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CRÔNICA, APENAS UM BATE-PAPO
(Elaine Gonçalves Dias )

Universidade Federal Fluminense

Centro de Estudos Gerais

Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS)

Curso de Comunicação Social

Projeto Experimental apresentado por

Elaine Gonçalves Dias, matrícula 298.30.092-8

como requisito obrigatório para obtenção do

título de Bacharel em Comunicação Social

– habilitação Jornalismo – sob a orientação

do professor Afonso Henriques Neto

INTRODUÇÃO

Ao escolher a crônica como gênero jornalístico e literário e a obra do cronista Zuenir Ventura como tema do presente trabalho, não imaginava encontrar tanto material disponível sobre o assunto. Preciosidades como Cronistas do Rio, de Beatriz Resende; A crônica, de Jorge de Sá e A literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho e Eduardo de Faria Coutinho, simplesmente me surpreenderam. Sem contar os textos na Internet que também foram de grande utilidade para entender um pouco mais sobre esse gênero tão falado e tão indefinido.

O curioso é que, em uma vasta bibliografia, tem sempre alguém dando uma definição para a crônica – aquela encontrada, principalmente, nos jornais e revistas. Existe quem a considere subliteratura; outros, soma de jornalismo e literatura. Enfim, ela é mesmo um gênero não satisfatoriamente identificado, como diria o crítico literário Eduardo Portella. Todavia, perturbador, atraente e gratificante ao mesmo tempo.

A crônica trata dos mais variados assuntos, não importando tempo, espaço ou personagem. Na efemeridade das páginas de um jornal ou na eternidade de uma página de livro, ela está sempre ensinando alguma coisa, fazendo o leitor refletir, prestar atenção naquilo que, a princípio, parecia menor; apresentando uma realidade recriada. Com essa responsabilidade estão os cronistas – pessoas sensíveis, atentas, preocupadas em captar um breve instante e proporcionar ao leitor a cumplicidade, o diálogo e, sobretudo, a reflexão. Profissionais que não pretendem informar ou "contar" a história, embora possam fazê-lo. Mas, acima de tudo, formar e trazer a história para a vida de cada um de seus leitores.

O objetivo desta pesquisa é mostrar como atuam, em toda a elasticidade do verbo, os cronistas e mostrar como a crônica pode exercer papel fundamental na vida de um leitor, seja ele de jornal – portanto, mais apressado – ou de livro. Afinal de contas, ela ocupa um determinado espaço. Curto sim, principalmente nos jornais, mas com o intuito de tirar aquele público da passividade, pelo menos, de pensamento. A intenção do trabalho não é defender nenhuma tese, e sim, fazer uma pesquisa bem aberta e interessante sobre o gênero literário crônica.

O Capítulo 1 dá conta de alguns tópicos relacionados ao tema que esclarecem ou, no mínimo, instigam certa reflexão sobre a crônica, como gênero jornalístico e literário. Neste espaço são levantadas questões como a própria indefinição da crônica, a sua relação com a história, a sua origem, assim como sua função quando impressa em um livro ou em um meio de comunicação e sua importância como obra literária e jornalística. O papel e atuação de cronistas como Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga, por exemplo, também estão descritos nesta pesquisa e apresentados através de alguns dos textos destes autores. No entanto, ao se falar desses narradores do cotidiano, a intenção não foi fazer nenhuma biografia, mas mostrar como seus trabalhos contribuíram e ainda podem contribuir para a vida dos leitores.

No Capítulo 2 é feita uma análise de cinco crônicas de Zuenir Ventura, autor já consagrado pela mídia brasileira. Na verdade, menos uma análise, mais uma interpretação, que leva em conta tanto os aspectos estruturais como os de conteúdo. Os textos, reunidos em uma série de 82 crônicas, fazem parte do livro Crônicas de um fim de século, publicado pela Editora Objetiva em 1999. Com a leitura dessas obras, é possível observar como a crônica, através das características que lhe são peculiares, chama a atenção do leitor para a realidade. Uma realidade construída sob o ponto de vista do autor, que goza de plena liberdade estética e de conteúdo. Nada de formalidade. Com a leitura do livro em questão, o público vai poder refletir sobre as mazelas que assolam a cidade do Rio de Janeiro, só para citar um assunto; além, é claro, de conhecer um pouco mais sobre a sensibilidade, estrutura e personalidade dos textos de um dos maiores cronistas da atualidade. Dessa forma, pretende-se mostrar que a crônica, que é um gênero efêmero, quando impressa em livro vira um documento, um retrato fiel de uma determinada época.

Em anexo estão entrevistas feitas com pessoas extremamente ligadas ao tema. A intenção é enriquecer o trabalho, seja com opiniões que complementam, seja com opiniões divergentes; mas, sobretudo, esclarecendo sobre esse gênero tão fascinante, tão discutido, tão apreciado e tão usado ultimamente. O escritor e jornalista Zuenir Ventura; a escritora, professora e crítica, Beatriz Resende; o colunista do jornal O Estado do Paraná, Airo Zamoner, e o imortal da Academia Araçatubense de Letras, Hélio Consolaro, compõem a lista.

CAPÍTULO 1

A CRÔNICA

Saber um pouco mais sobre o papel da crônica como gênero jornalístico e literário é um dos principais pontos discutidos nesta primeira parte do trabalho. Incluem-se aí, observações como a indefinição, a história e o papel do gênero, quando apresentado em um veículo de comunicação ou em um livro. Os cronistas, é claro, não poderiam ficar de fora. Afinal de contas, como "historiadores das coisas miúdas", foram e ainda são de extrema importância para os leitores de um modo geral. Vale lembrar, no entanto, que a intenção não foi fazer uma biografia destes autores, e sim, mostrar a grandiosidade de suas atuações através de trechos de seus textos.

1.1. INDEFINIÇÃO SOBRE DEFINIÇÃO DA CRÔNICA

Existem muitas pessoas que, ainda durante o almoço, já estão pensando na sobremesa. A crônica funciona mais ou menos dessa maneira. Analogamente ela é o doce saboroso de um veículo de comunicação. Em meio a tantos assuntos cotidianos, ela aparece em jornais, revistas, rádio, TV e, mais recentemente, na Internet, como entretenimento, fazendo com que o leitor, ouvinte e espectador reflita e, ao mesmo tempo, relaxe. Alguns, como é o caso do professor e crítico literário Antonio Candido, embora falem da prática da crônica com simpatia, a consideram "texto menor"; outros, porém, como o professor e crítico literário Eduardo Portella, afirmam que a crônica assume uma importância literária enorme, sendo classificada como um gênero literário autônomo, específico. Em contrapartida, para Fernando Sabino a crônica não existe. O que existe é o cronista."

Soma ou não de jornalismo e literatura; texto menor ou gênero literário autônomo; existente ou não; a crônica tem algumas características visíveis e, talvez por isto, esteja cada vez mais atraindo leitores. Feita para ser publicada ou transmitida em veículos de comunicação, a crônica é uma narrativa curta como pede o jornalismo, possui um certo "despojamento verbal, que implica uma construção ágil, direta e sem adjetivações". O espaço reservado a esse tipo de texto é restrito e, possivelmente por esta razão, pode-se dizer que o gênero apresenta certa riqueza estrutural – um texto trabalhado sem ser muito prolongado. Em seu conteúdo estão os acontecimentos da vida cotidiana, os quais, à primeira vista, podem não ser significantes para qualquer pessoa. No entanto, na visão do cronista ganham sua devida importância. A carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei D. Manuel na ocasião do Descobrimento do Brasil "assinala o momento em que, pela primeira vez, a paisagem brasileira desperta o entusiasmo de um cronista, oferecendo-lhe a matéria para o texto que seria considerado a nossa certidão de nascimento. Ele recria com engenho e arte tudo o que ele registra no contato direto com os índios e seus costumes, detalhes aparentemente insignificantes".

Não importa se o assunto tratado na crônica é política, polícia ou esporte. O que vale no texto é o que o cronista capta em um breve instante – são os pequenos momentos que fazem parte da condição humana –, momentos estes, não copiados do real, mas recriados pelo autor e que possibilitam ao leitor aprender a ler na história "inventada ou recriada" a sua própria história, da qual ele mesmo faz parte.

Apesar de ser veiculada por meios de comunicação e considerada um gênero típico do jornalismo, seu objetivo não é jornalístico, e sim, como dito anteriormente, reflexivo. A crônica pretende fazer o leitor pensar sobre os mais diversos temas corriqueiros que, muitas vezes, escapam aos olhos do leitor comum. O subjetivismo do autor é marca registrada do gênero e o seu exercício é definitivamente o que vai aproximar o público do cronista. "Enquanto o jornalismo tem no fato o seu objetivo, seja para informar divulgando-o, seja para comentá-lo dirigindo a opinião; para a crônica o fato só vale, nas vezes em que ela o utiliza, como meio ou pretexto, de que o artista retira o máximo partido, com as virtuosidades de seu estilo, de seu espírito, de sua graça, de suas faculdades inventivas...É um gênero altamente pessoal, uma reação individual, íntima, ante o espetáculo da vida, das coisas, dos seres. O cronista é um solitário com ânsia de comunicar-se."

