilização ocidental, apesar dos 20 séculos que o separam, onde o que mais falta é justamente a solidariedade.
Custar os olhos da cara
A história desta frase começa com um costume bárbaro de tempos muitos antigos, que consistia em arrancar os olhos de governantes depostos, de prisioneiros de guerra e de indivíduos que, pela influência que detinham, ameaçavam a estabilidade dos novos ocupantes do poder. Cegos, eles seriam inofensivos ou menos perigosos. Naturalmente, a expressão alude também ao incomparável valor da visão. Por isso, pagar alguma coisa com a perda dos olhos passou a ser sinônimo de custo excessivo, que ninguém pode pagar. A expressão tem servido para designar preços exagerados em qualquer produto. Um dos primeiros a registrá-la foi o escritor romano Plauto (254-184 a.C.), numa das 130 peças de teatro que escreveu.
Coisas da casa cuide a mulher
Esta frase, dando conta de que os trabalhos domésticos são incumbência exclusivamente femininas, tem suas origens remotas, mas houve um caso que a tornou ainda mais proverbial e famosa. Guilhaume Budé (1467-1540), um dos fundadores do College de France, onde ensinaram alguns dos maiores intelectuais do mundo nas diversas épocas, estava pesquisando etimologia quando irrompeu em seu escritório, todo esbaforido e aflito, um mensageiro de triste notícia: a casa do já célebre humanista francês tinha pegado fogo. Sem levantar os olhos dos manuscritos de grego, língua cujos estudos disseminou na França toda, limitou-se a pronunciar esta frase. Mas nada restou depois do incêndio para a mulher cuidar.
De boas intenções o inferno está cheio
Esta frase é de autoria de um teólogo e santo famoso, o francês São Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloísa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles que eram considerados hereges por ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida, não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados.
Deixo a vida para entrar na história
A celebridade desta frase deve-se à carta-testemunha do presidente Getúlio Vargas, assinada momentos antes de suicidar-se, na madrugada de 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Um padre ainda o encontrou consciente e de olhos abertos. Antes de ocupar a Presidência da República por quase 20 anos, ele foi governador do Rio Grande do Sul, seu Estado natal. Um dos maiores estadistas brasileiros, foi sob seu governo que ocorreu a maior industrialização do Brasil. Logo depois de deposto a primeira vez, em 1945, candidatou-se a senador, conseguindo 17 por cento dos votos, recorde jamais alcançado por qualquer outro. No segundo mandato, cumpriu a frase profética.
Deus me defenda dos amigos, que dos inimigos me defendo eu
Frase atribuída ao escritor e filósofo francês Voltaire, pseudônimo de François Marie Arquet. Teve desempenho brilhante nas célebres polêmicas do Século das Luzes, com suas idéias claras, temperadas por cáustica ironia, armal verbal que lhe rendeu muitos inimigos entre os obscurantistas, sendo obrigado a retirar-se de Paris após a publicação do seu livro Cartas filosóficas, em 1734. Foi, porém, apoiado e acolhido pela escritora Madame de Châtelet (1706-1749), sua inspiradora e amiga, da qual Deus não precisou defendê-lo.
Dinheiro não tem cheiro
A frase original foi pronunciada em latim, pelo imperador Vespasiano (9-79), cujo filho, Tito, estava inconformado com o novo imposto baixado pelo pai, que, para melhorar as finanças da antiga Roma, taxara os mictórios públicos. Logo nas primeiras arrecadações, Vespasiano tomou uma das moedas recolhidas nas privadas imperiais e pediu que o filho a cheirasse, dizendo: non olet, isto é, não tem cheiro. Vespasiano fez boa administração, recuperou a economia do império e entre seus feitos está também a construção do Coliseu. Mas, como todo administrador austero, incompatibilizou-se com os meios senatoriais.
Dize-me o que comes e eu te direi quem és
Variação do preceito evangélico "dize-me com quem andas e eu te direi quem és", esta frase famosa está presente em A filosofia do gosto, livro clássico do célebre gastrônomo Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) e faz parte dos 20 aforismos ali reunidos, os mandamentos de quem quer comer bem. Bom gourmet e bom gourmand, esse francês notabilizou-se por suas célebres tiradas a respeito do ato de comer. Entre outras prescrições, recomendou aos cozinheiros e aos visitantes a pontualidade e escreveu que convidar alguém para comer em nossa casa eqüivale a encarregar-se de sua felicidade. Sempre com verve, proclamou que mais vale para o gênero humano a invenção de um novo prato do que o descobrimento de um novo astro.
Dizer as coisas em alto e bom som
Esta frase nasceu das dificuldades de comunicação em sociedade, principalmente no trabalho, nas lides e em conversas de rua. Não se sabe quem a inventou, com o fim de deixar muito claro o que dizia, mas há um bom exemplo recolhido do célebre escritor, jornalista, orador, político e jurisconsulto brasileiro Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923). Foi também vice-presidente da República e teve uma desastrada atuação como ministro da Fazenda. Redigiu nossa primeira constituição republicana, a de 1891. Esta frase está presente em célebre conferência que fez sobre o dever da imprensa de dizer a verdade em alto e bom som.
Dois bicudos não se beijam
Ao contrário do que se possa parecer, o vocábulo não se aplica às aves, mas aos homens. Antigamente eram chamados de bicudo tanto estiletes compridos e armas pontudas, como certos valentões que, nas bodegas, festas e ajuntamentos diversos, patrocinavam arruaças. Indivíduos de pouca conversa e gestos grosseiros, brigavam por qualquer coisa. O brasileiro, tido por cordial e afável no trato entre colegas e amigos, sempre se caracterizou por abraços, afagos, beijos e outras efusivas demonstrações de carinho. Daí o contraste de dois bicudos que não se beijam, de que são exemplo célebres parcerias impossíveis como certos presidentes e vice-presidentes do Brasil, entre os quais Janio Quadros e João Goulart. O primeiro mandou o outro para a Cochinchina – oficialmente, seria a China, mas conhecendo as intenções ocultas de Jânio, sabemos que ele queria o vice ainda mais longe – e renunciou para ver que bicho dava. Deu o maior bode, como a História mostrou, resultando, por fim, na deposição do presidente que os militares não queriam empossar.
Dourar a pílula
Esta frase tem o significado de se apresentar algo difícil ou desagradável como coisa fácil de aceitar. Nasceu de conhecida prática das farmácias antigas, que consistia em embrulhar pílulas em finos papéis, com o fim de preparar psicologicamente o cliente para engolir um remédio de gosto amargo. Do sentido literal, passou a metáfora e logo recebeu aplicação literário, estando um de seus mais antigos registros na peça Anfitrião, de JeanBaptiste Poquelin Molière (1622-1673), em que Sósia, na última cena do terceiro ato, diz: "o senhor Júpiter sabe dourar a pílula". Dourar a pílula é ainda hoje tática sutil de persuadir renitentes, quando se procura destacar os aspectos positivos de algo desfavorável.
É de tirar o chapéu
Foi no reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que a França disciplinou as saudações feitas com o chapéu. O costume vinha dos templos da mais parda das eminências, o cardeal Richelieu, à época de Luís XIII. Os cumprimentos podiam ser feitos com um toque na aba; erguendo-o um pouco, sem retirá-lo da cabeça; tirando-o inteiramente ou fazendo-o roçar no chão, quase como uma vassoura, tudo dependendo da importância social de quem era saudado. Como se sabe, os Luíses XIII e XIV foram reis que se preocuparam muito com chapéus. Logo depois, um dos mais famosos da seqüência, Luís XVI, perdeu muito mais do que o chapéu: a própria cabeça, na Revolução Francesa.
É do tempo da onça
Foi governador do Rio de Janeiro, de 1725 a 1732, o capitão Luís Vahia Monteiro, apelidado o Onça. Em carta que escreveu ao rei Dom João VI, declarou: "nesta terra todos roubam, só eu não roubo". A frase acima foi sempre utilizada para aludir a coisas muito antigas, vigentes naquele tempo. Entretanto, outras autoridades, com o mesmo apelido, podem ter fomentado ainda mais a expressão, homenageando a energia, a coragem e a honestidade do antigo governante. Os novos tempos, infelizmente, não tornaram exceção aquilo que era norma nas práticas dos governantes no tempo do Onça. O pobre homem, a deduzir por sua carta ao rei português, comportava-se como uma virgem num bordel.
E eu sou besta?
