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Blogs: os hóspedes que estreitam vínculos entre a sociedade
(Elaine Gonçalves Dias )

Universidade Estácio de Sá
Pós – Graduação (Lato Sensu) de Jornalismo Cultural
Campus Tom Jobim
Disciplina: Crítica Literária (1º Modulo)
Aluno: Elaine Gonçalves Dias
Professor: Tadeu Capistrano

Se no início, quando foram criados em agosto de 1999 pelo norte-americano Evan Williams, os blogs eram apenas uma maneira de adolescentes divulgarem seus diários pessoais na internet, agora essa ferramenta acabou se transformando em uma nova forma de comunicação online. As perguntas são: serão os blogs uma nova forma de literatura? Quais serão realmente suas funções? De que maneira as pessoas que aderiram a essa nova "mania" se comportam em relação aos conteúdos expostos na rede? Para quem não sabe o que é um blog ou weblog (e muita gente nunca ouviu falar como descreve o jornalista e escritor Zuenir Ventura em seu texto de 17 de julho de 2002 do site www.nominimo.com.br), Julio Daio Borges, em artigo divulgado no site Digestivo Cultural de outubro de 2002, diz que "as definições estão aí para quem quiser pesquisar e não existe um único artigo a respeito que não abra o primeiro parágrafo evocando os web logs ou os "diários virtuais". Web (que, em inglês, quer dizer "teia") se refere à internet; e log (que, traduzindo, significa "registro") pode ser entendido como uma "marcação" ou como um "cartão de ponto". Resultado para web logs: "anotações na WWW". Já os "diários" são aquilo mesmo; e "virtuais" apenas porque escritos dentro do universo cibernético (abuso de linguagem? Que venha Pierre Lévy)". Mas em uma definição menos crítica e mais técnica, o blog, segundo o site blogger.com.br, é uma página na web atualizada freqüentemente, composta por pequenos parágrafos apresentados de forma cronológica. O conteúdo e tema ali expostos abrangem uma infinidade de assuntos que vão desde rotina, piadas, links, notícias, poesia, idéias, fotografias, enfim, tudo que a imaginação do autor permitir. E esse autor pode ser individual ou coletivo. Usar um blog é como mandar uma mensagem instantânea para toda a rede: sempre que há visitas em um determinado blog, tem-se acesso a todo seu conteúdo. Se antes os diários eram trancados a sete chaves, hoje eles estão disponíveis para todo mundo ler.

Como não poderia deixar de ser, há críticos-ferrenhos e amantes-defensores desse novo recurso disponível na web. Os primeiros, como comentou certa vez uma internauta em debate sobre o assunto, vêem os blogs como rasos e imediatistas, sem o mesmo alcance de sites ou portais (bons sites e bons portais) e, para terminar, a maioria dos blogs e dos blogueiros são imaturos, precisando sair da atual fase do "tititi" e da "modinha". Os outros, porém, como diz a jornalista Denise Schittine ao defender sua tese de mestrado em Comunicação na UFRJ, "os blogs são espaços perfeitos para o autor desabafar, escrever sobre coisas que não caberiam em outro espaço, trocar idéias e informações, e compartilhar emoções com pessoas que tenham afinidade com ele: escrever no blog é botar para fora um lixo que está incomodando em determinado momento". Mas essa oposição não faz-se necessária colocar em pauta, e sim, problematizá-la, levantando questionamentos sobre o assunto. O importante é não deixar de falar sobre o serviço gratuito que tornou-se um fenômeno na internet e contabiliza, atualmente, milhões de usuários.