Embora as classificações e definições para o gênero sejam divergentes e, muitas vezes, um caminho perigoso por estreitar demais sua riqueza, vale apresentar algumas delas para que, só assim, reflita-se sobre sua função nos dias atuais do leitor e do escritor. A intenção aqui é pura reflexão, já que, como disse certa vez, Luis Fernando Veríssimo, a discussão sobre o que é, exatamente, crônica é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha: "Atualmente, crônica é um gênero literário que explora qualquer assunto, principalmente os temas do cotidiano. Geralmente escritas para serem publicadas em jornais e revistas — que, mais tarde, podem ou não ser reunidas em livro — as crônicas se caracterizam pelo tom humorístico ou crítico". (Enciclopédia Encarta 2000 - Microsoft®) "Alguém já disse que crônica é a literatura sem tempo. O trabalho que eu faço – a crônica – é justamente a junção da literatura (muito presente na obra de meu pai) e do jornalismo (minha especialidade). Outro ponto em comum é a informalidade com que eu e meu pai procuramos escrever nossos textos". (Luis Fernando Veríssimo) "Liberdade de criação no jornalismo. Gênero menor na literatura. A crônica é a própria inconstância. Na teoria, sabe-se dela o que ela não é e o que ela pode ser. Na prática, ela se define pelo estilo do autor, pelo tamanho e, por vezes, pelo veículo onde é publicada". (Gabriela Pessoto Galano em Trabalho de Conclusão de Curso - Baurunesp) "A crônica se destina à publicação em jornal ou revista. Por isso mesmo, já se pode deduzir que deve estar relacionada com acontecimentos diários. Se diferencia evidentemente da notícia, pois não é feita por um jornalista e sim por um escritor, mas se aproxima de sua forma. É o acontecimento diário sob a visão criativa do escritor. Seus personagens podem ser reais ou imaginários. Não é mera transcrição da realidade, mas sim uma visão recriada dessa realidade por parte da capacidade lírica e ficcional do autor. Normalmente, por se basear em fatos do cotidiano, ela tende a se desatualizar com o passar do tempo. Nem por isso deixa de perder seu sabor literário quando agrupamos um conjunto delas em um livro. O cronista é essencialmente um observador, um espectador que narra literariamente a visão da sociedade em que vive, através dos fatos do dia-a-dia". (Airo Zamoner) "A crônica não é literatura, e sim subproduto da literatura, e está fora do propósito do jornal. A crônica é subliteratura que o cronista usa para desabafar perante os leitores. O cronista é um desajustado emocional que desabafa com os leitores, sem dar a eles oportunidade para que rebatam qualquer afirmativa publicada. A única informação que a crônica transmite é a de que o respectivo autor sofre de neurose profunda e precisa desoprimir-se. Tal informação, de cunho puramente pessoal, não interessa ao público, e portanto, deve ser suprimida". (Rubem Braga)" "A crônica tem uma conceituação que os intelectuais chamariam de polissêmica, ou seja, possui vários sentidos. Daí ser fascinante. É definida como mero registro cronológico de acontecimentos, daí o nome crônica, que vem de Chronos, que é o Deus do Tempo. Ela seria o registro de um tempo. Tem vários sentidos: de resenha no jornalismo; de registro-comentado de acontecimentos gradativos na vida da cidade; de panorama da visão do mundo; dos costumes e idéias de um determinado tempo na crônica de escritores; do pequeno ensaio como um gênero próximo da crítica". (Artur da Távola)

A definição é indefinida e, às vezes, um conceito complementa ou nega outro. No entanto, uma coisa é certa: por todas as suas particularidades, como disse Vinicius de Moraes em seu texto O exercício da crônica, "o público não dispensa a crônica" e, agora, deixando de lado a "deliciosa sobremesa", "o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come". Mas esse é um outro assunto.

1.2. A HISTÓRIA E A CRÔNICA

Como fez Beatriz Resende em sua obra Cronistas do Rio, vale dedicar um breve momento à discussão sobre a relação entre crônica e história – cronistas e historiadores. Fato que será útil para sustentar os comentários feitos no Capítulo 2. Apesar de serem gêneros tão distintos, segundo a autora, é possível identificar certo grau de parentesco entre crônica e história. O primeiro, como já foi explanado, é uma narrativa leve que goza de plena liberdade por parte do autor que, por sua vez, está sempre selecionando, interpretando. O segundo, em contrapartida, seja por exigências acadêmicas ou por "balizas de método, da teoria e da pesquisa empírica de que sempre se faz uso", não se caracteriza pela plena liberdade narrativa, tampouco utiliza-se da subjetividade para ser praticado.

Então, o que será que aproxima esses dois gêneros? O primeiro ponto a ser destacado é a matéria-prima de que fazem uso os cronistas e os historiadores – o tempo. Um tempo cotidiano para os cronistas e um tempo mais abrangente para os historiadores. Outro ponto que deve ser ressaltado é o fato de a crônica poder ensinar ao historiador. Conhecido como "historiador das coisas miúdas", o cronista, através de suas observações, à primeira vista insignificantes, podem revelar aos historiadores pequenos indícios que, posteriormente, se transformariam em algo extremamente relevante. "Onde as gerações mais jovens descobrirão os segredos da Lapa, do Beco das Garrafas e de outros espaços da cartografia da boemia carioca senão nos cronistas? Em que outro documento será possível encontrar o cotidiano monumentalizado como na crônica? Não são muitas as fontes em que o historiador encontrará com tanta transparência as sensibilidades, os sentimentos, as paixões de momento e tudo aquilo que permite identificar o rosto humano da história." Se elas não têm objetivo jornalístico, ou seja, não visam transmitir informação, o compreender de suas entrelinhas pode trazer conhecimentos e, sobretudo, incentivar reflexões.

"A crônica e a história constroem memória; cronistas e historiadores são homens-memória", relata Beatriz Resende, ainda em seu livro. O cronista, com sua opinião pessoal e com o estabelecimento de um diálogo, defende em seus textos o que ele vê além das notícias triviais, fazendo com que o leitor vença suas limitações de olhar. Ele é um ser coletivo dentro da coletividade. O historiador, contudo, não deixa de revelar essa coletividade, mas o faz de maneira "menos" envolvente, principalmente porque não se comporta com se estivesse falando diretamente com o leitor. A distinção e a relação entre elas, leva a crer que talvez sejam primas distantes essa tal de crônica e essa tal de história. O que não se pode negar é que elas não podem e não devem ser analisadas separadamente.

1.2.1. A HISTÓRIA DA CRÔNICA

Como tudo que nasce, se desenvolve e cresce, a crônica tem uma história e é dela que vamos tratar resumidamente neste espaço. A intenção não é apresentar um bombardeio de datas e nomes, mas apenas situar o leitor nesse tema, especialmente no que concerne à sua prática no Brasil. Conforme descrito no site <http://geocities.yahoo.com.br/veluhdias/generoensaistico>, os escritores ingleses Joseph Addison e Richard Steele, fundadores do semanário The Tatler, em 1709, foram os primeiros cultores do gênero. Pequenos textos e artigos literários ou políticos, com reflexões morais ao gosto do novo público burguês, eram as crônicas típicas da época. O sucesso era tanto que os autores continuaram editando outras publicações da mesma espécie, popularizando o gênero em vários outros países europeus. Em 1800, o Journal des Débats, em Paris, deu início à publicação da crônica diária, mas somente em 1836, com a fundação de um jornal mais barato e popular, o La Presse, é que a crônica teve seu auge naquela cidade. Depois de Paris, foi a vez de Viena popularizar o que eles, assim como os parisienses, chamavam de feuilleton (folhetim). No fim do século XIX, os jornais italianos destinaram à crônica uma página inteira, tendo como um de seus principais cronistas o italiano Edoardo Scarfoglio.

No Brasil, a crônica também teve desenvolvimento digno de uma boa história. Há quem considere a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, encontrada em 1773 na Torre do Tombo, como a primeira crônica de que se tem notícia, uma vez que o autor registra e relata fielmente as circunstâncias do Descobrimento. Não há quem negue essa teoria, mas desde a leitura dessa carta até os dias atuais, "a literatura brasileira passou por várias etapas, percorrendo os caminhos de um processo que procurava, como ponto principal, alcançar o abrasileiramento das nossas letras".

É nesse contexto que tem lugar Paulo Barreto (1881-1921), o então famoso escritor sob o pseudônimo de João do Rio que, posteriormente a Machado de Assis, Quintino Bocaiúva, José de Alencar, entre outros, e tal como eles, fez história no mundo da crônica brasileira. No seu tempo, os jornais contavam com o folhetim – ou seja, um artigo de rodapé em que eram publicados pequenos contos, poemas em prosa, ensaios breves –, uma seção que informava-os tudo sobre as questões do dia ou da semana. Com a modernização da cidade, João do Rio vê a necessidade de mudanças no comportamento dos jornalistas. Ele, então, vai às ruas e vivencia, experimenta situações que o possibilitam escrever um texto com mais vida. João procura adaptar sua percepção ao ritmo do progresso, de que a cinematografia e o automóvel eram carros-chefe por volta do ano de 1908, no Rio de Janeiro. Foi o primeiro passo para que a crônica moderna ganhasse uma roupagem mais literária e poética. Como defendeu Jorge de Sá, em seu livro A crônica: "em vez do simples registro formal, o comentário de acontecimentos que tanto poderiam ser do conhecimento público como apenas do imaginário do cronista, tudo examinado pelo ângulo subjetivo da interpretação, ou melhor, pelo ângulo da recriação do real."

Para Antonio Candido, a década de 1930 foi o período de consolidação da crônica moderna no Brasil, em que se afirmaram muitos escritores e jornalistas como, por exemplo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga – este último, único escritor que se dedicaria exclusivamente ao gênero. O Rio de Janeiro, mesmo depois de perder a condição de capital nacional, em 1961, não deixaria de ser o alvo predileto desses escritores, tanto para se viver quanto como tema de seus escritos. Fernando Sabino, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, e muitos outros, viriam a escrever seus nomes nos capítulos seguintes da história da crônica, muitos deles extremamente atuantes nos dias atuais.

1.3. CRONISTAS

Escrivão do Cotidiano, Prosador do Cotidiano, Historiador das Coisas Miúdas, Marginais da Imprensa, Página em Branco, à espera de resposta; Arqueólogo da Rotina; Espião que nos passa o segundo da existência de uma mesma mensagem codificada; Porta-voz de um minuto precioso ... Se falta uma definição clara e objetiva para a crônica, não faltam denominações ou comparações para quem as faz. Todos – não importando a época em que atuaram ou atuam – meditam, pesquisam, estudam, conhecem, vivenciam, experimentam; e a crônica é a forma pela qual esses cronistas "traduzem de maneira econômica e simples o eterno existente em cada efêmero, montando, dessa maneira, o mosaico do seu tempo". E, ainda, vale acrescentar: apresentando, sempre em um texto bem elaborado, a essência humana, seja na abordagem da alegria de uma festa popular como o carnaval, ou falando sobre uma injustiça cometida contra uma criança.

Autor brasileiro a obter projeção unicamente com as suas crônicas, Rubem Braga, por exemplo, possui em sua vasta obra, crônicas variadas tanto em relação à técnica narrativa quanto à descritiva. Nelas, como disse certa vez o tradutor e assistente editorial, Rogério Hafez, o "eu" que narra e descreve costuma refletir liricamente, de um modo subjetivo e emotivo, sobre a sua experiência, a passagem do tempo e dos seres, os momentos mais densos que viveu, revelando sempre um painel de graças e desgraças da cidade (Rio de Janeiro) e do país. Só para ilustrar e saber como funciona o trabalho de um cronista, vale visitar, de passagem, a crônica O telefone, em que Rubem recorre ao lirismo e à ironia para tratar da nacional e desumana democracia das empresas de serviço público, que não dão aos cidadãos a atenção devida. Nesse pequeno trecho da carta escrita por Braga ao senhor diretor da Companhia Telefônica, o autor "faz uma denúncia" desse descaso. Percebe-se alguma semelhança, ou será mera coincidência com o presente?