A história desta frase remonta a uma expressão dos aldeões medievais portugueses e um dos primeiros a registrá-la foi Gil Vicente (1465-1536), no Auto da festa, num diálogo em que uma personagem pergunta: "e eu ficarei por besta?" O significado é em geral de recusa diante do ato que não se deve praticar. O grande dramaturgo tornou-se famoso, porém, por outras peças e autos, entre os quais os mais conhecidos compõem uma trilogia religiosa: Barca do inferno, Barca do purgatório, Barca da glória. Ao todo, escreveu 44 peças. Como todo escritor daquele período, apesar da copiosa produção, não viveu de seu ofício. Foi ourives da Corte e funcionário da Casa da Moeda de Lisboa, formas disfarçadas de a Casa Real portuguesa exercer o mecenato.
É feio como quasímodo!
Diz-se de pessoa muito feia, em geral com deformações físicas. A frase apareceu originalmente no livro Notre Dame de Paris, do famoso escritor francês Victor Hugo (1802-1885), em que se destaca o personagem Quasímodo, corcunda, de pernas tortas, vesgo e de rosto deformado, sineiro da catedral referida no título do romance e apaixonado pela cigana Esmeralda. Em muitas traduções e também no cinema o título foi adaptado para O corcunda de Notre Dame, cuja versão em desenho animado fez muito sucesso. Tal foi a influência do romance que a expressão Quasímodo tem sido menos usada em seu significado anterior, que designava o primeiro Domingo depois da Páscoa.
Elementar meu caro Watson
Com esta frase, Sherlock Holmes, o famoso personagem literário do escritor britânico Arthur Conan Doyle (1859-1930), coroa suas deduções, baseadas numa lógica implacável. E o doutor Watson rende-se admirado à inteligência do amigo. Alguns já viram na parceria dos dois uma vaga sombra daquelas sexualidades tidas heréticas ou ilegítimas, tão vituperadas por aqueles que só pensam naquilo. Outros não têm a menor dúvida de que aqueles dois faziam de tudo, convicto de que, em assunto de sexo, onde há fumaça, há, mais que fogo, grandes labaredas, incêndios, vulcões. Uma curiosidade, porém, marca a frase famosa. Ela não aparece nos livros, apenas nas adaptações teatrais, cinematográficas, televisivas. O mesmo se pode dizer da indumentária do famoso detetive, criada quando ele chegou ao teatro e às telas. Como se pode conferir isso? Elementar, meu caro leitor: nos romances policiais e nos contos do autor.
Eles que são brancos, que se entendam
A origem desta frase remonta a uma das primeiras punições que o racismo sofreu no Brasil, ainda no século XVIII. Um capitão do regimento dos pardos queixou-se a seu superior, um português, solicitando punição a um soldado que o desrespeitava. Ouviu em resposta: "vocês que são pardos, que se entendam". O capitão, inconformado, recorreu à instância superior, o décimo segundo vice-rei do Brasil, Dom Luís de Vasconcelos (1742-1807). Este, depois de confirmar o ocorrido, mandou prender o oficial português, que estranhou: "preso, eu? E por quê?" "Nós somos brancos, cá nos entendemos", respondeu o vice-rei. Desde então, tornou-se frase feita, dita de outra forma pelo povo. E está registrada em Locuções tradicionais do Brasil de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).
É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no céu
Os milionários, antes de serem procurados pelo Imposto de Renda, foram objetos de numerosas frases, algumas lapidares. Dentre as mais célebres, estão estas de Jesus, segundo o relato do Evangelho de São Mateus (século primeiro), que era cobrador de impostos. Pode ter havido engano de tradução, já que kamelos em grego tanto pode significar o animal como a âncora para amarrá-lo. Havia ainda em Jerusalém uma porta muito estreita chamado o olho da agulha, que poderia ter sido a referência de Jesus. Doutores bíblicos explicaram estas frases e deram a entender que era difícil a operação, mas não impossível, posto que a corda poderia ser desfiada.
Em se plantando, tudo dá
Frase atribuída a Pero Vaz de Caminha (1450-1500), em sua famosa Carta, comentando as excelências da nova terra recém-descoberta. O minucioso escrivão tinha, porém, um estilo menos sintético e emitiu o mesmo juízo em outras palavras: "Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". Mas a agricultura foi ali evitada pela primeira vez. Havia outros interesses. O próprio Caminha termina sua Carta pedindo emprego para o genro. Apesar de sua importância, também foi adiada a publicação da certidão de nascimento do Brasil, que só apareceu em 1817. Nela são postas em relevo as belezas naturais e a inocência dos índios, cuja evangelização ele indicou como a tarefa principal de um rei cristão.
Em terra de cego, quem tem um olho é rei
Esta frase, que não é exclusiva da língua portuguesa, dá idéia de que entre gente ignara, quem é só um pouquinho menos ignorante do que os outros ganha prestígio e recebe tratamento de rei. O filósofo e humanista holandês Desiderius Erasmus, dito Erasmo de Roterdam (1469-1536), foi um dos primeiros a registrá-la. Sua obra mais famosa é Elogio da loucura, em que tenta definir um humanismo cristão, desligado de polêmicas religiosas. Um dos principais nomes da Renascença na Europa do Norte, foi um dos primeiros editores do Novo Testamento. Destacou-se, não em terra de cego, mas em meio a uma constelação de outros renomados filósofos e teólogos do período.
Entrar com o pé direito
Esta frase revela antiga superstição que o Império Romano espalhou no mundo inteiro. Nas festas realizadas na antiga Roma os convidados eram avisados de que deveria entrar nos salões dextro pede (com o pé direito) para evitar o agouro. Famosas personalidades brasileiras seguiram essa recomendação, entre as quais Rui Barbosa, que a registrou em discurso proferido às vésperas da posse do marechal Hermes da Fonseca (1855-1923): "que o novo presidente entre com o pé direito". Mas ninguém acatou mais a superstição que Alberto Santos Dumont, que mandou construir em sua residência escadas por onde só era possível subir ou descer iniciando-se o percurso com o pé direito.
Envelheçam depressa antes que seja tarde
O dramaturgo Nelson Rodrigues, pioneiro do moderno teatro brasileiro, foi também um grande frasista. Ousado e desconcertante, incrustava frases geniais e polêmicas tanto nas peças como nas crônicas. Na elaboração dessas verdadeiras pérolas, cultivava o paradoxo, como no exemplo acima, dirigido aos jovens. Nos diálogos de seus textos, são freqüentes os recortes psicológicos da condição humana sintetizados numa frase que marca a fala do personagem de forma memorável, quase sempre como contraponto bem humorado à crueza das ações.
É possível medir a inteligência
Jamais ocorreu aos antigos medir a inteligência das pessoas, pois seus atos e falas logo desmanchavam reputações ou confirmavam suspeitas. Mas a partir desta frase, baseada nas teorias do psicólogo francês Alfred Binet (1857-1911), que montou um laboratório experimental em Paris onde passou a medir as aptidões das crianças, com vistas a melhor atendê-las na escola, uma obsessão por medir a inteligência tomou conta do mundo. E logo surgiram grandes enganos, sobretudo nos Estados Unidos, onde pesquisadores irresponsáveis passaram a medir o Q.I. (quociente intelectual) de vivos e mortos. Miguel de Cervantes Saavedra recebeu apenas 105, numa escala de 160, ficando próximo a anônimos débeis mentais.
Estar com o diabo no corpo
O diabo tem sido ao longo dos milênios o principal responsável por certos atos que os homens perpetram, mas não querem assumir. O mais comum é que tais práticas estejam no terreno da luxúria, do sexo e de seus domínios conexos. Vários foram os que registraram a frase, entre os quais o talentoso escritor francês, morto aos 20 anos, Ramond Radiguet (1903-1923), que deu este título a um de seus romances em que um adolescente exerce atração sobre uma esposa adúltera. Também Joaquim José da França Júnior (1838-1890), que foi da Academia Brasileira de Letras, registrou a frase na comédia Direito por linhas tortas, só que com outro resultado: "com o diabo no corpo, Sinhá Velha caiu de bordoada em cima de mim".
Errar é humano
Frase do escritor latino Sêneca, o filósofo perceptor do imperador Nero. Sêneca foi bom professor, mas seu aluno desvairado decretou-lhe morte das mais cruéis, ordenando que cortasse os próprios pulsos. O filósofo escreveu diversos livros, entre diálogos, tratados e cartas, e seus ensinamentos estavam baseados na doutrina dos estóicos. São-lhe atribuídas a autoria de obras célebres como Medéia, As troianas e Fedra. Teólogos cristãos, quando citam a frase, costumam emendá-la, escrevendo: "errare humanum est, sed perseverare in erro autem diabolicum". "Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico."
