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Ana Terra
(Érico Veríssimo )

      OUTROS ESTUDOS E RESUMOS

      ROTEIRO BIBLIOGRÁFICO

      Érico Veríssimo nasceu em dezembro de 1905. Seu pai sonhava mandá-lo estudar em Edimburgo, capital da Escócia... O menino foi estudar num colégio de Porto Alegre e nunca chegou à universidade. Trabalhou em secos e molhados, foi bancário e acabou sócio falido de uma farmácia. Não acabou nem curso ginasial aquele filho de fazendeiros ricos, mas arruinados, para o qual o pai sonhava até com uma universidade escocesa. O boticário também falhou. Um boticário que passava horas, por trás de um balcão, devorando Ibsen, Wilde, Shaw, De Foe, Dickens, Calsworthy,

      Norman Douglas e Machado de Assis. E ficava irritado quando alguém entrava na farmácia para comparar algum remédio. Mas encontrou o seu caminho: a Literatura. Em 1930 já tinha publicado alguns contos e em 1932 estréia com Fantoches. Em 1931 casa-se com D. Mafalda. Tinha na cabeça um montão de planos, de romances de literatura, mas no bolso apenas trezentos mil réis. De Fantoches (1932) até Incidente em Antares (1971) foi uma longa estrada de altos e baixos, mais aqueles do que estes. Foi criando, paciente e inteligentemente a sua obra, uma das mais significativas da novelística brasileira. Em 1935 nasce a filha Clarissa (a Clarissa do romance nascera em 1933). No ano seguinte nasce Luís Fernando.

      Em 1941 visita os Estados Unidos: da viagem de três meses nasce “Gato Preto em campo de neve”. Em 1943, 44, 45 volta aos Estados Unidos, dando cursos e fazendo conferências sobre o Brasil, sua história e literatura. Em 1944, o “Mills College” lhe confere o diploma de doutor “honoris causa” em literatura.

      Em 1946 sai A Volta do Gato Preto, novas crônicas sobre os Estados Unidos. No ano seguinte começa a sua grande epopéia sobre o Rio Grande do Sul: O Tempo e o Vento. De 1953 à 1955 é Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana em Washington. Visitando o México em 1955 colheu todo o material do seu livro: México – História duma viagem (1957).

      Só em 1959 Érico Veríssimo viaja para a Europa. Da visita à Grécia deverá nascer um livro de crônica (Sol e Mel) temporariamente abandonado para a criação do Senhor Embaixador (1965). Érico Veríssimo é mais do que um escritor, um homem aberto à compreensão do mundo. No final de sua autobiografia – admirável romance e história - cujo personagem principal – ele mesmo – demonstra uma imensa simpatia humana ao lado de excelente literatura – confessa: “Poucas coisas haverá na vida mais tristes que a solidão e o anonimato. Por outro lado, porém, é muito desagradável, além de absurdo, quando um escritor passa a ser tratado mais como um assunto, uma notícia do que como um ser humano. Reajo com a maior veemência, procurando manter o meu copyright individual e evitando cair em domínio público. Horroriza-me a idéia de ser transformado num medalhão. Não quero ser estátua, seja de busto ou de corpo inteiro. Não quero ser nome de praça ou rua. Não quero e não hei de me candidatar à Academia Brasileira de Letras. Não tenho o menor apreço por títulos e condecorações. O que desejo, isso sim, é leitores, e amigos, amigos e mais amigos.” (259)

      De 1932 (Fantoches) até 1971 (Incidente em Antares), não são apenas 39 anos de vida, mas 29 anos intensos de uma carreira literária decisiva: os fantoches se transformaram em realidade. Os personagens, a princípio criados com pena e tinta, vão se mudando em figuras reais de carne e sangue. E não nascem mais do inteiro, mas da vida. A fantasia trabalha, mas não cria ninguém do nada. “Fantoches”, apesar das aparências contrárias, é um livro muito importante para o estudo de Érico Veríssimo, escritor. Seu autor sabe perfeitamente disso: “Fantoches” é um caderno de exercícios, bem como um mostruário de possibilidades e tendências, onde talvez possamos até encontrar a semente de alguns romances que mais tarde vim a escrever."

      Pelo livro a gente pode acompanhar bem a aprendizagem, o artesanato literário do futuro romancista. Vai uma distância muito grande e significativa entre o boticário falido, peixe fora d’água, por trás do balcão, lendo e escrevendo às escondidas, ao romancista que virá a ser mais tarde, criador de alguns dos mais importantes romances (O Tempo e o Vento) da literatura luso-brasileira. Um exame desses “exercícios” nos leva a descobrir neles, em germe, o grande escritor do futuro. Era questão apenas de continuar insistir no mesmo caminho para vencer todos os defeitos do iniciante e aprimorar as virtudes de um escritor nato. Era questão de tempo: o romancista de Um Lugar ao Sol, de Caminhos Cruzados, de Senhor Embaixador, de O Prisioneiro, estava escondido no moço dos contos de Fantoches assim como a árvore está na semente, para usar uma comparação muito comum, mas que me foi sugerida agora por D.Casmurro.