"Quem vos escreve é um desses desagradáveis sujeitos chamados assinantes; e do tipo mais baixo; dos que atingiram essa qualidade depois de uma longa espera na fila. Não venho, senhor, reclamar nenhum direito. Li o vosso regulamento e sei que não tenho direito algum a não ser pagar a conta. (...) Enfim, senhor, eu sei tudo; que não tenho direito a nada, que não valho nada, não sou nada. Há dois dias meu telefone não fala nem ouve, nem toca, nem tuge, nem muge. Isso me trouxe, é certo, um certo sossego ao lar. Porém amo, senhor, a voz humana; sou uma dessas criaturas tristes e sonhadoras que passa a vida esperando de repente que a Rita Hayworth me telefone (...) para gastar com o velho Braga o dinheiro de sua herança (...) Mas batem à porta. Levanto o escuro garfo do magro bife e abro. Céus, é um empregado da Companhia! Estremeço de emoção. Mas ele me estende um papel: é apenas o cobrador. Volto ao bife, curvo a cabeça, mastigo devagar, como se estivesse mastigando meus pensamentos. (...) O telefone continuará mudo; não importa: ao menos é certo, senhor, que não vos esquecestes de mim."

Por sua vez, Paulo Mendes Campos coloca a poesia como suporte de suas crônicas. Para ele, descrever um objeto não é suficiente. Examinar, recriar e buscar a sua essência é o que Campos faz em seus textos. Para manter a cumplicidade com o leitor, o cronista vai longe, rompe conceitos e busca exatamente aquilo que caracteriza a poesia: a imagem. Na crônica Copacabanaipanemaleblon, publicada em 1980, o cronista mostra, mais do que isso, dá condições ao leitor de ver que a cidade está se deteriorando, razão do progressivo êxodo intra-urbano entre as décadas de 1940 e 1980.

"No princípio era Copacabana, a ampla laguna dos poetas, dos pintores e das prostitutas, três pês que parecem andar juntos há muito tempo por toda parte. O Alcazar do Posto 4 era tudo em nossa vida: o bar, o lar, o chopp emoliente, a arte, o oceano, a sociedade e principalmente amor eterno/casual (...) Getúlio Vargas fora deposto. A partir daí, Copacabana, começando a perder o espaço e o charme, foi adquirido uma feição anônima de formigueiro tumultuado."

Um aspecto interessante para mostrar como os cronistas têm papel importante na demonstração e percepção da história de uma cidade é o fato, entre muitos outros, de Carlos Drummond de Andrade ter sido atuante intelectual à frente do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPAN) durante quase duas décadas, de 1945 a 1962. Drummond exibe seu inconformismo diante do desaparecimento do edifício Elixir de Nogueira, situado na Rua da Glória, no Rio; saúda os extintos Parc Royal, Cinema Alhambra e a loja O Camiseiro; enfim, revela "a sua identificação com as coisas que estão dentro da vida carioca".

"Peço à musa da crônica uma nênia* pela morte de O Camiseiro. Uma casa tão popular, tão dentro da vida carioca durante quase meio século, não pode acabar assim, sem o acompanhamento sentimental de uma coroa de palavras".

"(...) Tudo. Fui incendiado com o Parc Royal e com o Cinema Alhambra; tive pesadelos de madrugada com o prédio Elixir de Nogueira; demoli-me com a Praça 11 e reverdeci nos jardins de Botafogo; estou sempre em construção, demolição, reconstrução (...)."

O tema? Ah, este está em todos ou em nenhum lugar: nos jornais do dia, nos fatos da própria vida do autor, nas conversas que se ouvem ou, até mesmo, na falta de assunto. E como foi visto nos trechos acima, a temática varia de acordo com o autor. Portanto, não importa o estilo que cada um apresente, sua personalidade, tampouco o assunto que os cronistas abordam. O texto que traz o "eu" que fala por todos pode ser poético, pode ser meramente narrativo, pode ser descritivo. Pode ser escrito por autores eufóricos, vaidosos ou modestos. Pode tratar de tristeza ou alegria. Na crônica, o cronista tudo pode, na intenção sempre de registrar a vida contemporânea, olhar o mundo ao redor e manter uma cumplicidade com o leitor, manter aquela conversa. Como saber se este diálogo está produzindo eco? Muito fácil. Especialmente nos dias atuais, em que a Internet está aí para, entre outras coisas, manter esse contato entre cronista e leitor. Mas ainda que no tradicional: nos comentários de uma turma reunida, por telefone ou quando se encontra o autor.

1.4. LITERATURA X JORNALISMO

Houve um tempo em que os meios de comunicação se constituíam majoritariamente de escritores. Mas, como diz Fernando Sabino, a imprensa mudou, e muito. Antes, jornalista e escritor se confundiam. Agora, não mais, já que o jornalismo exige uma formação específica. E aí vai uma explicação: os escritores que povoavam as redações não podiam viver da publicação de livros, portanto, recorriam aos jornais. A crônica foi um meio de sobrevivência para esses escritores, que – como Clarice Lispector, Machado de Assis, José de Alencar e Arnaldo Jabor, só para citar alguns –, usaram e abusaram do gênero. Segundo o professor, jornalista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras, Helio Consolaro, a crônica foi o que sobrou de literatura no jornal depois que, para ser jornalista, houve a necessidade de um diploma. Os escritores sumiram e os cronistas, na sua concepção, são vistos como elementos estranhos nas redações. Um mal necessário; o que Vinicius de Moraes chamaria de "Marginais da Imprensa".

Talvez Helio tenha sido um tanto radical em suas palavras. Mas em uma coisa ele tem razão: os cronistas são necessários. Em meio a tantas notícias veiculadas no rádio, em jornais, revista, televisão e Internet, fatos nus e crus, como viver sem o auxílio da interpretação desses profissionais? Afinal de contas, são eles que chamam a atenção do leitor para o lado do noticiário que o cidadão não percebeu. E aí, vale destacar: com a apresentação de textos bem trabalhados. Mais alguma coisa, ou está provada a enorme contribuição desses intelectuais da palavra escrita para com o jornalismo? Será que nesse ponto já se pode chamar a crônica de "soma de jornalismo e literatura", como sugere o autor Jorge de Sá em seu livro A crônica?

Quanto ao apelido de "gênero menor", cabe aqui um protesto. Por ter uma linguagem simples, leve, informal, que se aproxima do ser natural do leitor, não quer dizer que a crônica seja subliteratura. E, nem mesmo o fato dela ser curta, pode dar razão a tal consideração. Pelo contrário: o limite de espaço é que faz o gênero possuir riqueza estrutural. Antonio Candido que desculpe, mas se é tão menor assim, como explicar a tamanha atração de leitores por esse gênero? E como explicar a invasão da crônica em tantos meios de comunicação?

1.5. EFEMERIDADE X ETERNIDADE

Como já dito, a crônica, em sua gênese, foi feita para ser veiculada em um meio de comunicação. No entanto, é comum, posteriormente, alguns cronistas reunirem seus textos em um livro. E aí a discussão vai longe. Terá a mesma função, surtirá o mesmo efeito no leitor a crônica publicada em um jornal e, em seguida, em um livro?

As opiniões divergem: há quem afirme que, com a transferência das crônicas para o livro, os textos adquirem mais independência e se tornam mais duradouros. Idéia concebível frente à eliminação de referência às matérias jornalísticas veiculadas na ocasião. Neste caso, a ligação entre leitor e autor seria mais próxima, uma vez que o público, antes apressado e descompromissado, se transformaria em um leitor, diga-se, "por opção". Outros, porém, acreditam que essa transposição possa gerar perda de essência dos textos. Ainda para estes: jamais, por mais que se tente selecionar as crônicas a serem impressas, estas cairiam de uma hora para outra no esquecimento e perderiam o caráter de prosa fiada. Como se não bastasse, há quem garanta ser necessária essa transferência, uma vez que, em seu veículo original –, como afirmou o escritor e professor Jorge de Sá –, a crônica "corre o risco de ser sufocada pelas grandes manchetes ou confundir-se com o contexto da página em que é publicada".

O fato é que, mudando o suporte, muita coisa muda também. Primeiro, o público. Se antes ele era apressado e lia as crônicas nos intervalos entre um trabalho e outro ou, durante sua locomoção, agora o público se torna mais reflexivo e tem a possibilidade de escolher o momento da leitura e o autor que mais aprecia. Segundo, a atitude. O leitor, ao ler uma crônica impressa em um livro, vai ter que buscar dentro de si associações que o façam entender as entrelinhas daquele contexto, uma vez que as referências jornalísticas não mais estão presentes. Neste caso, a cada leitura pode nascer uma nova interpretação. Terceiro, a amplitude do texto. Não em termos físicos, mas em aspectos literários e de percepção do próprio leitor, que pode, até mesmo, conhecer melhor as particularidades de um determinado autor. Quarto, o campo de divulgação. O livro alarga essa área, apesar de não ser correto – como defende o professor, crítico literário e ensaísta, Afrânio Coutinho – pensar que o livro é o que dá a qualificação definitiva à palavra escrita. Ocorre que o suporte é o menos importante aqui. A localização da crônica nele é que requer do leitor a devida atenção para uma leitura mais apressada, mas nem por isso menos reflexiva; ou mais particular, levando em consideração mais características, como, por exemplo, a personalidade do autor.

CAPÍTULO 2

CRÔNICAS DE UM FIM DE SÉCULO

Neste capítulo o leitor encontra uma análise de cinco, dos 82 textos reunidos no livro Crônicas de um fim de século, de Zuenir Ventura. A publicação, de 1999, pela Editora Objetiva, apresenta crônicas do autor publicadas originalmente no Jornal do Brasil, em O Globo e na revista Época, entre os anos de 1995 e 1999. Organizado em cinco blocos temáticos, o livro trata de questões recorrentes na obra do autor e que, de alguma maneira, estavam presentes na vida de cada leitor naquele fim de século – talvez o fim do mundo, frente à quantidade e à gravidade de problemas no Brasil e fora de dele. Essas questões ainda estão presentes na vida desses cidadãos, visto que, desde a publicação do livro até agora, ainda há muita coisa a ser resolvida; e com certeza, neste período surgiram muitos outros problemas. Há nessas crônicas "o testemunho de uma crise global – do mundo, do país e da cidade, crise econômica, política, financeira, moral".

