Clique para imprimir
Imprimir
www.portrasdasletras.com.br
O seu portal de língua portuguesa na internet

Menu Principal

  ARTIGOS/ENSAIOS
  COMO CORRIGIR REDAÇÃO
  CURIOSIDADES
  DICIONÁRIOS
  ENTREVISTAS
  EXERCÍCIOS
  GRAMÁTICA/LINGÜÍSTICA
  LINKS
  LITERATURA
  ORIENTAÇÕES
  POLÊMICAS
  REDAÇÃO
  RESUMOS DE LIVROS
  TIRA-DÚVIDAS
  VESTIBULARES

Sobre nós


  Quem somos

  Fale conosco

  Anuncie aqui
    Blogs do Hélio Consolaro
  Blog do Consa

  Ponto Cego

  Folha da Região
















   DIRETÓRIO Principal -> Curiosidades -> (documento)
O valor das canções folclóricas brasileiras.
(Antônio Paulo de Moraes Leme )

paulo.leme@uol.com.br

 Eu ofereci certo dia a um colega de trabalho, um CD de canções infantis de Villa-Lobos, ele também tem filhos e talvez como eu desejasse lhes passar algo com real valor cultural, hoje tão escasso nos meios de comunicação.  Com certo ar de deboche ele me respondeu: “O que? Boi da Cara Preta? O Cravo Brigou com a Rosa? Isso é politicamente incorreto! Imagina, essa música ameaça a criança e ainda é racista, na outra se mostra briga conjugal!”.  Bom, “Boi da Cara Preta” não é de Villa-Lobos, respondi inocentemente... Outro colega antecipou-se, e antes que pudesse sequer tecer algum comentário, estava em meu e-mail o texto intitulado “A inocência perdida das canções de ninar” (anexo). Tive que engolir a crítica sem argumentos. De noite, chateado, relatei o ocorrido à minha esposa e ela como professora há quase quinze anos, me respondeu com um doce sorriso: “Não liga, esse assunto já está superado na educação infantil, eles não sabem o que dizem.” Sem entender, deixei que a tranqüilidade expressa naquela frase fosse o suficiente por aquele dia.

Assim como a dissonância pede resolução, o incômodo da dúvida, o abalo do valor da música pedia em minha mente uma explicação coerente. Inconformado e com a auto-estima abalada, fui investigar o que os estrangeiros tinham de melhor. Entrei no “Google” com as palavras “Nursery Rhymes”, e eis o que encontrei:

  • Humpty Dumpty

Humpty Dumpty sat on a wall,

Humpty Dumpty had a great fall.

All the King's horses, And all the King's men

Couldn't put Humpty together again!

Humpty Dumpty sentou-se em um muro,

Humpty Dumpty teve uma grande queda.

Todos os cavalos do rei, e todos os seus homens

Não conseguiram juntar Humpty novamente.

 Que desgraça! Não parece diferente das canções brasileiras criticadas.

 

  • Little Tommy Tucker

Little Tommy Tucker sings for his supper,

What shall we give him? Brown bread and butter.

How shall he cut it without a knife?

How shall he marry without a wife?

O pequeno Tommy Tucker canta para poder jantar.

O que devemos lhe dar? Pão marrom e manteiga.

Como ele poderá cortá-lo sem uma faca?

Como ele pode casar sem uma esposa?

 

Trabalho infantil! E ainda sadismo! O rodapé da página dizia que “Tommy Tucker” é uma expressão comum para órfão e a “falta de uma esposa” enfatiza exclusão social sofrida pelos órfãos.

 

  • Rock a bye Baby

 

Rock a bye baby on the tree top,

When the wind blows the cradle will rock,

When the bough breaks the cradle will fall,

And down will come baby, cradle and all.

Balançe um “adeus bebê” no topo da árvore,

Quando o vento soprar o berço irá balançar,

E quando o galho quebrar o berço cairá,

E abaixo virá o bebê, berço e tudo.

 

Que horror! A nota de rodapé diz ainda que a origem é Americana, e ainda que as índias americanas penduravam berços nas árvores para o vento balançar! Olha o preconceito racial aí!

 

Achei mais uma meia dúzia de exemplos, cheios de desgraça, preconceito e até conotação sexual. Bom, afinal o Brasil, ou ao menos as músicas infantis do Brasil eram tão politicamente corretas quanto as “Nursery Rhymes”. Mas ainda não estava tudo explicado, encontrei então, o seguinte texto:

 

“Em geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, um estereótipo, do tipo "todos os alemães são prepotentes", "todos os americanos são arrogantes", "todos os ingleses são frios", "todos os baianos são preguiçosos", "todos os paulistas são metidos", etc. Fica assim evidente que, pela superficialidade ou pela estereotipia, o preconceito é um erro.”

 

Examinando o texto da “babá” em Londres, encontrei vários estereótipos, o mais evidente é a afirmação de que todas as canções folclóricas brasileiras são negativas e de que todas as crianças brasileiras são educadas com valores distorcidos devido às letras de canções folclóricas – se assim fosse, como a própria autora poderia distinguir o que é um valor positivo de um negativo? Porque teria vergonha, já que teria recebido valores distorcidos desde a tenra infância?  Trauma de infância? Talvez a autora refira-se à si própria: além de ter dificuldade em encarar a verdade – mentiu para a patroa – e possui auto-estima extremamente baixa: só consegue ver o lado negativo da própria cultura.  Portanto o texto estava equivocado e sua conotação é preconceituosa – engraçado que “preconceito” foi a primeira coisa que pensei depois do deboche que sofri.