      Um romance se faz de uma ação (enredo, trama, estória, sucessão de episódios...), de alguns ou de um personagem (real ou de fantasia, criando ou recriando dentro da vida), de um estilo (modo de ser, de ver e de escrever). Um romance é uma narração, um encadeamento de fatos, de acontecimentos, de episódios de sucessão. Mesmo que seja um romance essencialmente psicológico, introspectivo. Afinal todo romance é uma estória. Os personagens é que vão desenrolando esse fio da narração. O personagem nasce da vida, mas como? “Vá lá a gente saber como nasce uma personagem. No princípio é o caos, um caos feito de anseios, lembranças, impressões, frustrações, ecos... Desse caos surge uma fisionomia, uma voz, um “jeito”, uma impressão; e, quando o autor menos espera, lá está a personagem inteira, falando, movendo-se, vivendo enfim. Uma personagem vem de um mundo misterioso em que se mistura consciente e inconsciente, o real, o irreal. Uma personagem nasce, filha de muitas impressões e intenções, formada de muitos pedaços. Depois se liberta do seu criador, desobedece a seus planos e a seus mandamentos, vive sua vida própria. Pode imortalizar-se até, independentemente do seu criador. Muita gente não sabe quem é Cervantes de Saavedra, mas quem não conhece Sancho Pança e D. Quixote? As vezes o personagem se revolta contra os desígnios do criador, mudando-lhe todos os planos... Assim, por exemplo, o Dr. Seixas em Um Lugar ao Sol. Ele devia ser apenas um “extra”, fazer uma “ponta” e sumir. Tão depressa quanto entrara. E talvez para sempre. Mas o médico entrou e ficou, contra todos os meus planos e perspectivas... confessa Érico Veríssimo. O Dr. Seixas criou tal personalidade que voltou em outros capítulos e ainda entrou em Olhai os lírios do campo. O seu criador resolveu matá-lo. Era preciso. Morreria antes do fim do romance conforme sentença do romancista. Mas, quem disse que o Dr. Seixas quis morrer? Volta à cena em Saga, velho, acabado, doente, para morrer. E qual a reação do seu criador?

      E quando uma alma do velho havia já abandonado aquele corpanzil cansado e magro, fiquei tomado de uma estranha angústia que era ao mesmo tempo sensação de culpa, arrependimento e já saudade.

      Dr. Seixas é um personagem que viveu de fato e, porque viveu, sobrevive ainda na memória do leitor.

      Todo bom romancista cuida também do estilo, da expressão: como escrever melhor. E se preocupa – profundamente – com técnicas e truques, com todos os meios velhos e novos de expressão, procurando até criar um língua nova, quase pessoal, à margem da outra comum. É, por exemplo o caso quase único de João Guimarães Rosa. Érico Veríssimo, em carta, me faz esta importante revelação: “Confesso-lhe que sempre que vou começar um novo livro fico pensando... Sinto uma espécie de auto-náusea, medo de me repetir, etc... Conheço os meus “cacoetes literários”, sei onde estão todos os alçapões de minha maneira de ser como escritor, procura evitá-los, fugir ao lugar comum e não bater na mesma tecla. Antes de começar O Prisioneiro, me fiz várias perguntas. Será que não escrevo de maneira diferente por preguiça? Valerá a pena tentar inovações? Cheguei a fazer experiências nesse sentido e o resultado me deixou encabulado pelo que em minha prosa “nova” havia de artificial, de rebuscado, de insincero. Esqueci o estilo e me concentrei na história.” Érico Veríssimo escreveu numa língua viva, usual, sem regionalismos fechados e sem cria língua nova.

      O autor de O Tempo e o Vento escreve sem escrúpulos puristas, sem pedantismos ou rigorismos gramaticais, numa língua que se fala. É uma língua quotidiana, feita de regionalismos e contribuições estrangeiras, transposta da conversa, da convivência, das leituras para o romance. Se um Alencar escrevia como quem fazia um bonito discurso, Érico Veríssimo escreve como quem conversa. (Conversar é uma das suas preferências...)

      Mas um bom romance deve Ter trama, deve Ter personagens, deve Ter estilo. Mas deve Ter sobretudo vida. Do contrário fica apenas um bom exercício literário.

      Ninguém bocejará se você fizer uma história humana. Deixe de literatura. Faça um romance moderno. Sabe qual é a diferença entre o romance de hoje e o romance de ontem? É que no romance de ontem o sol era astro-rei; no romance de hoje o sol é o sol mesmo...

      E o romancista se julga sempre um aprendiz de livro para livro. Falando sobre O Senhor Embaixador, Érico Veríssimo confidenciou:

      “... Tenha a impressão de que, do ponto de vista da construção e ritmo, é dos melhores romances que tenho escrito. O que não impede de repetir o que venho dizendo nestes últimos tempos aos jovens que me perguntam se é difícil escrever um romance. A gente nunca caba de aprender. Começo a avistar a porta gris da casa dos sessenta e ainda me sinto um principiante. O que é, ao mesmo tempo, muito triste e muito bom.

      Dentro de um plano posterior à obra e apenas didático poderíamos catalogar os romances de Érico Veríssimo em três fases:

      1. ROMANCES URBANOS. Problemas da classe média numa cidade grande que pode Ter como exemplo principal Porto Alegre. Clarissa, Música ao longe, Caminhos Cruzados, Um lugar ao sol, Saga.

      2. ROMANCES ÉPICOS. A história de sua terra e de sua gente através da obra monumental O Tempo e o Vento. É um enorme painel em que o autor procurou reviver uma bela e brava epopéia: a de sua terra e do seu povo. No primeiro volume – O Continente – há maior tensão épica associada a uma passagem misteriosa e impressionante do tempo e do vento. Nos outros dois volumes (O Retrato e o Arquipélago) decai o elemento épico pela sobrecarga de história, de sociologia, de psicologia...

      3. ROMANCES UNIVERSAIS. Os grandes problemas do homem, em qualquer lugar: racismo, guerra, sexo em O Senhor Embaixador e O Prisioneiro. Érico Veríssimo é um escritor preocupado com o papel do escritor no mundo de hoje. O escritor deve ser participante, tomar posição, mas como escritor, não como político ou outra coisa qualquer.