É seu batismo de fogo
Ao condenar os hereges às fogueiras, a Inquisição sustentava que eles não tendo sido batizados com água benta, faziam ali seu batismo de fogo. E aqueles que os condenavam ainda garantiam que os réus estavam fazendo um bom negócio, ao trocar as labaredas eternas do inferno por chamuscadas que apenas os levariam desta vida. Porém, a frase mudou de sentido no século passado, quando Napoleão III (1808-1873) adaptou-se aos que entravam em combate pela primeira vez. Hoje, a expressão se refere a qualquer situação crítica em que os envolvidos têm de obter bom desempenho em tarefas importantes. Mário Vargas Llosa (61) tem um livro com o título Batismo de fogo.
É um elefante branco
Esta frase tem servido para designar grandes empresas estatais deficitárias. Sua origem é um costume do antigo reino de Sião, situado na atual Tailândia, que consistia no gesto do rei de dar um elefante branco aos cortesãos que caíam em desgraça. Sendo um animal sagrado, não poderia ser posto para trabalhar. Como presente do próprio rei, não poderia ser vendido. Matá-lo, então, nem pensar. Não podendo também ser recusado, restava ao infeliz agraciado alimentá-lo, acomodá-lo e ajaezá-lo com luxo, sem nada obter de todos esses cuidados e despesas. A frase foi utilizada pelo ex-presidente João Figueiredo para queixar-se dos excessivos gastos, não de uma estatal, mas de seu sítio do Dragão.
Eu não sou ministro, eu estou ministro
Estas frases foram pronunciadas pelo professor universitário, crítico, ensaísta e editor Eduardo Portela, em 1981, quando era – ou melhor, estava – ministro da Educação e Cultura, no governo de João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último presidente militar. Tão logo fez a preciosa distinção entre os verbos ser e estar, deixou o ministério, voltando para suas lides literárias. É autor de vários livros importantes para a compreensão de nossa literatura e de suas relações com a sociedade, entre os quais Literatura e realidade nacional e Crítica literária: método e ideologia. É membro da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 1981.
Eu quero ficar sozinha
A atriz sueca Greta Garbo (1905-1990) resolveu que seria mais feliz sozinha e fez este pedido de forma antológica com esta frase, retirando-se de cena aos 36 anos. Uma das mulheres mais admiradas e desejadas do mundo nasceu pobre e foi vendedora de loja e modelo antes de se tornar atriz na Real Escola Dramática de Estocolmo. Aqueles que a conheceram sempre admitiram que era mais bonita nas fotos e no cinema do que na vida real. Ao retirar-se, produziu duas solidões: a sua e a dos que ficaram sem ela. A frase que virou provérbio foi pronunciada originalmente em inglês: I want to be alone.
Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço
Um dos mais antigos registros desta frase encontra-se no Evangelho de São Mateus 23, 3, mas com uma variação: "façam tudo o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem, porque eles dizem o que se deve fazer, mas não o fazem". Por motivos de rima, a frase recebeu ainda um personagem imaginário: "Frei Tomás, façam o que ele diz, mas não façam o que ele faz". Antes destes registros, porém, quando ainda não havia frades e santos, nem neste mundo, nem no outro, o comediógrafo e poeta romano Plauto (254-184 a.C.), a quem foi atribuída a autoria de 130 peças de teatro, aconselhou no terceiro ato, na cena III, de sua peça Asinária: "prática aquilo que pregas".
Fazer fiasco
Fazer fiasco é frase que nasceu nos meios teatrais italianos e originalmente foi grafada far fiasco, cuja tradução literal é fazer fiasco. Tudo teria começado quando um comediante meteu-se a fazer graça e volteios risíveis utilizando uma garrafa – fiasco, em italiano. Tendo sido malsucedido, dali em diante certos fracassos cotidianos passaram a ser identificados com esta frase. No Brasil a frase foi traduzida literalmente, e também na França, faire fiasco, mas lá com uma variante: faire un four. O escritor francês, nascido na Suíça, Henry Sthendal (1783-1842) foi um dos primeiros a registrá-la, usando a forma italiana.
Fazer tempestade num copo d’água
Com o significado de aumentar descabidamente a importância de eventuais acidentes nas relações pessoais, esta frase, de raízes antigas, tem sido dita e escrita muitas vezes nesses tempos em que os debates vão ficando cada vez mais acalorados, dada a revelância das questões em exame, de que são bons exemplos os assuntos tratados nas sessões da Câmara dos Deputados e do Senado. Entre os autores que mais cedo a registraram está o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que acrescentou algumas variações, como a de fazer tempestade dentro de um crânio, subtítulo do romance Os miseráveis, e "fazer tempestade no fundo de um tinteiro", numa de suas poesias.
Fazer uma mesa redonda
Hoje é comum organizar mesa-redonda para discutir esse ou aquele assunto, mas raramente o móvel ao redor do qual os participantes tomam assento tem forma circular. É tradução da expressão inglesa round table, mesa da lendário corte do rei Arthur (séc. VI d.C.), que não tinha cabeceira, nem lugar de honra e ao redor da qual o rei e os cavaleiros sentavam-se como iguais. Suas aventuras foram tema de numerosas novelas de cavalaria narradas sob o título geral de Os cavaleiros da távola redonda. A frase passou a ser usada politicamente a partir de 14 de janeiro de 1887 na residência de Sir Willian Harcourt, quando o Partido Liberal Inglês discutiu a questão irlandesa.
Ficam a ver navios
Esta frase remonta ao desaparecimento do rei de Portugal, Dom Sebastião (1554-1578), na famosa batalha de Alcácer Quibir. Como o corpo do monarca não foi encontrado, criou-se a lenda de que ele se encantou e que um dia voltaria, dando origem ao movimento messiânico conhecido como sebastianismo. Multidões passaram a freqüentar o Alto da Santa Catarina, em Lisboa, aguardando a volta do rei e por isso ficavam a ver navios. Passou a ser aplicada a quem perdeu o emprego ou está esperando por alguma coisa que jamais chegará, sendo utilizada também com freqüência para indicar situação que alguém, por não comparecer ao encontrou, deixou o outro a ver navios.
Foi o maior arranca-rabo
Esta frase, que exprime grande confusão, nasceu do deplorável costume que os primeiros guerreiros adotaram nos campos de batalha, consistindo em cortar os rabos das montarias dos inimigos. Um oficial do exército do faraó Tutmés III (1504-1450 a.C.) ensejou um de seus primeiros registros ao vangloriar-se de ter decepado a cauda do cavalo do próprio rei adversário, para ele um ato tão importante que o inscreveu em seu epígrafo. O costume chegou a Portugal, de onde veio para o Brasil, tendo sido aplicado não somente aos cavalos, mas também ao gado das fazendas inimigas, para humilhar seus proprietários. O escritor José Lins Rego (1901-1957) refere o costume nos livros Fogo morto e Meus verdes anos.
Glória a Deus nas alturas
O evangelista São Lucas foi o primeiro a registrar esta frase que teria sido, não apenas dita, mas também cantada por um anjo, acompanhado de milhares de vozes de coros celestes, na noite em que nasceu Jesus, diante de pastores maravilhados e um pouco medrosos com a aparição. Eles guardavam seus rebanhos naquele noite nas redondezas da gruta que depois seria transformada em basílica formosa. A partir do século XIII, quando São Francisco de Assis (1182-1226) construiu o primeiro presépio, a frase, juntamente com a represente da Sagrada Família, dos pastores e dos animais que rodearam a manjedoura naquela noite de frio, esteve sempre presente em todos os presépios em forma de faixa.
Habeas-corpus
A origem desta famosa frase latina, citada com muita freqüência, principalmente em tempos de perseguições políticas que levam à perda das liberdades individuais, encontra-se nas primeiras palavras de uma célebre lei inglesa, o Habeas Corpus Act, sancionada em 1679 por Carlos II (1630-1685), então rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Hoje está incorporada aos sistemas jurídicos de quase todos os países. Seu significado é que tenhas teu corpo. O objetivo deste preceito é garantir ao acusado o direito de aguardar o julgamento em liberdade, sob fiança. O imperador que sancionou notabilizou-se, entre outras coisas, por assegurar a convivência entre católicos e protestantes num tempo de grandes rivalidades entre as duas religiões.
Houve muitos músicos famosos, mas apenas um Beethoven
Com esta frase, sempre repetida, Pelé explica, sem vaidade, a sua proclamada e reconhecida genialidade como maior jogador de futebol de todos os tempos. Excessiva humildade, vinda de nosso atraso sócioeconômico, dera-nos, antes de 1958, o complexo de vira-latas, segundo Nelson Rodrigues. Pelé rejeitou toda modéstia, sagrando-se rei e desfrutando de sua majestade ainda hoje, sendo mais conhecido e reconhecido do que monarcas e presidentes. O glorioso camisa 10 não poderia, porém, ignorar que Beethoven e ele, na música e no futebol, sempre tiveram companhias à altura. Sem aqueles talentosos colegas, no Santos e na seleção, ele certamente não teria sido o mesmo. Sem contar que na Copa de 1962, Amarildo, Garrincha e os outros nove, e na de 1970, Gérson, Rivelino, Tostão e Jairzinho, fizeram-nos lembrar de que além de Beethoven, havia Mozart, Wagner, Vivaldi, Villa-Lobos, etc.
