Calha à fiveleta
(alguém já leu isso alguma vez?
)
No serviço de tira-dúvidas do sítio Por Trás das
Letras, cai cada pergunta que me deixa doido. Isso é bom, pois me obriga
a pesquisar e assim aumento o meu conhecimento e me mantenho atualizado.
Elda Elaine, por exemplo, escreveu: “Gostaria de saber o significado
da expressão ‘calha a fiveleta’ ou ‘calha à
fiveleta’. Fiz uma intensa pesquisa e até agora não encontrei
nada”.
Ela tinha razão. Nenhum dicionário registra tal expressão
no verbete “calhar” e nem em “fiveleta”. Procurei em
todos os meus livros de dificuldades, e tenho quase dez. Não encontrei
nada a respeito.
Acionei o buscador Google, muitos sites de assuntos jurídicos expunham
a expressão, mas nenhuma explicação. Pelo menos, até
o sítio que suportei clicar.
Olhei os quatro volumes do surrado Caldas Aulete em minha estante, com aquele
pensamento: “Velho, você não vai me deixar na mão?”.
Em “calhar”, não encontrei nada, mas achei em “fiveleta”,
mas de forma incompleta. Lá estava “à fiveleta”: muito
à vista, muito a descoberto.
Se o verbo calhar significa coincidir, ser oportuno, então “calha
à fiveleta” tem o sentido de ficar muito oportuno, evidente, como
se “juntasse a fome com a vontade de comer”. Veja um exemplo: “Aqui,
calha à fiveleta a lição de Carlos Maximiliano, no sentido
de que ‘A interpretação da lei, não pode conduzir
a absurdos...’”
Parece que a consulente ficou satisfeita, pois não questionou e nem
fez novas indagações a respeito.
Mas não deixei de fazer minha ironia: “Desculpe, mas só
o mundo do Direito para usar expressão tão arcaica”. Seria
como a cronista social usar a frase: “afivelar malas”.
Internauta acrescenta informações
Caro Hélio,
Reporto-me a seu artigo sobre a expressão "calha à fiveleta". Isso porque muito recentemente gastei energias para buscar suas origens e, assim, como a leitora que lhe escreveu e como você mesmo disse, não encontrei nenhuma fonte clássica que abonasse seu uso. Não que esse fato proíba alguém de utilizá-la, verdade?
Mas acabei entendendo porque recentemente ela começou a ser utilizada mais amiúde. Ora, fiz a mesma pesquisa no Google, e as ocorrências foram todas de textos jurídicos. Mas essa de longe seria uma expressão do jargão clássico dos bacharéis em Direito. Juntando as pistas percebi que as publicações originais da expressão vêm dos livros do Prof. Celso Antônio Bandeira de Mello, reputado jurista contemporâneo, e que provavelmente deve tê-la colhido de regionalismos transmitidos oralmente. Mas a pretensão de muitos operadores do Direito de achar que são todos como Rui Barbosa e a idéia subliminar - aprendida talvez inconscientemente nas faculdades - de que escrever bem é usar frases incomuns fazem com que essa expressão ganhe espaço como se fosse uma jóia escondida da língua e com acesso a poucos iniciados!
Assim, professor, ouso discordar de sua conclusão de que essa seria uma expressão arcaica. É novinha em folha e anda sendo repetida, por poucos, em geral de forma desprevenida, gerando, desde já, corruptelas como "cair à fiveleta", "calhar a fiveleta" e a pior de todas: "cair a fiveleta".
Um grande abraço,
João Batista Barros da Silva Filho
Teresina-PI.
joao-iemp@uol.com.br
Hélio Consolaro é professor de Português, cronista
diário da Folha da Região, presidente da Academia Araçatubense
de Letras e coordenador do site Por Trás das Letras.