      Incidente em Antares (1971) é até esta data o último romance de Érico Veríssimo: um romance de sentido político, sem nenhuma conotação pejorativa. Nele se misturam um panorama sócio-político, sem nenhuma conotação pejorativa. Nele se misturam um panorama sócio-político do Brasil contemporâneo e um fantástico julgamento dos vivos por alguns mortos insepultos, numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1963. “Desta vez, confessa o autor, abri a veia da sátira e deixei seu sangue escorrer livre e abundantemente...” O Romance se fecha com um menino soletrando no muro uma palavra tão perigosa: Li-ber...

      ENREDO DE ANA TERRA

      Ana Terra era um dos quatro filhos de Maneco Terra e D. Henriqueta. Nascera em Sorocaba e viera com a família para a vasta solidão dos campos e coxilhas do Rio Grande de São Pedro (= Rio Grande do Sul). O pai lhes fizera, algumas vezes, uma inútil promessa de voltarem para S. Paulo. Em 1977, era uma moça de 25 anos que ainda esperava o amor e o casamento. Era “de olhos e cabelos pretos, rosto muito claro, lábios cheios e vermelhos”. Vivia com o pai, e mãe e dois irmãos, (Lúcio já estava enterrado nas coxilhas...) no descampado, sob os temores de invasões dos índios ou dos castelhanos. Levavam vida muito primitiva e pobre. (“O rancho que habitavam não podia ser mais primitivo. O velho Terra, como os filhos, era analfabeto, homem taciturno e de poucas palavras. O mobiliário do rancho, escasso e rústico. Naquele ermo aquele gente nada fazia mais que trabalhar de sol a sol, comer, dormir,, esperar... Um dia era quase sempre a repetição do anterior. A família estava ilhada naquele verde de horizontes sem fim. Não tinham calendário, nem relógio, nem vizinhos próximos...”)

      “Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando”, costumava dizer Ana Terra. Passam-se anos. E foi num dia assim que ela conheceu um índio, criado numa redução jesuítica, Pedro Missioneiro. Ela o encontrou feiro perto da sanga e o pai e irmãos o recolheram e o trataram no rancho. Apesar de certa má vontade do pai e irmãos, o índio foi ficando e se incorporando ao primitivo clã. Aí vivia, trabalhava, tocava flauta e contava estórias muito lendárias, numa língua misturada de português e espanhol.

      Dos amores de Ana Terra e Pedro Missioneiro, vai nascer, mais tarde, um filho que repetirá as feições e o nome do pai e a teimosia e o silêncio do avô Maneco Terra. (Pedro Missioneiro aparece e desaparece rodeado de algum mistério e se projeta como um mito. Possui certos poderes mágicos que o tornam meio sobrenatural...). Para cumprir o código de honra do clã e por ordem do chefe Maneco Terra, Antônio e Horácio, irmãos de Ana, matam e enterram, longe do rancho, o índio Pedro Missioneiro. Bem longe da estância para não infringirem o dever sagrado da hospitalidade. Tudo questão de honra familiar. O filho de Ana Terra e Pedro Missioneiro nasceu em 1789. A vida continua amarga e se torna trágica, quando um bando de castelhanos invade os ranchos dos Terras, mata o pai e o irmão de Ana Terra e os dois escravos, violentando Ana Terra e desaparece, destruindo tudo e levando o que quiseram. (Horácio casara-se e se mudara para Rio Pardo). D. Henriqueta já tinha morrido. Ainda escaparam da chacina Eulália, mulher de Pedro, Rosinha, sua filha e Pedro, filho de Ana Terra, que por ordem dessa, se tinham escondido no mato.

      Quando as carretas de Marciano Bezerra passam por ali, em demanda das sesmarias do Coronel Ricardo Amaral, as duas mulheres e as duas crianças seguem com eles (Ana Terra segue para o rincão longínquo de Santa Fé: é a fuga da sua solidão, de sua família, eliminada, do crime dos irmãos que mataram Pedro Missioneiro, da insegurança e da violência que tomaram conta de sua terra. É a fuga ao passado.) Depois de longa viagem e sofrimento, chegam ao final do caminho e fincam raízes na terra. Eulália se une a um viúvo e cria a filha Rosa. Ana Terra cria Pedro. Estão lançando os alicerces de Santa Fé. (Passa o tempo e o vento...) Pedro, já moço, volta de uma guerra sob as ordens do Coronel e se casa com Arminda Mello: do casamento nascerá um casal de filhos, Juvenal (1804) e Bibiana (1806) que se casarão com Maruca Lopes e com Rodrigo Cambará. (Ver a árvore genealógica dos Terra-Cambará).

      O Coronel Ricardo Amaral morreu na Guerra. Agora, nova guerra para a conquista da Banda Oriental (1811). E lá se foi novamente, para a guerra, Pedro Terra, agora, sob as ordens do Major Francisco Amaral. Pedro sabia bem o que era uma guerra. Ia sem nenhuma ilusão. Despedindo-se da mãe, lhe diz: “Mãe, tome conta de tudo...” - Tem pressentimentos de que não voltará.

      Ana Terra fica escutando o vento. “Estava de tal maneira habituada ao vento que até parecia entender o que ele dizia...”

      Nas noites de ventania, ela pensava nos seus mortos. Muitos anos depois, sua Bibiana, já mulher feita, ouvia a avó dizer, quando ventava:

      “Noite de vento, noite dos mortos...”

      ESTILO DA ÉPOCA

      Uma certa crítica continua calada a respeito do romance de Érico Veríssimo. E se esquece de que nem todo escritor tem que ser igual ou semelhantes a Guimarães Rosa. (Guimarães Rosa virou mito... E é preciso não esquecer que ele está sozinho e, muitas vezes – fica sozinho pela dificuldade de abordagem: talento e originalidade isolam do leitor comum e o reservam quase só para os especialistas).