Independência ou morte
Esta frase foi pronunciada por Dom Pedro I (1978-1834), no dia 7 de setembro de 1822, por volta das quatro da tarde, em São Paulo, às margens do riacho Ipiranga, ao romper os laços coloniais que nos submetiam a Portugal e proclamar a independência do Brasil. O imperador estava montado quando a pronunciou, de acordo com a iconografia que consagrou o ato mais importante do Brasil como nação, tal como fez o pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905) no mais famoso de seus quadros históricos, Grito do Ipiranga. Nossa independência tornou notáveis muitas pessoas. O próprio pintor teve seu retrato colocado na sala dos pintores célebres, na celebérrima Galeria Degli Uffizzi, em Florença, na Itália.
Lamber os dedos
As origens desta expressão prendem-se ao costume de dispensar talheres para as refeições. Tomando os alimentos nas mãos, alguns lambiam os próprios dedos, para aproveitar os últimos restinhos do sabor. Usamos a frase para indicar estado de grande satisfação, recordando na prática antiga de prolongar os prazeres da boa mesa. O dramaturgo Gil Vicente (1465-1536), fundador do teatro português, foi um dos primeiros a registrá-la, na Farsa dos físicos. Outro português, Garcia de Resende (1470-1536), também a transcreveu nuns versos em que alude a uma mulher "que lambeu o dedo depois de gostar". Em antigas cortes muitos foram os soberanos que recusaram o uso de talheres, em nome do paladar.
Ler nas entrelinhas
Esta frase dá conta de uma das mais sutilezas da escrita, indicando que num texto até o que não está escrito deve ser lido, pois o sentido vai muito além das palavras, situando-se no contexto, para que não se perca o espírito da coisa, expressão criada para identificar uma lacuna de interpretação. Entre os que primeiro registaram a frase está o escritor francês Charles Augustin Saint-Beuve (1804-1869) que depois de publicar vários poemas e apenas um romance, dedicou-se inteiramente à crítica literária, gênero em que se consagrou como um dos maiores de todos os tempos, lendo nas entrelinhas os autores que comentou.
Levou um puxão de orelhas
A origem desta frase, expressão que significa repreender, está ligada a antigas tradições populares, que a recolheram de usos e costumes nem sempre vagos, já que inspirados também em documentos jurídicos. As Ordenações Afonsinas prescrevem que os ladrões tenham as orelhas cortadas. O grande navegador português Vasco da Gama (1469-1524) relatou o corte de 800 delas. E Gomes Freire de Andrade, o conde de Bodadela (1685-1763), governador e capitão-geral do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, personagem do filme Xica da Silva, de Carlos Diegues, recebeu 7800 delas. Depois as orelhas deixaram de ser cortadas e foram somente puxadas. Por fim, tudo virou apenas metáfora de admoestação.
Libertas quae sera tamen
Os escritores envolvidos no primeiro projeto de Independência do Brasil, a
Inconfidência Mineira, em 1792, três anos depois da Revolução Francesa, cunharam
o lema Libertas quae sera tamen, tirado de um verso da Primeira Égloga,
do poeta latino Virgílio: Libertas quae tamen respexit inertem (a
liberdade que tardia, todavia, apiedou-se de mim em minha inércia. O lema,
como foi adaptado, é esdrúxulo: a liberdade que tardia, todavia...sic).
Para o que queriam os inconfidentes, bastava Libertas quae sera. Ainda
assim, o lema, com este erro de transcrição e de tradução, continua nas bandeiras
de Minas Gerais e do Acre.
Livre nasci, livre vivo, livre morrerei
O autor desta frase famosa, Pietro Aretino (1492-1556), tornou-se célebre por seus versos satíricos, licenciosos e cheios de erotismo. Apesar de ter escrito e publicado muito, apenas duas de suas obras passaram à posterioridade: os Diálogos e os Sonetos luxuriosos. Aretino era filho de um sapateiro de Arezzo, na Itália. Foi contemporâneo de célebres renascentistas, entre os quais o pintor Ticiano Vercellio (1490-1576), que o imortalizou numa tela, hoje exposta na famosa Galeria Pitti, em Florença. Um dos maiores poetas de seu tempo, o escritor, como tantos outros que tomaram a sexualidade com tema preferencial, foi perseguido por causa da audácia de suas críticas aos poderosos.
Mateus, primeiro aos teus
Esta frase, mandando aos importunos e chatos que se ocupem primeiro de suas próprias coisas, para só depois nos amolar a paciência, tem sua origem nos Evangelhos. Mateus, antes de tornar-se discípulo de Jesus, era odiado por ser cobrador de impostos em Cafarnaum. A profissão já era hostilizada naquele tempo, e o povo abominava esses funcionários do fisco romano que, conquanto judeus, serviam aos dominadores estrangeiros, além de extorquir taxas pessoais dos contribuintes. Na literatura oral de quase todos os países fixada está esta repulsa, depois recolhida por escritores, como nos versos de um sátira de Gustavo Barroso (1888-1959) no livro Ao som da viola, dando conta de que na vida eterna eles serão condenados.
Morro porque não morro
Esta frase tornou-se famosa por muitos motivos, entre os quais está o de sintetizar em poucas palavras o estado de espírito dos místicos. É de autoria do mais famoso deles, João da Cruz (1542-1591), patrono dos poetas espanhóis, doutor da Igreja e autor dos deslumbrantes poesias em que extravasa sua união mística com Deus, desconcertantes para leitores não-cristãos, dadas as redes de metáforas, paradoxos e outras figuras de linguagem cujo valor ultrapassa o literário. Ele reformou a ordem dos carmelitas e foi por isso perseguido e aprisionado por seus irmãos de hábito. Suas obras, traduzidas para muitas línguas, têm sido objeto de muitos estudos e foram transpostas para o cinema e o teatro muitas vezes.
Nada temos a temer, exceto as palavras
O escritor Rubens Fonseca (72) não era ainda o admirável romancista, autor de tantos livros de sucesso, quando incrustou esta frase em seu romance de estréia, O caso Morel, publicado em 1973. Até então ele tinha publicado apenas livros de contos, muito elogiados pela crítica. A frase está repetida insistentemente ao longo de uma narrativa marcada por violência e erotismo combinados, sobretudo nas relações amorosas de alguns personagens. Parecia premonição, pois seu livro seguinte, de contos, intitulado Feliz Ano Novo, e publicado em 1975, ficou proibido 13 anos, de 1976 a 1989. Inconformado com o veto do então ministro da Justiça do presidente Ernesto Geisel, o autor foi aos tribunais. O processo arrastou-se até 1989, quando em grau de recurso, no Tribunal Regional Federal, o livro foi finalmente liberado. Houve muitas cópias piratas e edições clandestinas em facsímile enquanto o livro estava proibido.
Não entendo patavina
Esta frase, que significa declaração de ignorância total sobre determinado assunto, originou-se em certos descuidos gramaticais do historiador romano Tito Lívio (59 ou 64 a.C.-17 d.C.), nascido em Pádua, em italiano Padova, e em latim, Patavium. Outros escritores latinos, tidos por mais cultos, reprovaram suas expressões, próprias do dialeto da região em que o historiador viveu, o que dificultava o entendimento. Alguns estudiosos dão como explicação o fato de os portugueses terem dificuldade para entender os mercadores e os frades franciscanos patavinos, isto é, originários de Pádua. O próprio Santo Antonio de Lisboa (1195-1231) é o mesmo Santo Antonio de Pádua. Quem não compreende bem certos usos e costumes religiosos, não entende patavina disso também.
Não foi para isso que eu o inventei
Frase lendária que teria sido pronunciada por Alberto Santos Dumont, ao ver, em São Paulo, o uso do avião nos combates fratricidas da Revolução Constitucionalista de 1932. Seu engenho mais famoso foi o 14-Bis, a bordo do qual realizou o seu primeiro vôo documentado na história da aviação. Foi Marechal-do-ar, é patrono da Aeronáutica e da força Aérea Brasileira, além de imortal da Academia Brasileira de Letras. A única homenagem que de nada lhe serviu foi a efígie na antiga nota de dez mil cruzeiros. A inflação, como fez com outras figuras célebres, liquidou essa homenagem à sua memória.