 

Legal, agora o texto da “Babá” de Londres era tão ruim e preconceituoso quanto as canções brasileiras criticadas, só que eu não acredito nisto, então fui atrás da prova.

 

Encontrei um comentário do jornalista e escritor Hélio Consolaro, a respeito deste texto:

 

     “ ...Outro erro da autora, mais grave, foi ignorar a cultura brasileira e que as histórias das canções de ninar brasileiras eram cantadas por escravas (mucamas) aos filhos da sinhá...”

 

O a expressão da classe oprimida é evidente. Aquelas canções, como expressão humana, possuíam então um valor imensurável. Bem maior que os Ingleses e Americanos citados, que são na verdade a expressão da classe dominante com seus preconceitos. Para mim, as canções infantis brasileiras voltavam a ter “alma” e extremamente rica.

 

As respostas soavam como música aos ouvidos, mas a obra estava incompleta, pois não é aqui desejável um final suspensivo, como que uma música terminando na terça da tônica. Era necessário, portanto, um passo enérgico através uma cadência completa em rumo à tônica por salto ascendente de quarta – assim como recomenda A.Schoenberg. Eu precisava esclarecer sobre o “efeito maléfico” das letras à psique da criança: uma conclusão, cadência, ao motivo iniciado por minha esposa.

Encontrei então alguns textos estarrecedores, por exemplo da BBC:

“Nursery rhymes expose young children to far more violence than an average evening watching television, say researchers” – “Versos infantis expõe pequenas crianças à muito mais violência do que a média vendo televisão, dizem pesquisadores.”

“Overall, there were almost five violent scenes per hour of viewing on TV - but there were more than 52 per hour of listening to nursery rhymes.” – “Em geral, existem pelo menos cinco cenas violentas por hora vendo TV – mas há mais de 52 por hora escutando versos infantis.”

 

Claro que existia no texto uma explicação contextual:

 

“Brian Harrison-Jennings, general secretary of the Association of Educational Psychologists, told BBC News it was too simplistic to blame television alone for problem behaviour. But he doubted whether nursery rhymes were a significant factor. He said: "There is a certain element of fear and frightening behaviour in nursery rhymes, but the key is the context in which the violence is mediated to the child.  Nursery rhymes are usually read to a child when they are sitting in a comfortable position with their parent's arm around them on the sofa, and the parent makes a joke of it"In that way, the child is able to enjoy the fear and excitement of the nursery rhyme while being able to distinguish between pretend violence and real violence. This is not always the case with television, where a child may be watching frightening scenes alone.” Lee Miller, of the charity Young Minds, said the most important factor determining the behavioural development of children was their relationship with the key adults in their life.”

“Brian Harrison-Jennings, secretário geral da Associação de Psicólogos Educacionais, disse ao jornal BBC que é muito simplista acusar somente a televisão para o problema comportamental. E ele duvidou mesmo que versos infantis possam ser um fator significante. Ele disse: “Há um certo elemento de medo e comportamento assustador em rimas infantis, mas o contexto chave é que a violência é meditada pela criança. Rimas infantis são lidas frequentemente para as crianças quando estão sentadas em posição confortável nos braços de seus pais no sofá, e o pai faz uma brincadeira com isto.  Deste modo, a criança é capaz de gostar do medo e excitação da rima infantil sendo capaz de distinguir entre intenção de violência e violência real. Não é o mesmo caso com a televisão, onde uma criança pode assistir cenas assustadoras sozinha. Lee Miller, da “charity Young Minds”, disse que o fator mais importante para determinar o desenvolvimento comportamental da criança é o relacionamento com os adultos chave em sua vida.”

 

E de um site brasileiro – Usina de Letras, criticando o mesmo texto da Babá Londrina:

 

“...A psicóloga Paula Dely, em seu artigo Cantigas de roda e agressividade, define como ambiente saudável aquele em que são estimuladas diversas emoções. Nesse sentido, as músicas, aliada às brincadeiras, exercem um papel fundamental. “A criança precisa viver em um espaço de amor e força, sem ter medo de seus sentimentos ou de suas fantasias, para que consiga utilizar a agressividade como uma força produtiva”, analisa.”

 

Cadência Perfeita! Conclusão: As canções folclóricas brasileiras são fundamentais à educação infantil, não só pelo estímulo ao desenvolvimento comportamental sadio, ensinando a criança a trabalhar com suas emoções, como também promovem a perpetuação da memória cultural de nosso povo.

 

            “A cultura de um povo reside nos corações e na alma das pessoas.”

                                                                                    - M. Ghandi

 

“Sem música, a vida seria um erro.”

                                          - F. Nietzsche

 

Antônio Paulo de Moraes Leme

Engenheiro Eletricista – E.E.Mauá, 1996.

MBA em Gestão Empresarial, FGV/Strong, 2003.

Músico Amador, Clarinetista – Fundação das Artes de SCS (iniciado em 2006).

paulo.leme@uol.com.br





   Busca interna

Procure neste site ou na Web com a tecnologia de busca FreeFind.

Busca no site Busca na internet


Conteúdo: Hélio Consolaro
Manutenção: Luís Gustavo Almeida

Por Trás das Letras - Seu portal de língua portuguesa na Internet
2004 - Araçatuba-SP