      Há uma crítica também que não suporta a popularidade. O autor tem que ficar reservado só para ela, não pode andar na mão do povo. Como Jorge Amado, Érico Veríssimo é um dos mais romancistas brasileiros mais lidos dentro e fora (Realidade apresenta uma estatística significativa só de volumes editados em português da obra do escritor gaúcho: mais de dois milhões de exemplares – nº 71 – fevereiro de 1972).

      O que Érico Veríssimo é: um excelente narrador que foi dominando o seu instrumento em quarenta anos de trabalho a ponto de se tornar um mestre de romance brasileiro de hoje. Um romancista que quer ser lido e não apenas interpretado pelos críticos e pelos alunos das faculdades de letras.

      “Seja como for não me considero grande romancista. Não sou um inovador, nem na técnica nem na linguagem. Se me pedissem um adjetivo para me qualificar como contador de estórias eu sugeriria engenhoso”.

      (Manchete – 04.08.1973 n. 1.111)

      É uma auto-crítica sincera, mas severa. Em lugar do último adjetivo se poderia pôr: talentoso.

      Érico Veríssimo é ou não é um romancista moderno?

      Somos todos acusados – escreve ele – de estar ainda escrevendo o romance do século XIX. Será mesmo verdade? Mas que é o romance do século XX? Para mim é uma história de problemas de nossa época, mais o uso de todos os neologismos que a ciência criou – tudo isso e mais o espírito destes tempos. Mas é uma tolice procurar inventar a “língua do futuro. (Carta ao autor em 27.12.1967).

      E como ficou chato ser moderno

      agora serei eterno... (Aguilar – 284)

      Sobretudo na sua última fase, última até agora, o romancista gaúcho tem colocado na sua ficção paisagens humanas, problemas da atualidade, o máximo de participação do mundo de hoje. Assim em O Prisioneiro e O Senhor Embaixador em que coloca problemas político-internacionais. Em Incidente em Antares constrói um significativo romance político, sem cair no panfleto político.

      ASPECTOS SOCIAIS

      O autor não é nem historiador, nem sociólogo, mas a trilogia inteira de O Tempo e o Vento se impregna de importante conteúdo social. Tudo gira em torno de famílias, de cidades, na formação de uma “nação”.

      Em Ana Terra afloram muitos problemas sociais que podem ser exemplificados. O regime do rancho, da estância é o paternalista: o pai, o marido tem a primeira e última palavra. E não se discute. Impõe sua vontade, a começar da partida de S. Paulo para a solidão do Sul. Todos, mulher, filha e filhos se submetem à “onipotência” do cabeça do clã.

      “D. Henriqueta respeitava o marido, nunca ousava contrariá-lo” (12). Quebra-se a rigidez do domínio absoluto do pai, quando um dos filhos se casa com mulher da cidade e abandona a estância.

      "Aqui faço o que quero, ninguém me manda. Sou senhor do meu nariz” (41) Declaração de... força de Maneco Terra. Ele manda e desmanda. E tanto é verdade que, depois da gravidez de Ana Terra, ele decreta a sentença de morte contra o estranho Pedro Missioneiro que infringiu a lei do clã. E os filhos executam a ordem, cegamente.

      Nessa vida de solidão, o pai não dialoga com a filha que se sente cada vez mais solitária, à espera do amor. Que chegou misterioso e trágico. Daí nasceu aquela revolta íntima e constante de Ana Terra, a sua frieza diante da morte quer da mãe como do pai e irmão. Depois da tragédia final, ela escolhe o caminho: sair para longe e ajudar a fundar uma nova cidade.

      Existem raízes profundas na religião do clã?

      “Automaticamente” Ana começou a rezar. Seus olhos ergueram-se para o crucifixo, postaram-se no Cristo de nariz carcomido. Padre nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome...” (96). Isso, na hora da tragédia. Depois de tudo consumado, consola sua cunhada:

      “Não há de ser nada. Deus é grande.” “E em pensamento completo a frase: Mas a serra é maior.” (113)

      Na imensidão daquelas planuras e coxilhões, nos primeiros dias ainda de sua criação, não há lei nem rei. Vale a lei da força, da pontaria mais certeira. Quem que poderia, senão a força, pôr um paradeiro à ganância dos castelhanos?

      A morte vai definir a sorte e a libertação de Ana Terra do julgo paterno ou masculino. Exterminada a sua família, ela acha um novo caminho e parte. Vai com ela seu filho Pedro. De Ana Terra sairá também um sobrenome para a família que vai nascer.

      Naqueles tempos e naquelas terras se vive sob o signo da insegurança, principalmente pelas escaramuças castelhanas, nas guerras de rapinagens, de dinheiro e de sexo. Vive-se sob o signo do medo: adianta plantar, adianta construir, quem garantirá o dia de amanhã, senão em paz, pelo menos com vida? Nesse clima, como se estruturará uma sociedade, como nascerá uma cidade? É perguntar ao tempo e ao vento...

      LINGUAGEM

      Comecemos, repetindo um trecho de carta de Érico Veríssimo: “Confesso-lhe que sempre que vou começar um novo livro fico pensando... Sinto uma espécie de auto-náusea, medo de me repetir, etc... Conheço todas os meus “cacoetes literários”, sei onde estão todos os alçapões da minha carreira de ser como escritor, procuro evitá-los, fugir ao lugar comum e não bater na mesma tecla. Antes de começar O PRISIONEIRO, me fiz várias perguntas. Será que não escrevo de maneira diferente por preguiça? Valerá a pena tentar inovações? Cheguei a fazer experiências nesse sentido e o resultado me deixou muito encabulado pelo que havia de artificial, de rebuscado, de insincero em minha prosa “nova”...” (Carta ao autor – 27.12.1967).