O primeiro bloco, intitulado Alto, moreno, careca, procura, é composto por crônicas pessoais do autor, em que ele revela seus conflitos e prazeres: mostra ao leitor um pouco mais de sua intimidade. O segundo, Tempos e contratempos pós-modernos, inclui textos sobre uma sociedade às voltas com as novas tecnologias de comunicação e suas conseqüências sobre o comportamento das pessoas. O terceiro bloco, sob o título de Como se choca o ovo da serpente, dá conta de temas como os conflitos de um país que teima em não dar certo. O atribulado mundo dos seres urbanos é o quarto bloco, que reúne textos sobre as cidades, principalmente sobre o Rio de Janeiro – assuntos que orgulham ou envergonham. Na última parte, Zuenir presta homenagem a personagens de nossa história, vivos ou mortos, entre eles, Fernanda Montenegro e Darcy Ribeiro. Portanto, o nome: Dos vivos e dos mortos. As crônicas presentes no livro foram selecionadas pelo autor e pela diretora da Editora Objetiva, Isa Pessôa.

Com a leitura de Crônicas de um fim de século, além de conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Zuenir, o leitor pode lembrar ou conhecer fatos e pessoas importantes da história, bem como aprender com o texto elaborado do autor. Se é verdade que o brasileiro tem memória curta, a leitura dessa obra pode ser de grande utilidade – não para se obter informações de uma determinada época, mas para se entender, pelo olhar atento do autor em questão, e pela interpretação que se faz daquele texto, como se processa a história de um país, através, é claro, de detalhes que a princípio parecem insignificantes. O que Zuenir quer mostrar com essas crônicas, agora publicadas em um livro? Ele quer dizer que não se deve esquecer tão facilmente do episódio protagonizado pelo ex-político Sérgio Naya; que de Canudos a Eldorado de Carajás, a história continua; ainda mostra o que representou o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, na vida de muita gente...Como afirmou o jornalista e poeta Heitor Ferraz, em artigo da revista Isto é Gente, de 8 de novembro de 1999, "a crônica, que é um gênero efêmero, quando é impressa em livro vira um documento, um retrato fiel de nossa destrambelhada época".

As análises a seguir são interpretações pessoais de uma leitora – não diria comum, mas alguém que pretende se transformar em uma profissional de comunicação. Vale lembrar que as análises não se esgotam aqui, visto que cada leitor considera suas próprias referências para fazê-las. Dessa maneira, uma crônica de cada bloco será comentada, sob o ponto de vista estrutural, levando em conta sempre o período e a mensagem que o autor tem a passar para o público. Espera-se, com isso, mostrar que, apesar de tratar de um determinado momento, esse gênero caminha para o atemporal, podendo, a cada leitura, chamar a atenção para uma realidade (que passou, que continua ou que tende a perdurar). Outra intenção seria apresentar um pouco sobre o trabalho de um mestre das crônicas atuante na mídia.

2.1. Um idoso na fila do Detran (07/09/96)

"´O senhor aqui é idoso’, gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão na porta do Detran da Avenida Presidente Vargas, apontando com o dedo o tal "senhor". Como ninguém protestasse, o policial abriu caminho para que o velhinho enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira.

Olhei em volta e procurei com os olhos o velhinho, mas nada. De repente, percebi que o idoso que a dama queria proteger do empurra-empurra não era outro, senão eu.

Até hoje, não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos "enta"; dos 50, quando, deprimido, se sente que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na "terceira idade". Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de "idoso", ainda mais numa fila do Detran.

Na hora tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo de lhe dizer: "Idoso é o senhor seu pai". O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem me pediu pra ver minha identidade? E o guarda paspalhão, por que não criou caso, exigindo prova e documento? Será que era tão evidente assim?

Como além de idoso eu era recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: "Esse coroa tá furando fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!". Mas que nada, nem um pio.

O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima – do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: "Isso é uma sacanagem comigo", me disse, "eu não mereço". Há poucos dias, ao revelar a minha idade, uma jovem universitária reagira assim: "Mas ninguém lhe dá isso". Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me "dar" um pouco menos.

Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: "Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas". Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: "O senhor não tem mais de 65 anos, não é idoso?".

– Não, sou gestante – tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: "Não tenho mais, tenho só 65 anos."

O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. "Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15", já ouvi essa discussão.

Enquanto espero ser chamado, vou tentando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Aí se não me falha a memória – e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade –, me lembro que Fernando Henrique Cardoso, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, entre companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais na fila do Detran, ou estão quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Jânio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou outro – de ano, meses ou dias, – e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.

Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? "No Detran", diz uma voz. Ah, sim. "E o atendimento?". Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar na fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade."

A crônica acima faz parte do primeiro bloco de textos do livro de Zuenir: trata, portanto, de um drama pessoal do autor – sua chegada aos 65 anos. Neste caso, será que Rubem Braga estava certo quando definiu que "a crônica é a subliteratura que o cronista usa para desabafar perante os leitores. O cronista é um desajustado emocional que desabafa com os leitores, sem dar a eles oportunidade para que rebatam qualquer afirmativa publicada." É possível que não, pois esse desabafo, feito em um texto carregado de humor, é que aproxima o leitor cada vez mais do cronista. Como diria Carlos Heitor Cony, "nada menos jornalístico, nada mais churrascaria. Antes de ser um leitor, o consumidor de jornal é um ser humano tornado carente pela solidão, pelo egoísmo (próprio e alheio), pelo nenhum sentido da sociedade como um todo. Quando um cara tem coragem de gritar que está sofrendo, fatalmente encontra alguém que o compreenda e, algumas vezes, o ame. Isso não apenas dá samba. Dá crônica também". Portanto, trata-se de um texto que dialoga com o leitor, que busca sua cumplicidade.

Aqui vale uma parada: em entrevista feita com o autor, ele conta que há pouco tempo fora convidado para uma conferência sobre geriatria e gerontologia, na própria cidade do Rio de Janeiro, onde deveria fazer uma palestra. No entanto, não sabia disso. Para ele, sua presença marcaria um momento de bate-papo, em que contaria suas experiências como idoso, enfim... "Quando soube que teria que fazer uma palestra, entrei em pânico. Mas, como faltava pouco tempo para começar minha participação, tive que arrumar um jeito. Lembrei da crônica do Detran. Foi a minha salvação. Quando a li para o auditório lotado e a comentei, o sucesso foi total. Todos riam e compartilhavam comigo aquele momento por que passei há algum tempo", lembrou Zuenir Ventura, que hoje desfruta de seus 71 anos.

2.2. UMA CAPITU DA ERA DO CELULAR (21/10/95)

"Há tempos, quando estava começando a febre dos celulares, escutei o seguinte diálogo na sala de espera do aeroporto de Congonhas em São Paulo. De um lado, do lado que eu via e ouvia, estava uma bela executiva de uns 35 anos, sob evidente suspeita de adultério. Do outro lado, era fácil pressupor o marido desconfiado. Jovem senhora:

– (...) então telefona pro hotel. Liga pro 10º andar, manda chamar a arrumadeira...

–?!

– Pois é, já que você duvida de mim, faz isso: manda ela ir ao quarto 1.002 e olhar a cama. Pergunta a ela – ela vai te dizer como a cama está, se está desarrumada. Você vai ver que um dos lados está intacto: travesseiro, lençol, tudo.

A transcrição da conversa, que demorou mais tempo, talvez não dê idéia do que se tratava. Eu mesmo custei a entender. Tratava-se de uma mulher tentando provar de forma muito original que não dormira em pecado. Mas o que mais me estarreceu naquele incrível papo não foi nem o argumento usado, nem o poder de convencimento da bela dama, mas sua naturalidade, sua despreocupação com o fato de as cinco ou seis pessoas em volta estarem ouvindo uma discussão tão íntima e desconfortável; em nenhum momento ela teve o cuidado de baixar a voz.

(...). Naquela manhã eu assistia ao exemplo gritante de uma revolução que se chama de "silenciosa". Via, ou melhor, ouvia com, os ouvidos que a terra há de comer, o que essa praga, o celular, é capaz de fazer: além de acabar com o pudor e a privacidade, além de devassar intimidades, mais do que sinal exibicionista de status, o diabólico aparelhinho tinha inaugurado para mim um novo tipo de voyeurismo, o voyeurismo de ouvido. Durante o telefonema, tive vontade de mandar cessar os vôos, de pedir silêncio no hall para continuar ouvindo a excitante conversa. Entendi então por que o negócio dos sexy-fone dá dinheiro.

Tudo isso me veio à cabeça ao descobrir que Ziraldo acaba de inventar o que chama de fax-papo. Todas as madrugadas, depois que pára de trabalhar, "tudo fica silencioso, linhas funcionando bem", ele resolve conversar com os amigos por fax – com Jaime Lerner, Jô Soares, Pedro Malan, e a lista não tem fim.

Ele acha que é melhor que a Internet, inclusive porque mantém o papel como velho e agradável suporte da leitura. Além do mais, "o faxeador não pode ser considerado um chato. É só você não ler o fax dele", argumenta – por fax, claro. Umberto Eco já disse que o que vai salvar a escrita é o computador. Ziraldo acrescenta que é o fax.

O mais engraçado é como ele faz tudo isso. O mais internacional dos nossos cartunistas é mesmo a cara do Brasil. Entrou na era da tecnologia de maneira tão dissonante e assimétrica quanto o país, que, como se sabe, às vezes é Primeiro Mundo e às vezes Quarto. Ziraldo se dedica à "comunicação do futuro" sem computador. Ele faz tudo isso – e mais os desenhos, livros, cartazes, etc, – usando uma velha Olivetti Línea 98 – daquelas que dão calo nos dedos, fazem barulho e têm um carrinho que às quatro da madrugada devem pesar uma tonelada."

Neste texto, que integra a segunda parte de sua obra, Zuenir escreve sobre tecnologia e comportamento, a partir de uma conversa que ouviu. Pelo visto, o cronista não descansa nunca, está sempre em busca de um tema. Qualquer detalhe pode ser altamente significante. "O caso é que já estou condicionado a saber o que dá uma crônica ou não", afirma o autor, confessando que o mais difícil em se fazer uma crônica é eleger um tema.

Voltando ao texto em si, observa-se que o profissional fala de "voyerismo de ouvido", usando o celular como objeto de um dos temas da crônica. De forma associativa, fala também do amigo e de seu fax. Zuenir mostrou que a tecnologia, seja ela avançada (celular) ou mais atrasada, influencia no comportamento das pessoas e as faz tomarem posições. Quanta coisa, quanta relação. Simplesmente, em um curto espaço, Zuenir conseguiu confeccionar uma obra elaborada, cheia de sentido e que prende a atenção do leitor. E o título? Associou a Capitu, de Bentinho – personagens de Machado de Assis – à mulher do aeroporto, supostamente adúltera. A mensagem? Ah! Como é bom observar as pessoas, conhecê-las – suas manias, seus modos...ser um voyer do cotidiano.