Feitos os primeiros esclarecimentos, técnicos, é claro, vale uma discussão mais funcional, reflexiva e por que não social? Iniciando por este último aspecto, os blogs são considerados um fenômeno tecno-social efervescente, na medida em que pessoas comuns decidem sociabilizar seus pensamentos e idéias. Aí viria a questão. Como se pode escrever um diário que seja acessível a todo mundo? É, no mínimo, curioso. Não só curioso, mas "um fenômeno que diz muito sobre a sociabilidade contemporânea e as formas mediáticas da cultura. O ciberespaço faz com que qualquer um possa não só ser consumidor, mas também produtor da informação". Essa construção da informação coletiva ou individual pode ser vista voluntária ou involuntariamente como uma alternativa ao cerco da indústria cultural. Ainda mais que expressar-se através dessa ferramenta é extremamente simples. Basta saber criar e editar seus próprios textos e, opcionalmente, conhecer alguns macetes para incrementar estas publicações digitais como, por exemplo, inserir imagens e sons e animações. O autor é ao mesmo tempo produtor, editor e distribuidor. Portanto, por possuírem formato e conteúdo dinâmicos, mas também por se destacarem como veículos ideológicos e de representação de grupos os mais diversos, essa nova "forma de mídia" é uma maneira original e tecnologicamente contextualizada para cada indivíduo ou tribo chamar a atenção para o seu universo. "Ignorá-los ou encará-los apenas como breve modismo é correr o risco de passar ao largo das evoluções do ciberespaço nosso de cada dia".

Pensando neste público que deseja expor suas idéias, várias ferramentas já surgiram para facilitar sua publicação, divulgação e manutenção. Destaque para o Blig, o Blogger, o Blog*Spot e o WebLogger Brasil. Da mesma forma, para quem se interessa pela leitura de blogs, blogueiro ou não, as opções na rede também são fartas. Além dos endereços de blogs interessantes, isoladamente, o internauta pode encontrar páginas que indicam diretórios que registram sites de blogs (tanto nacionais como internacionais) com seus endereços, alguns inclusive com comentários, e publicam estas relações que facilitam a busca de blogs de acordo com o interesse do blogueiro. Os jornais impressos, através de seus cadernos de informática, também têm se mostrado um canal de divulgação útil para a novidade. Exemplo do periódico Estado de São Paulo, que às segundas-feiras, publica uma coluna sobre conteúdos de determinados blogs.

Blog e Literatura

Se como disse Joaquín Maria Aguirre Romero, em El futuro del libro, de 1998, "A literatura é a arte da palavra, e não do papel", por que não cogitar serem os blogs a literatura do futuro ou simplesmente um meio literário? O assunto, apesar de polêmico, já descarta a primeira possibilidade, afinal de contas, livros, revistas e jornais impressos não estão em vias de extinção e "a literatura tradicional continua fascinante e insubstituível". Já quando se fala em literatura de blog o teor da discussão já adquire certo valor e aí vale uma pausa para reflexão.

Os blogs têm ajudado a revelar alguns escritores, mas se você perguntar eles dizem que não acreditam em nova literatura, como Clara Averbuck, do brasileirapreta@blogspot.com, que disse: "Segunda-feira, dia 9 de junho de 2003. Só para avisar eu não respondo perguntas sobre blogs. Eu não dou entrevistas sobre blogs nem participo de trabalhos de faculdade sobre blogs. Eu simplesmente não agüento mais essa baboseira de blogs. Chega. Blog não passa de um meio de publicação. O autor do blog, dono e soberano do blog, faz o que bem entender naquele espaço. Não existe literatura de blog. Não existe escritor de blog. Blogueiro não é escritor. Escritor não é blogueiro. Existe blog enquanto meio de publicação para um escritor. Escritor é escritor. Escritor não é blogueiro. Não sei nada sobre o fenômeno blog. Sequer acho que seja um fenômeno. Nunca mais respondo nenhuma pergunta sobre blog. Por favor não me incomodem com essas coisas. Sou uma grávida tensa, isso não me faz bem. Sem mais". Evidentemente que ela está exagerando, mas de qualquer forma tem gente que acha que a escrita do blog não configura algo novo tampouco apresenta vantagens para autor e leitor virtuais. O fato é que blog ou não-blog, a internet possui coisas boas e coisas ruins (muitas, aliás). Julio Daio Borges costuma dizer que "os bloggers são tendenciosos, pretenciosos e escrevem lixos para seus amiguinhos acéfalos". Claro que mesmo entre os "dez mais" do mundo blogger há muita porcaria, que acaba levando a mais e mais lixo. Porém, há exceções e a "seleção natural" dirá quais continuarão escrevendo e sendo lidos e quais desistirão. O interessante é sempre estar atento ao novo comportamento que a "nova escrita" está configurando. Paula Sibilia estava certa ao utilizar uma citação de Steven Johnson em seu projeto de tese: "o computador transforma fundamentalmente o modo como concebemos nossas frases, o processo de pensamento se desenrola paralelamente ao processo de escrever". Ainda em seu trabalho, Paula faz questão de ressaltar o fenômeno inverso que está começando a se delinear fora dos ambiente digitais. As pessoas que utilizam este tipo de recurso têm cada vez mais dificuldades para escrever corretamente à mão. Resultado: uma caligrafia deteriorada e bilhetes e outros escritos pessoais comprometidos pelas marcas da linguagem virtual – abreviações, abandono dos acentos, entre outros.