      É o problema de renovar a língua. E o escritor acha que a solução não é inventar uma língua marginal, mas usar uma língua de ampla comunicação, capaz de veicular as suas estórias.

      Através de sua obra, a sua língua (gem) se depurou e apurou, adquirindo concisão e expressividade, sobriedade de adjetivos e usando com economia os regionalismos. Uma língua (gem) adquirida com talento e trabalho, com suor e sacrifício. É o inferno do escritor que ajunta 1.300 páginas para, afinal, reduzi-las à somente 400. (Caso de O Senhor Embaixador – Entrevista à Revista Globo n. 899 de 22-05-1965 – pág. 9).

      Mas, voltando aos regionalismos, o autor os emprega muito moderadamente. A língua (gem) mais regionalista é a do índio Pedro Missioneiro que mistura o seu castelhano das reduções com o português do descampado. O índio usava um “língua confusa”, conforme expressão de Maneco Terra. (pág. 51) A escolha de um padrão de língua mais comum, mais geral foi consciente: “quem sabe como o povo falava no Rio Grande do Sul na última metade do século XVIII? A linguagem daquela época que nos ficou em documentos oficiais, proclamações, ordens do dia, obras eruditas, etc, ... Não era evidentemente a que o povo usava. Quanto a regionalismos verbais acho que o autor deve usá-los com grande parcimônia, apenas o necessário para dar a chamada “cor local”. (Ana Terra – Introdução – pág. XVI). Qualquer leitor brasileiro percebe o sentido universal da língua (gem) regionalista de José Lins do Rego ou de Graciliano Ramos. Nem se pode comparar com o regionalismo lingüístico, verdadeiramente de pesquisa, do seu conterrâneo João Simões Lopes. (Contos gaudnescos e Lendas do Sul).“Em verdade, Érico Veríssimo escapou à tentação de linguagem regionalista, que faz pesar uma temível hipótese: de uma parte, a leitura é mais difícil para os não iniciados, em particular para os estrangeiros, de outra parte a obra se acha desclassificada, pois a etiqueta regionalista, sem ser necessariamente pejorativa, indica uma limitação desagradavelmente reduzida de seu alcance. (Jean Roche – In Aguilar – vo. V – pág. 726).

      Outro problema que me parece ficou bem resolvido na língua (gem) de Ana Terra: uma extrema sobriedade e simplicidade de acordo com o grau primário de desenvolvimento do clã de Maneco Terra. Não há concessões ao retórico ou ao esparramado. A língua(gem) dos Terras tinha que ser de primitivismos, pobre de recursos. Como eles eram. “Tudo isso explica a língua um tanto primária de toda a narrativa.” (Introdução de Ana Terra – pág. XIII)

      Exemplifiquemos alguns casos da língua(gem) em Ana Terra:

      1. Por influência do castelhano (zona de fronteira com os povos ibero-americanos) aparece le, objeto indireto, em lugar de lhe. Na boca de Maneco Terra: “E vosmecê sabe o que pode le acontecer?” (95)

      E Ana: “Temos dinheiro pra le pagar...” (111)

      2. Neste diálogo de Ana com seu Marciano, ela usa vosmecê, tratamento que ocorre mais vezes. É uma forma sincopada de vossa mercê, aparentada com vosmecê com você. Corresponde ao usted castelhano. Denuncia um respeito e afastamento, para não dar intimidade ao interlocutor. O pai também, em certos momentos, a trata por vosmecê. (95)

      3. É usual na língua oral do Rio Grande do Sul o tu. Fenômeno também comum em Portugal. Às vezes, contrariando os padrões gramaticais, usa-se o tu e o verbo na 3ª pessoa do singular. É como fala Ana Terra ao filho: “Morreu, disse Ana, morreu antes de tu nascer.” (91) (70)

      4. Uso generalizado, embora não total de pra: “Temos de arrumar a casa pra esperar o noivo”

      5. Citemos algumas palavras de cunho regionalista:

      a) cafundó: (12, 107) é um brasileirismo usado com o sentido de lugar perdido, sem eira nem beira, lugar longínquo. Tanto no singular como no plural.

      b) Chinoca: moça nova de origem indígena, rapariga filha de chinas (= mulheres que no Rio Grande do Sul são de raça indígena).

      c) Chiripá: regionalismo sulino: uma vestimenta sem costura, usada antigamente pelos homens do campo das estâncias.

      d) Chirimia: palavra castelhana. É um instrumento musical, uma charamela, espécie de clarinete. O índio também “sabia tocar chirimia”.

      e) Ganga: é um tecido azul ou amarelo. “Tinham as calças de ganga escura arregaçadas...”

      f) Guaiaca: regionalismo do sul. É um cinto de couro para o porte de armas ou de dinheiro. “... batendo na guaiaca onde guardava sua carta de sesmaria” (40)

      g) Salamanca: palavra que, no sul, designa cavernas misteriosas que a crença popular enche de riquezas em ouro e prata.

      h) Sanga: palavra usual no falar e escrever gaúcho para significar um riacho espraiado no mato, ou nas canhadas que secam com facilidade. Aparece algumas vezes em Ana Terra.

      “A sanga corrida por dentro dum capão” (5).

      “Ana Terra sorria: a moça da sanga corria também” (5).

      Aqui, no final do tópico sobre a linguagem, convém relembrar uma conversa de Monteiro Lobato com Érico Veríssimo.