2.3. DE CANUDOS A ELDORADO DOS CARAJÁS (20/04/96)

"Há na exposição Canudos rediviva, no Centro Cultural Banco do Brasil, um quadro intitulado Em busca da terra prometida, o primeiro que se vê ao entrar. Ele mostra um grupo de romeiros de Antonio Conselheiro carregando enxadas, paus, pás, ancinhos e foices. Depois, uma série de pinturas dramáticas e expressionistas descrevem o delenda Canudos, a batalha final e o massacre dos beatos.

Esses quadros poderiam estar nos jornais desses últimos dias, assim como algumas fotos de primeiras páginas caberiam na exposição. Se fosse um filme, as cenas antigas poderiam ser fundidas com as imagens dos romeiros de José Rainha.

Canudos e Eldorado dos Carajás parecem fazer parte do mesmo roteiro – e de certa maneira fazem, com a diferença de escala e a distância de 100 anos entre os dois episódios trágicos. Só não é uma farsa porque não se trata da história se repetindo, mas continuando, inconclusa, incurável, como um mal crônico e recidivo.

"Canudos e Antonio Conselheiro trazem à tona, velada pelo misticismo, a questão da terra. Seus nomes anunciam o retorno do reprimido porque representam um problema não equacionado", diz o texto assinado pelo CCBB, apresentando a exposição que relembra o centenário de um dos mais violentos surtos psicóticos de nossa História.

Pode-se apontar várias diferenças entre os dois 96 – o do século passado, de messianismo religioso, e o de agora, de voluntarismo político. O primeiro, envolvendo 25 mil miseráveis, teve pelo menos grandiosidade, foi um épico – exemplo, matriz e metáfora.

O país agora ficou mais mesquinho e parcimonioso; não produz chacinas como antigamente, naquela escala extraordinária, de dimensões épicas. Hoje, prefere fabricá-las rotineiramente, no varejo, em pequenas partidas: um dia na Candelária, no dia seguinte em Vigário Geral, outro em Carandiru ou Corumbiara, num fim de semana na periferia carioca ou paulista. Como diz o poema de João Cabral, Morte e vida severina: "Como aqui a morte é tanta/Vivo de a morte ajudar."

(...). As chamadas consciências críticas se levantaram, todo mundo gritou. (...) O presidente da República, com espanto de estrangeiro, classificou o massacre de "inaceitável" e "lamentável", como se pudesse dizer o contrário. Ele convocou o país "à reflexão", sem informar como é possível fazer isso agora. Garantiu que "dessa vez os culpados serão julgados mesmo", anunciou que "chegou a hora de darmos um basta nisso tudo" e se referiu à "incompetência das forças que asseguram a ordem."

Não se pode duvidar da sinceridade do presidente, mas não se pode deixar de desconfiar também da ineficácia dela. Não precisa ser profeta como Antonio Conselheiro, nem sociólogo como Fernando Henrique para saber que, com a política fundiária do seu governo, com o lugar que a reforma agrária ocupa dentro de seu projeto de reformas, um dia isso ia acontecer, como um dia voltará a acontecer. Uma pedagogia perigosa parece avisar que o sertão não vai virar mar – vai virar cada vez mais um oceano de violência."

De Canudos a Eldorado dos Carajás funciona bem como uma denúncia. A partir de uma exposição sobre a saga de Antônio Conselheiro, à que assistiu no CCBB, Zuenir faz uma relação com o ocorrido em 1996 – o caso Eldorado dos Carajás. A questão da terra ainda não foi solucionada no Brasil e promete mais e mais brigas e lutas por sua conquista, principalmente se governantes como Fernando Henrique Cardoso e "posteriores" continuarem a tratar esse caso somente como "inaceitável, "lamentável". Zuenir aproveitou, ainda, em seu texto para lembrar de episódios como a chacina da Candelária e a de Vigário Geral – violências que, na terra ou na cidade, devem ser contidas para que uma nova Canudos não ressurja. Embora a epopéia seja, em nossa história, um patrimônio das massas do campo e uma glória do movimento revolucionário pela sua libertação, espera-se que nada parecido se repita. Por que será que a lembrança ainda não serviu de lição?

2.4. A TERRA DA PERMISSÃO (27/03/99)

"Numa cidade como o Rio, que vive de mãos ao alto, é sempre bem-vinda uma iniciativa como a do"Abaixe Essa Arma". Ao mesmo tempo, tratando-se de uma Terra permissiva, de tolerância máxima com as transgressões, a campanha corre o risco de obter uma eficácia mais simbólica do que real, como aconteceu há alguns anos durante um movimento parecido, quando até traficantes entregaram suas armas – as obsoletas e as de que não precisavam mais, evidentemente.

Sabe-se que agora há pelo menos uma diferença: o governo não só está empenhado na campanha, como espera mobilizar a sociedade e envolvê-la nessa santa cruzada do desarmamento. De qualquer maneira, a luta não será fácil porque, para evitar o risco do fracasso, a primeira batalha deve ser ganha contra a própria lei.

"Inconstitucional é andar armado matando pessoas por aí", disse com razão o governador ao lançar a campanha. Mas ele vai ter que convencer a Justiça disso, quando começarem a chover as ações invocando o direito de andar armado. Parece mentira, mas não apenas os bandidos, também a legislação é a favor do armamento.

(...). E não menos importante que tudo isso, desarmar os espíritos e as mentalidades, armados até os dentes de maus hábitos. Nenhuma campanha contra a Cultura da Violência terá sucesso se não atacar também, a exemplo do que ocorreu em cidades como Nova York, os chamados "pequenos delitos" – aquelas transgressões aparentemente insignificantes e rotineiras, que parecem não fazer mal a ninguém, mas cujo acúmulo formam o que no Rio ficou conhecido como a Cultura da Bandalha.

A todo momento, em qualquer esquina, em qualquer rua, observam-se manifestações dessa cultura, para a qual a sociedade tem tolerância 100, até porque é ela mesmo que a pratica.

Querem alguns exemplos?

No calçadão de Ipanema, uma senhora com um pooddle recolhe num pequeno saco plástico o que o cachorrinho acaba de fazer. O jovem com seu pit-bull (ou rotweiller?) olha espantado enquanto espera que o seu cachorrão acabe de fazer o mesmo em maior quantidade. Não só não lhe passa pela cabeça imitar a senhora, como olha pra mim procurando cumplicidade: "Tem cada maluco nessa cidade!", comenta balançando a cabeça, incrédulo.

Para esse jovem porcalhão, uma pessoa que recolhe com uma pá o que ele acha natural deixar sobre a calçada para sujar os pés dos outros só pode ser maluca. O equilibrado é ele.

(...). A moça espera disciplinadamente que o sinal abra, ainda que não venha nenhum carro que a impeça de avançar. O motorista de trás, impaciente, faz uma rápida manobra, ultrapassa a jovem e grita: "Pensa que tá na Suíça, perua?".

Se por acaso pensava, naquele momento ela descobriu o engano. Estava na Terra da Permissão, diante do mais legítimo espécime da Cultura da Bandalha."

Transportando esta crônica de três anos atrás para os jornais de hoje, assim como sugeriu Zuenir em sua crônica sobre Canudos, não se estaria cometendo nenhum equívoco. Aí a razão do subcapítulo A história e a crônica (1.2.). A história não só se repete, mas permanece – motivo pelo qual vale a crônica. Mudam os lugares, os personagens, mas as situações são sempre as mesmas: no novo século, o Rio de Janeiro continua vivendo dias de tensão: a morte do jornalista Tim Lopes, os ataques a prédios públicos, a dominação nas favelas... Parece que Nostradamus não preveu este fim dos tempos, em pleno ano 2002.

E então Zuenir se reporta com muita sensibilidade – novamente com uma prosa simples, de quem conversa com o leitor – ao que ele chama e ao que se conhece por Cultura da Bandalha, dando exemplos. Como lidar com "macacos velhos" (traficantes, assassinos), sem ao menos saber lidar com comportamentos corriqueiros de gente mal-educada? Alertar para essa história que persiste, mas que precisa ser mudada, é uma das principais preocupações do cronista quando escreve um texto como o transcrito acima. Parte do quarto bloco do livro Crônicas de um fim de século, é um dos que pretendem expor as mazelas e maravilhas das cidades, tendo à frente o Rio.

2.5. APENAS UM BRASILEIRO DESCRENTE (16/01/98)

"A cidade parecia que ia submergir depois de meia hora de chuva, quando o motorista de táxi comentou: "O senhor se lembra que, com aquelas obras da Prefeitura, o Rio não ia mais encher?" Num sinal, o carro não andava, boiava. Acabou seguindo e ele continuou falando. "E essa é só a primeira chuva".

A enchente era pretexto para ele desenvolver a tese de que a falta de memória do povo é que é responsável pelas desgraças do país. "Não é a corrupção?", provoquei. "Não, é o esquecimento. Só tem corrupção porque a gente esquece, esquece de tudo. O homem que fez aquela promessa do Rio sem enchente vai ser eleito governador, o senhor que apostar?"

Bom ouvinte de rádio, perguntou se eu já sabia da última notícia, ele tinha acabado de ouvir: Collor ameaçava de novo se candidatar à Presidência. "O senhor quer apostar que ele vai conseguir?" Esbocei um tímido protesto contra seu pessimismo: afinal o país tinha melhorado sob vários aspectos..."Desculpe, mas quais?", ele interrompeu. Citei o Real, uma moeda estável... "Pra quê? Pra provocar desemprego? Daqui a pouco vou querer a volta da inflação."

Além de ouvinte, era leitor; pelo jeito gostava de se informar e de apostar. Acompanhava todo o noticiário, às vezes até da televisão. Estava impressionado com as filas para matrículas nas escolas públicas. "O senhor não se lembra do presidente falando em ano disso, ano da educação, prometendo botar todas as crianças na escola?"

Das notícias lembradas pelo meu proustiano motorista, essa das filas era para mim a mais escandalosa. Eu tinha visto na televisão mães e pais se revezando três dias e três noites nas filas de matrícula.

(...). "Pois é, mas meu senhor quer apostar como ele vai ser reeleito?", o motorista retomou a conversa. Sua teoria é que Fernando Henrique não só vai ser reeleito, como fará um governo pior. "Se em campanha, quando todo político quer agradar, está assim, imagina quando for reeleito. Bem-feito, quem manda esquecer."

Sobrou para os médicos – "O senhor quer apostar como essa coisa de órgãos vai virar o maior negócio do país?" – e que até para minha categoria. Quando anunciei que estava indo para uma festa de formatura, ele estranhou: "Mais jornalistas?" Não me identifiquei: É por causa da imprensa que o brasileiro esquece tudo. Os jornalistas falam num dia e esquecem no outro."