Cuidados à parte, os sintomas apontam para o descontrole dessa febre virtual. Afinal de contas, "a hipervelocidade da transmissão digital, o baixo custo de produção e a substancial autonomia de veiculação que a internet possui frente à esfera impressa", são fatores irresistíveis para quem deseja publicar um texto, expandir seus contatos e ter, quem sabe, uma certa visibilidade. Ciberliteratura ou não, escritor-blogueiro ou blogueiro-escritor, o importante é ter em mente que o blog é um gênero textual diferente (quando comparado a textos da grande mídia, livros, etc), com motivações, público-alvo e suportes técnicos diferentes. Acrescentando apenas que, independentemente da finalidade do blog ou da velocidade com que gira seu contador de visitas, quem se dispõe a escrever num veículo público deve ter consciência da responsabilidade de suas palavras, sejam elas quais forem, e ser cauteloso antes de publicar algo. O que não se pode é desprezar o poder de blogs como meio de comunicação (literário ou não), já que isso significaria classificar como verdade absoluta apenas a opinião da grande mídia que quase nunca é imparcial ou independente.

Subjetividade e identidade

As facilidades para se hospedar um blog são muitas e já foram descritas, mas é difícil acreditar que este seja o principal motivo para se construir um diário virtual. O que será, então, que leva um indivíduo a não ter medo de expor o seu interior, suas atitudes e comportamentos mais íntimos? Os blogueiros não temem o pecado da subjetividade. Pelo contrário, fazem dela, sua grande bandeira. A jornalista Denise Schittine defende a tese da sensação da necessidade e emoção de serem lidos. E assim como o Doutor em Sociologia André Lemos, acredita que os blogueiros são pessoas que precisam atrair a atenção do outro para garantir a sua identidade. Mas aí vale a ressalva. Será pura e simplesmente a necessidade de colocar para fora essa interioridade individual e seus conflitos, como aconteceu no século XVIII, "no qual as formas subjetivas modernas ganharam contorno e visibilidade", a razão para essa exposição? Ou será que se vive hoje uma nova tendência? A de esvaziamento da interioridade e a da exaltação do exibicionismo?

De repente, o mais viável para se chegar a alguma conclusão, se é que isso é possível, é não deter-se a esse antagonismo. E sim pensar, como sugeriu Lemos, na idéia de que a substância imaterial que conforma o ciberespaço parece especialmente propícia para a invenção de identidades e para a estilização do eu. Seria, no mínimo ingênuo, pensar que existe um verdadeiro eu. De acordo com o autor, o que prevalece são as máscaras. Afinal de contas, o indivíduo se apresenta a partir do exercício de papéis em várias situações do dia-a-dia. Pensando desta maneira, talvez se possa ter em mãos um dos tijolos que fazem parte do processo de construção das subjetividades contemporâneas.