      “Muitos anos mais tarde vim a conhecer Monteiro Lobato pessoalmente, fazendo com ele excelente camaradagem. Neste exato momento estou ouvindo a sua voz cheia duma energia meio cansada e desiludida dos homens: “Seu Érico, o escritor de verdade escreve naturalmente como quem mija. Não vá muito atrás dessas novidades que andam por aí e que na maioria dos casos não passam de truques inventados por quem não sabe contar estórias. (Solo de Clarineta – Editora Globo – Porto Alegre – vol. II – pág. 161).

      TÉCNICAS NARRATIVAS

      O ponto-de-vista do narrador é o da terceira pessoa: o que mais convinha à narrativa. Qual seria a outra saída para o escritor? Como inventar um diário de Ana Terra ou dos outros Terras, se todos eram extremamente primitivos, sem letras, sem relógios, sem calendários, analfabetos?

      Aqui ninguém sabe ler. Pronunciou estas palavras sem o menor tom de desculpa ou constrangimento; disse-as agressivamente com uma espécie de feroz orgulho, como se não saber ler fosse uma virtude.

      (Falou Maneco Terra – pág. 21)

      O narrador fica de fora, onisciente e onipotente, retratando suas personagens e peripécias. Apesar da linearidade com que a narrativa se apresenta e se desenrolam os fatos, há algum aprofundamento principalmente na personagem-título. Ana Terra completa o ciclo de sua vida e é seguida pelo filho (Pedro Terra); a este se sucedem os filhos e assim indefinidamente na seqüência das gerações. Uma seqüência inegavelmente histórica, isto é, marcada pela cronologia. Para quebrar essa linearidade (faz que pode...), Érico Veríssimo intercala o O Tempo e o Vento, interlúdios, cadernos de pauta simples. Assim supera a horizontalidade da narrativa.

      Além do narrador, é claro, os personagens também falam, dialogam e, mesmo dentro de sua grande pobreza, têm alguma vida interior com suas reflexões.

      E em certas noites, sentada junto do fogo ou da mesa, após jantar, Ana Terra lembrava-se de coisas de sua vida passada... E nas noites de ventania ela pensava principalmente em sepulturas e naqueles que tinham ido para outro mundo. (149, 150).

      O título corresponde ao texto: Ana Terra está colocada no centro de toda narrativa. Ela se torna princípio e fim donde partem e para onde convergem todos os episódios principais da longa trama. O mundo... do romance gira ao redor dela. Sua estória é um episódio longo e importante em todoO Tempo e o Vento. Ela adquiriu tanta importância que o próprio autor lhe deu permissão de formar um pequeno romance, à parte. Como o Capitão Cambará. (Um certo capitão Rodrigo). Uma das forças de Érico Veríssimo é a capacidade de criar tipos femininos. Seu alter-ego, o romancista Floriano, já ouvira de Tio Bicho esta crítica:

      Aposto como seguirás nesse romance a tua velha linha...

      - Qual?

      - A parcialidade para com as mulheres. Tuas personagens do sexo feminino (se não me falha o olho crítico nem a memória) sempre têm melhor caráter que as do sexo masculino. Para resumir o assunto, teus romances são escritos (não te ofendas) dum ponto de visto quase feminino.

      - Obrigado pela quase. (Aguilar – vol. V – pág. 478).

      O próprio Érico Veríssimo repete a mesma coisa na sua excelente introdução dialogada de Ana Terra, em volume independente.

      E Tristão de Ataíde:

      É patente, em toda a obra de Veríssimo, a tensão entre os dois pólos do espírito ibérico: a alma heróica e a alma lírica; a alma contemplativa e a alma ativa; a alma masculina e a alma feminina.(O Contador de Histórias – Edit. Globo – 1972 – pág. 92).

      O escritor não faz do heroísmo um sinônimo de machismo, próprio só dos homens. Ana Terra aí está, sem rompantes masculinos, com a sua grandeza semibárbara, diante do sofrimento, da vida e da morte. A grandeza feminina está ao lado ou acima da própria grandeza masculina no majestoso painel épico-lírico de O Tempo e o Vento. Nele a mulher seria o tempo e o homem o vento. (idem, ib. pág. 93). O Tempo num sentido vertical de passar mas fixar raízes; vento, em turbilhão, rápido e passageiro. O sentido vertical das mulheres que fincam raízes no chão e a horizontalidade masculina tão nômade.

      Ah! O vento! Personagem onipresente em toda a epopéia e, de modo especial, na vida de Ana Terra. O vento abre e fecha o longo episódio da heroína.

      Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando”. (1)

      E no fim: “Noite de vento, noite dos mortos... (150)

      Sempre o vento no destino de Ana Terra...: um dia de vento mudou o rumo de sua vida sem amor: aparece Pedro Missioneiro. Quando o filho parte para a guerra, ventava. E junto com o vento voa também o tempo, sazonando os frutos, amadurando as searas, envelhecendo e matando homens e mulheres. (Muitos morriam de violências antes do tempo...). O tempo e o vento marcam o compasso da epopéia.

      Ana Terra, como outras mulheres, são a fixação e a conservação do clã; os homens, a conquista e a passagem:

      Homens: conquista

      Mulheres: conservação

      O que predomina no ciclo de formação dos Terra-Cambará é a linha materna.

      As mulheres impõem sua permanência e seu nome. Quem mais tarde vai assumir a liderança familiar, inaugurando o patriarcado, é Licurgo.

      Mas, voltemos a Ana Terra. Érico Veríssimo é um criador de personagens. “Em qualquer época da minha carreira, sempre me preocupei apenas com o homem. Veja a trilogia O Tempo e o Vento. Não é História. São estórias de personagens. Dou muito mais importância às pessoas do que a tudo mais. (Manchete – n.3 – o março 1975).