Primeiro, achei que o motorista era Brizola, depois, Lula, Itamar, Maluf, comunista, fascista. No final da corrida, no Leblon, descobri que ele não era nada; não era político, não era anarquista – era apenas um brasileiro com memória começando o ano de 98. E apostando na descrença."

Se o taxista é bem informado, Zuenir é bem audacioso. Em Apenas um brasileiro descrente, o cronista coloca a sua indignação – ora tentando minimizar seu pessimismo, ora concordando com ele – através das palavras do motorista. O texto integra o bloco Dos vivos e dos mortos, em que se fala dos que participam ou participaram do nosso cotidiano. O taxista é o retrato daqueles que, pelo menos, conhecem um pouco o caos em que se vive – impunidade, corrupção, desemprego, injustiças sociais. Descrente? Sim; mas como ser confiante em meio a tanta desordem?

Mais uma vez, a crônica se caracteriza como atemporal. É possível garantir que muitos taxistas e milhões de brasileiros pensam da forma apresentada na crônica. As eleições estão aí. Talvez a situação mude. Mas quer apostar que milhões de brasileiros não sabem ou já esqueceram os números dos candidatos? Pior: é possível que outros milhões nem saibam o que fazer com seu direito de voto...

CONCLUSÃO

Onde cabem os detalhes insignificantes do cotidiano? Como captar a conversa fiada do companheiro? Como registrar a história de cada dia? Onde demonstrar os sentimentos, meus e seus? Só a crônica pode responder, e talvez somente nela estejam essas respostas. É com um despojamento verbal que o gênero, jamais pensado como subliteratura, atinge o leitor, fazendo-o refletir. É nas entrelinhas e analogias da crônica, encontrada nos curtos espaços dos jornais e revistas, que o leitor desperta para a realidade – uma realidade recriada, segundo o background do autor.

Não importa o assunto, a forma, o suporte ou o tamanho. A crônica, por si só, é uma desestrutura. Sua função não é jornalística – embora tenha sido gerada nas páginas de um jornal – mas é de reflexão e recordação – tal como a história, que sempre teima em ensinar alguma lição. Os cronistas? O que seriam dos leitores comuns sem eles? Com a liberdade de que gozam, acabam às vezes, transcendendo o factual e compondo um texto altamente literário, além de extremamente útil para a tomada de posições, de decisões.

Nos livros, as crônicas adquirem uma função diferente. No entanto, não menos atraente e esclarecedora. Neste caso, a responsabilidade fica por conta do leitor que, ao decidir pela leitura, deve saber como fazê-la, levando em conta as suas referências, o tempo e as características do autor.

Através dessa conversa fiada – tal como funciona a crônica nos veículos de comunicação –, travada no presente trabalho, percebe-se que, por suas características e funções, a crônica é um gênero que tende a se perpetuar, inclusive nos novos meios de comunicação. Pelo visto, e como afirma o próprio Zuenir Ventura, em entrevista para o trabalho, não se manteriam crônicas diárias, de diversos autores, nos veículos, se elas não atraíssem leitores. Afinal de contas, cada espaço na mídia é calculado, quase que cientificamente, em vista dos custos.

As entrevistas confirmam pontos destacados durante a pesquisa e trazem algumas novidades que incrementam ainda mais esse bate-papo. Os entrevistados, ora têm posições semelhantes, ora conflitantes. Zuenir Ventura, Airo Zamoner e Hélio Consolaro tratam das divergências de opiniões entre cronistas e política editorial, afirmando que o profissional tem liberdade de ser uma voz divergente dentro do veículo em que trabalha. Beatriz Resende não defende essa idéia. Segundo a escritora, a política editorial sobre a atuação do cronista pode resultar em demissão. Outra questão interessante, entre muitas, são as opiniões dos profissionais em relação a dualidade do gênero. Para Airo Zamoner, a crônica é literatura, e não, jornalismo. Para Beatriz, é jornalismo. Zuenir diz que crônica é jornalismo e literatura e Hélio, que ela é o que resta de literatura no jornal. Mas, em pelo menos uma coisa todos concordam: a crônica jamais pode ser considerada gênero menor 

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http://www.sinpro-rs.org.br/extra/set97/entrevis.htm

http://www.unicamp.br/~franchet/arqhist.htm

http://geocities.yahoo.com.br/veluhdias/generoensaistico

ANEXOS

As entrevistas a seguir, realizadas com pessoas vinculadas à crônica, têm espaço na medida em que acrescentam novas informações ao trabalho e comprovam assuntos abordados nele. São opiniões de pessoas que vivem o cotidiano deste gênero literário e jornalístico. A palavra do escritor e jornalista Zuenir Ventura, especialmente, não poderia faltar, visto que a segunda parte desta pesquisa é destinada a um de seus livros. A entrevista realizada com ele mostra, um pouco, como é a atuação do cronista no dia-a-dia dos periódicos: suas dúvidas, os procedimentos, a escolha do tema. Acima de tudo, nela Zuenir apresenta sua experiência enquanto escritor e jornalista. Beatriz Resende também faz parte da lista de entrevistados, principalmente, porque com a leitura de seu livro, Cronistas do Rio, percebe-se sua sensibilidade para lidar com o tema. Em suas observações, por exemplo, mais uma vez ela defende que a qualidade de um texto escrito não está na adequação a cânones literários ou a classificações do gênero. Muito pelo contrário. É justamente na ultrapassagem e na equivocação desses limites preestabelecidos que muita obra atinge seu auge. Outra voz participante deste trabalho é a do colunista do jornal O Estado do Paraná, Airo Zamoner, que, entre outros tópicos, aborda a responsabilidade do cronista com o que diz e como diz. Para completar, Helio Consolaro, membro da Academia Araçatubense de Letras, dá o seu parecer. Estes dois últimos foram escolhidos para integrar a série de entrevistas em virtude de leituras sobre a obra de ambos na Internet – alguns trechos, inclusive, utilizados no presente trabalho. 

ENTREVISTA COM ZUENIR VENTURA

Aos 71 anos de idade, Zuenir Ventura já carrega o peso de quase meio século de carreira. Peso levinho, diria ele. Professor, jornalista e escritor, Zuenir trabalhou como repórter, redator e editor em vários jornais e revistas. O Prêmio Esso de Reportagem e o Prêmio Wladimir Herzog de Jornalismo, em 1989, são apenas dois de seus méritos como profissional. Em seu currículo estão livros como 1968, o ano que não terminou; Cidade partida e Mal secreto – primeiro volume da coleção Plenos Pecados. Hoje, escreve para a revista Época, para o jornal O Globo e para o site nominimo. A seguir a transcrição de uma entrevista com Zuenir Ventura, realizada em 25 de julho de 2002. Vale lembrar que, embora as respostas não estejam aqui integralmente transcritas, nelas estão contidas as informações mais relevantes, ou melhor, as que podem complementar o presente trabalho.

1. Certa vez, o crítico Afrânio Coutinho definiu o cronista como "um solitário com ânsia de comunicar-se". Você concorda com a afirmação?

Não sei se ele seria tão solitário. Existem, pelo menos, dois tipos de cronistas. Um trabalha com o seu universo interior, não precisa do mundo para escrever; fala sobre seus sentimentos, seus pensamentos, suas sensações: outro, precisa da realidade, da atualidade. Eu me encaixo neste tipo. Portanto, não me considero solitário, pois sou voltado para o exterior. Preciso muito das pessoas, do contexto do outro.

2. Há quem acredite que a crônica dá ao autor, muitas vezes, uma coragem que a escrita lenta tiraria? (no sentido de ser provisória). Qual a sua opinião sobre o assunto?

A crônica é um gênero muito generoso porque comporta qualquer coisa – um ensaio, uma entrevista, uma carta, um desabafo. Como diz Cony, a crônica só não pode ser chata. Então, ela tem essa abertura, dá essa coragem.

3. Até que ponto a crônica é jornalismo ou literatura?

Eu acho que "e " literatura. Como eu dizia antes, se ela tem abertura, ela pode ser literária. Algumas das mais belas peças literárias desse país são de crônicas. O próprio Machado, Bilac e, mais recentemente, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos... A crônica pode ser uma obra literária, com todas as virtudes de sua estética e, ao mesmo tempo, uma obra jornalística, mesmo que seu objetivo não seja passar informação. Eu costumo dizer que o cronista trabalha mais com o olhar do que com a cabeça. Ao falar do mundo de uma forma subjetiva, ele está, de alguma maneira, fazendo jornalismo.

4. Você aponta alguma diferença entre a crônica escrita e a oral?

Por acaso, recentemente fiz duas crônicas para o Fantástico, programa dominical da Rede Globo – uma sobre o Tim Lopes e a outra sobre a seleção de futebol do Felipão. A primeira diferença é o tamanho. Na crônica oral, o limite é o tempo, e não o número de linhas. Outra coisa é o cuidado que se deve ter com as frases longas. A crônica vai ser lida e, por isso, devem ser usados períodos curtos, palavras curtas, com sonoridade e ritmo. A economia de linguagem é maior.

5. Como você escolhe o tema das suas crônicas? Você se sente pressionado, digo, nunca pode relaxar por estar sempre pensando no que vai escrever? Como é esse processo?

A coisa mais difícil da crônica é escolher um assunto. Ainda mais eu, que tenho que escolher três por semana. Mas essa escolha nunca é racional, nunca é calculada, premeditada. De repente o tema se impõe a você. Acho que já sou viciado: já sei o que dá ou não uma crônica. A leitura dos jornais, a conversa das pessoas na rua ou um grande tema como os Estados Unidos, sob o meu viés, são assuntos que dão crônicas. A falta de assunto também pode ser tema de uma crônica, mas Rubem Braga já o esgotou, de tantas que fez. Engraçado é que temas como um problema de saúde, por exemplo, fazem sucesso e outros "mais significantes" não têm tanta repercussão.

6. Você se acha parecido, em termos de estilo ou de recorrência de temas, ou por qualquer outro motivo, com algum outro cronista?

Para o bem e para o mal, não. Gostaria de me parecer com o Luis Fernando Veríssimo, o Rubem Braga ou o Oto Lara Resende, pessoas por que tenho grande admiração. Mas eu acho que faço uma coisa pessoal. Cada cronista é um pouco ele mesmo. Então, pode haver semelhanças aqui e ali, mas você tem a sua característica, que é só sua. Eu sou careca, tenho nariz grande...Ao contrário da literatura, em que, claro, o autor está presente no texto, mas isso é muito disfarçado.

7. Você tem crônicas adiantadas?

Sabe que não... Deveria ter, no caso de uma indisposição. Mas nem é bom pensar nisso.

8. Hélio Consolaro, da Academia Araçatubense de Letras, disse uma vez que os cronistas são um mal necessário nas redações. Você concorda?