Não lamento morrer, mas deixar de viver
Esta frase foi dita e escrita pelo célebre piloto francês François Mitterrand (1906-1995), que levou o socialismo ao poder na França, por meios democráticos, em 1981, tornando-se presidente da República em eleições livres. Ele foi um dos grandes personagens políticos deste século, tendo destacada atuação também durante a Segunda Guerra Mundial. Na sua gestão como presidente da República, a educação e a cultura receberam atenção especial e boas dotações orçamentárias. Um dos marcos foi a construção de um novo prédio para a Biblioteca Nacional, que custou cerca de 11 bilhão de dólares. Por obras como essa é que ele não será esquecido, esta outra forma que temos de morrer.
Não me cheira bem
A intuição está presente nesta frase, muito comum no Brasil, dando conta de que há uma compreensão para além das palavras. Neste caso, afora o sentido da audição, entra o do olfato, posto que em forma de metáfora, para aguçar nosso entendimento. Os cristão primitivos criaram a expressão odor de santidade para caracterizar o estado de uma pessoa virtuosa, já santa em vida. Mas seu contrário, muito mais freqüente, seria um odor desagradável, exalado de pessoas desonestas ou de situações inconvenientes. Um dos que a registraram literalmente foi o escritor português Camilo Castelo Branco, em diálogo onde um personagem comenta um famoso impostor.
Não posso interpretar um perdedor: não me pareço com um.
Frase pronunciada muitas vezes por Rock Hudson (1925-1985), famoso galã romântico de Hollywood, diante de roteiristas, diretores, colegas e jornalistas. Depois de servir na Marinha dos Estados Unidos, de 1944 a 1946, tornou-se ator, estrelando vários filmes na década de 50, como Sublime Obsessão, Assim caminha a humanidade e Confidências à meia-noite, em que contracenou com a linda e pura Doris Day. Nas décadas seguintes, fez jus ao grande prestígio que tinha junto ao público feminino, desempenhando sempre papéis de rapaz namorador e divertido. O que as fãs não sabiam é que Rock Hudson, na vida real, preferia os homens. Poucos antes de morrer, o ator anunciou que havia contraído o vírus da Aids.
Não se pode governar um país que tem 246 variedades de queijo
Esta frase foi pronunciada pelo general Charles de Gaulle (1890-1970), notável militar na Segunda Guerra Mundial e célebre estadista francês. Foi por duas vezes presidente da República, renunciando a 28 de abril de 1969. Atribui-se também a De Gaulle uma outra frase famosa: "o Brasil não é um país sério", mas a autoria desta última não pôde ser comprovada, como ocorrem com outras verdades sobre nosso país, atacado de tempos em tempos por ufanismo contagioso ou pessimismo sem motivos claros, a não ser, evidentemente, aqueles patrocinados por nossos governantes. Pode ser difícil governar um país com tantas variedades de queijo, mas os franceses, famosos pela atenção que dão à culinária, reclamaram muito de De Gaulle e pouco dos queijos que sempre produziram. No resto do mundo, De Gaulle e os queijos franceses foram sempre mais elogiados do que criticados.
Não suba o sapateiro acima da sandália
Apeles (século IV-século III a.C.), o famoso pintor grego que retratou Alexandre, o Grande, costumava expor suas pinturas em praça pública, escondendo-se atrás dos quadros para ouvir a opinião dos que por ali passavam. Concordando com as críticas, retirava suas obras, refazia-as e voltava a exibi-las para novos comentários. Certa vez um sapateiro notou um defeito na chinela de uma figura principal. Apeles corrigiu seu quadro. No dia seguinte, vendo que havia sido atendido, o mesmo sapateiro atreveu-se a criticar também a perna da figura. Apeles saiu de trás do quadro e pronunciou a frase memorável, dando conta de que há limites para a crítica. O padre Manuel Bernardes, um dos melhores estilistas da língua portuguesa, está entre os que registaram a frase famosa.
Não verás país nenhum
Esta frase tem origem num verso de Olavo Bilac: "criança, não verás país como este!" Mas foi o escritor Ignácio de Loyola Brandão quem a resgatou, em 1981, com o lançamento de um romance cujo título reduziu o verso para Não Verás país nenhum. Antecipando os graves problemas que adviriam da destruição ecológica, o livro foi bem aceito por crítica e público. Depois de numerosas edições brasileiras, foi traduzido para mais de dez línguas e seguido de um outro, documental, intitulado O verde violentou o muro (1984), em que o escritor aludia à queda do muro de Berlim, que só veio a ocorrer em 1989, quando os alemães deixaram de ver um outro país, a Alemanha Oriental.
Navegar é preciso, viver não é preciso
A expressão já foi creditada a Caetano Veloso, porque muitos de nossos jovens iletrados, mas bons de ouvido, somente a aprenderam da boca de seu ídolo. Entretanto, o próprio baiano já admitiu que a leu em Fernando Pessoa. A autoria não cabe, porém, nem ao poeta português, nem ao compositor baiano. Quem a tornou famosa foi o general romano Pompeu (106 a.C.-48 d.C.) para persuadir marinheiros a zarpar com os navios carregados de alimentos, mesmo em meio a uma tempestade, porque havia muita fome em Roma. Somente o circo, como sabiam os imperadores, não era suficiente para conter rebeliões, se faltasse o pão. Pompeu a pronunciou num latim desjeitoso, segundo nos informa Plutarco: navigare necesse, vivere non necesse, mas a frase já existia também em grego
Noblesse Oblige
Esta frase, nascida de um trecho do filósofo, estadista e poeta latino Anício Mânlio Severino Boethius (480-524), mais conhecido como Boécio, está presente em muitas línguas, incluindo a portuguesa, segundo a síntese elaborada pelos franceses, sem alteração na grafia e do significado: nobreza obriga, isto é, a aristocracia e a boa educação devem levar o indivíduo a comportar-se como um cavalheiro. Se não a primeira, a segunda. Originalmente, a frase foi escrita em latim e está embutida num período mais longo, usual no estilo de Boécio, de seu livro O consolo da filosofia.
Nós, as mulheres, não somos tão fáceis de conhecer!
Esta frase ficou famosa por seu conteúdo e por sua autoria. As mulheres sempre desconcertaram e surpreenderam os homens. Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, reconheceu não saber o que queriam as mulheres. Ocorre, porém, que a frase é de autoria de uma mulher formosa, culta e apaixonada, Santa Teresa de Ávila (1515-1582). Sua sabedoria foi ainda mais admirada depois que o papa Paulo VI (1897-1978) a declarou doutora da Igreja. A santa morreu a 4 de outubro e foi enterrada no dia seguinte, 15. Não é erro de data. No dia de sua morte foram subtraídos 10 dias de ano civil para adequá-lo ao ano solar. Os que lêem a vasta obra da santa, porém, podem mais facilmente entender as mulheres.
O amor é mais forte do que a morte
Esta frase é de autoria de Salomão, célebre rei dos hebreus e filho de outro rei famoso, Davi, de quem se tornou sucessor. Sua sabedoria passou à História como digna de ser seguida. Teve muito mais mulheres do que seu pai, mas não mandou o marido de nenhuma delas para a frente das batalhas para ficar com a mulher do próximo. Foi ele quem construiu o templo de Jerusalém e escreveu três dos livros bíblicos: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, onde encontramos frases deslumbrantes como esta, em português chamadas de versículos por uma convenção aplicada aos textos bíblicos. Não se pode contestar a experiência amorosa deste rei-escritor, senão qualitativa, quantitativa, pois que amou a mais de mil mulheres.
O amor é uma loucura
Esta frase é atribuída ao extraordinário poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856), cujos versos estão cheios de melancolia. Apesar, porém, da tristeza de sua poesia, Heine tinha muito humor em seus textos de prosa, entre os quais estão narrativas de viagem e o romance O rabino de Bacherach. Adorava a mulher que desposou, Eugênia, mas comentando a marcha nupcial dos casamentos, comparou-a à música dos soldados que vão à guerra. Crítico com o próprio país, dizia que as únicas boas coisas da Alemanha eram as salsichas e a cerveja. De ascendência judaica, de família de banqueiros, converteu-se ao cristianismo "para não ter que encontrar-se com os parentes judeus no outro mundo".
O cinema não tem futuro comercial
Esta frase é de autoria de Auguste Lumière (1862-1954) que, juntamente com o irmão, Louis Limière (1864-1948), é tido como um dos inventores do cinema. Ele a teria pronunciado por ocasião da primeira projeção de um filme, ainda mudo, ocorrida em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895. Os industriais inventores estavam enganados. O cinema tomou conta do mundo e hoje movimenta verdadeiras fortunas, a ponto de um filme apenas, O parque dos dinossauros, ter arrecadado um bilhão de dólares. Também os investimentos comerciais foram aumentando, e Waterworld, produzido em 1995, custou 150 milhões de dólares.