      O leitor pode conhecer um personagem pelo retrato direto que o escritor faz dele. Ou pelo retrato que os outros personagens fazem. Também pelos pensamentos, palavras e ações, o personagem, ele mesmo, vai se retratando diante do leitor. Nós conhecemos Ana Terra não pelo que dizem dela os personagens, mas pelo retrato do narrador e por ela mesma. O autor nos dá, em rápidos traços, a figura física de Ana Terra, num retrato feito pelo espelho de água de um poço. Apesar de tão reduzido é tão sugestivo para a sensibilidade e imaginação do leitor. “Deu alguns passos à frente, ajoelhou-se à beira do poço fundo, fez avançar o busto, baixou a cabeça e mirou-se no espelho da água. Foi como se estivesse enxergando outra pessoa: uma moça de olhos e cabelos pretos, rosto muito claro, lábios cheios e vermelhos...” (5)

      O narrador nos dá também alguns elementos psicológicos: “Chamava-se Ana Terra. Tinha herdado do pai o gênio de mula.” (107, 108) E o retrato do corpo e alma de Ana Terra se completa com seus pensamentos, palavras e atos: o desejo de amor (“Tinha vinte e cinco anos e ainda esperava se casas...” (2)), as recordações do passado, a afirmação pessoal nas decisões, a coragem diante das tragédias.

      Diante da estrutura e técnicas de “Ana Terra” poderíamos perguntar se o teto é um romance ou novela. Massaud Moisés num estudo sobre a narrativa tem os melhores argumentos teóricos para provar que O tempo e o Vento é uma novela ou crônica novelesca comparável a Guerra e Paz de Tolstoi. (A Criação Literária) – Melhoramentos – pág. 145 e segs.) Romance ou novela, Ana Terra é um episódio inserido no todo, um episódio de importância fundamental, dentro do quadro geral da obra. A narrativa pode ser lida isoladamente, projetando a heroina diante dos olhos do leitor como um verdadeiro símbolo, para além do tempo e do vento, acima das apertadas linhas de um episódio histórico. Agora, na história do Rio Grande do Sul, Ana Terra passa a existir. Mesmo que tenha tido um outro nome um outro destino, uma outra biografia.

      UM RETRATO

      Vasco Prado, numa ilustração em preto e branco, pintou um retrato impressivo de Ana Terra: a presença do vento nos seus cabelos preto e revoltos, a presença misteriosa da mãe morta na roca. (Às vezes, de noite, Ana Terra ouvia a mãe morta rodando a roca num trabalho sem-fim...) E a presença da solidão e do sofrimento do rosto dela...

      Apesar de toda a humanidade de Ana Terra, mulher e não heroína aureolada de luz, ela vira mito com dimensões sobre-humanas, para além do tempo, do vento e do espaço.

      Com seu próprio nome ou com nome trocado, essa mulher deve Ter existido e faz parte da história do Rio Grande do Sul, é um das suas raízes. Assim é que o romancista, com sua força criadora, é capaz de fazer também história.

      “A história, como o drama e como o romance, é filha da mitologia. É uma forma particular de compreensão e de expressão, onde, como nos contos de fadas de que as crianças tanto gostam, e nos sonhos próprios de adultos “sofisticados”, não foi traçada a linha de demarcação entre o real e o imaginário. Disse-se, por exemplo, da Ilíada, que quem a lê como narrativa histórica lá encontra a ficção, e que, pelo contrário, quem a lê como lenda, lá depara com a histórica.

      A este respeito, todos os livros de história se assemelham à Ilíada, pois não podem eliminar completamente a ficção. O simples fato de escolher, de arranjar e representar os fatos constitui uma técnica que pertence ao domínio da ficção...” (Arnold J. Toynbee – apud A 25ª Hora – C. Virgil Gheorghiu – Liv. Bertrand – s.d.).

      Num artigo que traz este título significativo: “O grande romance também é uma parte da história”, o mestre-historiador José Honório Rodrigues ensina:

      “O romance é, filosoficamente, um gênero histórico, não só porque na sua estrutura ele conta uma história, possui um herói e um enredo, mas porque nasce nos fins do século XVIII e ganhar força sob o impulso do romance histórico. Ele é um produto da ascensão da burguesia como classe dominante e tem suas raízes lanças no solo social. Na verdade, o romance se separou na história quando o público começou a exigir menos ficção. Mas o romance descende da história, e ao contrário desta data, que é um gênero conhecido na mais alta antigüidade, o romance é fruto da época contemporânea.” (Jornal do Brasil – Rio – 21 de junho 1975 – Ano 4 n. 78).

      CRÍTICA

      1. “Fruto da mesma intuição das suas reais possibilidades criadoras, foi a passagem que Veríssimo realizou do corte sincrônico dos primeiros romances para o vasto painel diacrônico de O Tempo e o Vento. Neste ciclo o contraponto serve para apresentar o jogo das gerações: portugueses e castelhanos nos tempos coloniais; farrapos e imperiais durante as lutas separatistas; maragatos e florianistas soba a Revolta da Armada, em 1893. A história de duas famílias, os Terra-Cambará e os Amaral, atravessando dois séculos de vida perigosa, é o fio romanesco que une os episódios do ciclo e embasa as manifestações de orgulho, de ódio, de amor e de fidelidade; paixões que assumem uma dimensão transindividual e fundem-se na história maior da comunidade.” (História Concisa da Literatura Brasileira – Alfredo Bosi-Cultrix – S. Paulo – 1970 – pág. 459-460).