Acho que nem um, nem outro. Mas, como você disse em sua monografia, e não querendo defender a "minha sardinha", acredito que eles são tão necessários que existem em quase todos os jornais. Por quê? O leitor quer crônicas. Em uma imprensa cada vez mais homogeneizada, falando para massas, cada vez mais precisando falar para mais pessoas, você tem um espaço personalizado para conversar com o público.

9. Como comprovar este gosto das pessoas pelas narrativas curtas?

Basta folhear os jornais. A entidade "crônica", tanto é uma coisa lida que é mantida pelos veículos. Por exemplo, O Globo. Cada dia, esse jornal conta com um cronista diferente. E cada um desses cronistas têm um tipo de leitor. Nem sempre o leitor de Mauro Rasi ou de Miguel Falabella serão os meus leitores ou, quem sabe, sim. A verdade é que cada espaço no veículo é calculado, quase que cientificamente, em vista dos custos, ou seja, não manteriam tantos cronistas se não agradassem o leitor.

10. Programas como A Grande Família e Os Normais, da Rede Globo, e filmes brasileiros como A Partilha e Copacabana podem ser considerados crônicas?

Em um conceito mais elástico de crônica, você pode dizer que uma música de Chico Buarque ou Noel Rosa, assim como esses programas e filmes, são crônicas, no sentido de possuírem elementos do gênero. São fragmentos da realidade que tratam de situações cotidianas, em tom coloquial.

11. Sempre presente em jornais e revistas, como se comporta o cronista que tem uma opinião divergente da linha editorial em que publica sua obra?

Eu já tive várias experiências em que minha opinião não tinha nada a ver com a opinião de O Globo; em muitos casos, até se conflitava. Mas nunca tive uma recomendação para falar ou não sobre algum assunto. Eu não fiz isso para desafiar o veículo, e nem eles viram essa posição como um desafio. Isso é até bom para os jornais, porque os leitores buscam diversidade, seja ela de olhar ou de opinião. O público não quer um pensamento único. Através das várias opiniões, quer formar uma, a sua. O jornal sabe que, do ponto de vista do mercado, essas diferenças são importantes.

12. Sobre o livro. Na época do lançamento, como foi a receptividade à obra?

Uma coisa é engraçada. Esse tipo de livro não vende muito porque as pessoas têm a sensação de que já leram o que ali está escrito, uma vez que as crônicas reunidas já foram publicadas. Em números, saíram cerca de 10 mil exemplares. Livros de crônicas de Cony vendem isso, João Ubaldo também. Veríssimo vende até mais, pois é um enorme vendedor de livros. Então, a diferença é grande. Crônicas de um fim de século veio depois de Mal secreto, que vendeu muito – cerca de 100 mil exemplares.

13. Como sugere que as pessoas leiam este tipo de livro, que reúne uma série de crônicas de um período de mais ou menos quatro anos – de 1995 a 1999?

A melhor coisa é escolher os temas. Mas uma das vantagens da crônica é que o livro pode ser lido sem ordem a seguir.

14. Pretende fazer isso novamente?

Isso depende da editora. Eu não tenho exclusividade com nenhuma, mas se a Isa, da Objetiva, achar que devemos... Mas não estou preocupado com isso. Estou em fase de conclusão de uma obra.

15. Carreira. Você prefere ser jornalista ou escritor?

Prefiro ser jornalista, porque como jornalista posso ser escritor. Mesmo quando escrevo literatura, o faço de uma forma jornalística.

16. O que mais te encanta nessas profissões?

A melhor coisa do jornalismo é a reportagem, que requer contato com as pessoas, com os acontecimentos. No caso da literatura, o que mais me encanta é a minha relação com as palavras. Tenho quase que uma relação erótica com o texto. Eu gosto de cultivar uma forma bem escrita, eu curto o texto.

ENTREVISTA COM BEATRIZ RESENDE

Beatriz Resende é Doutora em Literatura Comparada e Mestre em Teoria Literária. Entre outras atuações, é professora adjunta de Literatura Comparada e Teoria Literária da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea – PACC/UFRJ – e do CNPq, coordenando o Projeto Integrado Exclusões nas Histórias Literárias do Modernismo Brasileiro. Em seu currículo estão publicações como Cronistas do Rio (R.J., José Olympio, 1995), Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos (R.J./S.P.,Editora UFRJ/Editora UNICAMP, 1993) e Quase Catálogo 4: A telenovela no Rio de Janeiro: 1950-1963 (R.J.,CIEC/ECO/UFJR). Entre outros ensaios, escreveu Ficção nos anos 90, jornal da RioArte nº 21, O teatro no teatro, revista O Percevejo nº 2, 1995, Rio de Janeiro, cidade de modernismos in: Pechman e outros, Olhares sobre a cidade (R.J.,Editora UFRJ, 1994). E, como se não bastasse, foi representante do Ministério da Cultura no Rio de Janeiro de agosto de 1996 a abril de 1998; curadora de muitos eventos, entre eles, a exposição Cronistas do Rio, no Centro Cultural Banco do Brasil, em 1994 e coordenadora editorial das coleções Perfis do Rio, Arena da cidade e Cantos do Rio, editadas pela Relume-Dumará/RioArte (1996). A seguir, a entrevista realizada com Beatriz, em que ela expõe suas opiniões sobre a crônica.

1. Certa vez, o crítico Afrânio Coutinho definiu o cronista como "um solitário com ânsia de comunicar-se". Você concorda com a afirmação?

É um pseudo-solitário, já que fala sempre para um vasto público.

2. Há quem acredite que a crônica dá ao autor, muitas vezes, uma coragem que a escrita lenta tiraria? (no sentido de ser provisória). Qual a sua opinião sobre o assunto?

Certo. Disse isso no meu livro. Há um sentido de imediato que "empolga" o cronista. Ele acredita poder mudar o mundo em virtude mesmo do sentido direto da escrita divulgada imediatamente.

3. Como já dizia Tristão de Athaíde, uma crônica num livro é como um passarinho afogado. Que tipo de diferença você destaca entre uma crônica apresentada em um jornal e uma crônica presente em um livro? Os críticos dizem que as crônicas adquirem independência e se tornam duradouras quando em livros. Outra vertente discorda, dizendo que nos livros, as crônicas quando lidas em série perdem a essência e, assim, como a existência fugaz nos jornais, não ganham a eternidade. Por mais que se tente selecionar as crônicas a serem perpetuadas, elas acabam envelhecendo. Dê sua opinião.

Reler uma crônica antiga pode ser uma surpresa maravilhosa ou uma decepção. Há crônicas que sobrevivem bem. Outras, porém, em seu tempo são muito boas, mas envelhecem. Quanto mais ligada no imediato à sua volta, maior o perigo de "envelhecer". Às vezes, ocorre o contrário: os mesmos dramas, os mesmos problemas, as mesmas emoções se repetem.

4. Até que ponto a crônica é jornalismo ou literatura?

Sempre é jornalismo. Literatura pode ser ou não. Será literária se tiver algum ineditismo, se modificar, de alguma forma, em geral pela crítica, a realidade relatada.

5. Qual o papel dela nessas duas áreas – jornalismo e literatura?

Ser crítica e provocar uma forma especial de prazer.

6. O que querem dizer as pessoas quando classificam a crônica como um gênero menor?

Defendem o cânone, hierarquizam as manifestações literárias, o que, a meu ver, não tem sentido.

7. Você aponta diferença entre a crônica escrita e a crônica oral.

Se a crônica oral for escrita e depois lida, tornam-se bem parecidas.

8. Sempre presente em jornais ou revistas, como se comporta o cronista que tem uma opinião divergente da linha editorial em que publica sua obra?

Ou se adapta ou é mandado embora. Há raras exceções, aqueles que os jornais têm que engolir. A adaptação termina sendo mais fatal do que a demissão.

9. Por que dizer que A Grande Família e filmes como A Partilha são crônicas?

Não são. O que não quer dizer que sejam melhor ou pior. São comédias de costume, outro gênero, com outra intenção. Podem ser tão boas, divertidas, políticas quanto uma crônica, mas são expressões do gênero dramático.

ENTREVISTA COM AIRO ZAMONER

Airo Zamoner é colunista do jornal O Estado do Paraná, onde publica instigantes crônicas semanais. Sua obra é analisada no livro Literatura infantil & ideologia, do professor Doutor Vicente Ataíde, que assim o define: "Dono de agudo humanismo, crítico da sociedade contemporânea, estilo firme e tenso, onde as coisas depressa se vão complicando, por certo Airo Zamoner está alçado ao primeiro escalão da literatura brasileira. Tudo o que ele faz é forte e poderoso, útil no sentido crítico, renovador no trato das consciências. Ninguém termina a leitura de um texto de Airo Zamoner do mesmo modo que iniciou ". Em entrevista por e-mail, Airo comenta sobre o gênero, aproveitando ainda, para falar um pouco sobre sua experiência.

1. Certa vez, o crítico Afrânio Coutinho definiu o cronista como "um solitário com ânsia de comunicar-se". Você concorda com a afirmação?

Sim e sim. O cronista é, antes de tudo, um escritor e por isso mesmo exerce uma atividade solitária. Mas é alguém repleto de idéias e as idéias ocupam muito espaço e o afogam. Daí a necessidade de expulsá-las, esvaziando suas entranhas através da comunicação.

2. Há quem acredite que a crônica dá ao autor, muitas vezes, uma coragem que a escrita lenta tiraria? (no sentido de ser provisória). Qual a sua opinião sobre o assunto?

Não acredito nisto, pois acho que toda vez que um escritor publica um texto, qualquer que seja o gênero, comete uma ousadia. E ninguém é ousado sem coragem. Sendo "provisória" por um lado, por outro a crônica faz história, documenta uma época. Daí a dose de coragem ser a mesma (ou quiçá até maior!). Tem o lado da crítica. A crônica provoca reações imediatas dos leitores. E isto leva o cronista a aumentar sua responsabilidade com o que diz e como diz. O livro, um romance, por exemplo, apenas para fazer contraponto, dá ao escritor reações muito mais lentas, e talvez por este raciocínio, poderíamos dizer que há mais coragem na crônica.

3. Como já dizia Tristão de Athaíde, uma crônica num livro é como um passarinho afogado. Que tipo de diferença você destaca entre uma crônica apresentada em um jornal e uma crônica presente em um livro? Os críticos dizem que as crônicas adquirem independência e se tornam duradouras quando em livros. Outra vertente discorda, dizendo que nos livros, as crônicas quando lidas em série perdem a essência e, assim, como a existência fugaz nos jornais, não ganham a eternidade. Por mais que se tente selecionar as crônicas a serem perpetuadas, elas acabam envelhecendo. Dê sua opinião.

