Sem rascunho não é possível
As várias versões de um texto:
Catar feijão
1.
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão, entra um risco:
o de entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quanto ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
(João Cabral de Melo Neto. Obra completa)
Após a fase de preparação por seminário, discussão, dramatização ou mesmo explicação da professora, elaborar o rascunho deve ser um caminho natural. A professora deve exigir a apresentação do rascunho anexo ao texto definitivo. Isso se faz ne-cessário para criar o hábito.
O aluno precisa saber o motivo da exigência e a utilidade do rascunho, pois tal fase é feita naturalmente pelo escritor, pelo jornalista, pelo advogado. Só os broncos e arrogantes dispensam o rascunho.
Precisa ficar bem claro para o aluno que o rascunho não é apenas uma exigência chata da professora, assim como ele precisa saber usá-lo. Se o aluno mecanicamente passa do rascunho para o texto definitivo, sem uma leitura crítica (sua ou de seu colega) ele de fato vai se tornar uma atividade enfadonha.
Como forma de educar o aluno para a feitura do rascunho, é bom pedir para cada um entregá-lo a um colega para que olhos estranhos procedam à revisão. Quando a redação é feita em casa, peça para o aluno "deixar o texto dormir", ou seja, só passar a limpo horas depois ou no dia seguinte. Assim, ele ganhará distanciamento crítico e descobrirá os erros que seriam despercebidos caso passasse o texto a limpo imediatamente.
A professora poderá também elaborar uma ficha de auto-avaliação, apontando aspectos que devem ser observados na revisão do rascunho. Ou, senão, a ficha usada de avaliação em grupo em sala de aula poderá ser usada como roteiro de auto-avaliação.
É importante a professora priorizar na avaliação de cada redação determinados aspectos nos quais os alunos têm apresentado maiores dificuldades. Por isso se diz que uma boa proposta facilitará a correção.
A importância do portador
É importante para o aluno ter um portador, ou seja, onde passar a limpo a última versão. Até mesmo ter um caderno só para passar a limpo todos os seus textos, formando um livro.
O texto só deve ser lançado no portador após a avaliação dos colegas e até da professora, pois a reescrita, consertando os erros apontados, é que vai proporcionar de fato a aprendizagem.
Seguir todas as fases da composição de um texto em sala de aula leva tempo, mas o seu resultado é promissor. Afinal, a criança entra na escola para aprender a ler e a escrever, por isso as aulas consumidas nesta tarefa não é perda tempo.
(Hélio Consolaro)