      2. “Em O Tempo e o Vento ........ Érico Veríssimo recobra-se nas suas maiores qualidades de romancista. Reaparece, cheio de novo vigor, o antigo autor de Caminhos Cruzados. Trata-se de um romance de mais de seiscentas páginas que se lê com um interesse esplêndido, como só as obras cheias de imprevisto sabem excitar o leitor. A ênfase sentimental de alguns quadros, como o fogo de artifício de certas pinturas cenográficas não abafam a impressão do esplendidamente grande que se nota na ação do livro. Não emasculam a sua força viril.

      No O Tempo e o Vento o autor faz da formação do Rio Grande do Sul um drama que transcende naturalmente a história, superando a ordem cronológica do tempo e a ordem física do espaço: um drama essencialmente humano, em que o psicológico e o social se confundem num mesmo e extraordinário plano de projeção.” (O Romance Brasileiro – Olívio Montenegro – liv. José Olympio Edi. Rio – 1963 – 2ª ed. – pág. 269).

      3. “Da primeira fase, na qual a sua obra se caracteriza por uma análise meio documental da sociedade pequeno-burguesa da área urbana brasileira, partiu Érico Veríssimo para um quadro amplo, verdadeiro mural, reconstituindo a história rio-grandense do sul em sua época remota de conflitos heróicos. O progresso do romancista é tão evidente, ao passar das obras da primeira etapa às da trilogia final, que ninguém pode Ter dúvida. A sua técnica narrativa, o domínio do assunto, a pintura das personagens, tudo recorda um escritor na plenitude de sua arte, com uma rajada de vida varrendo as suas páginas. Seus romances da trilogia, embora manipulando também matéria não citadina, não são regionalistas. Não só o conteúdo, senão também a técnica, a ação, a língua e o estilo dão um tom de grandeza novelesca ainda não alcançado pelo autor. A movimentação da trama, através das lutas entre famílias, e dentro do quadro da vida gaúcha, comunica à trilogia de O Tempo e o Vento uma força de reconstrução do passado como bem poucas obras da ficção brasileira o fizeram. A importância da trilogia de Érico Veríssimo nunca será suficientemente ressaltada. Ela ocupa hoje um lugar bem alto na novelística brasileira.” (Érico Veríssimo – Ficção completa – Aguilar – Afrânio Coutinho – vol. III – pág. 11).

      4. “Abandonando afinal a facilidade e o convencionalismo, e principalmente aquele falso lirismo por demais acessível de tantos romances seus (estou pensando em especial em Olhai os Lírios do Campo Érico Veríssimo põe seu talento, evidente, a serviço de uma grande ambição literária.

      Eis a história de uma família gaúcha a que se junta a história de uma cidade da fronteira, das lutas políticas, das guerras, da Revolução Farroupilha, da formação do sentido brasileiro do Sul. O afresco exige composição e cuidados nos pormenores. É preciso que as cenas vivam e que vivam os personagens. Ora, é o que consegue Érico Veríssimo com uma verdadeira galeria de homens e mulheres de carne e osso, com uma consciência aguda da realidade local e histórica.

      O maior esforço de Érico Veríssimo foi, porém, a reforma total de seu estilo. Vêmo-lo agora sóbrio, atento às expressões essenciais, cuidadoso de não expansão demasiada ao sentimentalismo. Mesmo a língua regional é usada com parcimônia e na medida apenas em que acentua a personalidade dos heróis.” (Diário Crítico – Sérgio Milliet – Liv. Martins Edit. – S. Paulo – 1953 – vol. VII pág. 157).

      5. “Da trilogia pode-se dizer o mesmo que Edwin Muir afirma acerca de Guerra e Paz, ao classificá-la como crônica, isto é, pintura da vida simultaneamente no espaço e no tempo. Inquestionavelmente, rotular de crônica a obra prima tolstoniana está longe de ser apenas um juízo encomiástico, como também de ser uma opinião de todo negativa. Todos nós sabemos que Tolstoi criou ali um mundo ficcional com base em sua profunda capacidade para analisar os homens e as situações, e à luz duma imaginação poderosíssima que tudo transfigura em mito ou lenda. Ora, tal concepção do universo e das coisas participa por natureza do plano da epopéia. E é justamente esse halo de epicidade que faz a grandeza de Guerra e Paz, sem embargo das ressalvas que lhe puderem ser feitas e daquilo que nela já envelheceu. O Tempo e o Vento, respeitadas as proporções e as circunstâncias, situa-se em plano semelhante: merece ser considerada das obras magnas de nossa ficção graças especialmente à atmosfera épica que lhe perpassa todos os episódios e cenas.” (A Criação Literária – Massaud Moisés – Ed. Melhoramentos – S. Paulo – 1967 – pág. 147-478).

      6. “Embora ficção linear, horizontal, O Tempo e o Vento constitui um vigoroso flagrante de realidade brasileira, realizado com senso de enquadramento dos caracteres das personagens com as situações dramáticas que os revelam, focalizadas, via de regra, sob um ângulo retrospectivo. Este ângulo, aliás, talvez, esteja em íntima conexão com o problema do tempo por que tanto se interessa o romancista, que se revela igualmente notável criador de tipos (Rodrigo Cambará, Bibiana, o velho Barreiro). (Maria Thereza Camargo Biderman – in Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira – Cultrix – S. Paulo – 1967 – in verbete).

      NOTA: As páginas indicadas para Ana Terra se referem à edição da Globo – Porto Alegre – 1975.

      Essa análise foi tanscrita do caderno

      VESTIBUlAR 76 - UFMG - Estudo de Obras

      Auores: Delson G. Ferreira, Juarez Távora de Freitas, Teotônio Marques Filho e Luís Pauo de Brito.



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