Pensando agora um pouco no leitor e como ele se comporta frente a subjetividade do outro vale a reflexão. "O processo de recepção não tem sentido único, mas é antes um encontro criativo entre uma complexa e estruturada forma simbólica, de um lado, e de indivíduos que pertencem a grupos particulares e que trazem seus próprios recursos e pressuposições para os apoiar na atividade de interpretação, de outro lado." E tal como o Dicionário Kazar, não se é obrigado a ler um blog por inteiro; pode-se definir como será realizada a leitura. Portanto, muitas vezes, o leitor é quem vai, através de sua metodologia e segundo sua realidade, estabelecer e lidar com o teor da subjetividade do blogueiro em questão.

Pois bem, o inegável e conclusivo ponto é que os blogs são formas de sociabilização e expressão individual (com máscaras ou não) e a sua sobrevivência vai depender do que ali estiver disponível. Se dentro do mix de textos, espasmos criativos, anotações soltas, fotos e confissões, o leitor se identificar com o conteúdo, pode se ter certeza de que as visitas serão diárias, tal como se acompanha uma novela. E mesmo que o ciberdiarista teime em dizer que "eu faço meu blog para falar o que eu quero. Se alguém quiser ler, ótimo. Se não quiser, não tem problema", saiba que ele não está sendo sincero. Ainda: escritor-autor-blogueiro, assim como o escritor literário, não escreve para não ser lido. O seu prazer é possuir identificações e ser identificado por outros indivíduos.

Blog e Jornalismo

Criado como uma ferramenta para publicação de diários pessoais na internet, os blogs estão sendo cada vez mais usados por jornalistas para publicar, de forma ágil, informações e opiniões. Mas será que esta febre virtual vai mudar os rumos do jornalismo online? Não se pode negar que a dinâmica pode ser interessante. Afinal de contas, se blogar é compartilhar, os jornalistas que deste recurso se utilizarem, estarão dividindo o tempo todo as informações que adquirem ao longo de uma apuração, além de receberem sugestões, críticas. Sem contar que ainda podem estabelecer uma maneira de interação dentro da própria redação, o que poderia se chamar de redação da web. Muitos, entretanto, não acreditam que o noticiário blogueiro seja confiável. Discussão que outrora já se travava época do surgimento dos meios de comunicação online. Imagine como seria fascinante ter contato com informações adicionais, de qualidade, do repórter, fotógrafo ou colunista, que não coubessem na versão impressa. Outra possibilidade seria acompanhar o trabalho completo de reportagem fotográfica, que nunca acompanha a matéria impressa por ficar resumido a uma ou duas fotos. Essas alternativas, utópicas ou não, poderiam até ser um meio de leitores não encararem o texto final como verdade absoluta. Seria a chave do jornalismo imparcial e objetivo? Seria perfeito, mas é bom ficar atento porque nada impede que as grandes corporações assimilem o formato e o adaptem favoravelmente para seu próprio uso.

Conclusão

Por tudo que foi posto em questão, é indiscutível que trata-se de um fenômeno social tão eloqüente que já seria necessário um novo dicionário para designar tantos termos nascidos dessa mania. Daí lista-se cibercultura, ciberespaço, ciberliteratura, blogueiro, ciberdiarista, entre outros. Mas em termos de reflexão e não só de curiosidade, conclui-se que os blogs aparecem e configuram-se como novas formas de expressões individuais, ainda que na multiplicidade de identidades de seu autor, concretizadas através de novas tecnologias. Sem importar o que leva um blogueiro a expor suas emoções, quem serão os leitores desses textos ou se esta escrita pode ser considerada como uma nova literatura, não se pode ignorar essa manifestação como um meio de modelar alguns padrões de comportamento e estabelecer e estreitar vínculos entre a sociedade.

Bibliografia

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Id. Entrar no acaso ou num blog. In: www.nominimo.ibest.com.br, 24/07/02.

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