O coração tem razões que a razão desconhece
A história desta frase não poderia Ter origem mais paradoxal, pois foi proferida e escrita por um personagem que deu grande valor à ciência, o célebre matemático, físico, filósofo e escritor francês Blaise Pascal (1623-1662). Aos 16 anos já tinha escrito um ensaio científico e aos 18 inventou uma máquina de calcular, base de nossos atuais computadores. Depois que sua irmã Jacqueline entrou para um convento, Pascal retirou-se para a célebre localidade de Port-Royal-des-Champs, que deu nome a uma escola de língua francesa, escreveu sempre em estilo irrepreensível. A frase dá grande valor à intuição.
O estado sou eu
Esta frase é sempre citada como exemplo de personalismo de reis e presidentes. Foi pronunciada pela primeira vez por Luís XIV (1638-1715), rei da França, no dia 13 de abril de 1655, aos 17 anos, ao entrar no parlamento em trajes de caça. Advertido pelo presidente da Casa, respondeu: L’État c’est moi! (o Estado sou eu!). Voltou a pronunciá-la sempre que era contrariado por seus ministros e ainda mandou inseri-la num curso de Direito Público, feito especialmente para um de seus duques, acrescentando: "na França, a nação reside toda na pessoa do rei". O tempo mostrou o quanto o rei estava enganado. Na Revolução Francesa, não foi a França quem perdeu a cabeça.
O homem põe, mas deus dispõe
Esta frase, tão citada como provérbio, deve sua fama ao enorme sucesso do livro A imitação de Cristo, um best-seller que está na lista dos mais vendidos e, neste caso, também dos mais lidos, há vários séculos. Publicado pela primeira vez em 1441 e só perdendo em traduções para a Bíblia, é de autoria do escritor e asceta alemão Tomás de Kempis, que viveu no século XV. A frase significa que, por mais que o homem planeje meticulosamente sua vida, algo de imponderável pode acontecer e deve ser creditado à intervenção divina. Com o passar dos anos outras variações foram surgindo e uma das mais comuns, no Brasil, é Deus não joga, mas fiscaliza.
Olho por olho, dente por dente
Esta frase, que consagra a vingança do preceito jurídico, está inscrita num dos 282 artigos do Código de Hamurabi (1792-175 a.C.), o criador do império Babilônico. Em 1901, arqueólogos franceses descobriram, em território hoje pertencente ao Irã, uma estrela cilíndrica de diorito onde está gravado este célebre conjunto de leis, um dos mais antigos que se tem notícia. Baseado na lei de talião, presente também num dos livros da Bíblia, o Levítico, prescreve para o transgressor pena igual ao crime que praticou. Ainda é aplicado em várias sociedades do Oriente.
O poder é o afrodisíaco mais forte do mundo
O Prêmio Nobel da Paz de 1973, Henry Alfred Kissinger (73), surpreendeu os jornalistas com esta frase que ficaria famosa, proferida em entrevista coletiva que tinha como assunto principal as negociações que levariam ao fim da guerra do Vietnã, nos anos 70. Responsável também pelo cessar-fogo de uma das muitas guerras travadas entre árabes e israelenses, Kissinger foi o secretário de Estado de 1973 a 1977 e um dos primeiros idealizadores das aproximações políticas dos Estados Unidos com a ex-União Soviética e a China. Atuando como um dos homens mais poderosos do mundo numa época marcada pela geração que proclamava ser melhor fazer o amor do que a guerra, apresentou, com esta frase, um outro mirante de desejo.
O povo quer pão e circo
Segundo uma das sátiras do escritor latino Décimo Júnio Juvenal (60-140), a plebe romana só queria saber de pão e circo, sendo esta uma das razões do declínio do Império. Vários imperadores providenciaram o cumprimento desta máxima, entre os quais Lúcio Vero (130-169), que partilhava com o povo o gosto pelos esportes, principalmente os espetáculos de gladiadores, bem antes das perseguições que levaram os cristãos à maior arena do Ocidente para serem comidos por leões. A frase, retomada por autores de diversas épocas e países, consolidou-se como sinônimo de uma certa preguiça universal. Mas certamente este não é um ponto de vista popular, já que quem mais come, bebe e se diverte é a classe social privilegiada, tanto no capitalismo como no socialismo, haja vista a famosa nomenklatura soviética.
Ordem e progresso
Esta frase, lema inscrito em nossa bandeira, é de autoria de Benjamim Constant, cujo nome completo é Benjamim Constant Botelho de Magalhães (1836-1891), militar e político brasileiro, um dos fundadores da República. Foi ele quem, inspirado nas idéias do fundador da sociologia, o positivista francês Auguste Comte (1798-1857), orientou o desenho da bandeira nacional. Engenheiro de formação e defensor da premissa de que a ordem é indispensável ao progresso, lutou na Guerra do Paraguai, onde foi o responsável pelas fortificações de Tuiuti. Foi ministro da Guerra do governo provisório e mais tarde da Instrução, onde travou sua melhor guerra, realizando uma reforma educacional de excelentes resultados em instituições que se tornaram famosas pela qualidade de ensino, como o Colégio Pedro II e a Escola Normal, ambos no Rio.
O rei reina, mas não governa
Esta frase e seu sentido estão muito bem estudados numa obra clássica do ensaísta brasileiro Raymundo Faoro (71), Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, que recebeu no ano de seu lançamento o prestigioso Prêmio J´se Veríssimo de Ensaio e Crítica da Academia Brasileira de Letras. A frase sintetiza a base das monarquias constitucionais. Válida para as outras cortes, no caso da portuguesa não poderia ser empregada, pois o rei reinava e governava, sendo chefe político, religioso e militar. Acima do rei e seu poder incontestável, estava apenas o papa. O papa, e não o clero. Um dos primeiros a proclamar esta frase foi o célebre político, historiador e depois presidente francês Adolphe Thiers (1797-1877).
Os acionistas são ovelhas ou tigres
Esta frase é de autoria do lendário banqueiro israelense Mayer Amschel Rothschild (1744-1812), fundador da casa de crédito que levaria seu nome. A família obteve muita fortuna com suas operações, especialmente com o financiamento de várias guerras européias. No final do século XIX, os Rothschild lideravam o ranking dos bancos, mas depois outras casas de créditos os superaram. A família distinguiu-se também na política, tendo vários membros barões do então poderoso império austríaco, além de um descendente deles ter sido o primeiro judeu a entrar para o parlamento britânico. A frase indica o comportamento dos acionistas diante de operações que dão lucro ou prejuízo.
Os aduladores são os piores inimigos
A cada nova mudança no governo, surgem, inevitáveis, os aduladores, que se comprazem em lisonjear com o fim de obter recompensas que de outro modo não alcançariam, dada a ausência de méritos. Em todas as sociedades, os favores prestados a aduladores demonstraram ser perigosos àqueles que os concederam, beneficiando apenas aos puxa-sacos, que é como a linguagem popular, sem nenhum eufemismo, os denominou. A frase é do historiador latino Públio Cornélio Tácito (55-120), alertando as autoridades romanas contra esta praga universal. O mesmo pensamento foi expresso em outras palavras na Bíblia em textos de doutores de Igreja.
O ser humano não poder suportar muita realidade
A imprensa caracteriza-se por extremado realismo, tanto em jornais e revistas como no rádio e na televisão, como fez a literatura do século passado e até meados deste século. Entretanto, todas as pessoas têm necessidade de fantasia e para tanto a indústria cultural tem-se esforçado para atender a este anseio. A sétima arte, como é chamado o cinema, tem sido, entre todas as manifestações artísticas, a que mais se preocupou em fornecer fantasia ao público, com o intuito de atenuar a realidade, cada fez mais dura, da vida cotidiana. Em outros tempos este propósito teria sido acusado de alienante, mas os tempos modernos deram razão a esta famosa frase do escritor anglo-americano Thomas Stearns Eliot, mais conhecido como T.S. Eliot (1888-1965).
O sertanejo é, antes de tudo, um forte
Esta frase, uma das mais repetidas da vida nacional, foi escrita pela primeira vez em O Estado de S. Paulo pelo engenheiro civil, professor de lógica e jornalista, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, que se tornaria escritor famoso justamente com as reportagens onde está esta frase, depois reunidas em livro sob o título de Os sertões, em 1902. Cobrindo a campanha de Canudos, o escritor captou e expressou com argúcia o sertão, o povo e sua famosa trágica luta. Soube ver a força dos fracos, escondida em aparências que indicavam, ao primeiro olhar, o cansaço e a fraqueza do sertanejo, que ele chamou de "Hércules-Quasímodo", desgracioso, desengonçado, torto. Mas, antes de tudo, um forte.