Aqui poderíamos nos delongar muito, dividindo a crônica em subgêneros. Alguns até falam em "cronicontos". Existem textos publicados com o rótulo de crônica e que são na realidade contos maravilhosos de pura ficção. Eu, por exemplo, publico muitas crônicas que são um único diálogo do começo ao final. Crônicas existem que são pura poesia, outras que são jornalismo castiço. Muito bem, a questão que se pergunta é quando a crônica vai para o livro. Acho que somente aquelas crônicas que se desvencilharam da "amarração" com fatos objetivos e dados concretos, farão sentido numa coletânea. Existem livros de cronistas consagrados (ponha consagrado nisto!) que inseriram textos os quais lidos hoje, não são compreensíveis, pois estão ligados a fatos, datas, siglas, organizações totalmente desconhecidas do leitor. Perdem sentido e não deveriam estar ali. Por outro lado, não podemos esquecer que, por mais ficcional que seja uma crônica, por menos comprometimento que tenha com os detalhes do momento, será sempre crônica, e apenas isso. Não se pode exigir dela mais do que é. Faço exceção a "algumas" poucas, que por suas qualidades que margeiam outros gêneros, se tornam antológicas.

4. Até que ponto a crônica é jornalismo ou literatura?

No meu modo particular de ver a crônica, considero-a literatura e não jornalismo, mesmo que sua linguagem se assemelhe. A crônica atual deve conter elementos ficcionais que valorizam o tema abordado. Não podemos misturar as coisas: jornalista redige notícia, articulista redige opinião, cronista faz literatura. Embora sei muito bem que sou minoria nesta opinião.

5. Qual o papel dela nessas duas áreas – jornalismo e literatura?

O jornalista-cronista tem o sonho de pôr um dedinho na literatura. É possível que o escritor-cronista, deseje também pôr seu dedinho no jornalismo.

6. O que querem dizer as pessoas quando classificam a crônica como um gênero menor?

Isso de gênero menor ou maior retrata preconceito, ou outros sentimentos menores. Veja o caso da literatura infanto-juvenil, por exemplo. Sempre se falou que literatura infanto-juvenil não é literatura. Quem diz isso? Quem não escreve literatura infanto-juvenil e não vende bem a sua criação. Fica apenas assistindo ao sucesso de vendas de livros infanto-juvenis. Livros infanto-juvenis tem tiragens médias de 10 mil a 15 mil exemplares enquanto a dita "literatura adulta" arrisca mil a mil e quinhentos. A questão da crônica é a mesma coisa. O escritor que não conseguiu seu espaço no jornal como cronista vai considerar o gênero coisa menor. Bem que ele gostaria de exibir suas qualidades literárias semanalmente no jornal. Resumindo: existe romance menor, conto menor, crônica menor, novela menor, mas nunca gênero menor. Ou seja, escrever com falta de qualidade não é privilégio de cronista muito menos de um gênero.

7. Você aponta diferença entre a crônica escrita e a crônica oral.

Se você considerar que a crônica oral não é de improviso, não existe diferença.

8. Sempre presente em jornais ou revistas, como se comporta o cronista que tem uma opinião divergente da linha editorial em que publica sua obra?

Olha, aqui temos a questão de que a crônica é feita por escritor e não por jornalista. Tratando-se de ficção, de pura arte, não há compromisso com a linha editorial. Posso dar o meu exemplo de que nunca tive uma crônica minha questionada por meu editor. O cronista é, antes de mais nada, um artista da palavra.

9. Por que dizer que A Grande Família e filmes como A Partilha são crônicas?

Nestes casos se está usando o termo no seu sentido mais amplo possível, e não, classificando gêneros literários. Por esse caminho, até os livros do Antigo Testamento foram considerados crônicas. Talvez por narrarem os feitos das principais personagens bíblicas, mas não têm nada a ver com o gênero literário abordado. Uma biografia escandalosa também é considerada crônica por alguns dicionários.

Sem saber que já tinha usado esta definição na primeira parte do trabalho, Airo enviou-me por e-mail o seguinte trecho, fazendo questão de destacar os pontos que acha importante:

Extraído artigo "CRÔNICA, POESIA, CONTO, ROMANCE, POEMA, NOVELA... O QUE É ISSO, AFINAL?" o item abaixo, para arrematar a questão.

Crônica

A crônica se destina a publicação em jornal ou revista. Por isso mesmo, já se pode deduzir que deve estar relacionada com acontecimentos diários. Se diferencia evidentemente da notícia, pois não é feita por um jornalista e sim por um escritor, mas se aproxima de sua forma. É o acontecimento diário sob a visão criativa do escritor. Seus personagens podem ser reais ou imaginários. Não é mera transcrição da realidade, mas sim uma visão recriada dessa realidade por parte da capacidade lírica e ficcional do autor. Normalmente, por se basear em fatos do cotidiano, ela tende a se desatualizar com o passar do tempo. Nem por isso deixa de perder seu sabor literário quando agrupamos um conjunto delas em um livro. O cronista é essencialmente um observador, um espectador que narra literariamente a visão da sociedade em que vive, através dos fatos do dia a dia.

ENTREVISTA COM HÉLIO CONSOLARO

Hélio Consolaro é membro da Academia Araçatubense de Letras. Cursou Letras em Penápolis e começou o magistério no atual município de Rosana, em 1972. Atualmente leciona em Araçatuba, Guarapes e Valparaíso. É, ainda, consultor de Língua Portuguesa da Folha da Região e coordena o site Por Trás das Letras. Seus textos sempre estiveram nos jornais de Araçatuba, mas só, em 1993, quando abandonou a militância política (foi vereador de 1983 a 1988), começou a escrever crônicas diárias na extinta Folha da Manhã. Em 1995, passou a fazer o mesmo na Folha da Região. Seus textos sempre demonstraram preocupação em atingir "o povão". Cobras & lagartos foi o seu primeiro livro de crônicas, publicado em 1997. Sua mais recente publicação é o livro de poemas Urubu branco. Suas observações podem ser conferidas a seguir em entrevista realizada por e-mail.

1. Certa vez, o crítico Afrânio Coutinho definiu o cronista como "um solitário com ânsia de comunicar-se". Você concorda com a afirmação?

Como escritor, sim. Mas o cronista é um privilegiado entre os escritores porque o retorno a seus escritos é imediato, havendo uma interatividade escritor-leitor. O cronista escreve em jornais e revistas, depois que seus escritos vão para os livros. Como coloco em minha coluna e-mail e telefone, sinto de perto a interatividade.

2. Há quem acredite que a crônica dá ao autor, muitas vezes, uma coragem que a escrita lenta tiraria? (no sentido de ser provisória). Qual a sua opinião sobre o assunto?

Usando a nomenclatura de Roland Barthes, escritor e escrevente, o cronista está mais próximo do escrevente. Ele cuida da forma, mas não pode descuidar do conteúdo por causa da interatividade e de seu texto, às vezes, efêmero. Seus textos com validade curta estão mais próximos da cidadania do que da literatura. O cronista moderno é mistura de jornalista e de escritor.

3. Como já dizia Tristão de Athaíde, uma crônica num livro é como um passarinho afogado. Que tipo de diferença você destaca entre uma crônica apresentada em um jornal e uma crônica presente em um livro? Os críticos dizem que as crônicas adquirem independência e se tornam duradouras quando em livros. Outra vertente discorda, dizendo que nos livros, as crônicas quando lidas em série perdem a essência e, assim, como a existência fugaz nos jornais, não ganham a eternidade. Por mais que se tente selecionar as crônicas a serem perpetuadas, elas acabam envelhecendo. Dê sua opinião.

Há crônicas que são eternas, como há aquelas que envelhecem com o jornal. A permanência depende do tema e da própria construção do texto. Mais desta do que daquele. Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e Rubem Braga, como outros cronistas, possuem crônicas eternas, que nunca perderão a validade. Geralmente as mais perenes passam para os livros. As efêmeras são mais documentos históricos. Há de se admitir que ela perde o frescor quando passa para os livros. Crônicas, em livro, funcionam como arquivo temático ou de saudades.

4. Até que ponto a crônica é jornalismo ou literatura?

A crônica é a literatura acessível ao leitor de jornal. É o que resta de literatura no jornal. A literatura já foi mais presente nos jornais brasileiros. Pela crônica, os romancistas e poetas ganham mercado. Mas atualmente os cronistas fazem sucesso em livros com o próprio gênero, como Luís Fernando Veríssimo. Rubem Braga está na história da Literatura Brasileira como cronista, não escreveu outro gênero.

5. Qual o papel dela nessas duas áreas – jornalismo e literatura?

No jornal, a crônica é momento de relaxamento para o leitor. Cria-se um vínculo tão forte com o leitor que o cronista se torna imprescindível. Nesse jornalismo de agências de notícias, cronistas e articulistas se tornaram o diferencial entre os jornais. Em termos de literatura, a crônica é sua filha popular, por ela muitas pessoas vão aos livros. Os mais elitistas teimam em classificá-la mais como jornalismo do que literatura. Ainda bem que alguns elitistas estão enclausurados nas universidades, a torre de marfim.

6. O que querem dizer as pessoas quando classificam a crônica como um gênero menor?

Por ser o texto curto, foi classificado como gênero dos preguiçosos. Ou então era o meio de sobrevivência de poetas e romancistas que, pela crônica, conseguiam salários para sobreviver. Na verdade, o cronista é o poeta diário de milhões de leitores.

7. Você aponta diferença entre a crônica escrita e a crônica oral.

Se a crônica for lida na TV ou no rádio, seu texto precisa ter outra estrutura – mais espontâneo e mais próximo da fala do cidadão comum.

8. Sempre presente em jornais ou revistas, como se comporta o cronista que tem uma opinião divergente da linha editorial em que publica sua obra?

Dentro do pluralismo que norteia os órgãos de imprensa, o cronista tem liberdade de ser uma voz divergente. Aliás, por ele, às vezes, se salva a pluralidade. Jornal ou revista que não dá liberdade a seu cronista não pode ser chamado de plural.

9. Por que dizer que A Grande Família e filmes como A Partilha são crônicas?

A palavra crônica vem do radical CRON, que é o deus do tempo grego. O gênero já pertenceu aos estudos históricos. Os reis e nobres contratavam um cronista para registrar a história de seu reino ou de sua família. Pero Vaz de Caminha pertencia à equipe de cronistas de Portugal, por exemplo. Quando se fala que um filme é crônica, quer dizer que ele registra os costumes de uma época ou faz um recorte da vida de uma época.



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Conteúdo: Hélio Consolaro
Manutenção: Luís Gustavo Almeida

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