Os fins justificam os meios
A idéia de que não importam que os meios sejam ilícitos quando os fins são nobres consolidou-se nesta frase, atribuída, entre outros, aos jesuítas e aos autores italianos Niccolò Machiavelli (1469-1527) e Francesco Guicciardini (1483-1540), dois filósofos que se preocuparam com o poder e a ética dos governantes, o último dos quais é autor das célebres Ricordi – em italiano, advertências, conselhos – somente agora traduzidas para o português com o título de Reflexões, mais de acordo com os temas do livro.
O silêncio é de ouro
Esta frase já estava na boca de muitos povos quando o cineasta René Clair (1898-1981) a utilizou literalmente, no original francês, como título de um filme, Le silence est d’or, cujo tema é o cinema antigo, quando o som não era ainda utilizado. A aquisição da linguagem é etapa decisiva do desenvolvimento humano. Porém, tendo aprendido a falar, o homem precisa aprender também a calar, daí a razão da sabedoria desta frase, presente em muitas outras línguas, algumas dos quais acrescentam que a palavra é de prata. Saber calar e cultivar a discrição são recomendações tão antigas que já estão presentes também em famoso livro da Bíblia, o Eclesiastes. No Brasil, a variante popular é "em boca fechada não entra mosca".
O viaduto é a menor distância entre dois engarrafamentos
Frase do ex-prefeito de Curitiba e atual governador do Paraná, Jaime Lerner (59), já famosa, mas que se tornou ainda mais célebre depois de proferida na Conferência Internacional do Meio Ambiente, denominada Hábitat 2, realizada em junho de 1996, em Istambul, principal cidade da Turquia. O autor da frase imprimiu à cidade de que foi prefeito por muitos anos um projeto urbanístico marcado por eficiente rede viária para os transportes públicos, tornando-a cidade-modelo no mundo, segundo critérios adotados pela Unesco. Para substituir os viadutos, evitados pelo governador, são feitas propostas alternativas de trânsito, como as vias expressas e o ônibus conhecido como Ligeirinho, a grande vedete daquele evento internacional.
Pagar o pato
Trata-se de expressão que está presente em vários textos de escritores portugueses e no nosso Gregório de Matos (1636-1695), que escreveu esses versos dirigidos a certa mulata: "quem te curte o cordovão/ por que não te dá sapato?/ pois eu que te rôo os ossos/ é que hei de pagar o pato?" A origem mais remota é uma brincadeira: um pato era amarrado a um poste. A calo, a galope, o jogador deveria de um só golpe, cortar as amarras. Quem errasse pagaria o pato. Passou a significar algum ato pelo qual pagamos sem conseguir nenhum benefício.
Pagar tintim por tintim
No final do século XIX, uma peça intitulada Tintim por tintim, estrelada por uma atriz portuguesa que nela fazia dezoito papéis, teve grande sucesso nos teatros do Brasil. A frase já era famosa por suas ligações com desejos de vingança. Tintim é vocábulo onomatopaico para designar o barulho que fazem as moedas ao se chocarem. A expressão, sempre na boca do povo, indicando que todo pagamento deve ser minucioso, usando-se o dinheiro como metáfora, está presente num clássico da literatura portuguesa, Aulegrafia, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515-1583), autor de teatro, mais para ser lido do que encenado.
Para inglês ver
Esta frase foi dita pela primeira vez em 1808, quando a família real chegou ao Brasil, ainda colônia. A cidade de Salvador, então capital, estava iluminada e Dom João VI (1767-1826) comentou que aquela recepção festiva demonstrava aos ingleses, aliados e protetores dos portugueses, que os brasileiros recebiam-no calorosamente. Virou, depois disso, símbolo de burla nacional ou internacional, sempre de grandes proporções, em que são utilizados vistosos aparatos para enganar. Alguns historiadores dizem que a frase pode ter nascido da fingida vigilância com que os navios brasileiros procuravam navios negreiros. Faziam isso apenas para agradar aos ingleses, que haviam proibido o tráfico de escravos.
Para tudo servem as baionetas, menos para sentar-se sobre elas
Esta frase é lembrada quando há ameaça ou promessa de intervenção militar na vida política. Se não foi pronunciada pela primeira vez, foi pelo menos escrita originalmente por Emílio Castelar y Rippol, célebre intelectual e político espanhol, na segunda metade do século XIX. Assumindo o poder, em 1873, na jovem República, cuja instalação liderara, encontrou seu país em grandes desordens. De um homem que já fora condenado à morte durante a monarquia, a Espanha recebeu uma contribuição decisiva para organizar-se como nação. A frase está em sua obra Discurso de cortes.
Paris é uma festa
Esta frase, título de um dos livros de Ernest Miller Hemingway (1898-1961), nasceu de uma delicadeza parisiense. De acordo com o que nos informa a escritora e psicanalista Betty Milan em seu livro Paris não acaba nunca, em 1957, depois de uma curta viagem à Espanha, o romancista norte-americano hospeda-se no famoso hotel Ritz. Para sua surpresa, os funcionários lhe devolvem duas malas esquecidas 30 anos antes. Dentro delas estavam os diários que escrevera na mesma Paris, entre 1921 e 1926. Outros famosos escritores aprenderam o ofício na mesma cidade, como Henry Miller (1891-1980) e Scott Fitzgerald (1896-1940). Especialmente para estes escritores, a Cidade Luz foi uma festa, pois lá escreveram grandes obras.
Penso, logo existo
Um dos pilares da ciência moderna, esta frase celebérrima é de autoria do filósofo, matemático e físico francês René Descartes (1565-1650), e coroa seu método, que se baseia no questionamento de todo o conhecimento, restando apenas a certeza daquele que duvida. As contribuições de Descartes estenderam-se também à geometria analítica e à óptica geométrica. Educado por jesuítas, o filósofo teve também experiência militar, lutando na famosa Guerra dos Trinta Anos. Segundo ele próprio, a natureza de sua ciência, exposta no método sintetizado nesta frase, foi mais claramente revelada num sonho que teve em 10 de novembro de 1619. Com seu nome latino, Renatius Cartesius, foi personagem de Catatau, um importante romance de Paulo Leminski (1944-1989).
Que bicho foi que te mordeu?
A história desta frase diz respeito à estranheza que sempre espertou o comportamento surpreendente de alguma pessoa da qual não esperaríamos alteração brusca de humor ou de opinião. Está presente em numerosos autores, mas um dos primeiros a registrá-la foi o escritor francês, muito citado por nossos poetas românticos, Nicolas Boileau-Despréaux (1636-1711), numa de suas sátiras. Mas em francês o bicho era uma mosca, dado que antes de Boileau, a expressão já andava na boca do povo com essa redação: quelle mouche vous pique? (que mosca vos pica?). A mudança havida do inseto específico e caseiro para o abstrato bicho pode Ter explicações na diversificação de animeis presentes em nossa fauna.
Quem dá aos pobres, empresta a Deus
Esta frase já era famosa desde a Antigüidade, tendo sido registrada em forma de conselho no texto bíblico dos Provérbios. O ficcionista e poeta francês Victor Hugo (1802-1885), autor de romances memoráveis como Os Miseráveis e O corcunda de Notre Dame, a utilizou como epígrafe num de seus poemas mais conhecidos, "Para os pobres". Um pouco mais tarde, o poeta Castro Alves (1847-1871) a inseriu numa das poesias de Espumas flutuantes, em que clama por ajuda aos órfãos dos soldados brasileiros mortos na guerra do Paraguai. Foram os versos do vate baiano que mais contribuíram para a difusão desta frase, outra vez em forma de recomendação humanitária.
Quero que vá tudo pro inferno
Esta frase, originalmente expressão de raiva, eu título a uma das mais famosas canções da Jovem Guarda, de sucesso extraordinário nos fabulosos anos 60. Compositores e cantores que integravam aquele movimento musical, mesmo com o céu azul e o sol sempre a brilhar, só queriam aquecimento no inverno e que tudo mais fosse pro inferno, já que a boa vida de playboy não impedia que, ao entrar no carro, a solidão doesse no rapaz, já que onde quer que andasse, tudo era muito triste, e não interessava tudo o que de mais existia, pois não suportava mais viver longe da amada e preferia até morrer a viver daquele modo. O cantor e compositor Roberto Carlos foi um dos principais responsáveis por tornar famoso o verso em que a frase se transformou.
Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha
Esta frase foi criada pelo locutor esportivo Osmar Santos, um dos mais criativos narradores de jogos de futebol. Inconformado com os modos tradicionais de transmitir as partidas, ele foi inventando expressões que logo caíam na boca do povo. No caso, apesar da complexidade da frase, todos entendem seu significado. Chute dado na bola com a parte exterior do pé. Não se sabe onde o famoso locutor se inspirou para criar a frase, mas é provável que tenha juntado ripa, sinônimo de sarrafo, com chulipa, sinônimo de dormente de ferrovias, para designar a forma de se chutar a gorduchinha, isto é, a bola.
Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai até a montanha
Esta frase foi originalmente dita pelo fundador do Islamismo, o profeta Maomé (570-632). Significa preferir o simples ao complicado. Durante 15 anos, este grande líder refletiu sobre o projeto de organizar todos os árabes sob rígidas leis, combinando religião, política e moral. Converteu a muitos, mas teve também que enfrentar inimigos poderosos, refugiando-se em Medina, no ano de 622. Essa fuga, chamada de Hégira, marca o começo da Era Muçulmana. A frase foi pronunciada quando tentava converter um grupo de árabes e esses o desafiaram de mover o monte Safa para perto de si. Maomé tentou e, não conseguindo, foi até a montanha, acrescentando ter sido graça de Deus não ter conseguido o milagre, pois, ao mover-se, a montanha mataria todos ali reunidos.
Ser surdo como uma porta
A pesquisa sobre a origem desta frase toma um caminho que logo se bifurca. Para alguns deve-se a costumes religiosos de Roma antiga, segundo os quais algumas portas eram consideradas deusas a quem muitas pessoas, especialmente os namorados, faziam suas súplicas. Quando os pedidos eram atendidos, a porta recebia agradecimentos em forma de palavras, abraços, beijos e lágrimas de alegria. Quando, porém, a porta se mostrava surda às solicitações, era ofendida com diversos impropérios que visavam castigar a sua surdez. O costume foi registrado pelo escritor latino Festus, que viveu no século quarto. O filólogo João Ribeiro (1860-1934) tem, porém, outra explicação. Surda era a porta que não abria por ter seus fechos emperrados e por conseguinte não emitia som algum.
Tal pai, tal filho
Esta frase sintetiza a sabedoria popular de que os filhos reproduzem qualidades e defeitos dos pais. Muito antiga, já aparece no canto III de Os Lusíadas, o mais famoso poema de toda a literatura de língua portuguesa, da autoria de Luís Vaz de Camões. Ao inserir a frase nos seus versos, o poeta quis dizer que Dom Afonso Henriques (1110-1185), o primeiro rei de Portugal, herdara a coragem de seu pai, que participara da Primeira Cruzada, cujo fim era retomar o Santo Sepulcro das mãos dos turcos. Algumas variações da mesma frase estão presentes em diversas línguas, com o mesmo significado.
Tempo é dinheiro
Esta frase, emblema do capitalismo moderno, e cada vez mais atual, dada a rapidez dos processos econômicos, principalmente pelo avanço da informática, foi atribuída ao jornalista, físico, político e filósofo norte-americano Benjamin Franklin (1706-1790), inventor do pára-raios. Homem de vasta leitura, ele pode ter lido no filósofo grego Teofrastos (372-288 a.C.), autor de mais de 200 obras, espalhadas por quase 500 volumes, que disse coisa semelhante: "o tempo custa muito caro". Como todo escritor antigo, não recebeu direitos autorais. Para ele, tempo foi livro e não dinheiro, daí ter sido tão caro. Escreveu, em média, um volume a cada dois meses sem nada receber. Poderia ser o patrono de certos editores.
Uma no cravo, outra na ferradura
Esta frase traz a palavra ‘batida’ oculta em duas elipses, visto que se trata de alternar as pancadas. Sua origem remota está no ato de ferrar os cavalos, dado que as ferraduras são fixadas nos cascos por meio de cravos, que entram nas unhas dos animais à força de marteladas. Em sentido metamórfico, porém, a expressão é empregada como sinônimo de imparcialidade, principalmente nas críticas. O escritor José de Alencar (1829-1877), nascido no Ceará, definiu a política de Dom Pedro II com esta máxima, registrando-a numa passagem de A guerra dos mascates. Outros estadistas empregaram a mesma frase para resumir suas ações. E muitos a empregaram sem registrá-la.
Um é pouco, dois é bom, três é demais
Esta frase foi popularizada em famosa canção de Heckel Tavares (1896-1969), intitulada Casa de cabloco. Os versos dizem "numa das casa de cabloco, um é pouco, dois é bom, três é demais". Autor de cerca de cem canções, o compositor soube como poucos conciliar o erudito e o popular, tendo obtido reconhecimento de crítica e público, no Brasil raramente combinados, por seus trabalhos musicais. Mas o sentido da frase, não sua forma, tem raízes bem mais antigas. Tanto a Bíblia como o Talmude advertem que três pessoas já constituem um grupo grande demais para discutir assuntos íntimos. E um provérbio inglês declara que três são multidão (three is a crowd). Também na Itália e em Portugal circulam frases com sentido semelhante.
Vá plantar batatas
A origem desta frase é portuguesa. Antigamente, em Portugal, país mais voltado às navegações e à pesca, a agricultura, conquanto fornecedora de alimentos básicos, era vítima de certo desdém. Algumas de suas culturas eram ainda mais depreciadas, como era o caso da batata, que demorou a entrar para a culinário portuguesa e brasileira. Era tida como alimento vulgar, e quem se dedicasse a plantar batatas estava se sujeitando a uma atividade desqualificada. A expressão aparece registrada em O povo português, obra do famoso poeta, folclorista e político lusitano Teófilo Braga (1843-1924), comentando a decadência das pequenas indústrias, ocasião em que trabalhadores qualificados, de repente sem emprego, foram aconselhados a plantar batata.
Vá tomar banho
A origem desta frase, que é pronunciada como ofensa no Brasil, pode estar vinculada à concepção de que a higiene tem muito a ver com a virtude, assim como a sujeira com o pecado. Sujo é um dos nomes do diabo. Não somente pecados, mas também crimes e erros são qualificados como sujeiras. Ao contrário de nossos primeiros colonizadores, arredios ao banho, os índios dessas plagas sempre cultivaram a higiene pessoal. A frase, dita em desabafo ou em reprimenda, inscreve-se na tradição geral que considerava o banho como condição prévia ao recebimento de algum favor, insígnia, distinção. Foi considerado tão importante lavar-se que o rei inglês Henrique IV (1367-1413) criou a Ordem do Banho.
Vem quente que eu estou fervendo
Esta frase é o verso-título de uma das famosas músicas de Erasmo Carlos (54). Autor de conhecidos sucessos, ele era um dos reis do iê-iê-iê, os fervorosos adeptos do rock, renovação musical que iria mudar os costumes do mundo e do Brasil nos fabulosos anos 60 e 70, com suas canções badaladas. Erasmo, toda a Jovem Guarda e seus numerosos fãs achavam a maior brasa desfilar pelas ruas montados em lambretas ou calhambeques, paquerando mocinhas que vestiam calças saint-tropez. Quem tem mais de 30 anos, é testemunha ocular – e sobretudo auditiva – dessas histórias. Quem tem menos, é só perguntar aos pais, tios, avós. Ou juntar-se a eles para ouvir lançamentos comemorativos.
Virar a casaca
A política brasileira está cheia de gente que virou a casaca, isto é, homens públicos que trocaram de partido, passando a defender idéias que antes condenavam. A origem da expressão remonta a Carlos Manuel III (1701-1771), duque de Savóia e rei a Sardenha. Sempre ameaçado, ora pela Espanha, ora pela França, usava as cores nacionais de uma dessas nações, de acordo com a aliada ocasião. Tanto virou casaca que permaneceu no poder por 43 anos. No Brasil, muitos políticos mudaram de partido depois de eleitos. O presidente da então Arena, José Sarney, passou para o PMDB, em 1984, elegendo-se indiretamente vice-presidente da República. Todos sabem o que aconteceu depois.
*Deonísio da Silva é catarinense, ou catarinauta, como diz, de Siderópolis, onde nasceu em 1948. Em 1976, pelas mãos de Rubem Fonseca, publicou seu primeiro livro, Exposição de Motivos, logo premiado pelo MEC e transposto para teleteatro por Antunes Filho, ao qual seguiram A Mulher Silenciosa, Orelhas de Aluguel, A Cidade dos Padres. Em 1991 recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas pelo romance Avante, Soldados: para Trás. Seu romance Teresa, lançado em 1997, baseado na vida de Teresa D'Ávila,m foi premiado pela Biblioteca Nacional e transposto para teatro antes mesmo de ser publicado. Doutor em letras pela USP, é professor da Universidade Federal de São Carlos.